Ortega (HG) – O HOMEM E A GENTE

[ORTEGA Y GASSET, José. O Homem e a Gente. Tr. J. Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Livro Ibero-americano, 1960, p. 43-44]

Comecei por afirmar que boa parte das angústias históricas atuais procede da falta de clareza sobre problemas que somente a sociologia pode esclarecer, e que essa falta de clareza na consciência do homem médio se origina, por sua vez, no estado deplorável da teoria sociológica. A insuficiência da doutrina sociológica que hoje está à disposição de quem procure, de boa fé, orientar-se sobre o que é a política, o Estado, o direito, a coletividade e sua relação com o indivíduo, a revolução, a guerra, a justiça, etc., — a saber: as coisas de que mais se fala desde quarenta anos atrás, — estriba-se em que os próprios sociólogos ainda não analisaram suficientemente a sério, radicalmente, isto é, indo à raiz, os fenômenos sociais elementares. Vem daí que todo esse repertório de conceitos seja impreciso e contraditório.

Torna-se urgente esclarecer deveras o que é sociedade, sem [43] o que nenhuma das noções citadas pode possuir clara substância. Não é possível, porém, obter uma visão luminosa, evidente, do que seja sociedade se, previamente, não estamos esclarecidos sobre os seus sintomas, sobre quais são os fatos sociais em que a sociedade se manifesta e em que consiste. Daí a necessidade forçosa de precisar o caráter geral do social.

Mas não foi dito que o social seja uma realidade peculiar. Poderia acontecer que fosse só uma combinação ou resultado de outras realidades, como os corpos não são "em realidade" mais do que combinações de moléculas e estas, de átomos. Se, como se tem acreditado quase sempre, — e com consequências praticamente mais graves no século XVIII, — a sociedade é somente uma criação dos indivíduos que, em virtude de uma vontade deliberada "se reúnem em sociedade"; portanto, se a sociedade não é mais do que uma "associação", a sociedade não tem própria e autêntica realidade e não faz falta uma sociologia. Bastará estudar o indivíduo.

Ora, a questão de ser uma coisa, ou não, própria e ultimamente, realidade, só se pode resolver com os meios radicais da análise e da técnica filosóficas.

Trata-se, pois, de investigar se, no repertório das realidades autênticas, — isto é, de tudo quanto já não é redutível a alguma outra realidade, — existe algo que corresponda a isso que vagamente denominamos "fatos sociais".

Para tanto, temos de partir da realidade fundamental, em que todas as demais, de um modo ou de outro, têm de aparecer. Essa realidade fundamental é nossa vida, a de cada um, e é cada um que tem de analisar se, no âmbito que constitui a sua vida, aparece o social como alguma coisa diferente de tudo mais e irredutível a tudo mais.