VICISSITUDES NAS CIÊNCIAS

Extrato de ORTEGA Y GASSET, José. Meditação da Técnica. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1963, p. 101-108.

É interessante estudar a história das ciências sob a imagem de que cada uma delas fosse uma pessoa, ou, melhor, uma série de pessoas que se sucedem no tempo, representando as gerações . Sob este suposto, aparece cada ciência comportando-se como um indivíduo, dotada de determinado caráter reagindo ante os demais acontecimentos humanos, soberba e agressiva num momento, humilde em outros. Vemo-la, como o herói de uma biografia, atravessar vicissitudes inumeráveis, gozar de horas triunfantes, sofrer desdéns, ser rainha (regina scientiarum) ou cair em situação ancilar (ancilla theologiae foi a filosofia na Idade Média) . Cada ciência tem seu individual destino, como se fosse um homem. Mas o mais curioso que cada história das ciências nos mostraria é que também, como os homens, apesar de ter cada uma seu destino individual, dentro de cada época se comportam em certas ordens com perfeita homogeneidade. Por mais que os contemporâneos discrepemos uns de outros, parecemo-nos em muito mais coisas.

Assim, durante o século XIX, todas as ciências exerceram o mais atrevido imperialismo. Era este o modo vital que inspirou a toda essa época em todas as ordens. E como um povo pugnava por imperar aos demais e uma arte às outras artes e uma classe social às restantes, quase não houve ciência que não fizesse sua campanha imperialista, obstinando-se em capitanear as demais, talvez reformá-las radicalmente. Durante uma temporada tudo quis ser física; depois tudo quis ser história; mais tarde tudo se converteu em biologia; em seguida todas as ciências aspiraram a ser matemáticas e gozar os benefícios do axiomatismo. As épocas de imperialismo são amadurecimentos de ambição e de inveja; o forte se faz ambicioso e o fraco pratica essa forma rentrée e estrangulada da ambição que é a inveja. Por mais diferentes que essas duas paixões humanas sejam, parecem-se numa coisa: sob seu impulso o homem não vive absorto e submerso em seu próprio destino, já que olha com uma pupila aos alheios. Se sou ambicioso, não me contento com ser o que sou, pois sinto a urgência de dominar aos próximos; vivo, pois, em função deles, preocupado em ser mais que eles. Ao mesmo tempo que vivo minha vida vivo a alheia; isto é, vesgueio. Parecidamente, o invejoso vive sofrendo não ser o outro melhor dotado, e é, portanto, um modo vesgo de existir. O século XIX foi o grande século vesgo. E assim, cada ciência, ou para dominar ou para invejar, andava fora de si, preocupada das outras. A filosofia sentia desdouro por não ser física, e o mesmo a biologia. A matemática se envergonhava de não ser lógica, de não poder constituir-se em pura dedução conceituai, mas estar acorrentada como um humilde cão à intuição. A teologia, ciência do divino, anelava com voluptuoso afã ser manejada como as ciências humanas; queria ser racional e raciocinável, como aqueles misteriosos filhos de Deus que aparecem no Gênese seduzidos pelas encantadoras filhas dos homens. O mais característico do século passado foi que nele cada qual vivia empenhado em ser outro do qual era. Ninguém aceitava seu destino. A idade do "fora de si".

Nos trinta anos que correram do século XX, as ciências se comportaram de modo bem diverso. Em muitas ocasiões já fiz notar o estranho fenômeno. Sem pôr-se de acordo, e, mais ainda, sem perceber umas e outras, todas foram coincidindo numa resolução oposta à que obedeciam há cinquenta anos. Consiste esta simplesmente em que cada ciência decidiu não preocupar-se das demais nem para bem nem para mal. Sem propósito de imperar sobre as outras, sem descontentamento de não possuir uma das vantagens, cada qual se encaixou em si mesma e aceitou seu destino; pelo menos se enlaçou sem reserva à sua própria limitação, ao que meio século antes sentia como seu defeito congênito.

Por exemplo, a física não pode chegar a construir seus objetos por métodos puros, como a matemática; sua exatidão não é de ordem primária, já que é somente exatidão de aproximação; é a inexatidão dentro de certos limites. A razão disso está em que entre a física e as coisas que procura conhecer se interpõe inevitavelmente a necessidade da medida. O matemático captura seu objeto — o espaço, o número — ou com o puro conceito, consoante uns, ou com a intuição, consoante outros. Mas ambos os meios de captura são imediatos ao conhecimento matemático. O triângulo está, segundo ele é, íntegro na definição axiomática ou intuitiva que o matemático dá dele. Mas o físico não tem a realidade dos astros nem das mudanças da matéria imediatamente em sua intuição. As coisas da física têm que ser capturadas com a mensuração. A medida é para o físico o que a intuição (ou a axiomática) é para o matemático.

Mas a medida é, por sua própria essência, relatividade. Não há medida sem metro, e o metro, como tal, não é uma coisa cósmica, não é uma realidade, mas uma arbitrariedade. É uma coisa humaníssima. Quando Protágoras dizia que o homem é a medida de todas as coisas, dizia algo superfetatório. Porque ser medida já é ser algo humano. Deus não mede. Porque, afinal de contas, nenhum ser faz nada que não tenha sentido para ele, que não o faça para alguma coisa, que, portanto, não lhe seja necessário. O homem mede as coisas materiais porque não as possui, porque não as tem em sua inteligência. Tem que sair de si mesmo para conhecê-las. Por si mesmo é indigente, não contém em seu interior mental nem um ponto de realidade cósmica. Vai em busca das coisas; mas estas se lhe escapam, são incompenetráveis com sua mente. Em vista de que não pode apresar as coisas, se contenta com tomar-lhe as medidas, que são os esquemas e fantasmas daquelas. Sua mente — mens — é medida — mensura (calembour do cardeal Cusano), Deus não mede. Não há um deus dos pesos e medidas. Deus é desmensurado (exuperantissimus) .

Em Galilei, fundador da física, se oculta uma contradição. Por um lado define maravilhosamente a nova ciência que entre as mãos lhe nasce: "Consiste — diz — em medir tudo o que se pode medir e em conseguir que se possa medir o que não se pode medir." (Exemplo deste último, o calor. A física do calor consiste em inventar o termômetro) . Hoje mais do que nunca a física confirma essa definição batismal de Galilei e se apercebe que não é senão cosmometria. Mas, por outro lado, Galilei acredita que a física é matemática; isto é, que os fenômenos naturais se comportam matematicamente. Em todos eles interveem como ingredientes o espaço e o tempo. Galilei acredita de pés juntos que a especialidade e a temporalidade das coisas são o espaço e o tempo matemáticos, não o espaço e o tempo métricos .

Ora, esta é uma crença errônea, e é importante advertir que a essa crença errônea se deve a instauração da física. Um exemplo curioso da providencialidade do erro. O homem, para acertar, necessita pôr tudo, até sua ilustre capacidade de equivocar-se. Como o caso é, em verdade, exemplar, permita-se-me expô-lo.

A ciência física, que começa no século XVI, não se deve a que certos homens, abandonando os raciocínios puros, a especulação dos filósofos, tivessem resolvido a observar os fatos — como se os antigos e medievais, que não tiveram física, não houvessem observado com denodo a natureza e não a houvessem submetido a experiências. Nem por um momento se apresenta Galilei como o homem do experimento diante dos escolásticos. Exatamente o contrário. Contra sua lei de inércia são os escolásticos que fazem constar a experiência. Galilei não pode demonstrar sua lei pelo experimento. Acreditar que o característico das ciências físicas é a observação ou experiência, neste vulgar sentido do termo, é um padecimento que hoje sofre somente algum Sr. Homais, farmacêutico do ermo provinciano.

Não a observação produziu a física, mas a exigência da observação exata. E exatidão é um vocábulo que somente tem sentido próprio, autêntico, na matemática. O novo da nuova scienza de Galilei foi a introdução formal da matemática na observação, a quantificação radical dos fenômenos por sua radical mensuração; portanto, a experiência matemática.

Mas esta aplicação que Galilei faz das leis matemáticas aos fenômenos físicos houvera sido impossível se Galilei não houvesse padecido o preconceito de que os fenômenos físicos obedecem, sem dúvida alguma, às leis matemáticas; por exemplo, se não houvesse acreditado de antemão e previamente a toda experiência que na natureza existem ângulos retos e que num triângulo corporal a soma de seus ângulos é igual a dois retos. Para a física, a questão era averiguar a que outras leis especiais obedeciam os fenômenos, além de obedecer, isto para ele era indiscutível, às leis geométricas. Por isso diz: "A verdade está escrita na natureza com letras matemáticas." A física procura ler as palavras, mas nem sequer discute o abecedário. Por isso Galilei não se ocupa de fazer experimentos com o fim de demonstrar fisicamente se existe na natureza ângulos retos. Quer isto dizer que para a física, até há uns cinquenta anos, era uma coisa indiscutível e evidente que as leis geométricas por si e a priori, são leis físicas; que os corpos obedecem docilmente àquelas. A física, pois, começa não por experimentar, mas, ao contrário, por não experimentar, por prejulgar a docilidade geométrica da matéria.

Imagine-se, agora, que um físico se dissesse radicalmente: "Para mim, como físico, não há mais realidade que o resultado de minhas medidas." Com isso não faria senão insistir na vontade de Galilei; mais consequente que ele, porém, cairia em si de que então a realidade não coincide com a matemática; ou melhor, que nenhuma matemática rege, dá leis à realidade. Nenhum dos espaços construídos pelas puras geometrias é o espaço real da física. A inércia não é uma lei física, porque supõe o corpo destituído de influxos dinâmicos, de variações apreciáveis com a medição e, contudo, pretende dizer o que ocorrerá a esse corpo. Em Galilei, a retilineidade, que é um caráter puramente matemático, se comporta como uma força física, e isto não é menor magia que o afã de mover-se circularmente, suposto nos corpos por Aristóteles. A matéria não tem preferências geométricas.

Tal atitude num físico indica que por um lado não aceita o império da matemática sobre sua ciência. Declara-a independente, autônoma. Física é medir. Aceita o físico este destino de mundimensor. Contenta-se com ele. Encerra-se com ele. Por outro lado, não pretende que esse destino seu reatue sobre a matemática; isto é, não nega — como tentou Helmholtz e o positivismo — a independência métrica da matemática, não diz que as leis matemáticas não valham para seus objetos imaginários. Ao contrário, quanto mais irreal, menos experimental seja a geometria, melhor lhe serve para sua faina: serve-lhe para ordenar suas medidas. A realidade não se compõe de letras matemáticas — tal foi o erro de Galilei. O que ocorre é que o físico usa a matemática como um instrumento mais para sistematizar suas observações.

Esta é a atitude de Einstein. Do que resulta que hoje, quando mais matemática é mais complicada se emprega em física, é quando a matemática tem menos intervenção substantiva por si na física. De ser em rigor um princípio da "realidade" física, passou a ser um novo instrumento da "teoria" física, como o nômius e a balança. Não manda, já que obedece.

A instauração da física se deve, pois, a um erro. Se Galilei houvesse contado com meios métricos mais precisos e se houvesse encontrado com que a matéria não é euclideana, a física não houvesse podido nascer, porque o homem de então não contava com uma matemática à altura de tais precisões de mensuração. Respeitemos estas cegueiras, que permitem ao homem ver alguma coisa. Tudo o que somos positivamente o somos graças a alguma limitação. E este ser limitados, este ser carentes, é o que se chama destino, vida. O que nos falta e nos oprime é o que nos constitui e nos sustém. Portanto, aceitemos o destino.

El Sol, de Madrid, 9 de março de 1930.