Ortega (HG) – o fato social

[ORTEGA Y GASSET, José. O Homem e a Gente. Tr. J. Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Livro Ibero-americano, 1960, p. 47-49]

Os usos são formas de comportamento humano que o indivíduo adota e cumpre porque, de um modo ou de outro, em uma ou em outra medida, não tem mais remédio. São-lhe impostos pelo seu contorno de convivência: pelos "demais", pela "gente", pela. . . sociedade. [47]

Para a doutrina sociológica que vai ser exposta nestas lições, basta que certos usos, se se querem os casos extremos do uso, se caracterizem por estes traços:

1. ° — São ações que executamos em virtude de uma pressão social. Esta pressão consiste na antecipação, por nossa parte, das represálias "morais" ou físicas que nosso contorno vai exercer contra nós, se não nos comportarmos assim. Os usos são imposições mecânicas.

2. ° — São ações cujo conteúdo preciso, a saber, o que fazemos nelas, é, para nós, ininteligível. Os usos são irracionais.

3. ° — Encontramo-los como formas de conduta, que são ao mesmo tempo pressões, fora de nossa pessoa e de toda outra pessoa, porque atuam tanto sobre o próximo como sobre nós. Os usos são realidades extra-individuais ou impessoais.

Durkheim, por volta de 1890, entreviu os traços 1.° e 3.° como constitutivos do fato social, mas não conseguiu acabar de vê-los bem, nem começou sequer a pensá-los. Basta dizer que não só não viu o traço 2.°, como acreditou tudo ao contrário, a saber: que o fato social era o verdadeiramente racional, porque emanava de uma suposta e mística "consciência social" ou "alma coletiva". Além disso, não advertiu que consiste em usos, nem o que é o uso. Ora, a irracionalidade é a nota decisiva. Quando se entende bem, entende-se que as outras duas características, — ser pressão sobre o indivíduo e ser exterior a este, ou extra-individuais, — quase que só coincidem no vocábulo com aquilo que Durkheim percebeu. De qualquer modo, seja dito em sua homenagem, foi ele quem esteve mais perto de uma intuição certa do fato social.

Ao seguir os usos, comportamo-nos como autômatos, vivemos por conta da sociedade ou coletividade. Esta, no entanto, não é algo humano ou sobre-humano; ao contrário: atua exclusivamente mediante o simples e puro mecanismo dos usos, dos quais [48] ninguém é sujeito criador, responsável e consciente. E, como a "vida social ou coletiva" consiste nos usos, essa vida não é humana, é algo intermédio entre a natureza e o homem, é uma quase-natureza e, como a natureza: irracional, mecânica e brutal. Não há uma "alma coletiva". A sociedade, a coletividade é a grande desalmada, — já que é o humano naturalizado, mecanizado e como que mineralizado. Por isso está justificado que a sociedade se chame "mundo" social. Não é, com efeito, tanto "humanidade" como "elemento inumano" em que a pessoa se encontra.

Não obstante, a sociedade, ao ser mecanismo, é uma formidável máquina de fazer homens.

Os usos produzem no indivíduo estas três principais categorias de efeitos:

I — São pautas do comportamento que nos permitem prever a conduta dos indivíduos que não conhecemos e que, portanto, não são, para nós, tais determinados indivíduos. A relação inter-individual somente é possível com o indivíduo ao qual individualmente conhecemos, isto é, com o próximo de nós. Os usos nos permitem a quase-convivência com o desconhecido, com o estranho.

II — Ao impor, por pressão, um determinado repertório de ações, — de ideias, de normas, de técnicas, — obrigam o indivíduo a viver à altura dos tempos e injetam nele, queira ou não queira, a herança acumulada no passado. Graças à sociedade, o homem é progresso e história. A sociedade entesoura o passado.

III — Ao automatizarem uma grande parte da conduta da pessoa e dar-lhe resolvido o programa de quase tudo que tem de fazer, permitem que essa pessoa concentre sua vida individual, criadora e verdadeiramente humana, em certas direções, o que de outro modo seria impossível ao indivíduo. A sociedade situa o homem em certa liberdade diante do porvir e lhe permite criar o novo, racional e mais perfeito.