Ciências Hermenêuticas

[BUZZI, Arcângelo. Introdução ao Pensar. Petrópolis: Vozes, 1976, p. 101-104]

As ciências hermenêuticas são as ciências humanas ou as ciências do espírito (em alemão: Geisteswissenschaften).

Hermenêutica procede da palavra indo-germânica Herm, que significa o que envia. Hermes é o deus da mensagem. Daí vem verbum, word, wort. As coisas que aparecem são enviadas, estão no envio de herm, do verbum, da palavra. Auscultar o sentido do envio é fazer a hermenêutica da palavra.

Pertencem ao grupo de ciências humanas, entre outras, a psicologia, a história, a economia, a politica, a sociologia. Há um grande debate em torno dessas ciências. São ou não são ciências? São elas redutíveis às ciências empírico-formais? Tomam elas como modelo as ciências formais puras?

A resposta prévia, que servirá de roteiro às subsequentes considerações, é a seguinte: as ciências hermenêuticas não diferem substancialmente das ciências formais puras, precisamente por ambicionarem ser «ciências», isto é, por adotarem uma metodologia de pesquisa de caráter formal-operativo. Há um só modelo de ciência: o modelo formal-puro, exemplificado nas matemáticas. Conhecer «cientificamente» é conhecer formalizando, matematizando o real.

Que realidade pretendem conhecer as ciências hermenêuticas? Elas estudam as diversas atividades individuais ou coletivas do homem considerado como ser dotado de inteligência e de vontade. Há, no objeto dessas ciências, elementos redutíveis a descrições de natureza quantificada. Por exemplo, na demografia a população pode ser estudada a partir de um ponto de vista estatístico. Se as ciências humanas não pretendessem mais que traduzir esses elementos quantitativos elas não se distinguiriam das ciências empírico-formais. Mas ousam mais. O domínio da realidade que elas visam contém elementos não quantificáveis, elementos que escapam a um sistema formal puro. Esses elementos incluem a presença de significações ou de valores. A significação não é jamais proposta, isto é, não é objetivada, não pode ser claramente representada. A significação de um dado, de um elemento, de um evento não é pois passível de ser «cientificada». A significação se revela através de um processo de interpretação. Hermenêutica é pois a ciência da interpretação. As ciências humanas por incluírem no objeto que estudam elementos significativos, que se revelam compreensivos quando adequadamente interpretados, são por isso chamadas de hermenêuticas.

O objeto das ciências humanas é sempre cultural, é um valor (Kulturgut). Como se institui um tal objeto? A partir da ação humana que é vontade que ambiciona alcançar um fim. O objeto é então a própria ação humana prenhe de sentido (sinnhaft), carregada de valor (wertbezogen). A ciência, porém, enquanto puro conhecer, busca a neutralidade axiológica (Wertfreiheit). As ciências humanas nesse caso deveriam explicar os fatos culturais, os objetos de valor, tratando-os por um método isento de valor (wertfrei).

Os sinais, os conceitos das ciências humanas visam pois nos conduzir à presença de um mundo significativo. De fato, porém, os sinais e os conceitos das ciências humanas não nos põem imediatamente numa tal presença significativa, não nos dão automaticamente o sentido invisível nele latente.

O sentido invisível só pode ser evocado. A evocação, porém, é incompatível com a essência do conhecimento científico, pois é da estrutura das ciências o não-evocar, mas o dizer o que a coisa é mediante conceitos formais claramente representados e relacionados entre si pelo princípio constitutivo de causa-e-efeito.

Para descrever essa situação anômala das ciências evoquemos o exemplo da história. A história busca reconstituir os acontecimentos passados a partir de documentos presentes e tenciona, num segundo momento, sua compreensão. A primeira etapa é fácil: passar dos documentos aos acontecimentos. A segunda etapa é mais difícil: explicar os acontecimentos. Os acontecimentos são as intenções e as ações de atores consignadas, conservadas e transmitidas através do tempo. «César passou o Rubicão». Por que passou César o Rubicão?! A história para se constituir em «ciência» deve poder elaborar uma «teoria objetiva» mediante a qual nos é possível ver nos sinais (documentos) as ações e intenções de seus atores. Se conseguirmos evocar a significação dos acontecimentos teremos compreendido o documento.

Na elaboração de uma tal «teoria objetiva» que explique as ações e intenções dos atores, as ciências humanas se valem em geral de dois modelos: o modelo explicativo em termos de projetos e o modelo explicativo em termos de sistemas.

No modelo explicativo em termos de projetos consideram-se as ações como vividas por atores individuais. Nesse caso é preciso imaginar tipos de projetos possíveis, que são quais hipóteses provisórias, e elaborar uma teoria que mostre os liames entre as situações e os projetos. Por exemplo, César passou o Rubicão para satisfazer uma ambição pessoal. O que aconteceu nesse procedimento? César é visto numa elaboração ideal (Ideal-type). Esse tipo ideal é forjado pelo meu espírito. César, porém, em sua concreteza, não é esse tipo ideal. Recrio, portanto, César idealmente para poder movimentar a compreensão do César concreto. O tipo ideal que forjei é a medida que me possibilita compreender as ações de César.

Mas trata-se nesse caso da compreensão de qual história? de César? ou não será antes a compreensão de minha história-presente? O tipo ideal, mediante o qual «compreendo» César, é a compreensão de mim ou de César ele mesmo? A compreensão é induzida a César a partir de mim. O passado é compreendido a partir do presente. Compreender a história é sempre um projeto do presente. Se é um projeto do presente, então a história é sempre política. O método do «tipo ideal» ou de «projeto» é uma estratégia ou tática de dominar o presente relendo o passado. Não há uma explicação da história, apenas unia compreensão possível. Há no «projeto» aspectos que não se deixam captar, motivações inconscientes inacessíveis à reflexão.

No modelo explicativo em termos de sistemas consideram-se totalidades, configurações que envolvem numerosas ações. O indivíduo em sua ação é compreendido a partir do todo. No quadro mental elaborado (Abbild) são compreendidos os fatos. A história é por assim dizer «dobrada», vista na imagem do sistema. Nesse caso é preciso elaborar uma teoria relativa à evolução dos sistemas. Em geral recorre-se a teorias próprias aos sistemas físicos ou biológicos ou então a teorias de caráter não científico como, por exemplo, os sistemas onde a evolução é explicada à base da dialética.

Um sistema interpretativo é avaliado no mais das vezes a partir de critérios meramente pragmatistas. A teoria adequada ou certa é considerada aquela que melhor analisa as ações em termos meramente operativos, funcionais. Basta lembrar as teorias econômicas, políticas, psicológicas. A explicação está sempre fundamentada num esquema operativo-funcional prático. A funcionalidade operativa é o último critério de sua validez. O conhecimento significativo, porém, é, em geral, destituído de validez operativa. Não pode ser finalizado. É absoluto em si. É como o olhar de criança: belo, simplesmente belo e não útil, não se aprisiona em nenhum sistema operativo-formal.

Por conseguinte as ciências hermenêuticas não diferem substancialmente das ciências formais. Elas se alicerçam sempre numa teoria formal, que explicita a lógica imanente da ação objetivada num sistema, cujos componentes (conceitos e sinais) operam até certo ponto por conta própria, independentes da ação. As ciências hermenêuticas permanecem assim no círculo das ciências formais. O real que elas visam é abordado a partir dos instrumentos da inteligência objetivante, que constrói modelos a priori de abordagem, e a realidade passa a ser apreendida e significada em modelos formais-operativos.