Responsável:
João e Murilo Cardoso de Castro

A VISÃO CIENTÍFICA É UMA VISÃO MESQUINHA DO MUNDO

F. Nietzsche, A gaia ciência1

O mesmo ocorre com esta fé com a qual se satisfazem hoje tantos cientistas materialistas que acreditam que o mundo deve ter sua medida em nossas pequenas escalas, e seu equivalente em nosso pequeno pensamento; eles acreditam num "mundo verdadeiro" onde nossa pequena razão humana poderia finalmente ser bem-sucedida... Em suma, gostaríamos realmente de deixar assim degradar a existência? Rebaixá-la ao nível de composição de cálculo, fazer dela uma pequena lição de casa para matemáticos? É preciso, primeiro, recusar a qualquer preço despojá-la de seu caráter proteico2; é o bom gosto que o exige, senhores, o respeito a tudo o que ultrapassa o vosso horizonte! Que só valha uma interpretação do mundo que dê razão a vós, uma interpretação que autorize a procurar e a dar prosseguimento a trabalhos no sentido que vós considerais científico (e vós pensais mecanicamente, não?), que só valha uma interpretação do mundo que não mais que permita contar, calcular, pesar, enxergar e tocar, é estupidez e ingenuidade, senão demência ou idiotia. Não é provável, ao contrário, que a primeira coisa, e talvez a única, que se possa atingir da existência, é o que ela tem de mais superficial, mais exterior, mais aparente? Sua epiderme, apenas? Suas manifestações concretas? Uma interpretação "científica" do mundo, tal como a entendeis, senhores, poderia portanto ser uma das mais tolas, das mais estúpidas de todas as possíveis: que isto seja dito a vosso ouvido, a vossa consciência, mecanicistas da nossa época que vos misturais de tão bom grado aos filósofos e que imaginais que vossa mecânica é a ciência das leis primeiras e últimas e que toda existência deve basear-se nelas como num fundamento necessária. Um mundo essencialmente mecânico! Mas este seria um mundo essencialmente estúpido! Se se avaliasse o "valor" de uma música por aquilo que se pode calcular e contar, pelo que se pode traduzir em números... quão absurda seria esta avaliação "científica"! Que se haveria apreendido, compreendido, conhecido de uma melodia assim apreciada? Nada, e literalmente nada, daquilo que faz justamente sua "música"!...

  • 1. Traduzido para o francês por A. Vialatte, Gallimard, Idées, 1980, pp. 348 a 350, §373.
  • 2. Proteico, de Proteu, personagem da mitologia que não se deixava prender pois assumia formas múltiplas. Nietzsche designa por este termo a complexidade e a mobilidade da natureza que extrapola todos os esquemas nos quais gostaríamos de encaixá-la.
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