Ortega y Gasset

Ortega y Gasset, José (1883-1955) [DBF]

Filósofo espanhol, foi professor na Universidade de Madri de 1911 a 1936. Tendo estudado na Universidade de Marburgo, na Alemanha, com Hermann Cohen, um dos principais representantes do "neokantismo, sofreu a influência deste pensamento, bem como do pensamento alemão do final do século XIX de modo geral, em suas várias correntes. Ortega y Gasset destacou-se não só como filósofo, mas como jornalista, ensaísta e crítico literário, preocupado com a análise e a interpretação da cultura de sua época, sobretudo na Espanha, onde teve importante atuação política, acadêmica e cultural, tendo fundado e dirigido a Revista de Occidente. Sua doutrina mais conhecida é a do chamado perspectivismo, que sustenta, em teoria do conhecimento, que o mundo pode ser interpretado de diferentes maneiras por esquemas conceituais alternativos que podem ser todos verdadeiros. Em consequência, a realidade reduz-se, em última análise, à vida do indivíduo, o que pode ser exemplificado por sua famosa frase: "Eu sou: eu e minha circunstância." As principais obras de Ortega, que tiveram grande importância no desenvolvimento do pensamento contemporâneo na Espanha e na América Latina, são: España invertebrada (1923), El tema de nuestro tiempo (1923). La rebelión de las masas (1930). Todo o pensamento de Ortega Y Gasset gira em torno da noção de "razão vital", porque todo conhecimento, mesmo sendo racional, encontra-se enraizado na vida, e toda razão é razão vital. A vida se apoia nas crenças. Por isso, viver na crença constitui o mais fundamental segmento de nossa existência.

Ortega (HG) – o fato social

[ORTEGA Y GASSET, José. O Homem e a Gente. Tr. J. Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Livro Ibero-americano, 1960, p. 47-49]

Os usos são formas de comportamento humano que o indivíduo adota e cumpre porque, de um modo ou de outro, em uma ou em outra medida, não tem mais remédio. São-lhe impostos pelo seu contorno de convivência: pelos "demais", pela "gente", pela. . . sociedade. [47]

Ortega y Gasset (QF:46-48) – filosofia e ciência

Excerto de ORTEGA Y GASSET, José. O que é a Filosofia?. Tr. José Bento. Lisboa: Cotovia, 1994, p. 46-48.

Isto obriga-nos a que coloquemos a questão da razão por que ocorre ao homem em absoluto fazer filosofia. Porquê ao homem — ontem, hoje ou outro dia — lhe ocorre filosofar? Convém trazer com claridade à mente essa coisa que costumamos chamar filosofia, para poder depois responder ao «porquê» do seu exercício.

IV

Destas considerações sobre a polêmica aberta na Inglaterra em torno das investigações físicas mais características da hora atual se depreende, pelo menos, que esta grande ciência atravessa uma etapa perigosa. Perigosa porque caminha sem clareza suficiente sobre si mesma. Não se sabe bem qual é o caráter de conhecimento próprio à física. Não se sabe bem qual é o papel da experiência e o do puro raciocínio na faina de sua edificação. E nem sequer se sabe bem o que seus grandes iniciadores dos séculos XVI e XVII — Kepler, Galilei, Newton — pretenderam fazer.

III — Conversão da física em geometria. — Observação ou invenção — Grécia ou Egito

Trata-se, aqui, de uma questão importante: a física, nossa ciência exemplar, encontra-se a ponto de mudar subitamente de aspecto e de caráter. O leitor, por mais distanciado que esteja dos estudos científicos, tem obrigação de esforçar-se em conhecer pelo menos suas grandes vicissitudes. Está claro que o "leitor", acostumado como está a que se dirijam a ele demagogos — boa porção dos que hoje escrevem o são numa ou noutra medida — acredita que somente têm direitos, que ele não está obrigado a nada.

II — Propaganda do bom-humor. — Física e guarda-roupa. — Ou filósofo ou sonâmbulo

Não creio que a polêmica suscitada pelo Dr. Herbert Dingler no semanário inglês Nature contribua para esclarecer as coisas. Inspirou-a o mau-humor. E o mau-humor é estéril. Todas as grandes épocas souberam sustentar-se sobre o abismo de miséria que é a existência, graças ao esforço desportivo do sorriso. Por isso os gregos pensavam que o ofício principal dos deuses era sorrir e até rir. O rumor olímpico é, por excelência, a gargalhada.