Responsável:
João e Murilo Cardoso de Castro

CIÊNCIA E TÉCNICA

Desde logo, porém, encontramos um segundo obstáculo. É verdade que se trata de um "mata-burro", e do qual temos escrúpulo em falar, a tal ponto foi debatida a questão. A relação entre ciência e técnica é um desses temas clássicos do bacharelado, uma vez vestida de todos os ouropéis da ciência experimental do século XIX. Sabem todos que a técnica é uma aplicação da ciência e, mais particularmente, sendo a ciência especulação pura, a técnica surgirá como o ponto de contato entre a realidade material e o resultado científico, mas também como resultado experimental, como aplicação das provas, que serão adaptadas à vida prática.

Essa ideia tradicional é radicalmente falsa. Não explica senão uma categoria científica e durante breve lapso de tempo: só é verdadeira para as ciências físicas e para o século XIX. Não se pode, pois, de modo algum, fundar nessa ideia uma consideração de ordem geral, quer dizer, como o estamos tentando, uma visão atual da situação.

Do ponto de vista histórico, uma simples observação destruirá a segurança dessas soluções: historicamente, a técnica precedeu a ciência, pois o homem primitivo conheceu técnicas. Na civilização helênica, foram as técnicas orientais que chegaram em primeiro lugar, não derivadas da ciência grega. Logo, historicamente, a relação ciência-técnica deve ser invertida.

A técnica, no entanto, só receberá seu impulso histórico após a intervenção da ciência. A técnica deverá, então, esperar pelo progresso da ciência. Nessa perspectiva histórica, observa com razão Gille: "A técnica, por suas repetidas experiências, propôs os problemas, revelou as noções e os primeiros elementos cifrados, mas precisa esperar as soluções" que vêm da ciência.

Quanto ao nosso tempo, é bem certo que a mais rápida observação do horizonte permite conceber uma relação inteiramente outra; de qualquer modo, o que parece fora de dúvida é que a fronteira entre o trabalho técnico e o trabalho científico não é nada clara.

Quando se fala, no domínio da ciência histórica, de técnica histórica, é todo um trabalho de preparação que assim se designa: pesquisa dos textos, leitura, restauração dos monumentos, crítica e exegese, todo um conjunto de operações técnicas que devem chegar à interpretação, em seguida à síntese histórica, que é o verdadeiro trabalho científico. Encontramos aqui, portanto, uma precedência da técnica.

Sabe-se, aliás, que em certos casos, mesmo em física, que a técnica precede a ciência. O exemplo mais conhecido é o da máquina a vapor. É uma pura realização do gênio experimental: a sucessão das invenções e dos aperfeiçoamentos de Caus-Huygens, Papin, Savery, etc... repousa em experiências práticas. A explicação científica dos fenômenos virá mais tarde, com dois séculos de atraso, e será muito difícil de encontrar. Estamos muito longe, portanto, do encadeamento mecânico da ciência e da técnica. A relação não é tão simples; há cada vez mais interação: toda pesquisa científica utiliza atualmente um enorme aparelhamento técnico (é o caso das pesquisas atômicas). E muitas vezes é uma simples modificação técnica que permite o progresso científico.

Quando esse meio não existe, a ciência não avança: assim, por exemplo, Faraday teve a intuição das descobertas mais recentes sobre a constituição da matéria, mas não pôde chegar a um resultado preciso porque a técnica do vazio não existia em seu tempo: ora, foi por essa técnica de rarefação dos gases que se chegou a resultados científicos. Do mesmo modo, o valor médico da penicilina foi descoberto em 1912 por um médico francês, mas ele não dispunha de nenhum meio técnico de produção e conservação, o que o levou a suspeitar da descoberta ou, ao menos, a abandoná-la.

A maior parte dos pesquisadores de laboratório são técnicos que fazem um trabalho muito diferente do que se imagina ser o trabalho científico. O cientista não é um gênio solitário. "Trabalha em equipe, e consente em renunciar à liberdade das pesquisas e à paternidade de sua invenção em troca do auxílio pessoal e do material que lhe oferecem os grandes laboratórios: são as duas condições indispensáveis; sem elas um pesquisador não pode esperar a realização de seus projetos..." (Jungk). Parece que a ciência pura tende a desaparecer deixando lugar a uma ciência aplicada que às vezes revela perspectivas fecundas a partir das quais novas pesquisas técnicas se tornam possíveis. Inversamente, modificações técnicas, em aviões por exemplo, que podem parecer simples e de ordem puramente material, supõem um trabalho científico muito complexo. Isso se verifica com o problema proposto pelas velocidades supersônicas. É igualmente o conceito de Wiener para o qual os cientistas das novas gerações nos Estados Unidos são antes de mais nada técnicos, que nada sabem pesquisar sem enorme quantidade de homens, de dinheiro e de máquinas.

Ora, essa relação entre ciência e técnica ainda se torna mais obscura quando consideramos os domínios mais recentes, nos quais não há fronteira. Onde começa e onde acaba a técnica em biologia? E nos setores da psicologia e da sociologia modernas, que se pode chamar técnico, se tudo é técnico em sua ¦ aplicação?

Não é a aplicação que caracteriza essa técnica, pois sem ela (prévia ou concomitante) a ciência não tem existência própria. Abandonamos o domínio da ciência se renunciamos à técnica, e entramos no da hipótese e da teoria.

E, em economia política, apesar dos esforços recentes dos economistas em distinguir ciência e técnica econômica, em definir e colocar barreiras, mostraremos que é a técnica econômica que constitui atualmente a própria matéria do pensamento econômico.

Assim, os dados tranquilizadores estão profundamente abalados. O problema dessas relações, em face da imensidade do mundo técnico, e a redução do científico, parece uma questão de escola, que pode ter interesse para os filósofos, mas que não passa de uma especulação sem conteúdo. Não é mais a fronteira da ciência que está atualmente em jogo, mas a fronteira do homem, e a importância do fenômeno técnico, em relação ao homem, é, hoje em dia, muito mais considerável do que o problema científico. Não mais parece que se deva definir a técnica em relação à ciência. Não se trata, a esse propósito, de modo algum, de fazer filosofia das ciências, nem de estabelecer idealmente, intelectualmente, quais podem ser as relações entre a ação e o pensamento científicos. Trata-se simplesmente de olhar à nossa volta e de observar certas evidências, que escapam ao olhar por demais inteligente dos filósofos.

Não pretendemos, é claro, minimizar a atividade científica, mas verificar apenas que nos fatos históricos presentes, a ciência está enquadrada pela atividade técnica. A tal ponto que não mais se concebe a ciência sem seu desfecho técnico.

O laço entre as duas é mais estreito do que nunca, como observa o Sr. Camichel: pois, pelo fato mesmo de progredirem rapidamente, as técnicas exigem um progresso da ciência, provocam uma aceleração geral.

Além disso, as técnicas são sempre imediatamente empregadas. O intervalo que separa tradicionalmente" a descoberta científica de sua aplicação na vida prática é cada vez mais reduzido. Feita a descoberta, procura-se como aplicá-la; capitais ou intervenções do Estado se manifestam: entra-se no domínio público, muitas vezes antes de ter medido todas as consequências, antes de ter reconhecido o peso humano da aventura. Tal prudência, o cientista espontaneamente a teria: apavora-se com a irrupção no mundo do que havia cuidadosamente calculado no laboratório. Mas, como resistir à pressão dos fatos? Como resistir ao dinheiro, ao êxito e, mais ainda, à publicidade, ao entusiasmo do público? E não é só: ao estado de espírito geral que quer que a aplicação técnica seja a última palavra? E como resistir ao desejo de prosseguir nas pesquisas? Pois este é o dilema em que se acha preso o cientista moderno: ou aceitar que suas pesquisas sejam aplicadas nas técnicas, ou interrompê-las. Tal é o drama dos físicos do átomo: verificamos que somente os laboratórios de Los Alamos dispunham dos instrumentos técnicos necessários ao prosseguimento de seus trabalhos. O Estado exerce, então, um monopólio de fato. E o cientista é obrigado a aceitar suas condições. Como observava um dos cientistas "atômicos", "o que me prende aqui é a possibilidade de utilizar em meus trabalhos um microscópio especial que não existe em nenhum outro lugar. . ." (Jungk). O cientista não pode mais resistir: "mesmo a ciência, especialmente a magnífica ciência de nossos dias, tornou-se um elemento da técnica, um meio" (Mauss) . Essa é, com efeito, a última palavra: a ciência tornou-se um meio a serviço da técnica.

Estudaremos adiante como o utilitarismo científico assume, a partir da técnica, tamanha força, que quase impede a realização de qualquer pesquisa desinteressada. Sem dúvida, é sempre indispensável uma base científica, os dois domínios, porém, não mais se separam. Pesquisas científicas e técnicas estão estreitamente unidas. É possível, aliás, e é em parte o pensamento de Einstein, que a técnica devoradora acabe por esterilizar a ciência.