Ortega (HG) – ENSIMESMAMENTO E ALTERAÇÃO

[ORTEGA Y GASSET, José. O Homem e a Gente. Tr. J. Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Livro Ibero-americano, 1960, p. 51-52]

[O texto desto lição, na sua maior parte, corresponde à primeira das ministradas em Buenos Aires, em 1939, que foi publicada no livro ENSIMESMAMENTO E ALTERAÇÃO. MEDITAÇÃO DA TÉCNICA. Espasa-Calpe Argentina, Buenos Aires, 1939.]

Trata-se do seguinte: falam os homens hoje, a toda hora, da lei e do direito, do estado, da nação e do internacional, da opinião pública e do poder público, da política boa e da má, de pacifismo e belicismo, da pátria e da humanidade, de justiça e injustiça social, de coletivismo e capitalismo, de socialização e de liberalismo, de autoritarismo, de indivíduo e de coletividade, etc., etc. E não somente falam no jornal, na tertúlia, no café, na taberna, mas, além de falar, discutem. E não só discutem, mas também combatem pelas coisas que esses vocábulos designam. E, no combate, acontece que os homens chegam a matar-se uns aos outros, às centenas, aos milhares, aos milhões. Seria inocência supor que, no que acabo de dizer, há alusão particular a qualquer povo determinado. Seria inocência, porque semelhante suposição equivaleria a crer que essas tarefas truculentas ficam confinadas a territórios especiais do planeta, quando são, muito mais, um fenômeno universal e de extensão progressiva, do qual serão muito poucos os povos europeus e americanos que conseguem ficar isentos por completo. Sem dúvida, a feroz contenda será mais grave em uns do que em outros e pode ser que algum conte com a genial serenidade necessária para reduzir ao mínimo o estrago. Porque este, certamente não é inevitável, mas em verdade muito difícil de evitar-se [51]. Muito difícil porque, para sua evitação, teriam de juntar-se muitos fatores em colaboração, fatores de qualidade e classe diversas, magníficas virtudes junto a humildes precauções.

Uma dessas precauções, humilde, — repito, — porém imprescindível, se se quer que um povo atravesse indene estes tempos atrozes, consiste em conseguir que um número suficiente de pessoas desse povo perceba até que ponto todas essas ideias, — chamemo-las assim, — em torno das quais se fala, se combate, se discute e se trucida, são grotescamente confusas e superlativamente vagas.

Fala-se, fala-se de todas essas questões, mas o que se diz sobre elas carece da clareza mínima, sem a qual a operação de falar acaba sendo nociva. Porque falar traz sempre algumas consequências e, como dos citados temas se tem falado muito, — há anos quase não se fala, nem se deixa falar de outra coisa, — as consequências dessa loquacidade são, evidentemente, graves.

Uma das maiores desgraças do tempo é a aguda incongruência entre a importância que têm no presente todas essas questões e a rudeza e confusão dos conceitos sobre as mesmas, que esses vocábulos representam.

Note-se que todas essas ideias, — lei, direito, estado, internacionalidade, coletividade, autoridade, liberdade, justiça social, etc., — quando já não o ostentam em sua expressão, implicam sempre, como seu ingrediente essencial, a ideia do social, de sociedade. Se esta não está clara, todas essas palavras não significam o que pretendem e são meros espaventos. Ora, — confessemo-lo ou não, — todos, em nosso fundo insubornável, temos a consciência de não possuir, sobre essas questões, senão noções errantes, imprecisas, néscias ou turvas. E, desgraçadamente, a rudeza e confusão a respeito de tal matéria não existe somente no vulgo, mas também nos homens de ciência, até o ponto de que não é possível dirigir-se o profano a nenhuma publicação onde possa, de verdade, retificar e polir seus conceitos sociológicos. [52]