Ortega y Gasset (QF:46-48) – filosofia e ciência

Excerto de ORTEGA Y GASSET, José. O que é a Filosofia?. Tr. José Bento. Lisboa: Cotovia, 1994, p. 46-48.

Isto obriga-nos a que coloquemos a questão da razão por que ocorre ao homem em absoluto fazer filosofia. Porquê ao homem — ontem, hoje ou outro dia — lhe ocorre filosofar? Convém trazer com claridade à mente essa coisa que costumamos chamar filosofia, para poder depois responder ao «porquê» do seu exercício.

Nesta nova óptica reaparece a nossa ciência com as características que teve em todas as épocas vigorosas, embora o progresso do pensamento module aquelas de forma nova e mais rigorosa.

Vou responder a esta pergunta com uma série de traços, mediante fórmulas que, pouco a pouco, nos dias que se seguem, irão revelando todo o seu sentido.

O que primeiro ocorreria dizer seria definir a filosofia como conhecimento do Universo. Mas esta definição, sem ser errônea, pode deixar-nos escapar precisamente tudo o que há de específico, o peculiar dramatismo e o tom de heroicidade intelectual em que a filosofia e só a filosofia vive. Parece, com efeito, essa definição uma oposição à que podíamos dar da física, dizendo que é conhecimento da matéria. Mas sucede que o filósofo não se coloca diante do seu objecto — o Universo — como o físico perante o seu, que é a matéria. O físico principia por definir o perfil desta e só depois começa o seu labor e tenta conhecer a sua estrutura íntima. Do mesmo modo, o matemático define o número e a extensão; isto é, todas as ciências particulares começam por demarcar um pedaço do Universo, por limitar o seu problema, que por ser limitado deixa em parte de ser problema. Em outras palavras: o físico e o matemático conhecem de antemão a extensão e os atributos essenciais do seu objecto; portanto, começam não com um problema, mas com algo que dão ou tomam como já sabido. Mas o Universo em cuja pesquisa o filósofo parte audaz como um argonauta, não se sabe o que é. Universo é o vocábulo enorme e monolítico que como uma vasta e vaga gesticulação oculta mais do que enuncia este conceito rigoroso: tudo quanto há. Isso é, para já, o Universo. Isso, notem vocês bem, nada mais do que isso, porque quando pensamos o conceito «tudo quanto há», não sabemos o que seja isso que há; aquilo em que unicamente pensamos é um conceito negativo, a saber: a negação do que somente é parte, bocado, fragmento. O filósofo, pois, de modo diferente de qualquer outro cientista, embarca para o desconhecido como tal. O mais ou menos conhecido é partícula, porção, esquírola de Universo. O filósofo situa-se perante o seu objecto numa atitude diferente de qualquer outro conhecedor; o filósofo ignora qual é o seu objecto e dele sabe somente: primeiro, que não é nenhum dos restantes objectos; segundo, que é um objecto integral, que é o autêntico todo, o que não deixa nada de fora e, por isso, o único que se basta. Mas precisamente nenhum dos objectos conhecidos ou suspeitados possui esta condição. Portanto, o Universo é o que radicalmente não sabemos, o que absolutamente ignoramos no seu conteúdo positivo.

Em outras palavras, podíamos dizer: às restantes ciências é dado o seu objecto, mas o objecto da filosofia como tal é exactamente o que não pode ser dado; porque é tudo e porque não é dado, terá que ser num sentido muito essencial o buscado, o perenemente buscado. Nada tem de estranho que a ciência, cujo objecto tem que se começar por buscar, isto é, que até como objecto e assunto já é problemática, tenha uma vida menos tranquila que as outras e não goze à primeira vista daquilo a que Kant chamava der sichere Gang. Este passo seguro, tranquilo e burguês não o terá nunca a filosofia, que é puro heroísmo teorético. Ela consistirá em ser também como o seu objecto a ciência universal e absoluta que se busca. Assim a chama o primeiro mestre da nossa disciplina, Aristóteles: Filosofia, a ciência que se busca, ζητουμένη έπιστήμη.