Arendt (CH:222-224) – gênio e dignidade humanos

Excerto de ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tr. Celso Lafer. Rio de Janeiro: Forense, 2007, p. 222-224

Talvez o melhor exemplo da frustração da pessoa humana, inerente a uma comunidade de produtores e, mais ainda, à sociedade comercial, seja o fenômeno do gênio, que a idade moderna, desde a Renascença até o século XIX, viu como seu mais alto ideal. (O gênio criativo como quintessência da grandeza humana era inteiramente desconhecido na antiguidade e na Idade Média.) Só no começo do século atual, os grandes artistas passaram a protestar, com surpreendente unanimidade, contra o fato de serem chamados «gênios» e a valorizar o artesanato, a competência e a estreita relação entre arte e ofício manual. É verdade que essa rebelião não foi, em parte, mais que uma reação contra a vulgarização e a comercialização da noção de gênio; mas deveu-se também à expansão, mais recente, de uma sociedade operária que não vê como ideal a produtividade ou a criatividade, e que é destituída de qualquer experiência da qual possa emanar a própria noção de grandeza. O que importa em nosso contexto é que a obra do gênio, em contraposição ao produto do artesão, parece haver absorvido aqueles elementos de diferenciação e singularidade que encontram expressão imediata somente na ação e no discurso. A obsessão da era moderna com a assinatura peculiar de cada artista, a sensibilidade sem precedentes em relação ao estilo, revelam uma preocupação com aquelas características através das quais os artistas transcendem sua habilidade e sua arte, da mesma forma que a singularidade de cada pessoa transcende a soma de suas qualidades. Dada essa transcendência, que efetivamente diferencia a grande obra de arte dos demais produtos criados pelo homem, o fenômeno do gênio criativo parecia constituir a mais elevada legitimação da convicção do homo faber de que os produtos de um homem podem ser mais e essencialmente maiores que o próprio homem.

Contudo, a profunda veneração que a idade moderna se dispôs a dedicar ao gênio, beirando tantas vezes a idolatria, dificilmente invalidaria o fato elementar de que ninguém pode reificar sua própria essência. Quando esta essência aparece «objetivamente» — sob a forma de obra de arte ou de manuscrito comum — manifesta a identidade da pessoa e. portanto, serve para identificar a autoria, mas emudece e nos escapa quando tentamos interpretá-la como o espelho de uma pessoa viva. Em outras palavras, a transformação do gênio em ídolo encerra a mesma degradação da pessoa humana que os demais princípios reinantes na sociedade comercial.

A suposição de que a identidade de uma pessoa transcende, em grandeza e importância, tudo o que ela possa fazer ou produzir é elemento indispensável da dignidade humana. «Que os médicos e doceiros e criados das grandes mansões sejam julgados pelo que fizeram ou mesmo pelo que pretenderam fazer; os grandes só podem ser julgados pelo que são»[[Cito aqui o trecho do maravilhoso conto de Isak Dinesen, «Os Sonhadores», em Seven Gothic Tales (ed. Modern Library). especialmente pp. 340 ff.]]. Só os vulgares consentirão em atribuir sua dignidade ao que fizeram; em virtude dessa condescendência, serão «escravos e prisioneiros» de suas próprias faculdades e descobrirão, caso lhes reste algo mais que mera vaidade estulta, que ser escravo e prisioneiro de si mesmo é tão ou mais amargo e humilhante que ser escravo de outrem. Para a aflição, não para a glória do gênio criador, a supremacia do homem sobre sua obra parece realmente subvertida em seu caso, de sorte que ele, o criador vivo, vê-se concorrendo com suas criações, às quais sobrevive, ainda que elas possam vir a resistir mais ao tempo. O que salva os talentos verdadeiramente grandes é que os que arcam com esse ônus permanecem superiores ao que fizeram, pelo menos enquanto estiver viva a fonte de criatividade; pois a fonte, na verdade, mana de quem eles são, e é portanto exterior ao processo real de trabalho, ao mesmo tempo que independe do que possam realizar. No entanto, a situação aflitiva do gênio é real, o que fica evidente no caso dos literati, em que de fato se consuma a inversão da ordem entre o homem e seu produto; o que há de tão extravagante em seu caso — e o que, aliás, suscita mais ódio popular que a falsa superioridade intelectual — é que mesmo o seu pior produto lhes será provavelmente superior. A característica do «intelectual» é que ele permanece absolutamente alheio à «terrível humilhação» que aflige o verdadeiro artista e escritor: «sentir que se torna filho de sua obra», na qual é condenado a ver-se, «como num espelho, limitado, tal qual é»[[O texto integral do aforisma de Paul Valéry do qual são feitas as citações é o seguinte: «Créateur crée. Qui vient d'achever un long ouvrage le voit former enfin un être qu'il n'avait pas voulu, qu'il n'a pas conçu, précisément pusqu'il l'a enfanté, et ressent cette terrible humiliation de se sentir devenir le fils de son oeuvre, de lui emprunter des traits irrécusables, une ressemblance, des manies, une borne, un miroir; et ce qu'il a de pire dans un miroir, s'y voir limité, tel et tel» (Tel quel II, 149).]].