Ciências naturais como ciências de processos

O comentário recente e acidental de um cientista — que declarou, muito sério, que «pesquisa básica é quando não sei o que estou fazendo»1 — é talvez o melhor exemplo da medida em que passamos a dirigir nossas ações para dentro do reino da natureza.

Tudo começou, de modo bastante inofensivo, com a experimentação na qual os homens já não se contentavam em observar, registrar e contemplar aquilo que a natureza se dispunha a mostrar-lhes em sua simples aparência, e passaram a impor-lhe condições e a provocar processos naturais. O que, na época, se transformou em crescente capacidade de deflagrar processos elementares, os quais, sem a interferência do homem, teriam continuado adormecidos e talvez jamais ocorressem, terminou finalmente numa verdadeira arte de «fabricar» a natureza, isto é, de criar processos «naturais» que, sem os homens, jamais existiriam e que a natureza terrena, por si mesma, parece incapaz de executar, embora processos semelhantes ou idênticos possam ser fenômenos comuns no espaço fora da Terra. Com a introdução do experimento, no qual impusemos condições concebidas pelo homem aos processos naturais e forçamo-los a se ajustarem a padrões criados pelo homem, acabamos por aprender a «repetir o processo que ocorre no Sol», isto é, a extrair dos processos naturais da Terra aquelas energias que, sem nossa intervenção, só ocorrem no universo.

O próprio fato de que as ciências naturais tenham se tornado exclusivamente ciências de processos e, em seu último estágio, ciências de «processos sem retorno», potencialmente irreversíveis e irremediáveis, indica claramente que, seja qual for o poder mental necessário para desencadeá-los, a capacidade humana responsável por esse poder mental — e única força capaz de realizar tais feitos — não é nenhuma capacidade «teórica», não é contemplação nem razão; é a faculdade humana de agir, de iniciar processos novos e sem precedentes, cujo resultado é incerto e imprevisível, quer sejam desencadeados na esfera humana ou no reino da natureza.

  • 1. Citado de uma entrevista de Wernher von Braun, publicada no New York Times em 16 de dezembro de 1957.