Ortega (HG) – o social

[ORTEGA Y GASSET, José. O Homem e a Gente. Tr. J. Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Livro Ibero-americano, 1960, p. 44-47]

Na área de nossa vida, — prescindindo do problema transcendente que é Deus, — achamos minerais, vegetais, animais e os outros homens, realidades irredutíveis entre si e, portanto, autênticas. O social aparece-nos adstrito somente aos homens. Fala-se [44] também de sociedades animais, — a colmeia, o formigueiro, o termitário, o rebanho; — sem entrar, porém, em mais considerações, basta a de que o homem, como realidade, não foi reduzido à realidade animal, para que não possamos, por enquanto, ao menos, considerar como sinônima a palavra sociedade, quando falamos de "sociedade humana" e de "sociedade animal". Portanto:

1.° — O social consiste em ações ou comportamentos humanos, — é um fato da vida humana. Mas a vida humana é sempre a de cada um, é a vida individual ou pessoal e consiste em que o EU que cada qual é se encontre tendo de existir em uma circunstância, — o que costumamos chamar mundo, — sem segurança de existir no instante imediato, tendo sempre de estar fazendo algo, — material ou mentalmente, — para assegurar essa existência. O conjunto desses afazeres, ações ou comportamentos, é a nossa vida. Só é, pois, humano, no sentido estrito e primário, o que faço por mim mesmo e em vista de meus próprios fins ou, o que é a mesma coisa, o fato humano é um fato sempre pessoal. Isto quer dizer:

a) — Que é só propriamente humano em mim o que penso, quero, sinto e executo com meu corpo, sendo eu o "sujeito criador disso", ou o que a mim mesmo, como tal eu-mesmo, acontece.

b) — Portanto, somente é humano o meu pensar, se penso alguma coisa por minha própria conta, advertindo-me do que significa. SOMENTE É HUMANO AQUILO QUE, AO FAZER, O FAÇO PORQUE TEM PARA MIM UM SENTIDO, A SABER, AQUILO QUE ENTENDO.

c) — Em toda ação humana existe, pois, um SUJEITO do qual ela emana e que, por isso mesmo, é RESPONSÁVEL por ela.

d) — Consequência do anteriormente exposto é que a minha vida humana, que me põe em relação direta com quanto me rodeia, — minerais, vegetais, animais, os outros homens, — é, por essência, solidão. Minha dor de dentes só a mim pode [45] doer. O pensamento que de verdade penso, — e não somente repito mecanicamente por tê-lo ouvido, — tenho de o pensar eu "sozinho" ou eu em minha solidão.

Mas o fato social não é um comportamento de nossa vida humana como solidão; ao contrário, aparece enquanto estamos em relação com os outros homens. Não é, pois, vida humana no sentido estrito e primário.

2.° — O social é um fato, não da vida humana, mas algo que surge na convivência humana. Por convivência, entendemos a relação ou trato entre duas vidas individuais. O que chamamos pai e filhos, amantes, amigos, por exemplo, são formas de convívio. Nessa convivência sempre se trata de que um indivíduo, como tal, — portanto, um sujeito criador e responsável por suas ações, que faz o que faz porque para ele isso tem sentido e ele o compreende, — atua sobre outro indivíduo que tem as mesmas características. O pai, como indivíduo determinado que é, dirige-se a seu filho, que é outro indivíduo determinado e único também. Os fatos de convivência não são, portanto, por si mesmos, fatos sociais. Formam o que deveria chamar-se "companhia ou comunicação", — "um mundo de relações inter-individuais".

Analise-se, porém, toda outra série de fatos humanos, como o cumprimento, como a ação do guarda que nos impede, em certo momento, de atravessar a rua. Neles, a ação, — dar a mão, o ato de o guarda impedir o nosso passo, — não o faz o homem porque lhe haja ocorrido, nem espontaneamente, isto é, sendo ele o responsável pela ação; tampouco é dirigida a outro homem por ser ele tal indivíduo determinado. O homem faz Isso sem sua original vontade e amiúde contra a sua vontade. Além disso, — no caso do cumprimento, está bem claro, — o que fazemos, dar a mão, não o entendemos, não sabemos porque é isso e não outra coisa o que temos de fazer, quando encontramos um conhecido. Essas ações não têm, pois, sua origem em [46] nós: somos meros executores delas, como o gramofone canta o seu disco, como o autômato pratica seus movimentos mecânicos.

Quem é o sujeito originário, do qual essas ações provêm? Por que as fazemos, já que não as fazemos, nem por nossa invenção, nem com a nossa espontânea vontade? Damos a mão ao encontrar um conhecido porque isso é o que "se faz". O guarda detém nosso passo, não porque isso lhe tenha ocorrido, nem por sua conta, mas porque assim "é mandado". Quem é, porém, o sujeito originário e responsável por aquilo que se faz? A gente, os demais, "todos", a coletividade, a sociedade, — isto é: "ninguém determinado".

Eis aqui, pois, ações que são, por um lado, humanas, já que consistem em comportamentos intelectuais ou de conduta especificamente humanos e que, por outro lado, nem se originam na pessoa ou indivíduo, nem este os quer, nem é responsável por eles e com frequência nem sequer os entende.

Aquelas nossas ações que têm essas características negativas e que executamos por conta de um sujeito impessoal, indeterminável, que são "todos" e "ninguém", e que denominamos a gente, a coletividade, a sociedade, são os fatos propriamente sociais, irredutíveis à vida humana individual. Esses fatos aparecem no âmbito da convivência, porém não são fatos de pura convivência.

O que pensamos ou dizemos porque "se" diz; o que fazemos porque "se" faz costuma chamar-se uso.