Responsável:
João e Murilo Cardoso de Castro

A LEI DOS TRÊS ESTADOS

A. Comte, Curso de filosofia positiva1

Estudando [...] o desenvolvimento total da inteligência humana em suas diversas esferas de atividade, desde seu primeiro e mais simples advento, até nossos dias, creio ter descoberto uma grande lei fundamental, à qual ele está sujeito, por uma necessidade invariável, e que me parece poder ser solidamente estabelecida, seja em cima das provas racionais fornecidas pelo conhecimento de nossa organização, seja em cima das verificações históricas resultantes de um atento exame do passado. Esta lei consiste em que cada uma de nossas concepções principais, cada ramo de nossos conhecimentos, passe sucessivamente por três estados teóricos diferentes: o estado teológico, ou fictício, o estado metafísico, ou abstrato; o estado científico, ou positivo.

Em outras palavras, o espírito humano, por sua natureza, emprega sucessivamente em cada uma de suas buscas três métodos de filosofar, cujo caráter é essencialmente diferente e até mesmo radicalmente oposto: primeiro o método teológico, em seguida o método metafísico e finalmente o método positivo. Aí, três espécies de filosofia, ou de sistemas gerais de concepções sobre o conjunto dos fenômenos, que se excluem mutuamente; a primeira é o ponto de partida necessário da inteligência humana; a terceira, seu estado fixo e definitivo; a segunda destina-se unicamente a servir de transição.

No estado teológico, o espírito humano, ao dirigir essencialmente suas buscas para a natureza íntima dos seres, as causas primeiras e finais de todos os efeitos que o afetam, em suma, para os conhecimentos absolutos, imagina os fenômenos como produzidos pela ação direta e contínua de agentes sobrenaturais mais ou menos numerosos, cuja intervenção arbitrária explica todas as aparentes anomalias do universo.

No estado metafísico, que não passa, no fundo, de uma simples modificação geral do primeiro, os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, verdadeiras entidades (abstrações personificadas) inerentes aos diversos seres do mundo, e concebidas como capazes de gerar por si mesmas todos os fenômenos observados, cuja explicação consiste então em atribuir a cada um a entidade a ele correspondente.

Enfim, no estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e a destinação do universo, e a conhecer as causas íntimas dos fenômenos, para dedicar-se unicamente a descobrir, pelo uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, isto é, suas relações invariáveis de sucessão e similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, não é, doravante, senão a ligação estabelecida entre os diversos fenômenos particulares e algumas vezes gerais cujo número os progressos da ciência tendem a diminuir cada vez mais. [...]

Depois [da revolução científica], o movimento de ascensão da filosofia positiva, e o movimento de decadência da filosofia teológica e metafísica foram extremamente marcados. Eles se pronunciaram tanto, enfim, que ficou impossível, hoje, para todos os observadores que tenham consciência do seu século, desconhecer a destinação final da inteligência humana para os estudos positivos, assim como seu afastamento doravante irrevogável dessas vãs doutrinas e desses métodos provisórios que só podiam convir a seu advento. Assim, esta revolução fundamental se realizará necessariamente em toda a sua extensão. Se, portanto, restar-lhe ainda alguma grande conquista a fazer, algum ramo principal do campo intelectual a invadir, pode-se estar certo de que a transformação se operará aí, como se efetuou em todas as outras. Porque seria evidentemente contraditório supor que o espírito humano, tão disposto à unidade do método, conservasse indefinidamente, para uma única classe de fenômenos, sua maneira primitiva de filosofar, quando uma vez ele chegou a adotar para todo o resto um novo andamento filosófico, de um caráter absolutamente oposto.

  • 1. Trechos da Première Leçon [Primeira Lição], Profil, ns 370-371, Hataer, pp. 61 a 73.
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