Filosofia da Informática

Filosofia da Informática mccastro sex, 05/06/2011 - 06:31

Dentro da Filosofia da Técnica, mais e mais se ensaia uma reflexão mais circunscrita ao campo da informática, enquanto apogeu da Técnica Moderna. A tentativa de se ter uma tecnologia capaz de reproduzir o que seria mais próprio do homem, a razão, instigou a investigação do processo cognitivo mas também do que seja o exercício desta razão no "pensar". Pretensões, reduções, limites, constrições, antecipações são algumas das considerações que serão apresentadas neste exame da emergente filosofia da informática, reunindo estudos e pensadores que contribuem para sua pesquisa.

Recomendamos o livro «Sobre a Essência da Informática», aos interessados em uma reflexão filosófica sobre a técnica, e em particular a informática. Para ler o livro é necessário o leitor Kindle, seja individual ou seja para PC, Mac ou IPAD. O livro pode ser comprado e baixado na: AMAZON e AMAZON BRASIL.

 

 

 

Pensadores da Informática

Pensadores da Informática mccastro sex, 05/06/2011 - 06:37

Pensar a informática é algo que só vem se dando desde da década de 1950, após o surgimento dos primeiros computadores comerciais, a princípio dentro da chamada "primeira cibernética". Alguns poucos pensadores anteriores a esta época teceram considerações relevantes que merecem ser estudadas, mas a reflexão maior sobre a natureza da informática vem se dando mais recentemente. Aqui se destacam alguns deste "pensadores da informática", sejam filósofos, cientistas da computação ou da "inteligência artificial", ou até mesmo cientistas sociais.

Albert Borgmann

Albert Borgmann mccastro qua, 09/22/2010 - 16:40

Atendo-se à Realidade

Atendo-se à Realidade mccastro ter, 09/28/2010 - 18:06

A natureza da informação e a virada do milênio

Tópicos da estrutura do livro, sobre os quais aditaremos citações e resumos

Introdução – Informação versus Realidade

Parte I – Informação sobre a Realidade

1 O declínio do significado e a ascensão da informação
A origem da informação
Informação cognitiva
Informação e presença

2 A Natureza da Informação
A relação de informação
A eloquência insuperável da realidade

3 Informação ancestral
Sinais naturais e significância
Sinais convencionais e a plenitude da informação

4 De Marcas à Letras
Recordando antes de escrever
Contando
Escrevendo

5 A Ascensão da capacidade de ler e escrever
Cartas versus Memória
Capacidade de ler e escrever e comunidade

Parte II – Informação cultural – Informação para a realidade

6 Produzindo Informação – Escrita e Estrutura
A análise da estrutura
A síntese da estrutura

7 Produzindo informação – Medidas e Matrizes
Matrizes do espaço
Medidas do tempo
Linhas de impressão

8 Realizando a informação – Lendo
Fundamentos
Compreensão

9 Realizando a informação – Desempenhando
Significação e realização
Estrutura e contingência

10 Realizando a informação – Construindo
Construção e contingência
As ambiguidades dos sinais e das coisas

Parte III – Informação tecnológica – Informação como Realidade

11 Medidas elementares
O Eléctron
O Bit
Conteúdo

12 Estruturas básicas
Divisão
Álgebra booleana
Transistor e computador

13 Transparência e controle
Perspicuidade e investigabilidade
Transparência
As sombras da transparência
Transparência, controle, prosperidade

14 Virtualidade e ambiguidade
A resolução da informação
Realidade virtual
Ambiguidade virtualidade
Vidas virtuais
Gravidade real
Neblina virtual

15 Fragilidade e ruído
Fragilidade física e social
Fragilidade estrutural
Fragilidade cultural
A origem do ruído
Educação
Pesquisa, Bolsa, Ficção
Negócio

Conclusão – Informação e Realidade
A leveza do ser
Ajustando o equilíbrio
Boas novas

Francisco Antônio Dória

Francisco Antônio Dória mccastro sab, 05/14/2011 - 06:12

Matemático, filósofo e notável pensador brasileiro.

WIKIPEDIA: Inglês

Ciência

Ciência mccastro sab, 05/14/2011 - 09:34

Codificação e decodificação

Codificação e decodificação mccastro sab, 05/14/2011 - 10:24

Sejam duas sentenças pertencentes a uma dada linguagem. Admitimos que a sua concatenação também pertencerá a esta linguagem (por exemplo: "Hoje o dia está desagradável" e "Você já viu aquele filme" são duas sentenças do português. Sua concatenação, "Hoje o dia está desagradável. Você já viu aquele filme?" também será, num sentido lato, uma "sentença" do português. O "ponto" entre as duas sentenças originais é o operador da concatenação) . A estrutura de um sistema concatenável é a seguinte: se a e b pertencem a L então ab também pertencerá a L. Estruturas deste tipo são chamadas monóides. Um processo de codificação é, rigorosamente, uma aplicação biunívoca de um monóide sobre outro. Que quer dizer isso? Para nossa finalidade de compreender um processo de codificação, consideraremos que toda linguagem tem a estrutura de um monóide. Num processo simplificado de codificação, substituímos as letras do alfabeto por sinais especiais. Então, a cada sinal corresponde uma letra, e apenas uma. Quando eu codificar um texto, obterei uma única versão codificada (não posso codificar de duas maneiras diferentes o mesmo texto), e quando alguém traduzir a versão codificada, obterá de voha e texto inicial. Diz-se unívoco todo processo que, a partir de um objeto inicial, obtém um único objeto transformado. Quando há univocidade nos dois sentidos, diz-se que o processo é biunívoco. O diagrama esclarece.

mensagem original -> codificação (unívoca) -> mensagem cifrada

mensagem original

É evidente que, como desejamos que nossa mensagem, descodificada, se mantenha intata, o nosso processo de codificação devera ser biunívoco.

Suponhamos agora que à transmissão de cada mensagem associamos um certo custo. Nosso interesse estaria em reduzir este custo. A mensagem é uma sequência de letras num certo alfabeto e cada mensagem tem a si associada uma probabilidade de ser transmitida. Uma medida do "custo" seria, por exemplo, o número de letras numa dada mensagem (uma mensagem mais longa custaria mais que uma curta porque levaria mais tempo a ser transmitida). O custo médio de todas as mensagens seria a média ponderada dos custos individuais, sendo o fator de ponderação a probabilidade de transmissão de cada uma das mensagens. A pergunta espontânea neste ponto é: haverá alguma codificação que reduza o custo médio de transmissão de um dado conjunto de mensagens? A resposta é afirmativa.

Pode-se também mostrar que, em certas circunstâncias, há um método de codificação mais eficiente que todos os outros possíveis. "Eficiência" será (formalmente) definida como o quociente entre o comprimento médio das mensagens transmitidas no processo de codificação de menor custo possível, e o comprimento médio das mensagens em qualquer outro processo de codificação. A redundância associada a um dado código é igual a 1 menos a eficiência correspondente. Quando a eficiência for de 100%, a redundância é nula. Para uma discussão completa ainda é melhor o artigo original sobre teoria da comunicação.

Entropia

Entropia mccastro sab, 05/14/2011 - 17:37

Heurística

Heurística mccastro dom, 05/15/2011 - 14:29

Martin Heidegger

Martin Heidegger mccastro dom, 05/15/2011 - 14:36

Martin Heidegger nasceu em 1889 em Messkirch, na Floresta Negra, na Alemanha, filho de um toneleiro e sacristão, de família há muito residente na região. No Ginásio de Freiburg, em 1907, lê a tese de Franz Brentano, Sobre as múltiplas significações do Ente em Aristóteles, onde vai pela primeira vez encontrar uma referência ao problema que tanto discutirá depois — a questão do Sentido do Ser. Através de Brentano chega a Husserl e à fenomenologia. Suas investigações começam em 1914 com a dissertação A Doutrina do Julgamento no Psicologismo, e prosseguem em 1916 com A Doutrina das Categorias e da Significação em Duns-Scotus. Nos dez anos que se seguem, possivelmente guiado por estudos de teologia (a respeito de que dará cursos, como o Introdução à Fenomenologia da Religião, de 1921 em Friburgo), tenta fundar a questão do Ser numa analítica existencial (isto é, numa descrição rigorosa e elucidadora) da facticidade e da finitude humanas. O resultado desta interrogação será a publicação, em 1927, de Sein und Zeit (Ser e Tempo), primeira parte de um tratado que deveria discutir a questão do Ser na Filosofia ocidental a partir da analítica da existência humana. Em 1933 adere ao partido nazista, pouco depois de ser eleito reitor da Universidade de Friburgo mas em 1934 se desilude com Hitler, abandonando a reitoria e o nazismo, e sendo pouco a pouco marginalizado pelos órgãos oficiais de educação da Alemanha. Por está época muda o método de ataque à questão do Ser, tentando aprofundá-la agora através de uma consideração a respeito do desenvolver-se do pensamento ocidental, desde os primeiros pré-socráticos até Nietzsche, em quem vê o último pensador da metafísica ocidental. Publica, então, trabalhos como Sobre a Essência da Verdade (1943), A Doutrina de Platão sobre a Verdade — Com uma Carta sobre o Humanismo (1947), Caminhos no Bosque (1950), Introdução à Metafísica (1953), Que significa Pensar? (1954), O Princípio da Razão- (1957), No Caminho da Linguagem (1959), Nietzsche (1961), A Técnica e o Retorno (1962), Marcos no Caminho (1967), Sobre a Questão do Pensamento (1969), Heráclito (com Eugen Fink, 1970). O pensamento de Heidegger nos oferece duas grandes linhas originais. A primeira linha, cuja maior expressão está em Ser e Tempo, tenta encontrar a questão do Ser (e sua importância para o pensamento ocidental, na metafísica e na lógica) a partir de uma analítica do Dasein. Uma analítica pretende mostrar, fazer aparecer, os constituintes originários de nossa experiência. O nome Dasein resume a natureza destes constituintes: o Dasein somos nós, somos o Ser (Sein) que existe sempre centrado num Aí (Da) perfeitamente determinado, e cuja finitude surgirá deste posicionamento originário. Ser e Tempo teve grande influência (mas que Heidegger considerou como sendo "um mal-entendido") nos existencialismos sartreanos, na teologia de Bultmann e na psicanálise existencial de Binswanger.

A segunda linha do pensamento de Heidegger volta-se para a história da metafísica ocidental, vista como um fenômeno único dentro da história mundial. Esta metafísica começou com os pré-socráticos, sete séculos antes de Cristo, desenvolveu-se pela Idade Média e se extinguiu em Nietzsche, não sem antes ter gerado a técnica e a ciência contemporâneas. O que marca a afirmação da metafísica (e o esquecimento da questão do Ser, em cuja formulação, há três mil anos, Heidegger vê a origem do Ocidente como movimento cultural) é transformação da "verdade" dos pré-socráticos, a aletheia na veritas. A aletheia significa o não-ocultamento e o não-esquecimento (Léthe era o rio de cujas águas quem bebia perdia a memória); indica também a possibilidade de um destino, de uma passagem do escuro, do oculto, ao claro, ao desvelado. A veritas, ao contrário, é um mero ajuste entre dois entes, a concordância entre a palavra e certo estado de coisas. Na veritas perdeu-se a destinação, o sentido em movimento que havia na aletheia.

Heidegger tenta nos oferecer uma visão una da história do ocidente, e sobretudo procura enquadrar, nesta visão, a tecnologia e a ciência contemporâneas, oferecendo-lhes, como perspectiva, todo o fundo da cultura ocidental, e desmistificando-lhes o "fantástico" e o "assombroso". Por tornar assim finito o problema da tecnologia contemporânea, a visão de Heidegger é bem mais potente que as outras críticas da modernidade feitas por Theodor W. Adorno, Max Horkheimer, Herbert Marcuse, Georg Lukács (no seu livro História e Consciência de Classe), e como que ilumina muitas das imprecisões e dos exageros de Oswald Spengler em sua obra A Decadência do Ocidente. (FAD).

Porcessos Aleatórios

Porcessos Aleatórios mccastro sab, 05/14/2011 - 17:53

Teorema de Gödel

Teorema de Gödel mccastro sab, 05/14/2011 - 18:36

Álgebra

Álgebra mccastro sab, 05/14/2011 - 06:02

Gérard Chazal

Gérard Chazal mccastro qua, 09/22/2010 - 18:40

Mark Poster

Mark Poster mccastro qua, 09/22/2010 - 18:58

António Fidalgo: O MODO DE INFORMAÇÃO DE MARK POSTER

António Fidalgo: O MODO DE INFORMAÇÃO DE MARK POSTER mccastro qua, 09/07/2011 - 12:50

Origem e demarcação do conceito

Modo de informação é o conceito cunhado por Mark Poster, nomeadamente nos livros Critical Theory and Poststructuralism de 1989 e The Second Media Age de 1995 (A Segunda Era dos Média, Celta Editora, 2000) para designar "o modo como a comunicação electronicamente mediada desafia e, ao mesmo tempo, reforça os sistemas de dominação emergentes na sociedade e cultura pós-moderna." O conceito desenvolve-o Poster a partir da teoria marxista do modo de produção (e daí nome de modo de informação!). Entre os dois modos há afinidades e diferenças. As primeiras são três, a saber, que todas as relações sociais são transitórias, constituídas historicamente, que o teórico faz parte da realidade que analisa e, portanto, não dispõe de uma supra-posição epistemológica que lhe possibilite uma análise universal e intemporal da linguagem, e que, finalmente, o objectivo da teoria é tanto revelar as estruturas de dominação como a de descortinar o potencial libertador de todo e qualquer padrão de experiência linguística.

O que diferencia o modo de informação do modo de produção é desde logo a recusa da prioridade que Marx concede ao trabalho. Embora Poster reconheça que o trabalho continua a desempenhar um papel fundamental nas sociedades contemporâneas, considera que se trata de um conceito desadequado para servir de charneira numa análise das actuais situações de dominação. A segunda diferença está na eliminação do aspecto teleológico do materialismo histórico. A preservação da teleologia no modo de informação tornaria o elemento linguístico no 'centro' ou na 'essência' do campo social a que acabariam por se reduzir todos os outros aspectos deste campo. Aliás, e esta é outra diferença, a teoria do modo de informação mina de certo modo a teoria do modo de produção, na medida em que enquanto esta se centra no modo como os objectos que satisfazem as necessidades humanas são produzidos e trocados, aquela incide sobre o modo como os símbolos são usados para partilhar sentidos e constituir objectos. Em quarto lugar, e finalmente, as sociedades contemporâneas, tecnologicamente sofisticadas, caracterizam-se por distintos novos modos de informação que alteram radicalmente o quadro das interrelações sociais. É neste sentido que também é legítimo falar das sociedades da revolução industrial como modos de produção.

Mas Poster além de caracterizar o modo de informação, demarcando-o do modo de produção, fá-lo também relativamente ao modo de significação de Baudrillard, tal como aparece na obra deste Para uma Economia Política do Signo. Poster considera que Baudrillard ao limitar-se às categorias saussureanas reduz a comunicação a um código abrangente e totalizante, limitado ao campo semiológico, mas incapaz de analisar os fenómenos linguísticos além dos que estão associados ao marketing e ao comércio de produtos, como sejam as técnicas de vigilância e as possibilidades comunicacionais das novas tecnologias.

Feita a definição do conceito de Poster, mediante o confronto com os conceitos de modo de produção e de modo de significação, há a salientar antes do mais o carácter marxista do novo conceito, nomeadamente no seu propósito de analisar as relações sociais de dominação e de simultaneamente, mediante essa análise, procurar potenciais elementos de libertação social. Declaradamente o modo de informação visa dar um novo alento aos propósitos finais da teoria do modo de produção. Com efeito, Poster assume declaradamente a teoria crítica como ponto de partida para analisar a hegemonia ideológica da sociedade capitalista avançada, a cultura de massas e a diluição da classe operária como factor de libertação social. A especificidade do modo de informação está no contributo que Poster vai buscar ao pós-estruturalismo, em particular na inter-relação entre discurso e poder explorada por Michel Foucault. As relações sociais de poder são indissociáveis dos tipos de discurso que as instituem e as justificam. É com base na intelecção do papel da linguagem nas relações sociais que Poster aborda a forma como a própria linguagem vem sendo alterada pelos sistemas electrónicos de comunicação.

Discurso e poder

Discurso e poder mccastro qua, 09/07/2011 - 12:51

Não só Marx, mas também os outros pais das ciências sociais, como Weber e Durkheim, partiam do princípio de que era a acção, e não a linguagem, que determinava as relações de poder e que, portanto, o objecto de análise seria a acção. Ora é este princípio que é posto em causa com os contributos linguísticos do século XX, nomeadamente com a emergência e a afirmação das teorias da linguagem, Saussure, Wittgenstein, Austin, Chomsky, entre outros.

Poster atribui a Foucault o mérito de muito claramente ter exposto a íntima relação entre linguagem e poder, colocando no centro da atenção que dedica ao filósofo francês a noção de discurso. O discurso não pode ser analisado como simples forma da consciência ou expressão do sujeito, mas como uma forma de positividade. Retira-se assim o discurso do reino da pura subjectividade para o submeter a um conjunto de categorias objectivas. É antes a positividade do discurso que faz a síntese das variações subjectivas da consciência e do indivíduo. Em dois artigos cita Poster a passagem da Arqueologia do Saber em que a unidade do discurso é contraposta à unidade do sujeito, onde o discurso deixa de ser a manifestação majestosa de um sujeito que pensa, conhece e fala, para, pelo contrário, se tornar uma totalidade em que se subsume a totalidade no seio da qual se determina a dispersão do sujeito e respectivas discontinuidades.

Mas onde melhor sobressai a relação de linguagem e poder, em que o discurso é configurado como uma forma de poder e a concepção de poder pressupõe a actuação através da linguagem, é na concepção do "panopticon como discurso". A questão fundamental é o da construção histórica e contextualizada do sujeito pelo discurso. "O desafio de Foucault é construir uma teoria do discurso que analise a razão à luz da história, revele o modo como o discurso funciona como poder e incida sobre a constituição do sujeito."

O panopticon, o sistema de vigilância prisional, em que de uma torre central os guardas podiam observar a todo o momento os presos sem que estes os vissem, instituia um regime de autoridade que tudo vê, mas que é invisível. O propósito consistia em, mediante a percepção de estarem sempre a ser vigiados, os presos interiorizarem essa vigilância e, assim, os princípios e os valores que a justificavam enquanto causa final. Ora é este dispositivo de vigilância e de enformação psico-social que Foucault e Poster estendem à constituição do sujeito e da sociedade moderna.

Como entidade objectiva dominadora, mas ao mesmo tempo imperceptível. o discurso cumpre as funções do panopticon. "O discurso actua sobre o sujeito posicionando--o na relação com as estruturas de dominação de modo a que essas estruturas possam então agir sobre ele ou ela. A influência do discurso caracteriza-se principalmente por disfarçar a sua função constitutiva relativamente ao sujeito, aparecendo apenas após a formação do sujeito enquanto destinatário do poder." O poder inerente ao discurso está na sua omnipresença face ao sujeito e nos ditames invisíveis que tal facto inculca neste.

O estruturalismo desta posição é evidente na negação de um sujeito primordial, autónomo, detentor de uma razão constituinte da linguagem, da sociedade e do mundo. A afirmação estruturalista, pelo contrário, é de que o sujeito é um construto de estruturas discursivas. O pós-estruturalismo, por seu lado, fica patente na multiplicidade, diversidade e até na contraditoriedade dos discursos enformativos do sujeito. Não há um discurso único, coerente, e, como tal, também não há um sujeito único, mas um sujeito espartilhado pela diversidade dos discursos a que é sujeito e de que é sujeito.

Discurso e poder são conceitos imbrincados e inseparáveis, e esse é o primeiro contributo fundamental que Poster vai buscar ao estruturalismo de Foucault. Só que a desconstrução da noção do sujeito moderno vai ainda mais longe na visão pós-estruturalista, na medida em que o sujeito é o resultado simultâneo e sucessivo de múltiplos discursos. Mais do que discurso e poder, há que falar de discursos e de poderes que concorrem entre si na formação e dominação do sujeito. Este é o segundo contributo que Poster retira da leitura de Foucault.

O modo de informação e o super-panopticon

O modo de informação e o super-panopticon mccastro qua, 09/07/2011 - 12:53

Segundo Mark Poster os meios de comunicação de massas introduzidos no século XX, telefone, rádio, televisão e Internet, instauram novos tipos de acção e de discurso. A vida quotidiana transformou-se radicalmente no último século graças aos avanços tecnológicos e são essas transformações que distinguem especificamente o capitalismo avançado. São justamente estas transformações que há a ter em conta nos discursos que determinam os sujeitos. Para isso importa estudar as novas linguagens ditadas pelos novos média.

Só mediante a exploração dos novos tipos de discurso é que se entenderão as novas formas de dominação que caraterizam o capitalismo actual.

Muito mais do que simples dispositivos instrumentais que, na perspectiva do marxismo tradicional, em nada ou em muito pouco alterariam as relações de poder, Poster encara os sistemas de comunicação electrónica como linguagens determinantes da vida dos indivíduos e dos grupos em todos os seus aspectos, social, económico, cultural e político. Os meios e as formas de comunicação constituem tipos de discurso determinantes das relações de poder e de dominação nas sociedades contemporâneas. Daí que Poster defenda como tese geral que "o modo de informação decreta uma reconfiguração radical da linguagem, que constitui sujeitos fora do padrão do indivíduo racional e autónomo". O modo de informação mostrará como o familiar sujeito moderno se transforma num sujeito "múltiplo, disseminado e descentrado, interpelado continuamente como uma identidade instável".

Um dos exemplos mais desenvolvidos por Poster de como o modo de informação dissolve o sujeito estável da modernidade, autónomo e crítico, é a transformação operada pela passagem da informação impressa à informação electrónica feita em tempo real. O livro impresso é uma materialidade que tanto promove a substantividade do leitor e do autor, na medida em que os isola criando entre eles um hiato espaço-temporal. "A materialidade espacial da imprensa - a apresentação linear das frases, a estabilidade da palavra na página, o espaço ordenado e sistemático das letras pretas num fundo branco - permite aos leitores afastarem-se do autor. Estas características da imprensa promovem uma ideologia do indíviduo crítico, lendo e pensando em isolamento, fora da rede das dependências políticas e religiosas." Do outro lado, o escritor, ao criar a materialidade da palavra impressa, estável, duaradoira, em contraposição à evanescência da palavra oral, vê afirmado o seu estatuto de autoridade. A imprensa constitui os indivíduos como sujeitos, entidades estáveis e fixas. A história da imprensa é também a história do sujeito tal como foi sendo concebido pela modernidade.

As comunicações electrónicas podem ser compreeendidas, e são-no frequentemente, dentro do quadro conceptual da imprensa ou da modernidade, apenas como melhorias de eficiência. Toda a evolução dos média, dos sinais de fumo aos satélites da comunicação, seria entendida a partir do mesmo princípio, o de expandir a voz humana. A teoria subjacente seria a mesma, a do indivíduo racional autónomo.

A proposta teórica de Poster de com o modo de informação entender as linguagens instauradas electronicamente é radicalmente contrária à teoria tradicional dos média, comum também ao marxismo e à teoria crítica. O hiato existente na imprensa entre autor e leitor também existe na dimensão electrónica, com emissor e receptores, mas a natureza dessa distância altera-se. "No modo de informação, a distância entre o o orador e o ouvinte transtorna os limites da auto identidade do sujeito. A combinação destas distâncias com o imediatismo temporal produzida pelas comunicações electrónicas, tanto os afasta como os aproxima. Estas distâncias opostas - opostas do ponto de vista da cultura impressa - reconfiguram a posição do indivíduo de forma tão drástica que a figura do self, fixa no tempo e no espaço, capaz de exercer controlo cognitivo sobre os objectos circundantes, não consegue ser mantida. A linguagem já não representa a realidade, já não é uma ferramenta instrumental que realce a racionalidade instrumental do indivíduo: a linguagem torna-se, ou melhor, reconfigura a realidade. E, ao fazê-lo, o sujeito é interpelado através da linguagem e não pode escapar facilmente ao reconhecimento dessa interpelação. As comunidades electrónicas removem sistematicamente os pontos fixos e estáveis, as fundações que eram essenciais à teoria moderna".

Mark Poster analisa o mundo da publicidade televisiva, aliás no seguimento das análises de Jean Baudrillard, para mostrar como as perspectivas tradicionais são insuficientes na análise. De um ponto de vista humanista, os 'spots' publicitários são enganadores, ilusórios, induzem a decisões irracionais por parte dos consumidores. Vistos pelo marketing são poderosos instrumentos para criarem uma procura efectiva para o produto. Olhados de uma cultura democrática, "minam o pensamento independente do eleitorado, diminuindo a sua capacidade para distinguir o verdadeiro do falso, o real do imaginário e estimulam um estado de passividade e indiferença". Na perspectiva do marxismo, apenas estimulam falsas necessidades dos trabalhadores, alienadores da sua condição e desmotivadores do propósito revolucioná-rio.

Ora, segundo Poster, nenhuma destas perspectivas, apesar de válidas no seu âmbito, "aborda o papel principal da publicidade televisiva na cultura contemporânea, nenhuma revela a estrutura alterada da linguagem dos anúncios e, mais importante, nenhuma dá atenção à relação entre a linguagem e a cultura na constituição de novas posições do sujeito, isto é, novos lugares na rede de comunicação social." Claro que a publicidade televisiva pode ser olhada apenas como mais uma forma de comunicação unidireccional tal como acontece na imprensa e na rádio, onde um emissor emite para um receptor. Porém, ao contrário destes modos comunicativos unidireccionais, na publicidade televisiva não há possibilidade de uma intervenção, de um feedback, de uma resposta, mesmo a posteriori. Os anúncios de publicidade criam uma realidade própria, uma hiper-realidade, misturam facilmente imagens, som e escrita, permitem a introdução da voz-of da autoridade. As referências e as associações que os anúncios publicitários criam são autónomos face à realidade que pretendem influenciar, hábitos de consumo, mudanças de atitude e outros.

Mediante a dissociação com a realidade, os anúncios permitem uma identificação do espectador com a mensagem e os artigos que veiculam, ao nível de emoções e desejos. O que se pretende justamente é que com essa dissociação se alcance uma integração e identificação do espectador com o produto anunciado. As fronteiras do real quotidiano desaparecem no anúncio e, assim, tudo se torna possível. No reino da publicidade, as mais ínfimas hipóteses, as probabilidades mínimas, ficam ao alcance de qualquer um, mediante um simples gesto de consumo. Desta análise, tira Poster a conclusão de que linguagem tradicional, referencial do mundo real se altera. "O paradigma linguístico realista é abalado. O anúncio televisivo trabalha com simulacros, com invenções e com imaginações." Só que o desfasamento da realidade da vida quotidiana e da realidade simulada nos anúncios, em que o espectador se vê mergulhado, não é esporádico, mas um fenómeno contínuo, "todos os dias e por longas horas".

Ainda no seguimento de Baudrillard, Poster considera que o mundo dos bens é cada vez mais atravessado de múltiplas significações e interpretações. "Os bens são afastados do domínio da teoria económica ou comentário e visto como um código complexo. A chave para o consumo não é uma tendência irracional para uma ostentação, mas a inserção dos indivíduos numa relação de comunicação na qual recebem mensagens sob a forma de artigos para consumo." O referente do anúncio não é um objecto de compra ou consumo, não é objectivo, mas um simulacro criado pelo próprio anúncio.

Ainda que Poster não ligue directamente o conceito baudrillardiano de simulacro à análise que faz das bases de dados é provavelmente nestas que melhor se descortina o mundo hiper-real dos simulacros. Os objectos de uma base de dados são segmentados em múltiplas entradas que se combinam e recombinam em sínteses diversas, e às quais eles se reduzem. Linguisticamente as bases de dados são de extrema pobreza narrativa, "estruturas de informação intrinsecamente limitadas e restritas". A experiência particular, a percepção de um qualquer objecto do mundo quotidiano, é reduzida a entradas "que podem ser caracterizadas como caricaturas". Mas à pobreza linguística corresponde, na proporção inversa, uma operacionalidade tremenda na clas-sifficação e na velocidade de encontrar a informação.

De modo algum se pode falar de uma verosimilhança entre o objecto da base de dados e o possível correspondente do mundo da experiência inidividual. Tratam-se de identidades diferentes. Ora é na constituição das identidades assentes em bases de dados que Poster liga o tema à análise que Foucault faz do panopticon. Tal como o mecanismo prisional de vigilância determinava o comportamento e a identidade dos reclusos, assim também as bases de dados, de que mais e mais se socorrem as instituições públicas, determinam as identidades dos indivíduos com que estas instituições tratam. "Os indivíduos são 'conhecidos' das bases de dados, têm 'personalidades' distintas e em relação às quais os computadores 'trratam-nos' de formas programadas. Estas identidades são pouco inocentes uma vez que podem afectar seriamente a vida do indivíduo (...). O indivíduo é transformado em relação à sua identidade e é consituído na base de dados. Simplesmente porque esta identidade não tem uma íntima relação com a consicência interna do indivíduo, com os seus atributos definidos, não minimiza, de forma alguma, a sua eficácia. Com a disseminação das bases de dados, as tecnologias da comunicação invadem o espaço social e multiplicam a identidade dos indivíduos, independentemente da sua vontade e intenção, sentimento ou cognição."

As bases de dados constituem, segundo Poster, como um super-panopticon, na medida em que "operam de forma contínua, sistemática e sub-reptícia, acumulando informação acerca dos indivíduos e compondo-os em perfis." Neste caso a vigilância não depende de qualquer tipo especial de arquitectura, antes exerce-se no decorrer da vida normal e quotidiana dos indivíduos. O super-panopticon não interfere com o indivíduo, não o constrange ou o limita nos seus movimentos. O indivíduo é, de certo modo, inteiramente livre. O que o super-panopticon faz é registar e tratar informaticamente os rastos que a utilização dos meios electrónicos deixa atrás de si, utilização progressiva uma vez que facilita a vida social, económica e institucional do próprio indivíduo. A enorme capacidade de armazenamento de dados e a extrema facilidade de transmissão desses dados entre computadores assegura a eficiência da vigilância imperceptível e indolor do super-panopticon.

As bases de dados como discurso

As bases de dados como discurso mccastro qua, 09/07/2011 - 12:54

O mais interessante na abordagem que Poster faz das bases de dados, no entanto, é o entendimento que faz delas como discurso no sentido foucaultiano. "As bases de dados são discurso, em primeira instância, porque afectam a constituição do sujeito." Tal como o discurso também a base de dados é entendida, não como expressão ou acção de um sujeito prévio, mas como positividade constituinte de sujeitos. A base de dados liberta-se do seu criador ou utilizador para se tornar numa realidade autónoma que cresce e estende o seu poder sobre os próprios utilizadores.

Ao entender as bases de dados como discurso Poster demarca-se da abordagem que liberais e marxistas fazem das bases de dados, nomeadamente como instrumentos de dominação de um governo central burocrático ou como factores da disputa no controlo dos meios de produção. Para Poster a limitação destas abordagens reside no facto de encararem o campo social principalmente como campo de acção, descurando a linguagem como factor enformante da cultura e da sociedade. "Como forma de linguagem, as bases de dados têm efeitos sociais apropriados à linguagem, ainda que também tenham, certamente, relações diversas com formas de acção."

Entendidas as bases de dados como discurso, objectivas, e por isso anteriores aos sujeitos que criam, dever-se-á proceder por um lado à abstracção da sua formação e até da sua pertença. Desde Saussure que a estrutura linguística, a língua, é vista como elemento social anterior à fala, ao uso individual da linguagem. Mas a língua também não existe sem as falas que a realizam e de algum modo a modificam. O que interessa aqui, porém, são as regras estruturantes da língua, as regras de formação e de transformação. "Se considerarmos as bases de dados como um exemplo da noção foucaultiana de discurso, encaramo-las como 'exterioridades', e não como constituídas pelos agentes, e procuramos nas suas 'regras de formação' a chave para o modo de constituição dos indivíduos."

A estrutura das bases de dados é de listas "organizadas, digitalizadas com o objectivo de tirar partido da velocidade electrónica dos computadores". Mas cada elemento ou registo destas listas é classificado por múltiplas entradas ou campos, o que permite a ordenação das listas por cada um destes campos e, assim, ter tantas listas - e modos de busca! -quantos os campos em que o elemento é classificado. Da alteração da ordenação por campos resultam diferentes perfis dos elementos integrantes da base de dados. Pode-se ordenar por número de entrada, nome, diversos campos de morada, rua, bairro, cidade, idade, sexo, mas também por rendimentos, hábitos de consumo, e quaisquer transacções electrónicas, de comunicação ou de compra. Basta cruzar uma procura por idade e rendimentos, por exemplo, para saber exactamente quais as idades a que correspondem os maiores rendimentos, ou cruzar moradas e hábitos de consumo para extrair da base de dados informações relevantes de um ponto de vista socio-geográfico. Se a facilidade e a velocidade de acesso a uma informação são as características primeiras de uma base de dados electrónica, não deixam também de ser relevantes as características da sua portabilidade, isto é o facto de serem facilmente reproduzidas, copiadas e enviadas ad libitum para qualquer outro sistema informático (a expansão da Internet, veio a simplificar e a incrementar enormemente essa portabilidade), a sua expansão e, em particular, a faculdade de serem cruzadas com outras bases de dados.

Consoante a finalidade e a estrutura da base de dados assim se altera o perfil do indivíduo registado. "Estas listas electrónicas tornam-se identidades sociais adicionais à medida que cada indivíduo é constituído pelo computador como agente social, variando em função da base de dados em causa." Sendo apanhado ou introduzido em diferentes bases de dados, os indivíduos vão ganhando perfis específicos. O mesmo indivíduo tem seguramente um perfil diferente enquanto cliente de um supermercado na base de dados que é possível aí fazer dele, nomeadamente através do pagamento electrónico, que enquanto sócio de um clube de futebol. As bases de dados constituem 'grelhas de especificação' que são uma das regras de formação do discurso em termos foucaultianos, na medida em que os elementos ou registos são relacionados, agrupados, classificados, derivados uns dos outros como objectos de discurso. Mais do que em qualquer outro tipo de discurso, psicológico, clínico, económico, etc., as bases de dados possuem uma performatividade linguística. "A ênfase é colocada no aspecto performativo da linguagem, naquilo que a linguagem realiza para além de denotar e conotar. As bases de dados são apenas máquinas performativas, mecanismos de produção de identidades recuperáveis."

Acrescente-se ainda que o aspecto discursivo das bases de dados sai mais reforçado na medida em que são os próprios indivíduos que vão alimentando as bases de dados que os enformam enquanto sujeitos. É tal como no modelo saussureano, em que a língua se reforça mediante o uso que dela se faz na fala. Quanto mais falada for uma língua tanto maior é a sua independência face às falas individuais. No que concerne às bases de dados são os próprios indivíduos que precisam e lucram com sua a utilização, deixando com isso novos traços electrónicos automaticamente introduzidos e que, assim, as completam e ao mesmo tempo diversificam. A vida contemporânea requer cada vez mais a utilização dos computadores e da sua ligação em rede, possibilitando dessa forma a constituição de bases de dados maiores. Quem utiliza um telemóvel, usa um cartão electrónico, passa pela via verde das auto-estradas, está voluntariamente a contribuir para a alimentação da base de dados, isto é do discurso que o enforma enquanto sujeito. É, aliás deste modo, que se esboroa a fronteira entre o público e o privado. Os actos privados dos indivíduos, com quem fala ao telefone, quanto tempo, o que compra, quando e onde, passam a constar de bases de dados. O que, diga-se, representa o triunfo do super-panopticon. "A indesejada vigilância da escolha individual torna-se parte de uma realidade discursiva através da participação voluntária do indivíduo vigiado. Nesta situação, o jogo de poder e discurso tem uma configuração singular, uma vez que o vigiado é quem fornece a informação necessária para a vigilância."

Modo de informação e resistência

Modo de informação e resistência mccastro qua, 09/07/2011 - 12:55

Dito isto, falta perguntar em que é que o modo de informação, depois de analisar as estruturas discursivas de dominação e, em particular, as bases de dados como super-panopticon, pode despoletar o potencial libertador de todo e qualquer padrão de experiência linguística. Com efeito, alinhando o modo de informação com o modo de produção marxista, há como que um dever de oferecer, ou pelo menos de descortinar, uma saída para a dominação que os meios electrónicos de comunicação, nomeadamente as bases de dados, exercem enquanto discursos configuradores da própria subjectividade. Poster rejeita a solução de Lyotard, feita em A Condição Pós-Moderna, de uma acessibilidade plena e universal às bases de dados. E rejeita-a pelo princípio teórico de que parte, o de que as bases de dados são constituintes de sujeitos. A solução de Lyotard ainda é moderna, já que "a tese da liberalização das bases de dados pressupõe a figura social do sujeito centrado e autónomo que as bases de dados rejeitam." Ora a posição verdadeiramente pós-moderna, a assumida por Poster, é de que os sujeitos se fazem e se refazem pelos discursos e em particular pelos discursos extremamente performativos das bases de dados. "A função cultural das bases de dados não é tanto a instituição de estruturas de poder dominante contra o indivíduo, mas a restauração da própria natureza do indivíduo."

A proposta libertadora de Poster assenta na multiplicidade de sujeitos que as bases de dados efectivamente criam. Ao contrário do panopticon, que segundo Foucault criava "o indivíduo moderno, 'interiorizado', consciente da sua auto-determinação", o super-panopticon gera "indivíduos com identidades dispersas, identidades de que eles podem nem sequer ter consciência. O escândalo do super-panopticon é talvez a violação flagrante do importante princípio do indivíduo moderno, da sua identidade centrada, 'subjectivada'." É justamente com base nas novas identidades que se podem gerar movimentos de resistência. A resistência tem de partir não da concepção moderna do indivíduo autónomo, mas da constatação das identidades sempre em mutação que o novo mundo da comunicação electrónica contantemente gera. "A via para uma maior emancipação deve passar pelas formações do sujeito do modo de informação e não pelas da precedente era moderna e da sua cultura, em rápido declínio."

É justamente nos movimentos que surgem a partir das novas identidades, nas comunidades de algum modo virtuais, que surge a possibilidade de resistência às estruturas de dominação. A desconstrução da racionalidade autónoma típica da modernidade e consequente fragmentação de identidades pelas comunicações electronicamente mediadas constituem desde logo, segundo Poster, uma base para a crítica das formas de dominação que preponderantemente elas próprias geram. Embora haja, com a comunicação electrónica, um fortalecimento das estruturas modernas, ele ocorre ao mesmo tempo que surgem interstícios entre essas estruturas, interstícios que só emergem devido às novas tecnologias. Poster refere o impacte político da comunicação eletrónica na "propagação dos movimentos de protesto exteriores ao paradigma modernista, algumas posições feministas e étnicas, certos aspectos de algumas políticas gays e lésbicas, certo tipo de preocupações ecológicas e anti-nuclea-res." Existe aqui um questionamento da ideologia moderna e uma alteração dos termos da discussão política.

Resumindo. O potencial libertador do modo de informação está fundamentalmente na intelecção da fragmentação do sujeito. "Esclarece o modo de ver o self como múltiplo, mutável, fragmentado, em resumo como fazendo um projecto da sua própria instituição." Ora esse esclarecimento permite o desafio das práticas e discursos tradicionais de dominação. "Esta possibilidade desafia todos aqueles discursos e práticas que poderiam rstringir este processo, que poderiam fixar e estabilizar a identidade, fossem estes fascistas que assentam as suas ideias nas teorias de raça essencialistas, liberais que se baseiam na razão ou socialistas que confiam no trabalho. Uma compreensão pós-estruturalista das novas tecnologias da comunicação levanta a possibilidade de uma cultura e sociedade pós-moderna que ameaça a autoridade como a definição da realidade pelo autor."

Marshall McLuhan (1911-1980)

Marshall McLuhan (1911-1980) mccastro qua, 09/22/2010 - 19:37

Galáxia de Gutenberg

Galáxia de Gutenberg mccastro dom, 09/11/2011 - 18:16

Popper e a "sociedade aberta"

Popper e a "sociedade aberta" mccastro dom, 09/11/2011 - 18:00

Excertos da "Galáxia de Gutenberg"

 Hay una obra reciente que estimo me libera del cargo que pudiera hacerse al presente estudio, como meramente excéntrico e innovador. Me refiero a The Open Society and Its Enemies, de Karl R. Popper; obra dedicada al estudio de diversos aspectos de la des-tribalización del mundo antiguo y de la re-tribalización del mundo moderno. Y es que la "sociedad abierta" fue consecuencia del alfabeto fonético, como pronto veremos, y hoy está amenazada de erradicación a manos de la tecnología eléctrica, como discutiremos al final de este estudio. Creo innecesario decir que, con respecto a esta evolución solamente se está señalando lo que "es", no discutiendo lo que "debiera ser". La diagnosis y la descripción deben preceder a la valoración y la terapia. Es procedimiento bastante natural y corriente sustituir la diagnosis por la valoración moral, pero no el más fructífero.

Karl Popper dedica la primera parte de su extenso estudio a la des-tribalización de la antigua Grecia y a la reacción que produjo. Pero ni en relación con Grecia ni con el mundo moderno considera la dinámica de nuestros sentidos, tecnológicamente prolongados, como factores tanto de la apertura como del cierre de las sociedades. Sus descripciones y análisis están hechos desde un punto de vista económico y político. El pasaje que se cita más adelante tiene especial relación con La galaxia Gutenberg, porque comienza con la interacción de las civilizaciones causada por el comercio, y termina con la disolución del estado tribal, del mismo modo que Shakespeare lo dramatiza en El rey Lear.

Opina Popper que las sociedades tribales o cerradas tienen una unidad biológica, y que "nuestras sociedades modernas funcionan en gran parte por medio de relaciones abstractas, tales como el intercambio y la cooperación". Uno de los temas de La galaxia Gutenberg es que la abstracción o apertura de las sociedades es obra del alfabeto fonético y no de cualquier otra forma de escritura o tecnología. Por otra parte, el hecho de que las sociedades cerradas son el resultado de las tecnologías basadas en el lenguaje hablado, el tambor y el oído, nos trae, en los comienzos de la era electrónica, a la integración de toda la familia humana en una sola tribu global. Solamente que para los hombres de las sociedades abiertas esta revolución electrónica es menos confusa que lo fuera aquella revolución del alfabeto fonético, que quitó barreras y dio formas más ágiles a las antiguas sociedades tribales o cerradas. Popper no hace análisis de las causas de tal cambio, pero describe (pág. 172) la situación de modo muy pertinente a La galaxia Gutenberg.

Hacia el siglo VI anterior a la era cristiana, esta evolución había conducido a la disolución parcial de los viejos modos de vida, e incluso a una serie de revoluciones y reacciones políticas. Y no solo se produjeron tentativas de mantener o retener el tribalismo por la fuerza, como en Esparta, sino también esa gran revolución espiritual, la invención de la discusión crítica; en consecuencia, el pensamiento libre de obsesiones mágicas. Al mismo tiempo observamos los primeros síntomas de una nueva inquietud. Comenzó a sentirse la tensión de la civilización.

Esta tensión, esta inquietud, es la consecuencia del colapso de la sociedad cerrada. Aún en nuestros días se deja sentir, especialmente en los momentos en que se producen cambios sociales. Es la tensión producida por el esfuerzo que exige de nosotros el vivir en una sociedad abierta y parcialmente abstracta: el empeño en ser racionales, el tener que renunciar a algunas, al menos, de nuestras necesidades sociales emocionales, el cuidarnos de nosotros mismos, aceptar responsabilidades. A mi juicio, hemos de soportar esta tensión como precio que pagamos por todo aumento de conocimientos, de racionalidad, de cooperación y ayuda mutua y, en consecuencia, de nuestras probabilidades de supervivencia y de crecimiento de la población. Es el precio que hemos de pagar por ser hombres.

Esta tensión está muy íntimamente relacionada con el problema del conflicto entre las clases, que surgió por primera vez al descomponerse la sociedad cerrada. La sociedad cerrada no conoció este problema. Al menos para los dirigentes, la esclavitud, la casta, el dominio clasista eran naturales, en el sentido de que no eran impugnables. Pero con el colapso de la sociedad cerrada, esta certeza desaparece, y con ella todo sentimiento de seguridad. La comunidad tribal (y la "ciudad" más tarde) es el lugar seguro para el miembro de la tribu. Rodeado de enemigos y de fuerzas mágicas peligrosas e incluso hostiles, siente a la comunidad tribal como un niño siente a su familia y casa, en las que representa un papel definido; un papel que conoce bien y desempeña bien. El colapso de la sociedad cerrada, que originó el conflicto entre las clases y otros problemas de posición social, debió de producir sobre los ciudadanos el mismo efecto que puede producir en el niño un serio disgusto familiar y la desmembración del hogar. Por supuesto, las clases privilegiadas, ahora amenazadas, sintieron esta clase de tensión más intensamente que aquellas clases ya reprimidas con anterioridad; pero incluso estas se sintieron desazonadas. También se asustaron ante la descomposición de su mundo "natural". Y si bien continuaran su lucha, muchas veces se mostraron reacias a explotar sus victorias sobre las clases enemigas, apoyadas en la tradición, el status quo, un más elevado nivel de educación y el sentimiento de la autoridad natural.

 

OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO EXTENSÕES DO HOMEM

OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO COMO EXTENSÕES DO HOMEM mccastro dom, 09/11/2011 - 20:49

O meio é a mensagem

O meio é a mensagem mccastro dom, 09/11/2011 - 20:53

Excertos da tradução em português de Décio Pignatari

Numa cultura como a nossa, há muito acostumada a dividir e estilhaçar todas as coisas como meio de controlá-las, não deixa, às vezes, de ser um tanto chocante lembrar que, para efeitos práticos e operacionais, o meio é a mensagem. Isto apenas significa que as consequências sociais e pessoais de qualquer meio — ou seja, de qualquer uma das extensões de nós mesmos — constituem o resultado do novo estalão introduzido em nossas vidas por uma nova tecnologia ou extensão de nos mesmos. Assim, com a automação, por exemplo, os novos padrões da associação humana tendem a eliminar empregos, não há dúvida. Trata-se de um resultado negativo. Do lado positivo, a automação cria papéis que as pessoas devem desempenhar, em seu trabalho ou em suas relações com os outros, com aquele profundo sentido de participação que a tecnologia mecânica que a precedeu havia destruído. Muita gente estaria inclinada a dizer que não era a máquina, mas o que se fez com ela, que constitui de fato o seu significado ou mensagem. Em termos da mudança que a máquina introduziu em nossas relações com outros e conosco mesmos, pouco importava que ela produzisse flocos de milho ou Cadillacs. A reestruturação da associação e do trabalho humanos foi moldada pela técnica de fragmentação, que constitui a essência da tecnologia da máquina. O oposto é que constitui a essência da tecnologia da automação. Ela é integral e descentralizadora, em profundidade, assim como a máquina era fragmentária, centralizadora e superficial na estruturação das relações humanas.

Neste passo, o exemplo da luz elétrica pode mostrar-se esclarecedor. A luz elétrica é informação pura. É algo assim como um meio sem mensagem, a menos que seja usada para explicitar algum anúncio verbal ou algum nome. Este fato, característico de todos os veículos, significa que o “conteúdo” de qualquer meio ou veículo é sempre um outro meio ou veículo. O conteúdo da escrita é a fala, assim como a palavra escrita é o conteúdo da imprensa e a palavra impressa é o conteúdo do telégrafo. Se alguém perguntar, “Qual é o conteúdo da fala?”, necessário se torna dizer: “É um processo de pensamento, real, não-verbal em si mesmo.” Uma pintura abstrata representa uma manifestação direta dos processos do pensamento criativo, tais como poderiam comparecer nos desenhos de um computador. Estamos aqui nos referindo, contudo, às consequências psicológicas e sociais dos desenhos e padrões, na medida em que ampliam ou aceleram os processos já existentes. Pois a “mensagem” de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas, humanas. A estrada de ferro não introduziu movimento, transporte, roda ou caminhos na sociedade humana, mas acelerou e ampliou a escala das funções humanas anteriores, criando tipos de cidades, de trabalho e de lazer totalmente novos. Isto se deu independentemente do fato de a ferrovia estar operando numa região tropical ou setentrional, sem nenhuma relação com o frete ou conteúdo do veículo ferroviário. O avião. de outro lado, acelerando o ritmo de transporte, tende a dissolver a forma “ferroviária” da cidade, da política e das associações, independentemente da finalidade para a qual é utilizado.

Voltemos à luz elétrica. Pouca diferença faz que seja usada para uma intervenção cirúrgica no cérebro ou para uma partida noturna de beisebol. Poderia objetar-se que essas atividades, de certa maneira, constituem o “conteúdo” da luz elétrica, uma vez que não poderiam existir sem ela. Este fato apenas serve para destacar o ponto de que “o meio é a mensagem”, porque é o meio que configura e controla a proporção e a forma das ações e associações humanas. O conteúdo ou usos desses meios são tão diversos quão ineficazes na estruturação da forma das associações humanas. Na verdade não deixa de ser bastante típico que o “conteúdo” de qualquer meio nos cegue para a natureza desse mesmo meio. Somente hoje as indústrias se tornaram conscientes das diversas espécies de negócios em que estão mergulhadas. A IBM só começou a navegar com boa visibilidade depois que descobriu que não estava no ramo da produção de máquinas e equipamentos para escritórios e sim no de processamento da informação. A General Electric aufere uma boa parte de seus lucros das lâmpadas elétricas e dos sistemas de iluminação. Ela ainda não descobriu que, tanto quanto a A. T. & T., ela está no negócio da informação móvel e em mudança.

Não percebemos a luz elétrica como meio de comunicação simplesmente porque ela não possui “conteúdo”. É o quanto basta para exemplificar como se falha no estudo dos meios e veículos. Somente compreendemos que a luz elétrica é um meio de comunicação quando utilizada no registro do nome de algum produto. O que aqui notamos, porém. não é a luz, mas o “conteúdo” (ou seja. aquilo que na verdade é um outro meio). A mensagem da luz elétrica é como a mensagem da energia elétrica na indústria: totalmente radical, difusa e descentralizada. Embora desligadas de seus usos, tanto a luz como a energia elétrica eliminam os fatores de tempo e espaço da associação humana, exatamente como o fazem o rádio, o telégrafo. o telefone e a televisão, criando a participação em profundidade.

Michael Heim

Michael Heim mccastro qua, 09/22/2010 - 16:46

Linguagem Elétrica (Electric Language)

Linguagem Elétrica (Electric Language) mccastro qui, 05/12/2011 - 08:58

Introdução

Introdução mccastro qui, 05/12/2011 - 09:09

Introdução
''O processador da palavra está acabando com a literatura. Gore Vidal

Com um livro em uma mão , e um computador debaixo do braço, marcharei. sem tremor para o século XXI. Ray Bradubury''

Heim propõe um estudo introdutório sobre a significância do fenômeno de processamento de texto, tendo como premissas desta investigação de teor filosófico, que a escrita cada vez mais se liberará das imposições da tecnologia papel e que os textos produzidos serão armazenados e recuperados imediatamente de seus depósitos digitais.

  • Que impacto tem o processamento da palavra no processo do pensar humano?
    • Prós e contras de diferentes intelectuais
    • Sentido de errância histórica nesta passagem da cultura oral, para a literata e agora a informacional-comunicacional.
    • Fenômeno em si:
      • Processamento da palavra ou mais recentemente processamento de texto
      • Preparação de documentos assistida por computador, que inclui escrita, edição, armazenamento, verificação ortográfica, impressão e transmissão de documentos escritos em linguagem natural.
      • Qual a essência deste fenômeno?
      • Processamento da Palavra é uma expressão cunhada pela IBM em 1964 para descrever uma certa capacidade de sua máquina de escrever elétrica.
      • Com o advento do computador a máquina de escrever foi absorvida pela funcionalidade do computador abrindo ainda maiores possibilidades de tratamento de textos.
      • Justificativa de uma abordagem filosófica do tema
        • Perigos de distanciamento do fenômeno cultural
        • Riscos de criticismo niilista
        • Defesa de uma abordagem fenomenológico-existencialista
        • Desencobrimento do fenômeno pelo desencobrimento de nós mesmos onde dele estamos ocupados em nossas vidas, na interface com o computador.
        • Evitar a tentativa de classificação do fenômeno em estudo em filosofia da técnica ou da linguagem, ou outra qualquer
        • Urgência da reflexão agora neste período de transição cultural
      • Reconhecimento de perspectivas futuras
        • Escrita cada vez mais dissociada do papel
        • textos armazenados digitalmente
        • Grandes acervos de informações disponíveis online
        • Capacidade crescente de captura ótica de textos
        • Acesso e transmissão instantânea de arquivos de textos
      • Ter em mente a impossibilidade de exteriorizar o fenômeno por qualquer tentativa de modelização
      • Cotidianidade dos sistemas informacionais-comunicacionais onde estamos imersos com nosso "meio" imediato
        • mecanismos quase-autônomos possuindo sua própria agência, que pode se desviar de sua proveniência nos significados e intenções humanas.
        • dependência e desconfiança na ocupação com os mesmos
        • ambivalência entre dependência e expectativa de criatividade, levando a desespero ou entusiasmo
    • Estudo introdutório da significância filosófica do fenômeno de processamento da palavra.
      • Introdução ao fenômeno
      • Termos básicos para sua investigação
      • Formalização das questões que cercam o fenômeno

Aproximação do Fenômeno de Processamento da Palavra

Aproximação do Fenômeno de Processamento da Palavra mccastro qui, 05/12/2011 - 09:20

A Estrutura Finita da Linguagem

A Estrutura Finita da Linguagem mccastro qui, 05/12/2011 - 11:01

Pierre Lévy

Pierre Lévy mccastro qua, 09/22/2010 - 18:46

O atual e o virtual

O atual e o virtual mccastro qua, 09/07/2011 - 20:31

A Atualização

A Atualização mccastro qua, 09/07/2011 - 21:45

A atualização aparece então como a solução de um problema, uma solução que não estava contida previamente no enunciado. A atualização é criação, invenção de uma forma a partir de uma configuração dinâmica de forças e de finalidades. Acontece então algo mais que a dotação de realidade a um possível ou que uma escolha entre um conjunto predeterminado: uma produção de qualidades novas, uma transformação das ideias, um verdadeiro devir que alimenta de volta o virtual.

Por exemplo, se a execução de um programa informático, puramente lógica, tem a ver com o par possível/real, a interação entre humanos e sistemas informáticos tem a ver com a dialética do virtual e do atual.

A montante, a redação de um programa, por exemplo, trata um problema de modo original. Cada equipe de programadores redefine e resolve diferentemente o problema ao qual é confrontada. A jusante, a atualização do programa em situação de utilização, por exemplo, num grupo de trabalho, desqualifica certas competências, faz emergir outros funcionamentos, desencadeia conflitos, desbloqueia situações, instaura uma nova dinâmica de colaboração... O programa contém uma virtualidade de mudança que o grupo - movido ele também por uma configuração dinâmica de tropismos e coerções - atualiza de maneira mais ou menos inventiva.

O real assemelha-se ao possível; em troca, o atual em nada se assemelha ao virtual: responde-lhe.

A Virtualização

A Virtualização mccastro qua, 09/07/2011 - 21:48

Compreende-se agora a diferença entre a realização (ocorrência de um estado pré-definido) e a atualização (invenção de uma solução exigida por um complexo problemático). Mas o que é a virtualização" Não mais o virtual como maneira de ser, mas a virtualização como dinâmica. A virtualização pode ser definida como o movimento inverso da atualização. Consiste em uma passagem do atual ao virtual, em uma "elevação à potência" da entidade considerada. A virtualização não é uma desrealização (a transformação de uma realidade num conjunto de possíveis), mas uma mutação de identidade, um deslocamento do centro de gravidade ontológico do objeto considerado: em vez de se definir principalmente por sua atualidade (uma "solução"), a entidade passa a encontrar sua consistência essencial num campo problemático. Virtualizar uma entidade qualquer consiste em descobrir uma questão geral à qual ela se relaciona, em fazer mutar a entidade em direção a essa interrogação e em redefinir a atualidade de partida como resposta a uma questão particular.

Tomemos o caso, muito contemporâneo, da "virtualização" de uma empresa. A organização clássica reúne seus empregados no mesmo prédio ou num conjunto de departamentos. Cada empregado ocupa um posto de trabalho precisamente situado e seu livro de ponto especifica os horários de trabalho. Uma empresa virtual, em troca, serve-se principalmente do teletrabalho; tende a substituir a presença física de seus empregados nos mesmos locais pela participação numa rede de comunicação eletrônica e pelo uso de recursos e programas que favoreçam a cooperação. Assim, a virtualização da empresa consiste sobretudo em fazer das coordenadas espaço-temporais do trabalho um problema sempre repensado e não uma solução estável. O centro de gravidade da organização não é mais um conjunto de departamentos, de postos de trabalho e de livros de ponto, mas um processo de coordenação que redistribui sempre diferentemente as coordenadas espaço-temporais da coletividade de trabalho e de cada um de seus membros em função de diversas exigências.

A atualização ia de um problema a uma solução. A virtualização passa de uma solução dada a um (outro) problema. Ela transforma a atualidade inicial em caso particular de uma problemática mais geral, sobre a qual passa a ser colocada a ênfase ontológica. Com isso, a virtualização fluidifica as distinções instituídas, aumenta os graus de liberdade, cria um vazio motor. Se a virtualização fosse apenas a passagem de uma realidade a um conjunto de possíveis, seria desrealizante. Mas ela implica a mesma quantidade de irreversibilidade em seus efeitos, de indeterminação em seu processo e de invenção em seu esforço quanto a atualização. A virtualização é um dos principais vetares da criação de realidade.

Terry Winograd

Terry Winograd mccastro sex, 08/22/2014 - 10:50

Pesquisador em Inteligência Artifical.

WIKIPEDIA: Espanhol, Français, English


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Compreensão da Informática e da Cognição

Compreensão da Informática e da Cognição mccastro sex, 08/22/2014 - 10:53

Excertos de « Compreensão da Informática e da Cognição »

Este es un libro acerca del diseño de la tecnología informática. En él sometemos a los ordenadores y a la informática a estrecha observación tal como existen en nuestros días proponiendo, a partir de aquí, nuevas direcciones para un desarrollo futuro. Sin embargo, el discurso aquí presente, no es el que sería de esperar en un libro de ciencia e ingeniería. Se mueve entre temáticas y objetivos que, aparentemente, se hablan en mundos distintos: la obra es tanto de talante teórico como práctico y está referida a la tecnología informática pero también a la naturaleza de la existencia humana; tiene que ver con la filosofía del lenguaje y con la automatización de oficinas. Pero es más que un estudio de contrastes. Nuestra intención en aglutinar estos elementos diversos, es generar comprensión para permitir que las fisuras aparentes se conviertan en espacios donde se revelen nuevas posibilidades.

Todas las nuevas tecnologías se desarrollan dentro de un marco de comprensión tácita acerca de la naturaleza y del trabajo humano. El uso de la tecnología, por otro lado, genera cambios fundamentales en nuestros modos de hacer y, en última instancia, en lo que concierne a lo humano.

Llegamos al hallazgo de las cuestiones profundas del diseño cuando reconocemos que en las herramientas de diseño lo que hacemos es construir modos de ser.

Confrontando directamente estas cuestiones es posible desarrollar unos nuevos pilares para comprender la tecnología informática, alguna de aquellas que pueda conducir a avances importantes en el diseño y utilización de dichos sistemas.

Cuando comenzamos la colaboración que ha conducido a la aparición del presente libro no teníamos idea de adonde podían llegar nuestras discusiones. Habíamos vivido experiencias muy distintas; hablábamos diferentes lenguajes (literal y metafóricamente) y también habíamos estudiado en campos dispares.

Terry Winograd ha estado implicado activamente a lo largo de muchos años en el mundo investigador de la informática y de la inteligencia artificial en el Massachusetts Institute of Technology, en la Stanford University y en el Xerox Palo Alto Research Center. Su trabajo ha consistido fundamentalmente en el diseño de sistemas (tanto de lenguajes formales como en programas de ordenador), para la representación y el análisis del lenguaje y el conocimiento. Fernando Flores ha tenido experiencia con la organización social y política en los más altos niveles de gobierno, como director de corporaciones públicas, como ministro de economía y ministro de finanzas en el gobierno de Salvador Allende entre 1970 y 1973. Actuó como viabilizador en un proyecto de gran escala para aplicar la teoría cibernética a los problemas prácticos de la gestión (véase Beer, Platform for Change, 1975); está primordialmente interesado en la comprensión de la realidad social que podemos acopiar por medio de la combinación entre teoría y práctica. A pesar de estas diferencias, tuvimos la sensación de compartir muchos aspectos en nuestra percepción del mundo por lo que decidimos entrar en un diálogo para explorar este terreno común.

El diálogo se transformó en material escrito, en un artículo, y éste a su vez acabó evolucionando en un libro; el libro se modeló a través de una serie de borradores cuyo foco ha recorrido una distancia notable desde su origen.

En nuestras lecturas y discusiones nos fuimos dando cuenta de que, aunque nuestros conocimientos formales estaban en campos técnicos de las matemáticas y de la informática, muchas de nuestras intenciones acerca del lenguaje y del pensamiento no eran compatibles con las tradiciones en estas disciplinas. Nos encontramos a nosotros mismos en comunión o acuerdo más estrecho con autores que estaban ya muy alejados del paradigma lógico-matemático y que identificaban sus intereses en la biología, en la hermenéutica o en la fenomenología. Uno de los atractivos iniciales de este trabajo ha sido la comprensión que se proporciona acerca del contexto humano más amplio en donde el estudio de la cognición tiene algún significado. Nos resultó sorprendente que las ideas planteadas eran enormemente relevantes para el trabajo práctico en el que estábamos embarcados: el diseño de sistemas informáticos y de gestión de organizaciones complejas. Las ideas filosóficas de pensadores tales como Heidegger, Gadamer, Maturana y Austin han proporcionado un marco integrado de lo que habíamos aprendido previamente a lo largo de nuestra experiencia práctica.

A medida que el estudio entró en profundidad empezamos a formular nuevas bases teóricas para el diseño de tecnologías. En el esfuerzo para clarificar la naturaleza y el papel de los ordenadores tuvimos que rechazar muchas suposiciones que habíamos aceptado implícitamente durante mucho tiempo y que permanecían incuestionadas en la mayoría de las discusiones especializadas. Hemos tenido que formulamos nuevas cuestiones, las cuales, a su vez, condujeran a observar con mayor cuidado qué es lo que hacen realmente las personas con los ordenadores y qué cosas se podrían hacer mejor.

Los lectores que tengan formación en ciencia y tecnología podrían encontrar poco plausible que las consideraciones filosóficas puedan tener relevancia práctica en su trabajo. Filosofar puede ser una diversión estimulante, pero parece que las teorías relevantes al desarrollo tecnológico son aquellas que pertenecen a las ciencias «duras» y a la ingeniería. Nosotros hemos encontrado justamente lo contrario. Las teorías acerca de la naturaleza de la existencia biológica, del lenguaje y de la naturaleza de las acciones humanas tienen una profunda influencia sobre las formas de nuestra construcción y sobre cómo las utilizamos; consecuentemente hemos destinado una considerable cantidad de tiempo, especialmente en la primera parte del libro, a discutir temas que no aparentan estar relacionados con la informática o los ordenadores pero que resultan indispensables en el proceso de abrir al lector nuevas direcciones y posibilidades acerca de qué hacer con ellos.

En el transcurso del desarrollo de un nuevo entendimiento nos hemos cruzado con cuestiones que tradicionalmente han sido objeto de debate tales como: ¿pueden pensar los ordenadores?, ¿puede un ordenador comprender el lenguaje?, ¿qué es la toma de decisiones racional?

Nos planteamos estas cuestiones no tanto para intentar resolverlas sino más bien para intentar disolverlas. Surgen en el trasfondo de la comprensión acerca del pensamiento y el lenguaje humanos, un trasfondo que necesita en sí mismo ser sometido a examen y revisión. En el límite, no estamos abocados a proporcionar nuevas respuestas a cuestiones acerca de la tecnología tal como se ha formulado tradicionalmente. Miramos hacia nuevos aspectos que pueden conducir al diseño y utilización de máquinas adecuadas para los designios del ser humano.

Nuestro libro va dirigido a una amplia audiencia y no sólo a aquellos que están profesionalmente implicados con la investigación, diseño o producción informática o a aquellos estudiosos o profesores que trabajan en campos afines con la psicología cognitiva, la lingüística o las ciencias de la dirección. Nos dirigimos a cualquiera por igual, al experto o al profano, que tenga un interés serio en comprender qué son los ordenadores realmente y cómo encajan en nuestras vidas.

Aunque hemos dedicado una gran dosis de atención a fundamentos filosóficos, no hemos intentado hacer un libro intelectual. Nuestra intención es conducir al lector a través de algunas de las pistas intelectuales que han modelado nuestra propia comprensión y este proceso es, por necesidad, selectivo.

No intentamos rastrear antecedentes históricos, o acopiar crédito de originalidad o apuntar a muchos otros pensadores que han tratado sobre los mismos tópicos en forma relacionada. De hecho, mucho material que se cita proviene de obras que pretenden dar nota divulgativa, así como artículos que aparecen en la prensa popular. La preocupación respecto a lo que pueden hacer los ordenadores no es un acertijo abstracto sobre el cual asombrarse para divertimiento intelectual sino una acción práctica en el centro de un discurso relevante sobre la sociedad como un todo. La respuesta tal como la entiende el público (incluidos aquellos que toman decisiones políticas y de empresa) es, en última instancia, más significativa que los giros y vueltas de un debate académico. En el trato con la comprensión que se produce en el discurso público sobre la informática podemos alcanzar mejor aquello que hemos propuesto hacer al objeto de revelar la comprensión previa que nosotros y otros aportan a la tecnología informática y, mediante esto, hacer abrir una nueva claridad por la que vislumbrar futuros caminos de diseño.

Da Essência da Informática

Da Essência da Informática mccastro sab, 05/07/2011 - 05:27

Dada a presença crescente da informática em todas as atividades humanas, quando se menciona o termo “informática”, este pode designar muitas coisas. Entre estas, destaca-se a noção de informática enquanto técnica, no caso, “técnica da informação”, ou “tecnologia da informação”, diante do uso abusivo do termo “tecnologia” e sua incorreta assimilação ao termo “técnica”. A questão proposta para reflexão, “a essência da informática”, enquanto técnica ou tecnologia da informação, ao ressaltar o aspecto “técnica”, permite parafrasear Martin Heidegger: “a essência da informática não tem nada de informática”. Deste modo, a questão “o que é a informática?”, não tem como cair no lugar comum das respostas dadas pelas definições da literatura especializada na técnica ou na tecnologia da informação. “O que é a informática?” é a questão que orienta e motiva estas reflexões, que pretendem se dirigir para o não-comum. Eis, portanto, a questão que urge uma resposta incomum. Eis a questão da técnica, posta segundo sua manifestação mais atual, a informática. Eis a questão que exige um enfrentamento difícil com a questão maior: “o que é o homem?”. Eis a questão que aborda a metafísica da Modernidade no “Absoluto Técnico”MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000..

Se dirigindo à Kojima Takehico nos anos 1963-1965, Heidegger escreve: ‘pela presente carta, trata-se unicamente de reconhecer o seguinte fato: que é precisamente o olhar em direção da exploração, quer dizer em direção do próprio da tecnologização do mundo, que mostra um caminho em direção ao próprio do homem, que distingue sua humanidade no sentido da reivindicação que se faz disto através do Ser’. (Milet, 2000, pág. 45; como esta, são minhas todas as traduções de livros que não tenham tradução conhecida em português.)

Primeiros passos...

Primeiros passos... mccastro sab, 05/07/2011 - 05:23

Na obra de Heidegger, o pensar sobre a questão da técnica abre sentidos e desígnios, cujo entendimento pressupõe um “ser capaz” para tal. Para sustentar a “questão da informática” é preciso mais que um saber, é preciso um ser capaz de manter esta questão viva. O desafio da questão não está apenas no entendimento da meditação encaminhada por Heidegger, da essência da técnica enquanto com-posição[fn]Em todo o site, enfatiza-se a brilhante tradução do Prof. Carneiro Leão dos termos baseados no radical “stell”.[/fn] (Ge-stell) e metafísica da Modernidade, mas em ser capaz de enfrentar esta questão diante do próprio predomínio da técnica moderna.

Mas a pergunta nunca chega tarde e atrasada se nos sentirmos propriamente, como aqueles, cujas ações e omissões se acham por toda parte desafiadas e pro-vocadas, ora às claras ora às escondidas, pela com-posição. E sobretudo nunca chega tarde e atrasada a questão se e de que modo nós nos empenhamos no processo em que a própria com-posição vige e vigora. (Heidegger, 1954/2002, pág. 27)

Como diz um provérbio chinês, “uma longa jornada inicia-se com um primeiro passo”. Assim, o primeiro passo dado para compreender e responder a questão “o que é a informática?”, será a investigação da natureza desta técnica, da tecnologia da informação. Dessa natureza cuja vigência[fn]É do verbo "we-sen", viger, que provém o substantivo vigência. Wesen, essência, em sentido verbal de vigência, é o mesmo que "wahren", durar e não apenas no sentido semântico, como também na formação fonológica. Já Sócrates e Platão pensaram a essência de uma coisa, como a vigência, no sentido de duração. (Heidegger, 1954/2002, pág. 33)[/fn] se encontra velada pelo deslumbramento ordinário com seus propalados prodígios.

A questão sobre a essência da técnica vai orientar esta caminhada como um farol indicando a passagem segura, porém a questão sobre a natureza da tecnologia da informação vai ocupar os passos iniciais em sua direção. Natureza entendida no sentido do conjunto de condições originais latentes na informática, emergentes na vigência da tecnologia da informação.

Técnica e Tecnologia

Técnica e Tecnologia mccastro sab, 05/07/2011 - 05:34

Começando então pela identidade e diferença entre técnica e tecnologia, identificam-se dois termos que estranhamente intercambiaram suas noções desde o século XVIII. O termo tecnologia, que originalmente se referia ao “discurso da técnica”, veio indicar o instrumental ou o processo de aplicação deste instrumental em um “fazimento”, enquanto o termo técnica passou a se referir aos procedimentos de realização, no sentido de “tornar real”, e também ao discurso específico sobre estes procedimentos.

Neste último sentido, hoje em dia, usa-se muito o termo técnica, afinado com sua noção original de arte, de savoir-faire ou de “fazimento”. É justamente a técnica sob esta noção de fazimento, que Darcy Ribeiro (1983) cunhou para os fazeres indígenas, que norteia este pensar em direção à técnica mais moderna, a informática. Onde um fazimento original que era, ao mesmo tempo, desencobrimento, se distancia mais e mais do homem, como adverte Heidegger: “Sendo desencobrimento da dis-posição, a técnica moderna não se reduz a um mero fazer do homem” (Heidegger, 1954/2002, pág. 22).

Por outro lado, artefato, dispositivo, instrumento, ferramenta, utensílio são termos cada vez mais presentes no discurso contemporâneo, ganhando uma designação pomposa sob o termo único de tecnologia. Hoje em dia, em qualquer coisa designada por um deles, se reúne não apenas uma técnica, ou procedimento ou fazimento, mas uma coalescência de diferentes técnicas, representantes de diferentes fazimentos, em uma espécie de “discurso prático da técnica”, a tecnologia.

Esse amálgama entre as noções de técnica e de tecnologia é muito bem formulado por François Sigaut, ao apontar diferenças entre estes termos, no prefácio de um livro de ensaios do etnólogo André-Georges Haudricourt:

Se os dois termos podem ser tomados um pelo outro, é porque qualquer um dos dois não tem um sentido bem preciso para nossos contemporâneos. Porque, contrariamente a uma opinião bastante corrente, nossa vida quotidiana é cada vez menos marcada, menos formada e menos estruturada pela técnica. A técnica supõe o contato direto do homem com a natureza, com a matéria. Ora, as máquinas nos dispensam ou nos privam mais e mais deste contato, sem que o ensino geral (do qual as técnicas são excluídas) aporte qualquer compensação. O que cria esta ilusão, é que o capital de saber técnico acumulado em nossa sociedade é hoje em dia infinitamente maior do que jamais foi. Mas a parte de cada um de nós neste capital jamais foi tão desprezível. (apud Séris, 1994, pág. 4, grifo meu)

Informação

Informação mccastro sab, 05/07/2011 - 05:42

Quanto ao qualificador complementar “informação”, na expressão “tecnologia da informação”, temos aí o caso de uma noção que se libertou de seu cadinho semântico medieval ganhando nosso imaginário no final do século XX, envolta em uma nuvem de sentidos, aparentemente claros e óbvios. Justamente esta aparência de clareza de sentido, onde todos creem compartilhar um entendimento óbvio do que é informação, torna-se um dos desafios na investigação filosófica sobre a informática enquanto tecnologia da informação.

O que é informação e o que é informação na expressão “tecnologia da informação”? O sentido medieval de informare guardava a conotação clássica de moldar ou formar a matéria pela ação do artista, mas dirigida então à possível ação humana de aplicar ensinamentos em ou para a formação interior de um indivíduo. Para alguns autores, como Rafael Capurro, esta noção não teria mais o peso de seu significado original no entendimento atual da noção de informação.

Capurro (2003) lembra que foi após a segunda grande guerra que o termo “informação” ganhou presença na linguagem científica fixando sua noção em 1948, através da cibernética de Norbert Wiener (1894-1964) e do trabalho de Claude Shannon (1916-2001) sobre comunicação[fn]É bem verdade que essa questão (a origem da informação) pouco preocupa os cibernéticos, mas isso precisamente porque, desde o começo, pelo menos no que diz respeito a Wiener e aos que o seguem, eles fizeram da informação uma grandeza física, tirando-a do domínio das transmissões de sinais entre humanos. Se todo organismo é cercado de informações, isso acontece porque há organização em toda parte ao seu redor, e essa organização, em razão até de sua diferenciação, contém informação. A informação está na natureza, e a sua existência é, portanto, independente da atividade desses doadores de sentido que são os intérpretes humanos. (Dupuy, 1995, pág. 157)[/fn]. A partir de seu sentido cibernético e informacional-comunicacional, foi elaborado nos anos 1950 pela nascente Ciência da Informação, firmando a noção de “conhecimento comunicado”[fn]A característica mais importante de um organismo vivo é sua abertura ao mundo exterior. Isso significa que ele é dotado de órgão de acoplamento que lhe permite recolher as mensagens do mundo exterior, as quais decidem a sua conduta futura. É instrutivo considerar isto à luz da termodinâmica e da mecânica estatística. (Dupuy, 1995, pág. 151)[/fn].

Ou seja, através da cibernética e da teoria da informação pensou-se encontrar a fórmula de materialização de algo denominado “conhecimento” que pode enfim ser transmitido como informação entre pessoas e máquinas, indiscriminadamente. Como afirmaria Heidegger, uma “dis-ponibilidade do des-encobrimento exploratório” da razão e da memória humanas, pela técnica moderna da informação.

A moderna noção de informação, especialmente na expressão “tecnologia da informação”, refere-se àquilo que se constitui na e pela tecnologia como uma representação digital de entes, atos ou fatos humanos, sob a configuração final de algoritmos operando sobre dados simbólicos. Esta configuração é assim capaz de “in-formar” uma representação do real em pessoas ou em outras tecnologias similares.

Essa representação armazenada nos circuitos eletrônicos de uma tecnologia da informação se constitui a partir da dissolução do objetivado em um conjunto de atributos que o definem como dados numéricos ou categorizados, ou, como se costuma denominar, como dados simbólicos, passíveis de serem operados por algoritmos que completam a re-presentação dos atos ou fatos humanos, objetivados.

Esse sentido de informação, como uma representação constituída artificialmente, é um perigoso simulacro do sentido original de informação. Escamoteia todo esse processo metodológico de apreensão e de dissolução do objetivado em um conjunto de dados simbólicos, que doravante passa a ser o modo de acesso a qualquer ente. Pior ainda, escamoteia também o “meio” imediato onde impera o “método” que faz o visado, o objetivado, dissolver-se e coagular-se em representação, sob a forma de dado simbólico. Este meio é o chamado “meio técnico-científico-informacional” (Santos, 1995), que Heidegger pressentia o predomínio em 1966: “Não vivemos a não ser em condições técnicas” (apud Milet, 2000).

Segundo sua nova versão cibernética e comunicacional, a noção de informação aparenta ser um conceito neutro e simplório daquilo que se dá na relação entre pessoas e máquinas. Juntamente com esta noção, adota-se também o comportamento singular de intercambiar, na referência a pessoas ou máquinas, termos de aplicação exclusiva a seres humanos, como linguagem, memória, cálculo, interpretação, símbolo, etc. Tudo indica que a reificação do humano no “cérebro eletrônico” ou na moderna “inteligência artificial” obedece à busca por um denominador comum, onde aquilo que se dá na interação entre máquinas, a simples troca de mensagens, é este denominador.

Informatização

Informatização mccastro sab, 05/07/2011 - 05:49

Neste percurso de investigação e de reflexões, a leitura de Heidegger, em particular de seu pensar sobre a questão da técnica orienta as primeiras observações sobre a informática enquanto “técnica da informação”. No contraponto com a leitura de Heidegger, busca-se, por outro lado, entender o “dar-se e propor-se da informática” na realização do processo moderno de informatização, ou de “maquinação informacional-comunicacional”; maquinação (Machenschaft) entendida como “o acabamento incondicionado do ser enquanto vontade de poder” (Heidegger, 2000a, pág. 156), como “a absolutização da vontade no interior do espaço de realização da metafísica da técnica e a assunção da instrumentalização como virtude fundamental desta vontade”.

A informatização não é, pois, simples efeito da informática e sua expansão. A informática é que nasceu da informatização. O que está em jogo é um processo totalitário de realização. Neste nível abre-se todo um outro horizonte para se pensar o vigor histórico da informatização em sua essência de poder, tanto para a libertação como para a dominação. É o horizonte da realidade em movimento de realização. Aqui no palco da história, o real se faz espetáculo e demonstra o potencial de suas virtualidades de ser e parecer, de não ser e vir a ser. (Carneiro Leão, 1993, pág. 95)

Meio

Meio mccastro sab, 05/07/2011 - 05:58

Essa realização da informatização, no dar-se e propor-se da informática, sinaliza, mais uma vez, o meio, enquanto um “mundo reduzido” onde este “dar-se” realiza-se, torna-se real. As reflexões de Heidegger sobre “ser-no-mundo”, instrumento, “mundo circundante” e mundanidade, já indicam, de algum modo, este “meio da manualidade informacional”.

As condições de possibilidade do dar-se da informática, no e pelo meio que garante sua manifestação e proliferação, leva a confirmação da ontogenia comum da tecnologia da informação e deste meio técnico-científico-informacional, no processo global da informatização, cujos qualificadores serão adiante elaborados.

Quem reflete sobre este processo reconhecerá logo que a proposta, sempre repetida, da técnica dominada pelo homem procede de um modo de representação que se move apenas nas zonas fronteiriças daquilo que é atualmente. Superficial também é a observação que o homem de hoje em dia se tornou escravo das maquinas e dos aparelhos. Pois é uma coisa fazer tais observações, mas é totalmente outra sobre isto refletir e pesquisar, não somente em que medida o homem de nossa época está submetido à técnica, mas ainda em que medida ele deve se conformar à essência da técnica, em que medida se prenunciam, nesta conformidade, possibilidades mais originais tocando uma existência (Dasein) livre do homem. A construção do mundo pela técnica e a ciência estende suas próprias pretensões até o enquadramento de todas as dis-ponibilidades (Beständ) que em um tal mundo se esforçam por vir a luz. (Heidegger, 1957/1962, pág. 75)

Morfogênese da Tecnologia da Informação

Morfogênese da Tecnologia da Informação mccastro sab, 05/07/2011 - 06:03

Com essa noção de meio, muito própria desta reflexão, devidamente estabelecida, cabe o estudo da informatização agindo como principal catalisador deste meio, orientando em sua ontogenia o engenho de representação no dar-se e propor-se da informática. A informatização reúne e dispõe a “matematização”, a “logicização” e a “industrialização da memória” (Stiegler, 1994 e 1996), na manifestação da tecnologia da informação.

Neste percurso vislumbra-se a morfogênese da tecnologia da informação enquanto fenômeno essencial dos Tempos Modernos. Uma tecnologia cuja natureza se assemelha mais e mais a um “dis-positivo geral de representação”, ou melhor, a um “engenho universal de representação”, em perfeita consonância com a metafísica da Modernidade; definida esta metafísica através de uma acepção do ente e de uma explicação da verdade, peculiar dos Tempos Modernos.

Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aquilo que vale consequentemente recolher e ter diante de si, aspirando assim fixá-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. “Weltbild”, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa, portanto uma ideia de mundo, mas o mundo ele mesmo apreendido como aquilo aquilo do qual se pode “ter ideia”. O ente em sua totalidade é, portanto, tomado agora de tal maneira que só é verdadeiramente e somente ente na medida que é detido e fixado pelo homem na representação e na produção. Com o advento da “Weltbild” se realiza uma intimação decisiva quanto ao ente em sua totalidade. O ser do ente é doravante pesquisado e descoberto no ser-representado do ente. (Heidegger, 1949/1962, pág. 117).

A ultima parte desse estudo analisa, portanto, a questão da representação, como a própria razão de ser da informática, enquanto tecnologia da informação, buscando a possível identidade da essência da técnica moderna com a essência da metafísica moderna, à medida que o “processo fundamental dos Tempos Modernos é a conquista do mundo enquanto imagem concebida”; onde a representação é a pedra de toque capaz de converter o real em objeto informacional-comunicacional.

A "questão da informática"

A "questão da informática" mccastro sab, 05/07/2011 - 06:09

Como afirma Carneiro Leão (1992, pág. 93), “a provocação para pensar que nos traz hoje a avalanche da informática, reside na ambivalência vespertina, concentra-se na ambiguidade transitiva da informatização”. A questão da técnica formulada por Heidegger torna-se hoje a questão da informática. A essência da informática é a Gestell não apenas como vislumbrada por Heidegger na técnica moderna, mas acima de tudo como realidade de nosso cotidiano.

Conceber a sua essência enquanto o que dá à técnica moderna das máquinas a verdade e a necessidade internas; portanto não segundo um conceito (uma representação universal) do fato agora justamente dado que denominamos “técnica”; também não o que pensa na mesma direção, esta “técnica” enquanto fenômeno da “cultura”; pois a “cultura” mesma pertence a essência técnica concebida metafisicamente. Esta é a verdade da subjetividade, subjetividade concebida enquanto entidade do ente.

Consequência desta “técnica” essencial é o matemático das ciências, o “sistema”, a “dialética”.

Portanto também não buscar algo como o “elemento técnico” (de maneira meramente adequada aos aparelhos e ao funcionamento) em meio às ciências, à arte, à política, como se estas ainda fossem além disto propriamente algo diverso. O outro e o próprio é exatamente o “elemento técnico” compreendido metafisicamente, sim histórico-ontologicamente. A “técnica” assim compreendida encontra-se em conexão com a techne que emerge da physis e pressupõe e propaga o encobrimento desta última. (Heidegger, 2000a, pág. 156)

A Questão da Tecnologia da Informação

A Questão da Tecnologia da Informação mccastro sab, 05/07/2011 - 06:30

Foi o filósofo Martin Heidegger quem, em suas densas análises sobre a técnica, elevou-a a sua devida importância como tema filosófico, capaz de oferecer uma direção para justa compreensão do que é o homem. Nele, pela primeira vez, se promove a necessidade de um questionamento da técnica que conduza a uma relação livre, possibilitando abrir o Dasein[fn]Na tradução de Ser e Tempo em português este termo chave foi traduzido por “pre-sença”, como pode ser visto nas citações desta obra. Mas em todo este texto este termo não foi traduzido, preferindo-se sua forma original, Dasein.[/fn] à essência (Wesen) da técnica:

A técnica não é igual à essência da técnica. Quando procuramos a essência de uma árvore, temos de nos aperceber de que aquilo que rege toda árvore, como árvore, não é, em si mesmo, uma árvore que se pudesse encontrar entre as árvores.

Assim também a essência da técnica não é, de forma alguma, nada de técnico. Por isso nunca faremos a experiência de nosso relacionamento com a essência da técnica enquanto concebermos e lidarmos apenas com o que é técnico, enquanto a ele nos moldarmos ou dele nos afastarmos. Haveremos sempre de ficar presos, sem liberdade, à técnica tanto na sua afirmação como na sua negação apaixonada. A maneira mais teimosa, porém, de nos entregarmos à técnica é considerá-la neutra, pois essa concepção, que hoje goza de um favor especial, nos torna inteiramente cegos para a essência da técnica. (Heidegger, 1954/2002, pág. 10)

A questão “o que é a informática?”, enquadrada segundo a questão da técnica proposta por Heidegger, põe de lado tudo que se tem escrito sobre a informática até então. Perseguindo suas indicações, a resposta satisfatória à questão “o que é a informática?”, está na procura desta essência naquilo que rege, que vige em toda tecnologia da informação, enquanto tecnologia da informação. Evidentemente um caminho oposto àquele que segue toda a literatura técnica sobre a informática: meros discursos sobre a funcionalidade, a estrutura ou as aplicações desta tecnologia.

A essência da informática não tem nada de técnico, segundo Heidegger. Portanto, não se chega a lugar nenhum pensando sobre tudo que se tem dito e escrito até hoje sobre a informática. Apenas um questionamento que abra um caminho do pensamento, uma trilha pelo incomum, pode nos preparar esse relacionamento livre com a informática, realizando a experiência de seus limites.

O questionamento trabalha na construção de um caminho. Por isso aconselha-se considerar sobretudo o caminho e não ficar preso às várias sentenças e aos diversos títulos. O caminho é um caminho do pensamento. Todo caminho de pensamento passa, de maneira mais ou menos perceptível e de modo extraordinário, pela linguagem. Questionaremos a técnica e pretendemos com isto preparar um relacionamento livre com a técnica. Livre é o relacionamento capaz de abrir nossa pre-sença à essência da técnica. Se lhe respondermos à essência, poderemos fazer a experiência dos limites de tudo que é técnico. (Heidegger, 1954/2002, pág. 10)

É fato que a informática manipula símbolos, ou, melhor, dados numéricos ou categóricos, referentes a atributos de entes, atos ou fatos, doravante denominados dados simbólicos. É fato que os dados simbólicos representam, ou se presentam em lugar das coisas objetivadas, e são assim passíveis de serem operados pela informática, como um conjunto de atributos destas coisas. É fato que a significação não está no dado simbólico e nem na coisa simbolizada, mas na correspondência dada na representação efetuada. É fato que a formatação destes dados simbólicos em sinais binários permite a aplicação de uma lógica e de um cálculo sobre os mesmos. É fato que na combinatória final, oferecida pela informática, de uma lógica representando a razão humana operando sobre dados simbólicos representando, por sua vez, a memória humana de uma coisa, potencializa-se o poder de cálculo sobre a realidade. Pela constatação destes fatos, que indicam algo da natureza da informática, há uma aproximação de sua essência, mas esta continua sempre velada pelo que tem de teor técnico nos fatos citados.

“A técnica não é igual a essência da técnica”, alerta Heidegger. Mas mesmo diante desta advertência, não há como percorrer as veredas da questão da informática, sem investigar sua natureza, por vezes até cedendo reflexão a sua densidade técnica. No entanto, tendo sempre em vista o que aponta a questão da técnica, na reflexão de Heidegger, é possível sustentar a questão da informática de modo a não perdê-la no “informático”, e desde já antecipar algumas asserções que apontam para sua essência, que serão verificadas ao longo desta investigação:

  • A informática é o computador enquanto tecnologia ou implementação de uma técnica ou fazimento de natureza informacional e, ao mesmo tempo, a informática não é o computador, enquanto implementação deste fazimento que o constitui e institui, pois açambarca e mobiliza muito mais que o computador, ordenando e sendo ordenado pelo meio técnico-científico-informacional, sob a vigência da informatização, onde rege soberana a Ge-stell, a com-posição, a essência da técnica moderna.
  • A informatização, enquanto aplicação da informática, “designa nada mais nada menos do que o modo em que vige e vigora tudo que o desencobrimento explorador atingiu” (ibid, pág. 21) nos Tempos Modernos, no tratamento do ente enquanto “coisa informacional-comunicacional”, configurada no âmbito da razão lógico-matemática como algoritmo computacional e no âmbito da semiologia do real na “industrialização da memória”, como base de dados simbólicos (Stiegler, 1996).
  • A tecnologia da informação, enquanto dis-positivo de representação da razão e da memória humanas, faz eco à metafísica da modernidade, onde técnica e representação são os princípios que configuram uma era, lhe conferindo “uma interpretação determinada do ente e uma acepção determinada da verdade”, segundo Heidegger (1949/1962, pág. 99).
  • O dis-positivo de representação se oferece como um sintetizador de ilusões informacionais e comunicacionais em um “dis-por explorador” da razão e da memória, através do qual se manifestam as modernas aplicações da informática, como modos desta exploração: processamento de texto, planilhas de cálculo, Internet, correio eletrônico, etc.

Sintetizador de Representações

Sintetizador de Representações mccastro sab, 05/07/2011 - 08:35

As sucessivas gerações de computadores, dada sua natureza comum de dis-positivo de representação, tornam assim dis-poníveis novos sintetizadores de ilusões informacionais e comunicacionais, cada vez mais funcionais e eficientes. Sintetizadores dis-postos como estruturas de dados simbólicos que representam a memória humana, tratadas por algoritmos, que representam a razão humana, operando sobre uma base material de circuitos lógicos, formando um “sistema informacional-comunicacional”, com a pretensão de construir e explorar uma representação do mundo, ou de apenas uma parte ou um simples aspecto deste. Isto, é claro, na vigência da informatização que promove uma espécie de desconstrução e reconstrução, deste mesmo mundo, ou parte, ou aspecto do mesmo, sob o modo digital de um modelo dito informacional-comunicacional.

A ilusão (do latim illudere, jogar com) define-se justamente como um erro de tipo particular, devido não à falta de atenção ou de método, mas devido às aparências que abusam de nós mesmos, nos fazendo ver a realidade diferentemente do que ela é. E é assim que sob a aparência de um simples instrumento informacional-comunicacional, a tecnologia da informação joga com um modelo da realidade construído sobre a abstração de dados simbólicos memorizados em meio digital, operados por algoritmos sob a forma de programas de computador, em uma construção artificial que pleiteia apreender qualquer ente pela representação de sua suposta entidade informacional-comunicacional.

A tecnologia da informação enquanto dis-positivo de representação, ou enquanto engenho de representação, emerge nos dias de hoje segundo a metafísica da Modernidade. Este engenho opera[fn]Entendido assim como trazer e levar à vigência, o verbo “operar”, “wirken”, invoca um modo de o real se realizar, de o vigente viger e estar em vigor. Operar é, pois, trazer e levar à vigência, seja que, por si mesmo, algo traga e leve a si mesmo para a sua própria vigência, seja que o homem exerça este trazer e levar. (Heidegger, 1954/2002, pág. 42)[/fn] em plena conformidade com o meio técnico-científico-informacional a partir do qual é constituinte e constituído.

Qual a essência do ser sem abrigo, se ele consiste na objetivação que, ela mesma, reside na auto-imposição deliberada? O lado objetivo do mundo se torna con-stante (ständig) na produção representante. Esta representação presenta. Mas este presente é presente em uma representação que tem o caráter do cálculo. Esta representação não conhece nada de figurativo. Faz falta a intuição possível do aspecto das coisas, a imagem que elas oferecem ao conhecimento sensível imediato. A produção calculante da técnica é um “fazer sem imagem” (Nona Elegia). Diante da imagem visível das coisas, a auto-imposição deliberada e seus projetos colocam a proposição do esquema, que nada mais é que uma ficção calculada. Quando o mundo se funda na objetividade de ficções calculadas, ele é instituído no insensível e no invisível. A constância da objetividade deve sua presença a uma intimação cuja atividade pertence à res cogitans, quer dizer à consciência. A esfera de objetividade dos objetos resta no interior da consciência. O invisível do objetivo resulta da interioridade da imanência da consciência. (Heidegger, 1949/1962, pág. 366)

Essência da técnica e essência da informática

Essência da técnica e essência da informática mccastro sab, 05/07/2011 - 08:44

Heidegger começa seu ensaio sobre a questão da técnica, reconhecendo que a resposta à questão “o que é a técnica?”, já foi aparentemente dada. Ou ela é um meio para certos fins ou uma atividade do homem. Respostas solidárias entre si, pois ditar fins e dispor meios para tais fins, são atos humanos.

A técnica é “fazimento”, como dizia Darcy Ribeiro. A técnica é imanente à vida do ser humano, em seus domínios do ato, do atuar, voltado para ação, e do fato, do fazer, voltado para o labor ou o trabalho. Domínios aceitos, desde a Antiguidade Clássica, como do actum e do factum, e regidos respectivamente pela Prudência (uma das virtudes mais enaltecidas àquela época), e pela Arte ou Técnica (termos originalmente derivados do mesmo termo grego techne).

Estes domínios acabaram submetidos à regência única da essência da técnica moderna. O atuar, respondendo aos ditames das técnicas comportamentais e administrativas, e o fazer, respondendo aos requisitos técnicos industriais, sob o controle das técnicas informacionais-comunicacionais. E os dois, recentemente, apreendidos pela informatização como algoritmos e dados simbólicos nos programas e bases de dados da informática. Nos termos propostos por Heidegger, a técnica moderna sob a regência da informática, é uma teia de “dis-posições e dis-positivos” em cuja trama homem e mundo estão cada vez mais emaranhados, elevando os limites do possível[fn]A lei inaparente da terra a resguarda na suficiência sóbria do nascer e perecer de todas as coisas, no círculo comedido do possível a que tudo segue e ninguém conhece. [...] Só a vontade que, a toda parte, se instala na técnica, esgota a terra até a exaustão, o abuso e a mutação do artificial. A técnica obriga a terra a romper o círculo maduro de sua possibilidade para chegar ao que já não é nem possível e, portanto, nem mesmo impossível. As pretensões e os dispositivos técnicos possibilitaram o êxito de muitas descobertas e inovações. Mas isso não prova, de modo algum, que as conquistas da técnica tenham tornado possível até mesmo o impossível. (Heidegger, 1954/2002, pág. 85)[/fn] muito além do sensível.

Heidegger considera as interpretações da técnica, instrumental (meio para um fim) e antropológica (atividade humana), corretas, mas aquém da verdade, especialmente no tocante à técnica moderna. A técnica artesanal do passado não pode se comparar a uma técnica industrial, e certamente muito menos à técnica informacional-comunicacional.

A determinação instrumental sendo correta, se aplica também à técnica moderna, por mais que se argumente quanto às diferenças entre a técnica artesanal e a técnica industrial. Sendo correta, ela se presta muito bem a orientar o relacionamento justo com a técnica e assim estimular sua adoção disciplinada. Vale aí o lema: "manusear com espírito a técnica de maneira a dominá-la, evitando que escape ao controle do homem”.

Mas, como questiona Heidegger, se a técnica não for um simples meio, se ela não for apenas um instrumento? Como então cogitar em domesticá-la? Embora exata, a concepção instrumental da técnica revela algo de sua essência, no sentido que expressa uma faceta de sua natureza, uma verdade sobre a técnica.

Só a verdade pode estabelecer uma relação livre com aquilo que se remete a partir de sua própria essência, como lembra Heidegger. Mas para chegar à essência é preciso defrontar-se com a aparência, com esta concepção instrumental, investigando seu caráter próprio, e as conotações de meio e fim que acompanham esta concepção.

Informática — instrumento informacional

Informática — instrumento informacional mccastro sab, 05/07/2011 - 08:47

No caso, a informática, enquanto técnica moderna de natureza muito peculiar, por operar com e sobre a razão e a memória humanas, não há como compara-la às técnicas artesanais de cálculo, como o ábaco chinês, e as maquinas de cálculo, como a de Pascal. Estas apenas operam um procedimento de cálculo de modo artificial, mas não mantém apreendido e armazenado para exploração na própria técnica, a razão e a memória humanas, em condição de “diálogo”.

Mas como essa peculiaridade da informática, ou da tecnologia da informação se evidencia? A resposta está no complemento qualificador “da informação” que denota justamente a diferença desta técnica em relação às técnicas denominadas industriais, e às máquinas de cálculo até o século XIX.
A sua ação instrumental se dá em um contexto, sobre um material e segundo uma prática, distintos daqueles associados à técnica industrial ou às máquinas de cálculo. O sentido peculiar do complemento qualificador “da informação” permeia a tecnologia em todos os seus aspectos, como aquilo de que é constituída e sobre a qual opera. A informação é a dis-posição do que é explorado na tecnologia da informação visando um des-encobrimento.

Os circuitos eletro-eletrônicos de sua base material, o algoritmo lógico-matemático de seus programas e as estruturas de dados armazenadas em sua memória perfazem aquilo que o complemento qualificador “da informação” outorga a esta técnica moderna. Assim a informação constitui esta tecnologia “da informação”, e é, ao mesmo tempo, configurada como representação da razão e memória, a ser por ela explorada em sua operação.

Nesta constituição e operação da tecnologia da informação, se dá a nova instituição do fazimento humano projetado agora sobre bases puramente artificiais, sustentando e sustentado pela vigência da informatização. O humano de sua situação tradicional de artesão dominando sua arte, sua técnica, passa a situação de um simples “periférico” necessário à operação da tecnologia.

A técnica moderna, cada vez mais, distancia-se do homem em sua concepção e mesmo em sua operação direta. Donde decorrem as preocupações inúteis por domesticar a técnica e por estabelecer uma relação justa homem-técnica; ambas motivadas pela vontade de ser mestre da técnica que ameaça escapar ao controle.

Enquanto meio para um fim, a informática é algo constituído por informação, onde informação é operada e informação é obtida. Neste ciclo de processamento de informação perde-se a distinção entre meios e fins, no encantamento do instrumento capaz de reproduzir a razão e a memória humanas, na lida com atos e fatos. De qualquer modo, onde fins são perseguidos e meios utilizados, onde instrumentalidade reina soberana, lá domina a causalidade.

As quatro causas aristotélicas

As quatro causas aristotélicas mccastro sab, 05/07/2011 - 08:55

E, em se tratando de causas, segundo Heidegger, a teoria aristotélica das quatro causas é um novo ponto de partida para problematização da técnica, enquanto instrumento. Importa, no entanto, clareza quanto ao sentido do termo “causa”, ao porque da determinação de “quatro” causas, e à univocidade do caráter causal das mesmas, determinando sua solidariedade.

O entendimento ordinário da noção de causa é de algo que “opera”, no sentido de “obter resultados”, “alcançar efeitos”. Segundo Aristóteles, quatro causas “operam” na constituição, por exemplo, de um cálice de prata: a causa materialis, o material empregado, a prata; a causa formalis, a forma dada à matéria, um cálice; a causa finalis, a finalidade que determinou esta conjunção de forma e de matéria, na constituição de um cálice “sacrificial”; e, a causa efficiens, aquela que efetiva o cálice pela arregimentação das demais causas, no caso, o artesão.

Deste modo, a causa efficiens, assume a primazia da causalidade, a ponto mesmo de encobrir a causa finalis. Este sentido predominante de operar, efetuar, da noção causa, não tem, no entanto, nada a ver com o que os gregos denominavam causa: “aquilo que responde por outra coisa”. Segundo Heidegger, as quatro causas aristotélicas seriam os modos, solidários entre si, do “ato do qual se responde”.

A causa materialis e a causa formalis se apresentam como co-responsáveis imediatas pela forma material e tangível do cálice de prata. Porém, cabe à causa finalis a responsabilidade pela definição do sentido do cálice, de sua razão de ser, antes e depois de sua constituição.

Quanto à causa efficiens, Aristóteles indicava para esta causa a responsabilidade pela presença e disponibilidade do cálice constituído, para aquela finalidade. O artesão considera e reúne, a seu modo, as três causas mencionadas no “ato do qual se responde”. O artesão é a causa efficiens, enquanto co-responsável pela revelação do cálice, pela emergência no não-oculto de um cálice configurado de certa matéria e forma, segundo uma determinada finalidade.

Assim, no utensílio, que se dá e propõe no culto, regem e vigem quatro modos de dever e responder. Entre si são diferentes, embora pertençam um ao outro na unidade de uma coerência. O que os une antecipadamente? Em que se joga o jogo de articulação dos quatro modos de responder e dever? De onde provém a unidade das quatro causas? Pensando de maneira grega, o que significa responder e dever? (Heidegger, 1954/2002, pág. 15)

As quatro causas, ou quatro modos, respondem pelo propor-se do cálice sacrificial. “Dar-se e propor-se designam a vigência de algo que está em vigor." (ibid, pág. 15) Deste modo, os quatro modos de responder e dever, de aitia, deixam que algo venha a viger; eles são um deixar-viger, evocando assim a experiência grega de causalidade.

Os quatro modos, deixando chegar à vigência o que ainda não vige, são regidos e atravessados, de maneira uniforme, por uma condução que conduz o vigente a aparecer. Segundo Platão: "Todo deixar-viger o que passa e procede do não-vigente para a vigência é poiesis, é produção" (ibid, pág. 16).

Poiesis e instrumentalidade

Poiesis e instrumentalidade mccastro sab, 05/07/2011 - 09:12

O deixar-viger concerne à vigência daquilo que, na pro-dução e no pro-duzir, chega a aparecer e apresentar-se. A pro-dução conduz do encobrimento para o desencobrimento. Só se dá no sentido próprio de uma pro-dução, enquanto e na medida em que alguma coisa encoberta chega ao des-encobrir-se. Este chegar repousa e oscila no processo que chamamos de desencobrimento. Para tal, os gregos possuíam a palavra aletheia. Os romanos a traduziram por veritas. Nós dizemos "verdade" e a entendemos geralmente como o correto de uma representação. (Heidegger, 1954/2002, pág. 16)

Produção, no sentido grego de poiesis, refere-se à confecção artesanal, ao levar a aparecer artisticamente, e refere-se também ao surgir e elevar-se por si mesmo da physis; onde “o vigente physei tem em si mesmo o eclodir da produção“, que falta à produção artística.

Assim, algo encoberto chega ao des-encoberto na produção, no processo do desencobrimento, da aletheia. Desencobrimento funda produção, que por sua vez recolhe em si, atravessa e rege os quatro modos de deixar-viger a causalidade, à qual pertencem meio e fim, ou seja, instrumentalidade.
Chega-se à instrumentalidade de novo, e, por conseguinte, à técnica, que assim é uma forma de desencobrimento, de re-velação da verdade. O termo técnica, em sua origem grega, diz mais do que o fazer na habilidade artesanal, refere-se também ao fazer na grande arte e nas belas-artes. "A techne pertence à pro-dução, a poiesis, é, portanto, algo poético” (ibid, pág. 17).

Techne e Episteme

Techne e Episteme mccastro sab, 05/07/2011 - 09:16

Até o tempo de Platão techne e episteme ocorrem juntas no sentido mais amplo de conhecimento. “O conhecimento provoca abertura. Abrindo, o conhecimento é um desencobrimento”.

No tocante àquilo que e ao modo em que desencobrem, techne e episteme diferem segundo Aristóteles. A techne “des-encobre o que não se produz a si mesmo e ainda não se dá e propõe, podendo assim apresentar-se e sair, ora num, ora em outro perfil." (ibid, pág. 18)

O des-encobrir da techne recolhe antecipadamente numa unidade o perfil e a matéria de algo a fazer, numa coisa pronta e acabada, determinando daí o modo de elaboração. "É neste desencobrimento e não na elaboração que a techne se constitui e cumpre em uma produção".

A técnica repousa no descobrimento. Se a técnica não se reduz à fabricação, nem aos saberes concernentes à produção e à utilização de instrumentos, é porque a fabricação só é possível na clareira prévia do descobrimento. (...) A produção conduz a coisa à luz da presença, na medida que ela se deixa guiar pelo ser da coisa. (Milet, 2000, pág. 46)

Técnica Moderna — Disposições e Dispositivos

Técnica Moderna — Disposições e Dispositivos mccastro sab, 05/07/2011 - 09:21

E quanto à técnica moderna, vale esse resgate do sentido original grego? Certamente que sim, pois a técnica moderna ainda guarda parte deste sentido. Seria uma falácia, segundo Heidegger, interpretar a técnica moderna como algo de totalmente novo, assentado na moderna ciência exata da natureza. Mesmo a constatação da interdependência entre ciência e técnica, não diz nada "a respeito do fundo e fundamento em que se baseia esta dependência recíproca".

A técnica moderna é também um desencobrimento, que não se desenvolve porém numa pro-dução no sentido de poiesis. "O desencobrimento que rege a técnica moderna é uma exploração que impõe à natureza a pretensão de fornecer energia, capaz de, como tal, ser beneficiada e armazenada" (ibid, pág. 19).

Trata-se de uma nova “posição que dis-põe da natureza”, ou como denominado anteriormente tratam-se de dis-posições e dis-positivos de exploração. "Esta dis-posição, que explora a energia da natureza, cumpre um processamento, numa dupla acepção. Processa à medida que abre e ex-põe." Estabelece-se, portanto, uma cadeia de pré-dis-posições, dis-posições e dis-positivos que percorre um ciclo indefinido de exploração, armazenamento e processamento de tudo que tocam em seu caminho.

"O desencobrimento que domina a técnica moderna, possui, como característica, o pôr, no sentido de explorar." O ciclo percorre a extração, transformação, armazenamento, distribuição, reprocessamento, como modos de desencobrimento. Um desencobrimento assegurado por controle e segurança, marcas indeléveis do desencobrimento explorador.

“Em toda parte, se dis-põe a estar a postos e assim estar a fim de tornar-se e vir a ser dis-ponível para ulterior dis-posição. O dis-ponível tem seu próprio esteio” (ibid, pág. 20). Existe, portanto, uma experiência moderna do desencobrimento: um desencobrimento que provoca a natureza a liberar o que possa ser tratado e acumulado para exploração.

A dis-ponibilidade designa esta categoria, este modo em que vige e vigora tudo que o desencobrimento explorador atingiu. "No sentido da dis-ponibilidade, o que é já não está para nós em frente e defronte, como um objeto."

Segundo Heidegger, cabe aqui uma crítica a Hegel por não pensar a máquina a partir da essência da técnica. "Considerada como disponibilidade a máquina não é absolutamente autônoma e nem se basta a si mesma. Pois tem sua dis-ponibilidade exclusivamente a partir e pelo dis-por do dis-ponível" (ibid, pág. 20).

Dar-se e propor-se da informática

Dar-se e propor-se da informática mccastro sab, 05/07/2011 - 09:24

O dar-se e propor-se da informática caracteriza-se exatamente por um conjunto de dis-posições e dis-positivos que garantem o “dis-por do dis-ponível” enquanto informação, representação da razão e da memória humanas, para sua exploração. Mas o que está sendo posto em dis-ponibilidade para exploração, pela tecnologia da informação? O próprio homem. Sua razão e sua memória passam por dis-posições e dis-positivos que os tratam e processam como informação; armazenam como informação para exploração; e, transmitem e disseminam como informação.

Por outro lado, a produção no dar-se e propor-se da informática não conduz do encobrimento para o desencobrimento. Pelo “deixar-viger” resultante do predomínio das causas material, formal e final na articulação dos modos de responder e dever na tecnologia da informação, fica predeterminada a vigência que chega a aparecer e apresentar-se, nesta produção. Nada chega a “des-encobrir-se” em uma produção regida pela tecnologia da informação, onde o que é “possível” está nela programado, segundo circuitos lógicos, algoritmos e estruturas de dados. Do resultado dessa produção só se pode aferir o correto da produção, mas jamais “abrir ao chegar do des-encobrir-se”.

Aplicação da informática — Dis-ponibilidade para exploração

Aplicação da informática — Dis-ponibilidade para exploração mccastro sab, 05/07/2011 - 09:54

Evidentemente existem aplicações e aplicações das tecnologias da informação. Existem aquelas mais comuns em que ela sintetiza a ilusão de se estar datilografando um texto com uma máquina de escrever, como no uso de programas ditos de “processamento de texto”. E, existem aquelas que vão mais longe nesta síntese, dando, por exemplo, a ilusão de visualização completa de uma área da superfície terrestre, dada por uma imagem de satélite, e permitindo a análise de tudo que se apresenta nesta imagem através de inúmeras funções de detecção e identificação, orientando e discriminando o que se apresenta sobre esta visualização.

Na primeira, substitui-se o instrumento de escrita, de um simples papel e lápis, ou de uma máquina de escrever, por um computador. A troca do instrumento de escrita não afeta em nada a liberdade de criação de um discurso escrito. Entretanto, pelo armazenamento digital do texto, ganha-se o poder de tratamento e processamento do texto de diferentes maneiras, além da capacidade de transmissão e disseminação. O texto digital passado pelas dis-posições e dis-positivos neste dar-se da informática, está pronto para exploração, segundo as mais diferentes formas de análise de discurso que a razão tenha concebido e a informática tenha implementado como programa de computador.

Na segunda aplicação, dada a maior funcionalidade do programa de computador, implementando a racionalidade de tratamento de imagens de satélite, pouco resta de liberdade ao utilizador, à medida que a tecnologia da informação na base deste dar-se e propor-se da informática está pronta a conduzir e até mesmo determinar todo este dar-se e propor-se. O utilizador é quase um mero acessório periférico do dis-positivo de representação respondendo a cada momento os comandos que este determina para seu uso.

Cabe lembrar que, nesta aplicação, as imagens de satélite já foram obtidas em formato digital, após sua captura e tratamento por outros conjuntos de dis-posições e dis-positivos que garantem sua futura exploração, como imagens da Terra. A dis-ponibilidade para exploração caracteriza-se assim como típica de qualquer dar-se e propor-se da informática, pois é imanente a natureza da tecnologia da informação.

O desencobrimento já se deu, em sua propriedade, todas as vezes que o homem se sente chamado a acontecer em modos próprios de desencobrimento. Por isso, des-vendando o real, vigente com seu modo de estar no desencobrimento, o homem não faz senão responder ao apelo do desencobrimento, mesmo que seja para contradizê-lo. Quando, portanto, nas pesquisas e investigações, o homem corre atrás da natureza, considerando-a um setor de sua representação, ele já se encontra comprometido com uma forma de desencobrimento. Trata-se da forma de desencobrimento da técnica que o desafia a explorar a natureza, tomando-a por objeto de pesquisa até que o objeto desapareça no não-objeto da dis-ponibilidade. (Heidegger, 1954/2002, pág. 22)

Informação — Dis-posições para exploração

Informação — Dis-posições para exploração mccastro sab, 05/07/2011 - 10:04

Aparentemente, é a simples informação o que se explora de modo a ser beneficiado e armazenado no dar-se e propor-se da informática. Mas, enfim, o que é a informação? Uma representação, como foi visto. A informação enquanto forma representacional de tudo e qualquer coisa sobre o qual se aplica a informática é aquilo que é capaz de ser explorado. O modelo informacional-comunicacional (descrito adiante) sob o qual se representa o ente, seja este um ato ou um fato, é “processado” no dar-se e propor-se da informática, ou seja, é beneficiado e armazenado como informação ou como representação para exploração.

Como já dito e como será desenvolvido mais adiante, a informação dis-posta para exploração, é o resultado da dis-posição daquilo que a razão e a memória humanas tem de codificável em lógica e símbolos, na sua atuação objetivante dos atos e fatos. Nesta dis-ponibilidade é o próprio homem que está sendo posto para exploração, sua razão e sua memória.

“O desencobrimento que domina a técnica moderna, possui, como característica, o pôr, no sentido de explorar” (ibid, pág. 20). Mesmo na aplicação mais simples da informática, em que ela “se dá e se propõe” como uma maquina de escrever, o texto produzido é beneficiado e armazenado sob a forma digital de um modelo informacional-comunicacional, uma representação do texto que pode assim “ser explorada” de diferentes modos. O poder de exploração destas representações cresce dramaticamente com a potencialização das tecnologias da informação e da comunicação e a expansão das redes que integram estas tecnologias numa “teia” (web) que tudo apreende e metaboliza em informação.

A dis-ponibilidade da informática atual é quase absoluta. A tecnologia como dis-positivo de representação permeia todas as atividades humanas. Sob sua regência a informação e a comunicação ganham um aspecto ímpar na sociedade moderna. A ponto de Lucien Sfez (1994) ficar em dúvida se, uma sociedade que valoriza tanto a informação e a comunicação, possa ser capaz de se informar e se comunicar.

Mas é preciso cuidado ao se enveredar por este tipo de determinismo tecnológico, afinal onde está o homem diante da técnica moderna?

Quem realiza a exploração que des-encobre o chamado real, como dis-ponibilidade? Evidentemente, o homem. Em que medida o homem tem este des-encobrir em seu poder? O homem pode, certamente, representar, elaborar ou realizar qualquer coisa, desta ou daquela maneira. O homem não tem, contudo, em seu poder o desencobrimento em que o real cada vez se mostra ou se retrai e se esconde. (Heidegger, 1954/2002, pág. 21)

No entanto, na dis-ponibilidade da informática, o desencobrimento é no mais das vezes “o eterno retorno do mesmo”, pois como afirma Heidegger (ibid, pág. 63), a essência da técnica moderna é o retorno do mesmo em uma rotação contínua que escapa ao controle do homem, mas não a sua aquiescência: “Em toda parte, o modo cunhado pela metafísica de o homem representar em proposições apenas encontra o mundo construído pela metafísica”. A representação do ente sob a forma digital do modelo informacional-comunicacional determina de tal modo o dar-se e propor-se da informática, em diferentes tipos de aplicações, que não há a possibilidade do “abrir ao chegar do desencobrir-se”, como foi dito.

Um exemplo pode esclarecer. Uma aplicação de ponta da informática é o chamado Sistema de Informação Geográfico. Mapas digitais e dados estatísticos se configuram na forma digital de um modelo informacional, para a exploração. Tanto mapas digitais como dados estatísticos se apresentam como dis-ponibilidades alcançadas por aplicações anteriores da tecno-ciência moderna. Originalmente beneficiadas e armazenadas sob a forma de um modelo informacional-comunicacional estas representações são apenas trans-formadas em um novo modelo mais adequado à exploração, por este novo tipo de sistema. Considerando o uso ostensivo deste sistema sobre esta base comum, de mapas e dados, esta nova exploração só faz se reproduzir em cada situação de aplicação do Sistema de Informação Geográfico.

Dis-posição e Com-posição

Dis-posição e Com-posição mccastro sab, 05/07/2011 - 10:20

Cabe então a pergunta: em que sentido este dis-por da tecnologia da informação, a partir de uma dis-ponibilidade da razão e da memória humanas, para sua exploração, pode ser entendido como um desencobrimento? No sentido que ele obedece a uma injunção, a com-posição[fn]Sendo desencobrimento da dis-posição, a técnica moderna não se reduz a um mero fazer do homem. Por isso, temos de encarar, em sua propriedade, o desafio que põe o homem a dis-por do real, como dis-ponibilidade. Este desafio tem o poder de levar o homem a recolher-se à dis-posição. Está em causa o poder que o leva a dis-por do real, como dis-ponibilidade.
Chamamos de cordilheira (Gebirg) a força de reunião que desdobra, originariamente, os montes num mar de morros e atravessa o conjunto de suas dobras.
Chamamos de ânimo (Gemüt) a força originária de reunião, donde se desprendem os modos em que nos sentimos de bom e de mau humor, neste ou naquele estado de alma.
Chamamos aqui de com-posição (Ge-stell) o apelo de exploração que reúne o homem a dis-por do que se des-encobre como dis-ponibilidade. (Heidegger, 1954/2002, pág. 23)[/fn]. Como muito bem afirma Milet (2000, pág. 46): “A com-posição é o traço fundamental da relação à pre-sença – portanto ao desencobrimento – que dis-põe a natureza como calculável. Característica da ciência moderna, tal atitude põe em obra, através da técnica, a representação matemática da natureza”.

O homem é desafiado, o homem é apelado a des-encobrir o real no modo da dis-posição, como dis-ponibilidade, pela com-posição, que atua soberana como uma “força de reunião daquele por que põe”.

A com-posição é o tipo de des-encobrimento que rege a técnica moderna, mas que não é nada técnico. Na com-posição encontram-se o "pôr" da exploração e o "pôr" da poiesis que faz o real vigente emergir para o desencobrimento. Apesar da essência comum, como modos de desencobrimento, modos de verdade, a diferença está, na técnica moderna, no des-encobrimento do real como dis-ponibilidade, no “dis-por explorador”. A abordagem da técnica moderna pelos lados instrumental ou antropológico, só faz sentido ao reconhecer-se esta dimensão imanente de desencobrimento do real como dis-ponibilidade.

Na própria acometividade das ciências modernas da natureza a seu objeto de estudo, o seu modo de representação encara a natureza, como um sistema operativo e calculável de forças. A declarada "experimentação" destas ciências já se manifesta na condição de retratar seu "objeto de estudo" como um sistema de forças que se pode operar previamente, dispondo-o para testes e experimentos.

Do mesmo modo, este sistema de forças pode ser modelado e implementado como um sistema de informações[fn]Se a física moderna tem de contentar-se, de maneira crescente, com o caráter imperceptível de suas representações, esta renúncia ao concreto da percepção sensível não é decisão de nenhuma comissão de cientistas. É uma imposição da regência da com-posição que exige a possibilidade de se dis-por da natureza, como dis-ponibilidade. Por isso, apesar de ter abandonado a representação de objetos que, até há pouco, era o único procedimento decisivo, a física moderna nunca poderá renunciar à necessidade de a natureza fornecer dados, que se possa calcular, e de continuar sendo um sistema disponível de informações. (Heidegger, 1954/2002, pág. 26, grifo meu)[/fn] sobre a tecnologia da informação, possibilitando análises e simulações sobre o objeto de estudo científico. A informática revela a essência da técnica moderna, a Ge-stell, em toda a vigência e vigor de seu dar-se e propor-se.

A essência da técnica moderna mostra-se assim explicitamente no dar-se e propor-se da informática, onde a com-posição é mais que um apelo, é um imperativo. O homem é de tal modo absorvido neste dar-se e propor-se, que se torna mais uma dis-posição e um dis-positivo da própria tecnologia, enquanto dis-positivo de representação.

Na essência da informática, a com-posição não se encontra na montagem dos equipamentos e programas em um engenho, mas no modo como a razão e a memória humanas se des-encobrem como dis-ponibilidade, como passíveis de tratamento, armazenamento e exploração. Este modo de des-encobrimento não se dá fora de toda ação humana, mas também “não acontece apenas no homem e nem decisivamente pelo homem”.

Com-posição — Destino

Com-posição — Destino mccastro sab, 05/07/2011 - 10:25

O homem encontra-se seduzido e tentado pela tecnologia da informação, por sua engenhosidade representacional, por suas imensas possibilidades de exploração do resultado da codificação de sua razão e de sua memória, assim como da razão e da memória coletiva. “Assim desafiado e provocado o homem se acha imerso na essência da com-posição”. É seu destino, mas não sua fatalidade[fn]A essência da técnica moderna repousa na com-posição. A com-posição pertence ao destino do desencobrimento. Estas afirmações dizem algo muito diferente do que a frase tantas vezes repetida: a técnica é a fatalidade de nossa época, onde fatalidade significa o inevitável de um processo inexorável e incontornável. (Heidegger, 1954/2002, pág. 28)[/fn].

No auge da técnica moderna, onde a tecnologia da informação se manifesta como forma concreta da metafísica da Modernidade, permeando todas as atividades humanas, o perigo é grande. Onde a essência da técnica moderna, a com-posição, revela-se no dar-se e propor-se da informática, o perigo é intenso. Como sempre, abrem-se caminhos, possibilidades diante de um perigo iminente, à medida de uma autêntica aquiescência do que reina soberano.

Uma possibilidade é seguir o curso ditado pela essência da técnica, à qual o homem não apenas responde, mas “se com-põe”. A outra seria o esforço por despertar de sua sonolência, emaranhado em tantas dis-posições e dis-positivos, e buscar a “essência do que se des-encobre e seu desencobrimento, com a finalidade de assumir, como sua própria essência, a pertença encarecida ao desencobrimento” (ibid, pág. 29).

Do mesmo modo, em que a natureza, expondo-se, como um sistema operativo e calculável de forças pode proporcionar constatações corretas mas é justamente por tais resultados que o desencobrimento pode tornar-se o perigo de o verdadeiro se retirar do correto.

O destino do desencobrimento não é, em si mesmo, um perigo qualquer, mas o perigo.

Se, porém, o destino impera segundo o modo da com-posição, ele se torna o maior perigo, o perigo que se anuncia em duas frentes. Quando o descoberto já não atinge o homem, como objeto, mas exclusivamente, como disponibilidade, quando, no domínio do não-objeto, o homem se reduz apenas a dis-por da dis-ponibilidade - então é que chegou à última beira do precipício, lá onde ele mesmo só se toma por dis-ponibilidade. E é justamente este homem assim ameaçado que se alardeia na figura de senhor da terra. Cresce a aparência de que tudo que nos vem ao encontro só existe à medida que é um feito do homem. Esta aparência faz prosperar uma derradeira ilusão, segundo a qual, em toda parte, o homem só se encontra consigo mesmo. Heisenberg mostrou, com toda razão, que é assim mesmo que o real deve apresentar-se ao homem moderno. Entretanto, hoje em dia, na verdade, o homem já não se encontra em parte alguma, consigo mesmo, isto é, com a sua essência. O homem está tão decididamente empenhado na busca do que a com-posição pro-voca e ex-plora, que já não a toma, como um apelo, e nem se sente atingido pela ex-ploração. Com isto não escuta nada que faça sua essência ex-sistir no espaço de um apelo e por isso nunca pode encontrar-se, apenas, consigo mesmo. (Heidegger, 1954/2002, pág. 30)

Outro exemplo pode ilustrar sobejamente esta reflexão. No uso de um Sistema de Informação Geográfico, como o indicado anteriormente, para análise de imagens de satélite, o homem cria a ilusão de uma perspectiva de “lugar algum” (de um deus?) de onde visualiza as imagens da Terra. Um lugar definido segundo os parâmetros do espaço e do tempo[fn]Embora na sua expansão como parâmetro espaço e tempo jamais admitam o encontro face a face de seus elementos, é precisamente quando espaço e tempo predominam como parâmetros para toda representação, produção e recomendação, ou seja, como parâmetros do mundo da técnica moderna, que eles alcançam de forma extraordinária o prevalecer da proximidade, ou seja, a proximitude dos campos do mundo. Quando tudo se dispõe em intervalos calculados e justamente em virtude da calculação ilimitada de tudo, a falta de distância se espraia e isso sob a forma de uma recusa da proximidade de uma vizinhança dos campos do mundo. Na falta de distância, tudo se torna indiferente em consequência da vontade de asseguramento e apoderamento uniforme e calculador da totalidade da terra. A luta pela dominação da terra entrou em sua fase decisiva. A exploração total da terra mediante o asseguramento de sua dominação só se instaura quando se conquista fora da terra a posição extrema para o seu controle. A luta por essa posição consiste no cálculo constante onde todas as referências entre todas as coisas se converte na ausência calculável de distância. Isso constitui a desertificação do en-contro face a face dos quatro campos de mundo, a recusa de proximidade. Nessa luta pela dominação da terra, espaço e tempo alcançam seu predomínio máximo enquanto parâmetros. Todavia, o seu poder irrefreado só é possível porque espaço e tempo já e ainda são outra coisa do que os bem conhecidos parâmetros. 0 caráter de parâmetro oblitera a essência do espaço e do tempo. 0 parâmetro encobre sobretudo a relação de sua essência com a essência vigorosa da proximidade. Mesmo sendo relações tão simples, elas se mantêm inacessíveis para o pensamento calculador. Onde elas se mostram, os hábitos representacionais impedem a sua visão. (Heidegger, 1959/2003, pág. 168)[/fn], mas infinitamente distante das proximidades e vizinhanças onde o homem habita.

Nesta posição, o homem é levado pela tecnologia a uma dis-posição privilegiada para fazer diferentes juízos sobre o que vê; juízos estes determinados pela imagem do ente, ou melhor, pela ilusão geográfica, que lhe é dada pelo dis-positivo de representação. A Terra se reduz a uma imagem artificial analisada e operada por um engenho de representação que tem entres suas dis-posições e seus dis-positivos um ser humano “conectado”, que vive intensamente a quimera de ter alcançado a situação de “mestre e senhor da natureza”.

Mas como muito bem afirma Heidegger, não são “as máquinas e equipamentos técnicos, cuja ação pode ser mortífera”. A tecnologia da informação, ou mesmo qualquer sistema construído sobre ela não são um problema, mas sim o “mistério de sua essência”, à qual o homem faz questão de ignorar, vetando um desencobrimento mais originário. Abandona a experiência de uma verdade mais inaugural, em prol da exatidão da imagem do ente oferecida pela tecnologia, em prol da ilusão do virtual.

Desvelamento

Desvelamento mccastro sab, 05/07/2011 - 12:04

Dado que a verdade, aletheia, é o domínio comum dos modos de desvelamento seja da poiesis, seja da Ge-stell, seja da produção seja da com-posição, o homem não saberia desvelar aquilo que é sem aí ter sido previamente convocado. Nenhum desvelamento se dá se não aquele originário da co-pertinência do homem ao des-encobrimento em si, que deste modo o põe a caminho[fn]A essência da técnica moderna põe o homem a caminho do des-encobrimento que sempre conduz o real, de maneira mais ou menos perceptível, à dis-ponibilidade. Pôr a caminho significa: destinar. Por isso, denominamos de destino a força de reunião encaminhadora, que põe o homem a caminho de um desencobrimento. É pelo destino que se determina a essência de toda história. (Heidegger, 1954/2002, pág. 27)[/fn] para o lugar de seu desvelamento. E se “o desencobrimento do que é e está sendo segue sempre um caminho de desencobrimento” (ibid, pág. 27), como alcança-lo sem estar já em seu movimento?

Cada modo de desvelamento, a produção ou a com-posição, é um pôr a caminho do destino pelo qual o homem é regido, posto que este “encaminhamento” responde ao apelo da verdade do ser donde o homem tem seu ser. Mas não se trata de uma fatalidade nem de uma imposição, ou do determinismo tecnológico tão afirmado hoje em dia. Trata-se daquilo que mais se aparenta com a liberdade, dado seu parentesco íntimo com o des-velar que vela, ou o re-velar que vela. “Todo desencobrimento pertence a um abrigar e esconder. Ora, o que liberta é o mistério, um encoberto que sempre se encobre, mesmo quando se desencobre” (ibid, pág. 28).

A essência da técnica como destino de des-velamento, seja na produção seja na composição, ex-põe o homem a um constante risco. Maior ainda na época da técnica moderna, quando o ser do ente se destina sob o modo do Ge-stell, da composição. Ao des-velar o ente como objeto, o homem des-vela-se como sujeito e assim se diferencia e se distancia do ser do ente, enquanto se aproxima de sua entidade, para dis-ponibiliza-la para exploração.

Técnica e Informática — Risco e Salvação

Técnica e Informática — Risco e Salvação mccastro sab, 05/07/2011 - 13:29

A maneira pela qual o homem é posto em risco é a objetivação. A objetivação leva o homem ao centro da abertura o expondo. A exposição engaja o homem de tal modo que ele vai com o risco. O risco é então para o homem, ao mesmo tempo, vontade e representação. Representação, à medida que o homem pertence à percepção de tal modo que o ente lhe faz face e o remete à si mesmo. Vontade, à medida que ir com o risco é querer (Milet, 2000, pág. 91).

A vontade está já engajada com a percepção. Perceber é querer. A vontade abre o horizonte no qual se realiza a objetivação. O fenômeno da objetivação é a técnica. A objetivação enquanto desdobrar da vontade constitui a essência da técnica. Ou ainda, o risco, enquanto se determina como objetivação constitui a essência da técnica. “Pela representação humana, a natureza é conduzida a comparecer diante do homem. O homem põe diante de si o mundo como objetivo por inteiro, e se põe diante do mundo. O homem dispõe o mundo sobre ele, e ele se produz para si mesmo a natureza” (Heidegger, 1949/1962, pág. 345).

A com-posição não põe, contudo, em perigo apenas o homem em sua relação consigo mesmo e com tudo que é e está sendo. Como destino, a com-posição remete ao desencobrimento do tipo da dis-posição. Onde esta domina, afasta-se qualquer outra possibilidade de desencobrimento. A com-posição encobre, sobretudo, o desencobrimento, que, no sentido da poiesis, deixa o real emergir para aparecer em seu ser. Ao invés, o pôr da ex-ploração impele à referência contrária com o que é e está sendo. Onde reina a com-posição, é o direcionamento e asseguramento da dis-ponibilidade que marcam todo o desencobrimento. Já não deixam surgir e aparecer o desencobrimento em si mesmo, traço essencial da dis-ponibilidade.

Assim, pois, a com-posição provocadora da ex-ploração não encobre apenas um modo anterior de desencobrimento, a pro-dução, mas também o próprio desencobrimento, como tal, e, com ele, o espaço, onde acontece, em sua propriedade o desencobrimento, isto é, a verdade. (Heidegger, 1954/2002, pág. 30)

"Ora, onde mora o perigo é lá que também cresce o que salva", conforme a citação de Holderlin dada por Heidegger. No risco supremo, quando se instala a aparência de que tudo é man made, onde paira a ilusão de “encontrar-se apenas consigo”, o homem errante na zona de perigo extremo pode abrir-se a uma aquiescência tal que permita reconhecer e redimir sua errância.

A tecnologia da informação faz do homem mestre e senhor de uma representação, explorando a razão e a memória humanas, na constituição desta representação, impondo à própria natureza humana a engenhosa pretensão de fornecer a si mesma, para processamento e armazenamento. A mimese de razão e memória neste dis-positivo de representação, está em dis-ponibilidade para exploração, como modo em que vige e vigora tudo o que o desencobrimento explorador atingiu até aqui sobre a natureza humana.

Hoje em dia, a escrita, a pesquisa, o diálogo, o estudo, entre outras atividades do homem, podem ser sustentadas pela tecnologia da informação, à vontade. Ou seja, em qualquer canto que haja um dis-positivo informacional-comunicacional, a vontade está assegurada de si mesma, tornou-se seu próprio objeto.

O fundamento e o âmbito essencial da técnica moderna é essa vontade, que em toda intenção e apreensão, em tudo o que se quer e alcança, sempre quer somente a si mesma, e a si mesma armada com a possibilidade sempre crescente de poder-querer-a-si. A técnica é a organização e o órgão da vontade de vontade. Os grupos humanos, os povos e nações, os grupos e indivíduos não passam, em toda parte, de queridos dessa vontade, e não sua origem e seus senhores, mas são quase tão-somente cumpridores de má vontade. (Heidegger, 1994/1998, pág. 205)

Cabe então retomar a reflexão sobre a com-posição enquanto essência da técnica para ir onde cresce a salvação, no próprio perigo que ela ex-põe.

Até agora pensamos a palavra "essência" no sentido comum. Na linguagem da escola, "essência" diz aquilo que alguma coisa é, em latim, quid. A quidditas, a quididade, responde à pergunta pela essência de alguma coisa. O que, por exemplo, convém e pertence a todas as espécies de árvores; carvalho, faia, bétula, pinheiro, é uma mesma arborescência, o mesmo ser-árvore. As árvores reais e possíveis caem todas sob esta arborescência, como seu gênero comum, o "universal", no sentido de genérico. Será, então, que a com-posição, a essência da técnica, constitui o gênero comum de tudo que é técnico? Se fosse assim, a turbina a vapor, o transmissor de rádio, o ciclotrônio seriam uma com-posição! Ora, o termo, "com-posição", não diz, aqui, um equipamento ou qualquer tipo de aparelho. Diz, ainda menos, o conceito genérico destas dis-ponibilidades. As máquinas e aparelhos são tampouco casos e espécies de com-posição, como o operador na mesa de controle ou o engenheiro no escritório de planejamento. Tudo isto, sendo peças, dis-ponibilidades e operadores de dispositivos, pertence, cada qual à sua maneira, à com-posição, mas esta, a com-posição, nunca é a essência da técnica, entendida, como um gênero. A com-posição é um modo destinado de desencobrimento, a saber, o desencobrimento da exploração e do desafio. Um e outro modo destinado é o desencobrimento da pro-dução, da poiesis. Esses modos não são, porém, espécies que, justapostas, fossem subsumidas no conceito de desencobrimento. O descobrimento é o destino que, cada vez, de chofre e inexplicável para o pensamento, se parte, ora num des-encobrir-se pro-dutor ora num des-encobrir-se ex-plorador e, assim, se reparte ao homem. O de-sencobrimento ex-plorador tem a proveniência de seu envio no des-cobrimento pro-dutor, ao mesmo tempo em que a com-posição de-põe num envio do destino a poiesis.

Assim, a com-posição se torna a essência da técnica, por ser destino de um desencobrimento, nunca, porém, por ser essência, no sentido de gênero e essentia. Se levarmos em conta essa conjuntura, algo de espantoso nos atinge: a própria técnica exige de nós pensar o que, em geral, se chama de "essência", num outro sentido. Mas em qual? (Heidegger, 1954/2002, pág. 32)

A essência tem que ser pensada como vigência no sentido de duração. E este duradouro, no pensamento originário grego, deve ser entendido como o que perdura, o que permanece em tudo o que ocorre e se dá. Para Heidegger deve-se inserir uma outra conotação, a de “continuar a conceder”, que justamente permite re-encontrar a essência da técnica na com-posição como destino reunindo perigo e salvação, ao mesmo tempo, para o homem.

A ambiguidade de perigo e salvação na essência da técnica requer uma postura justa diante do desencobrimento sob a égide da com-posição, para que não seja a dis-ponibilidade para exploração o único resultado alcançado. O fascínio pelo des-encobrimento promovido pela tecnologia da informação não pode e não deve ofuscar a ação salvadora da com-posição, no exercício de um ver além das dis-posições e dos dis-positivos em direção à verdade que se deixa re-velar. É preciso não se satisfazer apenas com o que se apresenta pelo brilho da tela do computador, mas se empenhar em ver também a verdade desencoberta pela poiesis.

Por esta razão, Heidegger encerra sua “questão da técnica” com um convite. Resgatar um dos sentidos originais do termo techne, arte, Neste sentido, acha-se a possibilidade de um reencontro com a poiesis, o poético. “Outrora, chamava-se também de techne o desencobrimento que levava a verdade a fulgurar em seu próprio brilho” (ibid, pág. 36).

Não sendo nada de técnico a essência da técnica, a consideração essencial do sentido da técnica e a discussão decisiva com ela têm de dar-se num espaço que, de um lado, seja consanguíneo da essência da técnica e, de outro, lhe seja fundamentalmente estranho.

A arte nos proporciona um espaço assim. Mas somente se a consideração do sentido da arte não se fechar à constelação da verdade, que nós estamos a questionar. (Heidegger, 1954/2002, pág. 37).

Neste sentido as novas tecnologias da informação e da comunicação devem ser repensadas como objetos de arte. Sua natureza de engenho de representação deve ser reavaliada segundo princípios de uma arte há muito tempo denegrida, a retórica. Um engenho de representação informacional-comunicacional, desenhado segundo esta arte da expressão efetiva de teses, não deveria se preocupar tanto com a produção de efeitos, ou com a simples reprodução de verossimilhanças imaginárias. Sua possibilidade de re-velar a verdade, reconhecida sua identidade enquanto plena expressão da essência da técnica moderna, a com-posição, vai depender de que modo esta arte do passado, a retórica, será apropriada no dar-se e propor-se da informática.

Mas esta é uma outra história... O fundamental, o urgente, diante da iminente expressão informacional-comunicacional, da essência da técnica moderna, é de se enfrentar a questão da informática, indo além de sua funcionalidade, estrutura tecnológica, e aplicação, e de desvendar mistério da informatização além das transformações políticas, econômicas, sociais e culturais, que fomentam tanta fascinação e polêmica.

É preciso reconhecer que a questão da informática abre o homem à revelação contundente da essência da técnica, da Ge-stell. A questão da informática propicia, de modo até então velado pela técnica industrial, ver o perigo do domínio da técnica, em toda sua plenitude, e desta aquiescência, perceber o crescimento do que salva.

A Informática e seu Meio

A Informática e seu Meio mccastro sab, 05/07/2011 - 20:41

Na análise do pensamento de Heidegger sobre a questão da técnica, a referência à técnica moderna parece indicar três sentidos correlacionados entre si: primeiro, tecnologias, dispositivos, sistemas e processos produtivos usualmente associados com o “industrialismo”; segundo, a visão de mundo racionalista, científica, utilitarista, antropocêntrica e secular usualmente associada com a “modernidade”; e, terceiro, o atual modo de compreensão e desencobrimento que torna possível tanto os processos de produção contemporâneos, a poiesis moderna, como a visão de mundo moderna que a sustenta (Zimmerman, 1990).

Sustentando a reflexão sobre o terceiro sentido, Heidegger entende que o primeiro e o segundo sentidos são de fato sintomas do modo contemporâneo de se acercar das coisas como dis-posições e dis-positivos; um modo de compreensão que assim as des-encobrem para exploração. Este des-encobrimento unidimensional das coisas como recursos, não resulta apenas de uma decisão humana, mas de desdobramentos dentro de uma “história do ser” no pensamento ocidental, a investigar.

O atual estágio tecnológico desta história transformou de tal maneira como as coisas são vistas e compreendidas que faz sentido falar e pensar em um meio que coopta pessoas a operar com tecnologias, segundo a ordem e a visão de homem e de mundo que, do próprio meio, emerge e domina.

Ao refletir sobre a questão da técnica Heidegger conduz, por um longo e árduo processo de pensar sua essência, desvendando as condições necessárias dessa experiência unidimensional das coisas como dis-posições e dis-positivos. No reconhecimento da com-posição no fundamento do que é a técnica, pensada desde sua origem grega, espera-se alcançar a possibilidade de uma redenção, na confrontação com o perigo e a salvação, imanentes à essência da técnica.

Heidegger parece sustentar que as atividades humanas não são de uma maneira geral referentes ou originárias de um indivíduo em si mesmo, mas sim guiadas e configuradas por um jogo histórico de linguagem e conceitos fora do controle individual. Este jogo define as categorias que configuram as possibilidades da ação humana, do conhecimento e da crença, em épocas históricas determinadas. Estes movimentos conceituais e ontológicos que se manifestam em diferentes épocas históricas, parecem indicar, por sua vez, meios onde uma “imagem de mundo e de homem” é dominante, ordenando e balizando o jogo permitido em termos de linguagem e conceitos.

A informática dá-se e propõe-se na informatização, segundo a regência e a vigência de quatro modos de dever e responder, diferentes entre si, porém pertencentes um ao outro na unidade de uma coerência. Esta unidade de coerência responde pelo dar-se e propor-se da informatização, entendida como a vigência de algo que está em vigor em um meio fundado na Modernidade.

O pleno advento da informatização em nossos dias indica, por sua vez, que este deixar-viger dos quatro modos de dever e responder que levam a tecnologia da informação a aparecer e a conduzem à posição de destaque tecnológico de uma pretensa Sociedade da Informação, mobilizam muito mais que um simples instrumento para o homem. “Rigorosamente, um instrumento nunca ‘é’. O instrumento só pode ser o que é num todo instrumental que sempre pertence a seu ser” (Heidegger, 1986/1998, pág. 110).

A morfogênese da tecnologia da informação, enquanto engenho de representação, ocorre segundo os princípios ontogênicos de um meio, de natureza técnica-científica-informacional. Através desta morfogênese reúnem-se e dispõem-se instrumentos que representam a razão e a memória humanas, em um único engenho, constituído em conformidade aos desígnios da técnica moderna e à rede de remetimentos a outros instrumentos deste meio, ou ainda melhor, segundo a com-posição que perfaz as dis-posições e dis-positivos deste meio.

Este engenho, por sua adoção individual e pelo decorrente agenciamento social que pratica, elevado à potência pelo dar-se e propor-se da informática, se torna concomitantemente constituído e constituinte deste mesmo meio, assegurando sua sustentabilidade e reprodução.

Heidegger já alertava, desde sua analítica do Dasein, que aquilo que lhe é mais próprio encontra-se “à distancia”, considerado de fato como “estranheza” (segundo a tradução dada por Martineau1 de Unheimlichkeit) a ponto que o indivíduo, o sujeito mundano, antropológica e historicamente sobre a insígnia do Ge-stell toma por si mesmo e como familiar, o que é apenas herdado da estrutura coercitiva do meio, do “mundo circundante” (Umwelt).

A investigação, nas considerações que seguem, se orienta pelas seguintes questões:

  • Quais as relações que existem entre meio técnico-científico-informacional, engenho, e dar-se e propor-se da informática?
  • Qual seria o sentido, se existe algum, de se reunir meio, engenho e dar-se e propor-se da informática, em uma mesma investigação?

Assim sendo a estrutura proposta para este capítulo é:

  • Primeiro, entender o meio como o modo atual de redução da mundanidade do “mundo circundante” no dar-se e propor-se da informática;
  • Segundo, entender os qualificadores técnico, científico e informacional, que atribuem propriedades específicas a este meio; e,
  • Terceiro, e como conclusão, compreender o dar-se e propor-se da informática, como constituído em e por este meio; e, o que é mais importante, do ponto de vista da natureza da informática, sob a luz deste meio, que reflete a própria essência da técnica moderna, a Ge-stell; deste modo, evidenciar que, sendo a tecnologia da informação produto deste meio, qualquer aplicação sua, enquanto dar-se e propor-se da informática, é um agente “re-produtor” deste mesmo meio.

Mundo circundante e meio

Mundo circundante e meio mccastro dom, 05/08/2011 - 05:55

Segundo Sylvain Auroux (1990) o termo “meio” designa o que é posto entre pelo menos duas outras coisas, em particular, à igual distância entre elas. Por extensão, designa na filosofia de Aristóteles o que serve de intermediário (metaxu), por exemplo: na percepção, o meio do som é o ar.

Esta noção ganhou a conotação de um lugar indiferenciado onde se encontra um corpo, e mais recentemente de um espaço circundante de troca e interação com qualquer corpo nele localizado. De qualquer modo, os traços dominantes do meio são: sua exterioridade ao, seu circundamento ao, e sua interação com, o que nele está imerso.

Para avançar na reflexão sobre a essência da informática é preciso passar da tecnologia ao meio constituinte e constituído por esta mesma tecnologia. No pensamento de Heidegger o termo “meio” não é elaborado, embora sua meditação sobre “mundo”, “mundanidade” e “pobre em mundo” seja fundamental para uma possível aproximação da noção de meio.

Ser-no-mundo

Ser-no-mundo mccastro dom, 05/08/2011 - 06:12

O ponto de partida de uma analítica do Dasein começa justamente pelo exame da constituição ontológica designada “ser-no-mundo”. Esta expressão composta refere-se a um fenômeno de unidade, a partir do qual é possível examinar um de seus momentos estruturais, “em-um-mundo”. O único caminho para alcançar o fenômeno “em-um-mundo” é, por sua vez, resgatar a “mundanidade” do ente que o Dasein depara no mundo cotidiano mais próximo: o mundo circundante (Umwelt).

À sua época, Heidegger se defrontou com uma grande dificuldade face às distintas conotações de “mundo”, ao evocar o existencial “ser-no-mundo”. Mas, soube orientar sua formulação segundo um sentido próprio de unidade e totalidade, onde o ser do Dasein existe em um “circuito fechado”, o ser-no-mundo, como afirma Hervé Pasqua (1993).

Na expressão ser-no-mundo, mundo não é um continente de entes que contenha também o ser, como mais um de seus entes, assim como não é algo que se ajunte de fora, ao Dasein, como um ente a outro ente. O mundo faz parte do ser do Dasein, tem com ele uma relação essencial e não acidental.
Após discernir que o Dasein existe, é meu, e é autêntico ou inautêntico, Heidegger se volta para este existencial, ser-no-mundo, onde os traços de união denotam um fenômeno unitário, no qual se mantêm juntos os diferentes momentos estruturais que compõem o Dasein, entre os quais o “ser-em”.

O ser?em, ao contrário, significa uma constituição ontológica da pre?sença e é um existencial. Com ele, por­tanto, não se pode pensar em algo simplesmente dado de uma coisa corporal (o corpo humano) "dentro" de um ente simplesmente dado. O ser?em não pode indicar que uma coisa simplesmente dada está, espacialmente, "dentro de outra" porque, em sua origem, o "em" não significa de forma alguma uma relação espacial desta espécie; "em" deriva de innan-, morar, habitar, deter?se; "an" significa: estou acostumado a, habituado a, familia­rizado com, cultivo alguma coisa; possui o significado de colo, no sentido de habito e diligo. O ente, ao qual pertence o ser?em, neste sentido, é o ente que sempre eu mesmo sou. A expressão "sou" se conecta a "junto"; "eu sou" diz, por sua vez: eu moro, me detenho junto... ao mundo, como alguma coisa que, deste ou daquele modo, me é familiar. O ser, entendido como infinito de "eu sou", isto é, como existencial, significa morar junto a, ser familiar com.. . O ser-em é, pois, a expressão formal e existencial do ser da pre?sença que possui a constituição essencial de ser?no?mundo. (Heidegger, 1986/1998, pág. 92)

A partícula “em” em “ser-em” reveste significações múltiplas que correspondem às tantas maneiras distintas de se comportar, de se conduzir, de se colocar, de modo autônomo, mas irredutível ao aspecto cognitivo. A diversidade de modos de se portar guarda, no entanto, um denominador comum, uma estrutura existencial comum: a ocupação (Besorgen). Em seu sentido ontológico, todas as maneiras de se portar manifestam um modo de ser fundamental: a cura (Sorge). “(...) entendida ontologicamente, o Dasein é cura” (ibid, pág. 95).

De acordo com o que foi dito, o ser?no?mundo não é uma "propriedade" que a pre?sença às vezes apresenta e outras não, como se pudesse ser igualmente com ela ou sem ela. O homem não "é" no sentido de ser e, além disso, ter uma relação com o mundo, o qual por vezes lhe viesse a ser acrescentado. A pre?sença nunca é "pri­meiro" um ente, por assim dizer, livre de ser?em que, algumas vezes, tem gana de assumir uma "relação" com o mundo. Esse assumir relações com o mundo só é pos­sível porque a pre?sença, sendo?no?mundo, é como é. Tal constituição de ser não surge do fato de, além dos entes dotados do caráter da pre?sença, ainda se darem a de­pararem com ela outros entes, os simplesmente dados. Esses outros entes só podem deparar?se "com" a pre?sença na medida em que conseguem mostrar?se, por si mesmos, dentro de um mundo. (Heidegger, 1986/1998, pág.95)

Mundo e Mundanidade

Mundo e Mundanidade mccastro dom, 05/08/2011 - 06:18

O que é este mundo? Uma coleção ou a totalidade dos entes, incluindo a pessoa, seria uma descrição ôntica. O mundo na expressão ser-no-mundo faz parte de um existencial do Dasein, se apresenta como um modo de ser do Dasein. Os entes intramundanos pressupõem o mundo. Não são eles que descrevem o mundo, mas o mundo que os explica. O mundo não é uma coleção de entes, ele é o mundo do Dasein: o ser do mundo é um momento constitutivo do ser do Dasein.

Nem um retrato ôntico dos entes intramundanos nem a interpretação ontológica do ser destes entes alcançariam, como tais, o fenômeno do "mundo". Em ambas as vias de acesso para o ser "objetivo" já se "pressupõe", e de muitas maneiras, o "mundo". (Heidegger, 1986/1998, pág. 104)

Como afirma Greisch (1994) porque não se falar então de pluralidade de “mundos” no qual se vive, como mundo acadêmico, religioso, comunitário, etc. Cada um destes mundos seria compreendido pela relação que se entretêm com ele. Justamente na abstração desta relação é que é possível investigar a “mundanidade” enquanto modo de ser do Dasein. A mundanidade se revela ontologicamente a partir da analítica existencial do Dasein (Pasqua, 1993).

"Mundanidade" é um conceito ontológico e significa a estrutura de um momento constitutivo do ser?no-mundo. Este, nós o conhecemos como uma determinação existencial da pre?sença. Assim, a mundanidade já é em si mesma um existencial. Quando investigamos ontologicamente o "mundo", não abandonamos, de forma alguma, o campo temático da analítica da pre?sença. Do ponto de vista ontológico, "mundo" não é determinação de um ente que a pre?sença em sua essência não é. "Mundo" é um caráter da própria pre?sença. Isto não exclui o fato de que o caminho de investigação do fenômeno "mundo" deva seguir os entes intramundanos e seu ser. A tarefa de "descrição" fenomenológica do mundo é tão pouco clara que já a sua determinação suficiente exige esclarecimentos ontológicos essenciais. (Heidegger, 1986/1998, pág. 104)

Manualidade e manualidade informacional

Manualidade e manualidade informacional mccastro dom, 05/08/2011 - 06:46

O ser do Dasein “ex-siste” no mundo. Pois o ser está em exílio, fora de si mesmo, sem abrigo, pro-jetado. Busca habitar e acaba por criar um mundo no qual se re-encontra no Dasein e na manualidade (Zuhandenheit). Evidenciando que “a doação dos desempenhos e das possibilidades de desempenho proporciona os seres à mão, os seres constituídos pela manualidade: os instrumentos, os utensílios, os equipamentos, os dispositivos etc.” (Notas em Heidegger, 1986/1998).

Essa manualidade composta por instrumentos, utensílios, ferramentas, que os gregos denominavam pragmata é que põe em evidência o aspecto prático, da apreensão das coisas na ocupação. A primeira abertura do Dasein ao mundo se dá por esta ocupação constitutiva de um mundo da manualidade, onde a “cura” (Sorge) exerce uma “função de apresentação” fundamental (Heidegger, 1979/1985).

Obedecendo a característica manual de qualquer instrumento, é a mão que ativa e mantém operacional a informática diante do homem, o que indica uma espécie de “manualidade informacional”: uma relação especial entre Dasein e instrumentos do engenho de representação, que é dada pelo método informacional-comunicacional. Qualquer tecnologia da informação conta com o Dasein que o “anima” e manipula; mesmo que o faça segundo o método de aplicação e os requisitos de operação e de uso, imanentes ao meio de onde a tecnologia emerge à mão.

O ser do instrumento na ocupação se dá como um “servir para”, onde o para não indica apenas funcionalidade, mas remetimento de um instrumento a outro. Esta interdependência dos instrumentos entre eles mostra que um instrumento único é uma incongruência ontológica. O ser do instrumento se caracteriza na dupla referência ao Dasein, do qual depende ontologicamente, e aos outros instrumentos que formam seu “mundo circundante”, seu meio. Do mesmo modo que aquilo que é tecnologia da informação se caracteriza na dupla referência ao homem que a manipula e ao meio técnico-científico-informacional, de onde emerge.

Eis a razão pela qual se torna tão difícil uma contemplação sobre a essência da informática. Sua funcionalidade, indicada pelo “servir para” da tecnologia da informação na ocupação, indica sua utilização como mais natural ao Dasein, que a meditação sobre sua essência. A partir do momento que o ser dos instrumentos informacionais-comunicacionais, enquanto entes disponíveis para uma utilização possível, consiste na manualidade, fica claro que sua natureza é re-velada apenas pela “circunvisão” (Umsicht).

Meio e "circunvisão"

Meio e "circunvisão" mccastro dom, 05/08/2011 - 06:54

A circunvisão perscruta ao redor segundo as direções para as quais o Dasein, na ocupação permanente diante de um ser que lhe escapa, busca retê-lo no meio que emerge por esta ocupação. Este meio tem o sentido análogo ao que Heidegger (1979/1985) denomina Werkwelt (“a mundanidade do mundo é fundada no mundo específico da obra”), um mundo da obra e cujo exemplo privilegiado é o atelier de um artesão.

O conjunto de instrumentos reunidos no atelier não formam o mundo do artesão, assim como o conjunto de instrumentos informacionais-comunicacionais reunidos em uma tecnologia da informação não formam o meio técnico-científico-informacional. Mas tanto o atelier como o meio determinam o instrumento no seu modo de se ofertar e se descobrir para nós. “O mundo ele mesmo não é um ente intramundano, embora o determine de tal modo que, ao ser descoberto e encontrado em seu ser, o ente intramundano só pode se mostrar porque mundo "se dá".” (Heidegger, 1986/1998, pág. 114).

Deste modo o mundo se manifesta ao Dasein por intermédio do ente disponível. O ser do ente disponível, sua instrumentalidade, consiste nas suas referências implícitas a um conjunto de instrumentos, assim como a atividade do Dasein, que ontologicamente o constitui. As referências de entes a entes constituem, por sua vez, o mundanidade como um sistema de remetimentos. O signo, enquanto ente intramundano pode esclarecer esta afirmação, na medida em que “o próprio ser sinal de... pode ser formalizado e transformado numa espécie de relação universal. Deste modo, a própria estrutura de sinal apresenta um fio ontológico capaz de orientar uma ‘caracterização’ de todo e qualquer ente.” (ibid, pág. 120).

A tecnologia da informação é dis-posta como um conjunto de instrumentos informacionais-comunicacionais, que obedecendo a comandos, produzem resultados. Este comércio com o meio técnico-científico-informacional, na circunvisão im-posta pela informática, dá-se através de uma troca de signos[fn]O sinal não está apenas à mão junto com outro instrumento mas, em sua manualidade, o mundo circundante se torna, cada vez, explicitamente acessível à circunvisão. O sinal está onticamente à mão e, enquanto esse instrumento determinado, desempenha, ao mesmo tempo, a função de alguma coisa que indica a estrutura ontológica de manualidade, totalidade referencial a mundanidade. Ai se enraíza o privilégio desse manual em meio ao mundo circundante ocupado pela circunvisão. (Heidegger, 1988/1998, pág. 127)[/fn], formalizados pela linguagem técnica da informática. Os próprios instrumentos convocados e concentrados na tecnologia, apresentam-se, na interface homem - maquina mais atual, como signos de uma funcionalidade, de um “servir-para”.

Todo ente se religa a outro ente, e o mundo não é a soma destes entes, mas o conjunto de relações que se tecem entre os entes. Assim como a Internet se oferece como uma “teia” (web) de relações entre entes informacionais-comunicacionais, reduzindo o mundo circundante à dis-ponibilidade de um meio técnico-científico-informacional. A Internet, enquanto tecedura de uma malha tecnológica de informação e comunicação é, portanto, a “conjuntura” (Bewandtnis) do homem moderno. Conjuntura entendida como a situação, o processo ou o movimento de realização que já percorreu todo o curso de suas possibilidades de relacionamento, a ponto de se ter instalado num conjunto (WWW – World Wide Web), e com isso, de dispor do máximo grau de suas virtualidades e recursos (ibid, pág. 317).

Identidade mundo e meio

Identidade mundo e meio mccastro dom, 05/08/2011 - 07:32

Embora possa ainda soar heresia propor uma releitura dessa constituição ontológica ser-no-mundo sob a perspectiva da simples identidade entre mundo e meio, o mundo circundante (Umwelt), por sua ontologia instrumentalista é aquele cuja análise elaborada por Heidegger, mais se aproxima do sentido requerido e aqui proposto de um meio técnico-científico-informacional.

É preciso entender que a noção de “meio” está atualmente dominada por conotações da biologia, da geografia e da ecologia. Sua aplicação generalizada guarda o viés de sua trajetória conceitual por estas disciplinas. Ou seja, embora se use meio como uma referência tanto ao ambiente humano como ao ambiente animal, as características predominantes nesta noção apontam fortemente para uma definição onde o peso da referência ao mundo animal prevalece.

Mas é exatamente por esta forte conotação com o mundo animal que o termo meio é útil no exame a ser realizado da penúria do mundo circundante reduzido pela tecnologia da informação a apenas um meio técnico-científico-informacional; onde aquilo que Heidegger pensou sobre o animal como “pobre em mundo” pode ser muito elucidativo a respeito deste meio.

Os informatizados de hoje já dão sinal de aprisionamento num mundo pobre de linguagem criativa. Um processo de graves consequências políticas. É que com a avalanche da informatização se vive progressivamente num mundo em que a linguagem natural vai perdendo sempre mais autoridade, num mundo que, em sua tendência histórica, já não necessita das línguas naturais. Pois tudo que o homem conhece, sente, pensa, sabe ou faz, só se torna realmente significativo, só adquire sentido essencial, se houver possibilidade de conversa e diálogo, na medida em que dele se puder falar a partir de sua linguagem. Não há verdade no singular, fora de toda e qualquer envergadura de discurso. Toda verdade é plural. A verdade só se dá por existirmos na linguagem do plural, numa correnteza que nos arrasta para uma convivência de diálogo. Enquanto vivermos, pensarmos e agirmos na Terra, só faz sentido o que pudermos falar uns com os outros, o que puder receber um significado na e da linguagem. O esvaziamento das línguas naturais é uma conjuntura que a informatização progressiva, instalada pela ciência e tecnologia em nosso mundo, traz consigo irremediavelmente. (Carneiro Leão, 1992, pág. 104, grifo meu)

Parece, portanto, soar menos como heresia a tentativa de se articular a noção de meio técnico-científico-informacional com a de mundo na constituição ontológica ser-no-mundo. Com efeito, quando o Dasein se encontra aí na ocupação específica de uso da tecnologia da informação, como um “informatizado”, o que se tem é uma redução do “ser-no-mundo” a um “ser-no-meio”.

A ocupação informacional-comunicacional absorve de tal modo o Dasein, que restringe seu “mundo imediato” ao meio técnico-científico-informacional. A tecnologia da informação guarda toda sua vocação e sentido pelo que dis-põe de razão e memória humanas, programada e armazenada em seus circuitos, e pelos remetimentos infindáveis que mantém com disp-osições e dis-positivos deste meio, através da “teia” da Internet.

A penúria deste meio, em relação à riqueza do mundo, recupera a reflexão de Heidegger (1983/2003) sobre o animal como “pobre em mundo”. Partindo da oposição entre o círculo do possível e a artificialidade da técnica, Heidegger demonstra que o animal é incapaz de artifício, por ser, ao mesmo tempo, privado de tecnicidade e de abertura ontológica. “Pobre em mundo”, o animal não é privado de relação ao ente, mas nesta relação, o ente não aparece “como tal”, e a relação permanece inaparente. Uma situação não muito diversa do homem absorvido pela tecnologia da informação.

No entanto, é preciso sempre evitar, como lembra Heidegger, “a formulação, hoje muito em voga, de que o homem ‘tem’ seu mundo”. Não se tem um mundo, como não se tem um meio. Vive-se um mundo, como se vive um meio, consoante este existencial ser-no-mundo do Dasein, conformado e reduzido, no caso da ocupação com o instrumental informático, pelos aspectos técnico, científico e informacional deste meio, em uma situação de “pobre em mundo”.

Não se trata de pregar uma autonomia da tecnologia da informação ou um determinismo tecnológico, muito menos de se apressar em afirmar que o condicionamento do meio técnico-científico-informacional, ditado através da tecnologia da informação, orienta o conhecimento[fn]Esse contexto de fundamentação dos modos de ser-no-mundo constitutivos do conhecimento do mundo evidencia que, ao conhecer, a pre-sença adquire uma nova posição ontológica, no tocante ao mundo já sempre descoberto. Esta nova possibilidade ontológica pode se desenvolver autonomamente, pode se tornar uma tarefa e, como ciência, assumir a direção do ser-no-mundo. Todavia, não é o conhecimento quem cria pela primeira vez um "commercium" do sujeito com um mundo a nem este commercium surge de uma ação exercida pelo mundo sobre o sujeito. Conhecer, ao contrário, é um modo da pre-sença fundado no ser-no-mundo. É por isso também que, como constituição fundamental, o ser-no-mundo requer uma interpretação preliminar. (Heidegger, 1986/1998, pág. 101, grifo meu)[/fn] dos entes intramundanos, as novas problemáticas da vida, o portar-se diante das situações, a própria consecução das atividades humanas.

A ocupação no uso da tecnologia da informação é uma imersão abaixo do mundo imediato, em um meio técnico-científico-informacional. A “doação dos desempenhos e das possibilidades de desempenho” proporciona os instrumentos reunidos no engenho de representação, que, por sua vez, está inserido em e pertence a uma rede de remetimentos a outros tantos instrumentos constituídos pela “manualidade informacional-comunicacional”. Com o avanço da informatização, é possível parafrasear Stiegler (1994, pág. 276), afirmando que esta nova manualidade informacional-comunicacional é constitutiva do ser-no-mundo.

A Internet é o resultado mais atual desta manifestação, uma “teia” ao nível global (world wide web) atendendo uma coletividade de privilegiados com acesso a mesma, e um meio na ocupação informacional-comunicacional de um Dasein qualquer. Assim como diz o ditado popular, “bicho de goiaba, goiaba é”, a tecnologia da informação é o meio técnico-científico-informacional, e este meio é a tecnologia da informação. É alto demais o risco de “inautenticidade” do Dasein na forte acentuação do “impessoal” neste meio.

Da noção de mundo à noção de meio

Da noção de mundo à noção de meio mccastro dom, 05/08/2011 - 07:51

Segundo Françoise Dastur (1998), Heidegger pensou o mundo inicialmente como resultado da projeção do Dasein, em “Ser e Tempo” (1986/1998). Já, na “Carta sobre o Humanismo” (1966), o mundo foi então pensado como “clareira do ser”, identificado ao próprio ser mesmo, o que implica não haver nada além dele. Para finalmente em sua conferência “A Coisa” (1954/2002), e outros textos da mesma época, defini-lo como Geviert, como quadro ou União dos Quatro (terra, céu, deuses e mortais).

O mundo circundante cotidiano, apresentado em “Ser e Tempo”, configura-se segundo uma atitude determinada pela relação entre Dasein e ente intramundano, a ocupação (Besorgen). A ocupação é então um conceito ontológico à partir do qual se pode entender o comportamento prático, que constitui o modo de acesso básico ao ente intramundano, que não é assim o simplesmente dado, mas o instrumento aqui à mão fazendo parte inseparável de um todo instrumental. Após mais de trinta páginas consagradas a apreender o mundo enquanto mundo, Heidegger (1986/1998, pág. 132) conclui: “Nestas análises, expôs-se apenas o horizonte em que se pode buscar o mundo e a mundanidade”.

Na elaboração posterior, em “Sobre a Essência do Fundamento” (2000), Heidegger reconhece em uma nota, que sua análise do mundo circundante em “Ser e Tempo” seria uma primeira determinação do fenômeno, com valor apenas preparatório face à investigação necessária sobre o que é mundo. Seus avanços posteriores no pensar e expor esta questão, denunciam os limites da ontologia instrumentalista na definição do mundo circundante.

O aprofundamento e a abertura dada por Heidegger à noção de mundo são suficientes para demonstrar um outro caminho, oposto, seguido na trajetória adotada pelo Dasein na aplicação do instrumento informático, constringindo o mundo circundante[fn]Como Um-weltlichkeit, como circum-mundanidade e circa-mundanidade – sistema não aparente de “entornos” (circum) nos quais o ente é praticado “com vista à” (circa) – a mundanidade se anuncia somente como o cerne que assombra da maneira mais próxima, quer dizer também a mais inaproximável, o Dasein. Dito de outra forma, como sistema de ligação do ente que se retira enquanto totalidade “ela mesma” e só deixa discernir, no brilho desta retirada, conjuntos de ligações que ainda não são o mundo – ou que já são o não-ainda do mundo. (Granel, 1972, pág. 148)[/fn] ao meio técnico-científico-informacional. Fica evidente a redução significativa imposta pela ocupação informacional-comunicacional pro-posta no uso da tecnologia da informação, na constituição deste novo meio.

O meio e o dar-se da informática

O meio e o dar-se da informática mccastro dom, 05/08/2011 - 08:26

Através da conjunção de interesses, métodos e técnicas deste meio, a tecnologia da informação insinua-se como estandarte de um novo Discurso do Método, “o discurso do método informacional-comunicacional”. Não um discurso geral e metafísico, mas um concretamente encarnado em um engenho, pretensamente capaz de mimetizar, mais e mais, as modalidades de racionalização e memorização formalizadas desde o início da Modernidade.

Se a informática é método, é preciso reconhecer que nenhum método é inocente. Não há como separar método de pressupostos metafísicos, ontológicos e epistemológicos. Um método jamais é inocente, mesmo que não aparente abrigar nenhuma filosofia. Não poderá ser nunca a configuração de um discurso sobre coisas e homens, na medida em que estabelece uma ordem e esta demanda um fundamento. A informática como método[fn]O "metá" contido em "método" ("metà-hodós") diz "de acordo com", "junto de", i. é, "de acordo com" ou "junto de" o caminho. [...] Entre método e fazer, ou seja, entre método e ação ou atividade, há uma conexão de ordem fundamental ou essencial - um co-pertencimento. [...] A pergunta pelo método disso ou daquilo é a pergunta pelo modo de fazer ou mesmo do fazer-se disso ou daquilo. Assim, o método é o movimento de exposição disso do qual o método é método! Há, então, um co-pertencimento entre método e a própria coisa em questão que, na verdade, é o co-pertencimento ou a mesmidade da coisa e do seu fazer-se, do seu instaurar-se ou expor-se, i. é, do seu vir-a-ser isso que ela é. (Fogel, 1999, pág. 31)[/fn] dis-põe da das regras cartesianas da decomposição e recomposição, em uma démarche procedural, divide problemas em subproblemas, su-põe a ordem e a im-põe dis-pondo “dados” para seu tratamento automático. E quando o método cartesiano não funciona, busca a heurística, pro-põe formalismos para uma ars inveniendi, se volta para Leibniz e as figuras da recorrência, da rede, da tábua de múltiplas entradas (Chazal, 1995).

A tecnologia da informação é composta por instrumentos “feitos-para”. A relação entre um instrumento e sua propriedade de “ser-feito-para” não tem o caráter de uma adjudicação acidental entre um suporte e uma função, mas indica a unidade concreta e indissociável de suporte e de função, no instrumento. O complexo instrumental no engenho de representação, assim como nos remetimentos de seus instrumentos a outros no meio técnico-científico-informacional, está implicado de antemão em sua função de representação da razão e da memória humanas. Mais que implicado, a co-define, e esta função assim determinada perfaz uma totalidade única com seu suporte tecnológico, formando o engenho de representação.

No uso do engenho o meio técnico-científico-informacional se faz presente, à medida que a tecnologia se faz ausente. Quando a tecnologia se torna presente e até se apresenta como um obstáculo ao uso, costuma-se acusar o homem, usuário da tecnologia, de total despreparo e incompetência. Esta é mais uma indicação da redução do mundo imediato ao meio, levando consigo o homem como dis-posição e dis-positivo associado à aplicação da informática; o “mau funcionamento” do homem, como dis-posição e dis-positivo do engenho, justifica as razões do insucesso.

A tecnologia da informação precisa ser tomada, manipulada até o ponto de utilidade máxima e sustentada diante do homem. Este dis-positivo de representação deve ser mobilizado por uma ocupação[fn]A demonstração fenomenológica do ser dos entes que se encontram mais próximos se faz pelo fio condutor do ser no mundo cotidiano, que também chamamos de modo de lidar no mundo a com o ente intramundano. Esse modo de lidar já sempre se dispersou numa multiplicidade de modos de ocupação. Como se viu, o modo mais imediato de lidar não é o conhecimento meramente perceptivo e sim a ocupação no manuseio e uso, a qual possui um "conhecimento" próprio. A questão fenomenológica vale, sobretudo, para o ser dos entes que vêm ao encontro nessa ocupação. (Heidegger, 1986/1998, pág. 108)[/fn] informacional-comunicacional, no constituir-se do dar-se e propor-se da informática, realizando o “jogo de articulação dos quatro modos de responder e dever, que deixam chegar à vigência o que ainda não vige”, a informatização. Neste processo, dis-posições e dis-positivos de um meio são também acionados.

O Dasein na ocupação informacional-comunicacional na situação de uso da tecnologia da informação é um modo particular de ser-no-mundo, denominado ser-no-meio. No lidar com os instrumentos que com-põem esta tecnologia segue-se um método informacional-comunicacional, onde um jogo de conceitos e linguagem determina o dar-se e propor-se da informática em uma situação dada. Na peculiaridade desta ocupação arregimentam-se também outros instrumentos ou elementos do meio técnico-científico-informacional.

Dada a natureza de engenho de representação, da tecnologia da informação, a configuração digital de qualquer ente é definida pelo método informacional-comunicacional como caminho único e universal. A transposição da razão e da memória segundo as dis-posições e dis-positivos do engenho, para sua posterior exploração, é assegurada pelo método que dirige os procedimentos e a codificação desta dis-ponibilidade sob a forma dados simbólicos (representando a memória), passíveis de serem manipulados por “programas de computador” (representando a razão).

Na ocupação informacional-comunicacional da tecnologia da informação dis-põe-se sobre a tecnologia da informação, o Dasein e seu mundo circundante, reduzido ao meio. No computador, tudo se registra como um simulacro informacional-comunicacional do ser-no-mundo, constituindo uma nova unidade, ser-no-meio-técnico-científico-informacional.

A constituição progressiva e interativa de um processo de informatização se dá por essa dis-posição contínua do ser-no-mundo na ocupação informacional- comunicacional. Capturado em termos de dados simbólicos e instruções lógicas, armazenados na tecnologia da informação, as determinações do ser do Dasein devem agora ser vistas e compreendidas a priori com base na constituição ontológica de um ser-no-meio, parafraseando Heidegger.

O meio constituinte-constituído pela tecnologia é a dis-ponibilidade informacional-comunicacional; um modo em que vige e vigora tudo que o desencobrimento explorador realizou pela trans-posição da razão e da memória humanas em dis-posições e dis-positivos na informatização.

A tecnologia da informação, pela manipulação do Dasein, que busca seu “posicionamento”, segundo o “método”, reflete este mesmo Dasein e o mundo circundante, sempre segundo uma problemática; ou seja, segundo a abordagem, a interpretação e a tradução de um problema qualquer, criado de modo paradoxal pelo próprio meio técnico-científico-informacional. Instala-se assim uma espécie de autismo; uma triangulação recursiva entre meio-problema-tecnologia.

O problema emerge do meio dis-posto segundo uma formulação direcionada para sua configuração como problemática de natureza informacional-comunicacional. Parte de sua solução já está, por sua vez, nas dis-posições e dis-positivos da tecnologia da informação pronta para ser ativada.

O homem tem, no entanto, a ilusão de conduzir e arregimentar os instrumentos do engenho na solução de um problema informacional-comunicacional, promovendo como causa efficiens a coalescência das demais causas responsáveis neste dar-se e propor-se da informática. Mas, de fato, algo no estatuto original do engenho, sobre o qual se constitui este dar-se e propor-se, parece estar, o tempo todo, guiando e iluminando o caminho.

A natureza da tecnologia da informação, fundada em seu estatuto técnico, operando em sintonia com a com-posição que ilumina o meio onde a ocupação informacional-comunicacional se dá, aponta assim algo da máxima relevância. A tecnologia enquanto engenho de representação, está dis-posta para responder a qualquer problemática, bastando apenas ser acionada e manipulada por um homem, que se dis-ponha de modo subserviente a seu estatuto técnico.

O dar-se e propor-se da informática constitui-se segundo um ser-no-meio seguindo um método informacional-comunicacional, em uma ocupação própria, nivelada e ditada pelo estatuto técnico da tecnologia da informação, suas dis-posições e dis-positivos, e, certamente pela com-posição que ilumina o meio onde ocorre este dar-se e propor-se.

É assim que a estrutura de dados simbólicos, a linguagem de programação e as características técnicas do equipamento, enquanto dis-posições e dis-positivos, manipulam a conformação dos dados que nele são registrados e as possibilidades de tratamento destes dados, segundo a funcionalidade prevista na construção tecnológica.

As dis-posições e dis-positivos que compõem o engenho, segundo sua constituição a priori pelo meio, ordenam e limitam o poder e as possibilidades de qualquer ocupação informacional-comunicacional, que assim abdica de sua situação de ser-no-mundo para a pobre situação de ser-no-meio-técnico-científico-informacional, produzido e produtor da tecnologia.

Dar-se e propor-se da informática

Dar-se e propor-se da informática mccastro dom, 05/08/2011 - 10:38

Um reflexo implica em uma superfície de reflexão, que, de acordo com sua capacidade de reflexão e sua forma, ordena e determina a conformação deste reflexo. Ao mesmo tempo, qualquer reflexo é propiciado também por uma luz que assim vem garantir toda esta reflexão.

Essa imagem pode ser entendida como uma metáfora da tecnologia, do meio e da com-posição. A essência da técnica que ilumina e colore todo o meio, propicia que o reflexo de algo sobre a tecnologia se dê em conformação com a natureza técnica-científica-informacional do meio e da técnica. Sem ser diretamente visto, o mundo circundante do Dasein, se restringe ao meio.

Esta luz que dá visibilidade e colorido a tudo, interpretada como a com-posição, evidencia e legitima, a seu modo, a própria técnica. Da mesma maneira, o meio técnico-científico-informacional sob a luz da com-posição, constituinte e constituído pela tecnologia da informação-comunicação, evidencia e legitima o engenho de representação e o dar-se e propor-se da informática.

Este meio dita, por sua vez, o “problema” que orienta o dar-se e propor-se da informática. Ou seja, a perspectiva de adoção da tecnologia em uma situação iluminada pela com-posição. Este problema se apresenta à montante deste dar-se e propor-se, em consonância com a “problemática”, que leva ao uso de uma tecnologia para sua solução, à medida que considera todo e qualquer problema como passível de uma leitura em termos de uma solução de natureza informacional-comunicacional.

Ao longo da aplicação e uso do engenho, o problema se apresenta, por sua vez, transfigurado em desafio metodológico e técnico na constituição do dar-se e propor-se da informática. Este desafio toma conta e enreda o ser-no-meio de tal maneira que este sucumbe a toda e qualquer reflexão sobre “o que” está fazendo ou constituindo, dada à exigência de decidir e responder, a todo momento, a questões de tipo “como” fazer para implementar a solução do problema, em termos informacionais-comunicacionais.

O engenho de representação, na base da solução informatizada do problema, configura até mesmo “o que” é preciso pensar e decidir e o “como” pensar e decidir de acordo com as disposições e dis-positivos do engenho.

Por fim, à jusante do dar-se e propor-se da informática, o problema se apresenta em termos de tentativas de conciliação dos resultados obtidos por este dar-se e propor-se, ou seja, em termos de conciliação desta constituição em si mesmo com o discurso que deve enquadrá-los. Sob a mesma luz que ilumina o meio isto se dá de maneira facilitada, e até mesmo garantida.

Os resultados obtidos se conformam à produção intelectual geral, na medida em que a informatização avança e universaliza o discurso do método informacional. Os discursos se conciliam sobre um método único, tendo como eixo norteador “o discurso do método informacional”. As divergências são aparentes já que os fundamentos são os mesmos.

A problemática que, em grande parte, emana da luz que ilumina o meio, e assim dita a configuração informacional-comunicacional do problema em um dar-se e propor-se da informática, deve ser bem analisada. Esta problemática adota a tecnologia enquanto engenho de representação, re-velando de certa maneira o meio. Ela pode também oferecer indícios das modalidades de atualização das virtualidades da tecnologia em um específico dar-se e propor-se da informática.

O problema, que só tem sentido, no meio iluminado pela com-posição, se define enquanto tal pelas propriedades que adquire em sua formulação informacional-comunicacional. O discurso do método informacional ganha seu lugar privilegiado na ciência, orientando toda e qualquer disciplina segundo uma abordagem única. O sonho do método universal se materializou, ou melhor dizendo se “maquina”, no sentido de “traçar com artifícios” sua instituição. A “maquina universal”, cristalização do “método universal”, doravante guia a constituição de qualquer dar-se e propor-se da informática, reduzida progressivamente à ação direta do homem que a “anima”.

Não há uma simples potencialização do ser humano como apregoam os entusiastas da informatização, mas o forte risco de uma despontencialização. O pensar sobre esta despontencialização carece de ser feito com a máxima urgência. As gerações que se desenvolvem sob esta despontencialização, sem questionar a essência da técnica, podem estar diante de uma perda lamentável sem salvação[fn]Mas o que é salvar? O que se tem em vista, nessa perspectiva, quando se diz essência? [...] Salvar é, nesse registro, preservar o essencial a (ou em) algo, liberando-o, deixando sua essência aflorar, deixando-o ser segundo sua essência. Salvar é portanto atitude de liberação, inteiramente outra, por conseguinte, que a exploração desmesurada que predomina emulada pela armação tecnológica. (Bicca, 1999, pág. 167-168)[/fn]: a de sua essência humana, a de sua alma.

Meio: os qualificadores técnico, científico e informacional

Meio: os qualificadores técnico, científico e informacional mccastro dom, 05/08/2011 - 10:44

O meio sob a luz da com-posição não é neutro. Responde ao princípio da auto-organização, continuamente recolhendo e redispondo em sua plenitude os avanços da técnica, da ciência e da informática na constituição do mundo da informatização.

O mundo da informatização é uma nebulosa de sistemas em evolução. Dotada de autonomia independente das pessoas que a produzem, só se liga aos homens de maneira extrínseca. Como sistema autônomo, possui seus mecanismos próprios de crescimento e impõe uma lógica politônica aos outros sistemas de que se vale para crescer e desenvolver-se. Estes outros sistemas são, de um lado, os cérebros humanos e não as pessoas humanas e, de outro, as coisas materiais. Cérebros humanos são máquinas de criar informações e coisas materiais são energias de ação. O princípio-chave para se compreender o vir a ser e a evolução da informática é o princípio da auto-organização. Como os sistemas biológicos, os sistemas microeletrônicos se organizam de tal maneira que se vão complexificando por seus próprios dispositivos. Mas tal autonomia não exclui e sim inclui até a necessidade de ir buscar energias e insumos nos outros sistemas. Graças a interações e inter-relacionamentos entre os sistemas, a informatização aumenta sua complexidade, cresce e evolui. Assim, também no nível do terceiro mundo operam muitas das propriedades e características dos sistemas biológicos. Por isso é que a cibernética e a micro- eletrônica só podem evoluir e desenvolver-se em conexão com os cérebros humanos, de um lado, e com os sistemas materiais, de outro. O mundo da informatização progride por trocas com os dois outros. E são estas trocas que explicam por que todo desempenho cibernético tem dois polos, um polo lógico, que remete para as interações com o mundo subjetivo dos cérebros, e um polo micro-eletrônico que remete para o mundo material das coisas e dos objetos técnicos. (Carneiro Leão, 1992, pág. 100-101, grifo meu)

Os qualificadores técnico, científico e informacional, deste meio, indicam, por sua vez, algumas de suas propriedades.

Meio Técnico

Meio Técnico mccastro dom, 05/08/2011 - 10:48

A técnica, como reconhecem todos os críticos do tema, não tem certidão de nascimento, ou melhor, sua origem histórica se perde em um passado longínquo, junto com a própria origem da humanidade. Não se pode nem falar que ela seja própria do ser humano, pois existem animais dotados de habilidades técnicas, como a abelha, o castor, o chimpanzé, e tantos outros. Tanto nos animais, como nos seres humanos, como afirma o antropólogo André Leroi-Gourhan, manifesta-se uma tendência a recentrar um meio, em torno de si mesmo; um processo de criação de um meio próprio, a partir de uma desnaturalização do meio natural, agindo de modo a torná-lo não neutro, mas responsivo (apud Schwartz, 1995), e “performático” como diria Lyotard.

Como afirma Yves Schwartz (1995), o organismo vivo, em um meio natural, regido por seus determinismos, busca, mesmo com o perigo de sua própria vida, se instituir centro de um meio, já recortado, por sua vez, por seus próprios valores (do organismo). No entanto, podemos reconhecer, no caso específico do organismo humano, uma característica peculiar em sua técnica, que é sua regência, por um grau de intencionalidade, capaz de ir além dos artefatos que se possam fabricar. Uma intencionalidade, cuja natureza é capaz de instituir um campo de culturas humanas que vai diferenciar, instrumentalizar, capitalizar, simbolizar, animar valores e conflitos.

Este campo de culturas humanas, este patrimônio, vai, por conseguinte, se constituir como seu novo meio imediato, sobre o qual recursivamente o ser humano de forma individual e coletiva vai interagir, aperfeiçoando neste contato entre o meio e os demais seres, a técnica que nasce e cresce desta mesma interação.

A identidade da ação humana com a técnica, parece ser a dedução imediata de vários estudiosos desta matéria. A técnica se coloca como uma manifestação do ser humano, em sua relação com a Natureza, formando neste processo iterativo um meio imediato, que lhe é próprio. Este, por sua vez, será continuamente reconfigurado, pela dita manifestação do ser humano, pela técnica, e pelas possibilidades que se oferecem através das fissuras disponíveis neste meio, definido por uma geração de técnica. Fissuras que proporcionam aberturas na articulação homem-meio, para o exercício da criatividade humana.

O meio técnico, portanto, não deve ser visto como outra versão do determinismo ambiental do final do século XIX. Apesar de ficar muito claro para os principais estudiosos da técnica, que efetivamente se estabelece pelo uso intensivo e extensivo da técnica, o que se pode denominar um “imperativo tecnológico” (Winner, 1977). Embora controverso, em termos de natureza e extensão, esta condição se impõe pela simples razão que uma estrutura tecnológica qualquer, tem associada a si mesma, uma infra e uma superestrutura, que a sustentam por baixo e por cima.

Um bom exemplo é o do automóvel, enquanto uma tecnologia que requer uma infra-estrutura de vias próprias para seu tráfego, de postos de abastecimento, de oficinas mecânicas, etc.; e, também exige uma cultura que o adote, uma economia que o valorize, uma política industrial que amplie seu desenvolvimento, etc.

Gilbert Simondon tem muito a dizer a este aspecto:

Pode-se portanto afirmar que a individualização dos seres técnicos é a condição do progresso técnico. Esta individualização é possível pela recorrência de causalidades num meio que o ser técnico cria ao seu redor, que o condiciona como ele é condicionado por ele. Este meio ao mesmo tempo técnico e natural pode ser denominado meio associado. Ele é aquele pelo qual o ser técnico se condiciona a si mesmo em seu funcionamento. Este meio não é fabricado, ou pelo menos não fabricado em sua totalidade; ele é um certo regime de elementos naturais envolvendo o ser técnico, ligado a um certo regime de elementos constituindo o ser técnico. O meio associado é mediador da relação entre os elementos constituindo os elementos técnicos fabricados e os elementos naturais no seio dos quais funciona o ser técnico. (Simondon, 1969, pág. 56-57)

Técnica e Vida

Técnica e Vida mccastro dom, 05/08/2011 - 11:19

Michel Henry (1987) opta, por sua vez, pela valorização da “vida” na crítica fenomenológica da técnica. Para ele, toda a cultura é uma cultura da vida, no duplo sentido que a vida se constitui, ao mesmo tempo, em sujeito desta cultura e em seu objeto. “É uma ação que a vida exerce sobre ela mesma e pela qual ela se transforma ela mesma, enquanto ela é, ela mesma, aquilo que transforma e aquilo que é transformado.” A cultura designa justamente esta auto-transformação da vida no tempo e no espaço, um movimento pelo qual ela não cessa de se modificar a si mesma a fim de alcançar novas formas de realização.

A vida é esse movimento incessante de se auto-transformar e de se realizar a si mesmo, então ela é a própria cultura, ou pelo menos ela a traz inscrita nela e desejada por ela, como aquilo mesmo que ela é. É preciso entender que Michel Henry não se refere à vida reconhecida como o objeto científico da biologia. Trata-se da vida que todos evidenciamos em nossa simples presença e existência, pois a vida se sente e se experimenta a si mesma nos atos-fatos que realizamos ou participamos.

Michel Henry (1976) demonstra que a vida está no fundamento da análise econômica de Marx, a tal ponto que apenas o “trabalho vivo” é capaz de produzir a realidade econômica e o valor. Para Marx, segundo Henry, a vida tem um caráter subjetivo, ou seja, começa e termina na subjetividade, que constitui a realidade mais essencial de um indivíduo, sua condição metafísica ou ontológica, seu ser, na medida que este ser é a vida. A vida, portanto, é individual e se realiza sob a forma de um “indivíduo vivo”, fundamento único de toda a realidade e “pressuposição de toda a história”, como Marx o designa na Ideologia Alemã.

Por outro lado, Henry reconhece que, em sua análise econômica posterior à 1847, Marx substitui a expressão “indivíduo vivo”, por “trabalhador”. Do mesmo modo, o termo “práxis” que buscava indicar aquele caráter da vida, de força criadora e produtiva, é abandonado em prol de expressões que enfatizam melhor seu duplo caráter de subjetividade e de força, tais como: “subjetividade inorgânica”, “corpo vivo”, “trabalho vivo”, “força de trabalho”, “força subjetiva de trabalho”, “trabalho subjetivo”, e outros mais. A vida tem assim a capacidade de modificar a natureza, extraindo os elementos necessários e impondo uma forma particular, ou seja, configurando dialeticamente com a natureza seu meio próprio, com “valores de uso”.

Para Henry, Marx não defende uma autonomização do indivíduo vivo, mas da vida que o anima. Da mesma maneira, não entende o indivíduo vivo como princípio absoluto, embora ele o seja, em relação a tudo que produz e todos o valores, enquanto manifestação da força criadora da vida. Por conseguinte, o indivíduo vivo ressaltado por Marx, difere do indivíduo definido pelo pensamento, na medida que na sua relação consigo mesmo, relação que é justamente sua própria vida, o indivíduo vivo não sustenta qualquer pensamento, no sentido de representação de um objeto diante de si, ou seja, de uma relação sujeito-objeto.

Criticando a definição de indivíduo, elaborada pelo pensamento ou pela consciência, como em Hegel, Marx se contrapõe a ideia de redução da realidade ao pensamento, e enuncia o indivíduo vivo como princípio da sociedade e da história. O indivíduo vivo não pode ser substituído por entidades abstratas a partir das quais se pretende explicar a totalidade dos fenômenos econômicos, históricos e sociais, e ainda mais estes mesmos indivíduos.

A realidade, por conseguinte, reside na vida e somente nela, e esta vida só existe sob uma forma individual, sob a forma de indivíduos vivos. A realidade da sociedade se acha assim reabsorvida na subjetividade vivida dos indivíduos que a compõem. Para Henry, Marx nega toda realidade à sociedade considerada como uma entidade substancial autônoma. Isto vale para técnica também, na medida que qualquer crítica mais aprofundada da técnica deve-se confrontar a um paradoxo: “a essência original da techne que devemos ter em vista para compreender as formas diversas da técnica e principalmente a técnica moderna que faz abstração da vida, é a vida ela mesma”.

A técnica, com efeito, designa de uma maneira geral um saber-fazer, ou seja, um saber que consiste no fazer, mas um fazer que porta em si mesmo seu próprio saber. Dito de outra maneira, este “fazer constitui um tal saber, e se identifica a ele na medida que se sente a si mesmo e se experimenta em cada ponto de seu ser, enquanto fazer radicalmente subjetivo, tomando sua essência da subjetividade que o torna possível”. O saber-fazer original é a práxis, e portanto a vida ela mesma, pois é na vida que a práxis é o saber-fazer original, que constitui a essência da técnica. Desta forma, como podemos compreender esta alienação da vida na emergência da técnica moderna, sob o aspecto de uma rede de dispositivos e de procedimentos objetivos?

De acordo com Henry (1987), só começamos a compreender este aparente paradoxo, a partir do entendimento, oferecido por Marx, da anterioridade da práxis sobre a teoria, ou da vida sobre a contemplação (como em Arendt, 1988, vita activa e vita contemplativa). A práxis remete à vida, ou seja, à subjetividade, à essência de toda receptividade. A noção de práxis, por conseguinte, define a relação primeira do sujeito ao ser, determinando o correlato primitivo desta experiência: a necessidade, a privação, a ação, o trabalho. Deste modo o objeto sensível encontra na práxis sua essência e seu fundamento. A práxis é o ser do ente, na medida que a dissociação da práxis da teoria significa uma relação fundadora: “a anterioridade do ser ao olhar que sobre ele se dirige”.

A técnica, enquanto práxis determinada, singular e individual, se dá em uma primeira instância, através da experiência de nosso corpo. A essência da técnica pode ser então resumida em um sistema formado por: uma subjetividade individualmente animada pela vida; um corpo orgânico que assente e, ao mesmo tempo, resiste ao exercício desta subjetividade; e, a terra que se impõe como obstáculo maior aos atos desta subjetividade e aos fatos do corpo orgânico. A articulação dos elementos deste sistema, sob a regência de uma subjetividade que enfrenta resistências e obstáculos, faz o corpo ceder e a terra recuar. Os instrumentos e as ferramentas são assim constituídos, pela extensão do poder do corpo ao pôr em obra os poderes próprios da terra, ou seja, pela apropriação de elementos da terra, adequados ao corpo, segundo uma organização imposta pela subjetividade.

Essa copropriação, no aparente destaque de elementos da terra pelo corpo regido pela subjetividade, Henry denomina “Corpopropriação” (Corpspropriation). Através dela transformamos nosso meio, as condições corporais imediatas da vida, a tal ponto que é impossível contemplar uma paisagem sem nela ver o efeito de uma práxis. Todas as dificuldades, à inteligência desta práxis, provém da teoria, ou seja, da representação da práxis, que suscita a ideologia que, por sua vez, interpreta a técnica como a transformação instrumental da natureza pelo homem, com vistas a finalidades impostas por ele. Pela representação, a ação se destaca de seu meio ontológico próprio, a práxis, e as categorias do pensamento racional, se insinuam como causas explicativas (como por exemplo, as causas aristotélicas: material, final, eficiente e formal), em lugar do sistema vivido subjetividade-corpo-terra.

O discurso da técnica, iniciado no Iluminismo sob a denominação de tecnologia, faz da técnica uma “represent-ação”. Ou seja, o discurso da técnica faz com que uma ação se torne presente de novo, porém no pensamento e não no exercício da Corpopropriação, ou seja, dentro de seu campo original, a práxis. Sob esta nova modalidade a técnica pode ser perscrutada pela ciência, de tal forma que pode ser reconstituída de modo a absorver e acumular cada vez mais elementos operacionais da ação humana, intensificando sua função de representação, em detrimento de sua função original de simples instrumento. Um dos eventos cruciais da modernidade é justamente esta passagem acelerada, e dirigida pela ciência emergente, de grãos de ação humana transpostos para a técnica, tornando a ação objetiva. A ação deixa de obedecer às prescrições da vida, desertando seu lugar original na práxis, para se produzir agora no mundo: nas usinas, nas máquinas, nas redes, enfim, no sistema técnico.

Entretanto, como Henry lembra, o que essa técnica moderna nos oferece é, de fato, uma simples aparência de ação, ou como diria Baudrillard, um simulacro de ação. Pois a ação só é possível na e pela subjetividade, como práxis. Do momento que esta ação não “tem mais lugar”, o que se presencia em termos de técnica são pseudo-ações, deslocamentos materiais numa espécie de mimese da vida. A técnica não é mais o instrumento que prolonga o corpo subjetivo e se acha predefinida por ele, cuja manipulação significa pôr em obra os poderes deste corpo, seu exercício e, por conseguinte, uma forma fundamental de cultura: este instrumento se tornou o dispositivo mecânico que funciona por si mesmo na máquina, que se integra, por sua vez, em uma rede de máquinas, cuja ação pré-programada responde ao toque de um botão. Este conjunto crescente de dispositivos que representam a vida, tal é o conteúdo da técnica moderna, o que ela manipula constantemente, o que a constitui em seu ser, em outros termos, o que enreda o ser humano, em substituição à rede original da vida.

A técnica é assim o efeito de um saber, não mais o saber-fazer original que constituiu o meio humano realizado pela Corpopropriação, mas o saber científico. Tal é a revolução radical dos Tempos modernos. Quando o saber que regra a ação é aquele da vida, temos garantida sua auto-realização e seu auto-crescimento, enfim sua cultura, pois ele coincide com a ação, sendo, portanto, a essência de todo saber-fazer. Quando o saber que regra a ação é aquele da ciência, o resultado é outro, pois a natureza deste saber não é mais aquele da vida, mas de uma consciência de objeto, onde se faz abstração das qualidades sensíveis, ou do que os modernos denominam qualidades secundárias. Trata-se do saber de uma objetividade, quer dizer de um processo natural, reduzido todavia pela ciência a seus parâmetros ideais abstratos, às determinações físico-matemáticas do mundo da ciência moderna. Saber e ação não coincidem mais, cabendo ao primeiro uma hegemonia sobre tudo, pois seu correlato é a Totalidade dos processos objetivos que são indistintamente aqueles dos dispositivos instrumentais. Deste modo, é o saber da ciência que rege a técnica, sendo por ela também regido, em lugar do saber da vida, em um círculo vicioso de alienação da vida, que Gilbert Hottois (1984) soube muito bem precisar sob o nome de “tecnociência”.

Resta, no entanto, uma pergunta neste encaminhamento lógico, como a técnica moderna, isto é, a informação e a transformação do mundo pela ciência é concebível? Como o saber da ciência, ou seja, um puro olhar teórico, que pretende ser, é capaz de vir a praticar uma ação sobre o meio? O fato é que a ação que emana da vida, embora reduzida e desprezada, a ponto de se tornar insignificante, em um meio técnico-científico-informacional, cada vez mais denso em termos destes seus qualificadores, ainda é necessária, mesmo que seja para pressionar um simples botão, comandando o início de uma ação.

O que caracteriza a ação artificializada pela tecnociência é que a parte de trabalho vivo, ou seja, a práxis subjetiva, diminui progressivamente no interior da ação, ao passo que a parte de dispositivo instrumental objetivo não cessa de crescer, ampliando a participação das máquinas e das redes que as entrelaçam. Na medida em que a técnica moderna se imiscui por esta tecedura, o mundo vivido se transforma, ou seja, vai além de sua forma original. Mas não importa, mesmo assim, o simulacro da vida vai sempre requerer a vida para efetivar uma ação, nem que seja em sua iniciação.

Meio Científico

Meio Científico mccastro dom, 05/08/2011 - 17:16

Atualmente a ciência permeia a vida como língua franca, como padrão de racionalidade e como princípio de fé; até os fundamentalistas utilizam produtos da ciência, em sua parceria perfeita com a técnica. Como discurso vencedor, a ciência formaliza e reveste os objetos técnicos de uma idoneidade, além da simples garantia de eficiência e eficácia.

Como demonstra Michel Henry (1987), o saber científico é objetivo por princípio. No entanto, este objetivo significa duas coisas: que o saber da ciência é racional e universal. Deste modo ele é um saber verdadeiro, em oposição às opiniões variáveis dos indivíduos, aos pontos de vistas particulares, a tudo que pode ser qualificado de subjetivo. Ora, esta pretensão de suplantar a particularidade e a relatividade do subjetivo, vai além da rejeição às diferenças individuais, pois remete à natureza profunda da experiência e da condição humana.

Com efeito, o mundo se dá em aparições sensíveis, variáveis e contingentes que compõem uma espécie de fluxo heracliteano, onde nada subsiste, onde não se encontram pontos de apoio fixos para um conhecimento sólido. A ciência moderna da natureza vai romper com esta aporia, fazendo justamente abstração das qualidades sensíveis, e de uma maneira geral, de tudo que é tributário à subjetividade, para reter apenas as formas abstratas do universo espaço-temporal. Estas, por sua vez, se prestam a uma determinação geométrica que é a mesma para todo e qualquer espírito. Deste modo, se propõe, em lugar das impressões individuais e das opiniões variáveis que elas suscitam, um conhecimento unívoco do mundo.

Por outro lado, como afirma Henry, as determinações geométricas e matemáticas, enquanto idealidades supõem a operação subjetiva que as produz e sem a qual elas não se constituiriam. Pois não há na natureza, como imaginava Galileu, nem número, nem cálculo, nem adição, nem subtração, nem reta, nem curva: estas são de fato significações ideais que encontram sua origem absoluta na consciência que as cria, no sentido estrito da palavra. Neste sentido, a ciência repousa sobre um princípio original, que se manifesta através da corporalidade humana: a vida. A ilusão de Galileu como de seus seguidores foi de considerar a ciência como um saber absoluto, tomando o mundo matemático e geométrico como modelo de um conhecimento unívoco do mundo real, mundo este que só se pode intuir e experimentar nos modos concretos de nossa vida subjetiva.

Essa vida subjetiva não cria apenas as idealidades e as abstrações da ciência (como de todo pensamento conceitual), ela também dá forma a este mundo da vida onde se desenvolve nossa existência concreta. Uma coisa tão simples quanto um cubo ou uma casa não é algo que exista fora de nós e sem nós, em termos do substrato de suas qualidades. São coisas graças à atividade complexa de nossa percepção que lhes dá sentido, além da sucessão de dados sensíveis que temos destas coisas. Esta consciência cujas operações transcendentais constituem os objetos do mundo da percepção, antes de criar as idealidades do mundo científico, é justamente o poder de dar a ver, de tornar visível, de fazer presente. Um dar a ver que é, ao mesmo tempo, um fazer-vir-diante-de-si na condição de “ob-jeto”, de tal modo que a visibilidade pela qual toda coisa se torna visível nada mais é que a objetividade como tal. Ou seja, o plano de luz onde se mostra tudo, a cada um, seja uma realidade sensível ou uma idealidade científica. Assim sendo, o sujeito não é consciência, mas a “condição do objeto”: o que faz que as coisas se tornem objetos para nós, se mostrem para nós, de modo que possamos conhecê-las.

A abstração à qual procede a ciência é, portanto, dupla, pois define o mundo científico, à parte das qualidades sensíveis e dos predicados afetivos que pertencem ao meio humano, e retém deles apenas as formas suscetíveis de uma determinação ideal. Este movimento garante o método, na medida que permite a definição de procedimentos que permitem, por exemplo, a medição quantitativa. Entretanto, o desenrolar deste saber ideal só guarda sua legitimidade se reconhecer seus limites originais, pois ao desmerecer as qualidades sensíveis, desmereceu também a vida que as anima, e consequentemente o ser humano que manifesta a vida. Esta é a segunda e a mais perigosa abstração que a ciência perfaz: a abstração da vida, ou seja do que nos importa realmente.

A ciência que se crê só no mundo e que se comporta como tal se concretiza na técnica, seja um conjunto de operações e de transformações explorando suas possibilidades na ciência e em seu saber teórico, à revelia de outras formas de saber e de qualquer referência ao mundo da vida e à vida ela mesma. No entanto, como já vimos, a essência da técnica, em sua relação dupla, positiva à respeito da ciência, e negativa à respeito da vida é de difícil apreensão, requerendo uma elucidação sistemática.

Nessa alquimia entre ciência e técnica, no cadinho de uma humanidade que se instituía como sociedade moderna, caracterizada pela emergência de diferentes autonomias, nos mais variados domínios, da vida contemplativa à vida ativa, percebe-se o que o filósofo Dominique Janicaud (1985) denominou de “potencialização científica”.

A ciência moderna inverte o sentido do adágio escolástico: operari sequitur esse. A operação não se subordina a um ser anterior, superior em si. Ela faz sobressair, por exemplo, uma lei universalmente válida cujas aplicações não cessarão de confirmar a necessidade e a eficácia. A aparição da lei destaca um campo de potencialização, quer dizer novos poderes: virtualidades voltadas não para uma anterioridade absoluta e em si, mas para os efeitos novos que serão obtidos por colocar em obra (e em aplicação) a explicação científica. (Janicaud, 1985, p. 157)

Para Janicaud, na potencialização científica verifica-se o “possível” atualizado e atualizando, graças a um sentido determinado do “possível”, segundo a tradição originária de Aristóteles: o virtual[fn]Para Aristóteles, o virtual manifesta a primazia ontológica do ato; é um atual, mas suspenso, contendo todas as condições essenciais para sua efetiva atualização (Janicaud, 1985). Neste sentido é interessante comparar a proposta de Pierre Lévy (1996) sobre a virtualização: uma inversão da trajetória normal da atualização, da manifestação de uma forma a partir de uma configuração de tendências e forças.[/fn]. Nesta linha de pensamento, se a ciência potencializa, não é no universo imenso e vago dos possíveis, mas a partir de uma energeia que já excluiu, por sua própria posição, outros possíveis, e que abre no entanto por sua theoria novas visões, quer dizer novas possibilidades técnicas e práticas. O ato, para Aristóteles, é anterior a potência. Assim sendo, não é pelo fato de possuírem a faculdade de ver que os animais veem, mas é justamente para ver, que eles possuem esta faculdade.

Em sua generalidade, a potencialização designa, em Janicaud, o processo de engendramento do poder da racionalidade, especialmente no Ocidente. Os dois sentidos de “reserva de possível” e de “efetuação do ato”, estão copresentes na expressão tão usual: “o poder da ciência”.

As múltiplas idas e vindas entre ciência e técnica, na fundação da Modernidade, insinuam também, para Janicaud, a ideia de que um meio, sobre bases científicas, estaria se instituindo. Um meio, em que o pensar e o agir, se regulam segundo os princípios propostos pela ciência emergente; princípios de coerência, de apodicidade, e de universalidade, pretendendo potencializar a racionalidade humana, pela transposição de um limiar decisivo do ser humano tradicional; tornando efetivamente possíveis e virtualmente realizáveis, operações antes inimagináveis e inconcebíveis.

O meio recebe, portanto, esta qualificação de científico, pelo assentimento de seu centro correspondente, o homem, a este poder da racionalidade moderna. Assim este meio científico se atualiza, nos últimos trezentos anos, “elevando a potência” os elementos que outrora constituíam o meio, classificando-os segundo sistemas e mensurando-os segundo modelos estatísticos e matemáticos, à medida que o ser humano encarna a divisa galileleana de “matematização da Natureza”.

Neste sentido, Janicaud entende o Método, enquanto “especificação altamente refletida e auto-controlada do método racional clássico” (Ladrière, 1979), como efetuação, mas não efetuando nada em particular; apenas tornando possível um novo regime de poder da racionalidade, distinta da iniciada pelos gregos. Vemos se manifestar então uma característica decisiva do chamado progresso científico: “a partir do momento onde a potencialização epistêmica se dinamiza em potencialização operatória, a ciência integra o crescimento do poder, a seu projeto, como objetivo estratégico, e as efetuações aferentes, no interior e no exterior da ciência, ficam sem medida comum com os resultados precedentes.”

Meio Informacional

Meio Informacional mccastro dom, 05/08/2011 - 18:21

O qualificador informacional para o meio, sugere a presença crescente de sistemas informáticos entre os elementos deste meio, e o processo de informatização ou de gradual sistematização e digitalização de todas as coisas, passíveis de transcrição como dado digital, em seu “fantasma informacional”.

Assim sendo, uma contribuição para este entendimento da natureza informacional do novo meio deve começar por uma tentativa de clarificar os termos específicos associados à questão informacional, quais sejam: informática, computador e informação.

Philippe Breton (1991) afirma que estes são, de fato, grandes termos “metatécnicos”, e não simples termos operatórios. No sentido que designariam uma ação definida dentro de um domínio específico, mas que servem, ao mesmo tempo, para se pensar e se designar este domínio.

Em 1955, foi proposto, por Jacques Perret, professor da Sorbonne, o termo ordinateur (ordenador, em francês), a pedido da companhia IBM-France. Para Breton, o objetivo parece ter sido de individualizar, por um nome especial, as calculadoras eletrônicas digitais que a companhia produzia àquela época, ao mesmo tempo que pretendia indicar que estas calculadoras podiam preencher além das funções numéricas, funções sociais dentro das organizações e da própria sociedade.

Sob este duplo interesse, se ocultava um jogo geopolítico de afirmação da França, neste cenário emergente da informática, através da definição de uma linguagem tecnológica própria, fundada na língua francesa.

Breton faz notar que a escolha terminológica de Perret baseou-se, segundo uma carta do próprio Perret, no vocabulário religioso, por mais distante que este possa ser do objeto designado e de seu novo contexto técnico. Efetivamente, ordenador designa a função daquele que confere uma ordem na Igreja. O ordenador é aquele que pratica a ordenação.

Mas ordenador é também um adjetivo, em francês. Um qualificador de ordem e arranjo. Desta maneira, este nome novo para a calculadora afigurava-se, desde o princípio, alinhado com o projeto social e cognitivo de uma emergente tecnologia da informação. Embora seus progenitores, na década de 40, divergissem a principio sobre o destino do computador: uma máquina de cálculo, para von Neumann, ou uma máquina de comunicação, para Wiener.

O termo francês, ordinateur, prenuncia muito melhor a natureza desta máquina, que revolucionaria a sociedade neste final de século. A denominação em língua inglesa, inicialmente “calculador(a)”, e, logo em seguida, “computador”, vela sob seu pragmatismo, o destino maior deste instrumento. Embora se possa dizer que também se esconde sob a denominação computador, uma designação religiosa, a do computus latino, referindo-se ao método de computar as datas das festas móveis no calendário eclesiástico anual.

Com o avanço da teoria da cibernética, nos anos 50 e 60, influenciando sobremaneira as demais ciências, e as técnicas em geral, popularizou-se a ideia de “máquina inteligente”, de “cérebro eletrônico”. Uma nova geração de máquinas, utilizando mecanismos sofisticados de regulação, em hardware e em software, oferecia-se como substitutos do homem em tarefas repetitivas, com mínima criatividade. A implementação do computador como componente destes sistemas, como seu centro de inteligência, seu “cérebro eletrônico”, deu um vigor maior à terminologia anglo-saxônica, em detrimento da francesa, ordinateur; ao mesmo tempo que se manifestava a hegemonia dos Estados Unidos neste cenário.

Quanto ao termo “informática”, mais novo (aparece em 1962) que “computador”, trata-se de uma concatenação de duas palavras que o precederam. Sobre exatamente que palavras, ainda existe alguma controvérsia. Breton nos informa sobre duas interpretações diferentes: para alguns, fusão de informação e automática; e, para outros, “tica” é um sufixo associado à informação, com o propósito de indicar um domínio científico ou técnico, como em linguística.

Qualquer que seja sua origem prenuncia-se uma ciência ou uma técnica de tratamento da informação. Neste sentido, uma tecnociência com uma proposta de “método universal” para operar com dados de qualquer campo de estudo ou de atividade humanos. A questão crucial vai ser justamente colocada, sobre a caracterização deste objeto a ser tratado pela informática: a informação. Uma vez conceituada a informação, em qualquer disciplina ou atividade, o passo seguinte é a adequação do método informacional a seu pleno uso.

Segundo Breton, desde 1966, Jacques Arsac, o primeiro titular de uma cadeira de informática na França, já defendia uma conceituação precisa de informação, distinta de conhecimento, definindo a informação como um simples suporte, forma, ou envelope, como se queira, que não deve ser confundida com seu conteúdo.

Essa conceituação, por si mesmo reveladora de uma intencionalidade, é efetivamente uma das mais axiomáticas da informática, enquanto tecnologia da informação. Assim, de forma simples, mas pretensiosa, a informática se coloca como uma meta-tecnociência: um discurso e um método tecnocientífico capaz de formalizar, sob a codificação digital única de cada ente informacional, associada a um conjunto finito de operações lógicas sobre este mesmo ente, a linguagem perfeita e universal de registro de tratamento e processamento dos conteúdos informacionais-comunicacionais, de qualquer disciplina ou atividade.

Reconhecer e redimir este agravo à justa racionalidade, é o maior desafio que vem sendo colocado pela chamada informatização da sociedade, a qual, em sua ação mais elementar, assemelha-se a um simples processo de operação sobre informações, de qualquer natureza, pela informática. No entanto, podemos dizer que a informatização, em sua idealização maior, configura-se de fato, como a mais recente manifestação do grande ideal de uma clavis universalis[fn]“O termo clavis universalis foi empregado, entre os séculos XVI e XVII, para designar o método ou ciência geral que permite ao homem apreender, alem das aparências fenomenais ou das sombras das ideias, a estrutura ou trama ideal que constitui a essência da realidade.” (Rossi, 1993, p.13)[/fn].

Assim, informatizar é, um supermodo de organização. Tanto desencadeia as forças produtivas, como contém os modos de produção no poder e não poder de uma ordem planetária de dominação. Os modos cibernéticos de organização recolhem em si as condições de toda a vigência social e de toda a causalidade histórica. Ora, é no fluxo de uma socialização total, é na avalanche de uma historização que as ordens simbólicas se compõem com as ordens pragmáticas nas superestruturas da automação. Se pensarmos, portanto, em toda a envergadura o desafio da informatização, não há cegueira que nos impeça ver nela a realização da essência planetarizante da técnica moderna. No poder dos chies de macro- e micro-bytes, Hegel celebra com Marx o sistema do absoluto, quer em sua versão idealista, quer em sua versão materialista. É a composição final de todas as posições e de todas as oposições em sua dinâmica de locupletação. É a síntese escatológica de todas as teses e de todas as antíteses, em sua história de absolutização. (Carneiro Leão, 1992, pág. 94)

Meio técnico-científico-informacional

Meio técnico-científico-informacional mccastro dom, 05/08/2011 - 18:29

Dissolvidos os ingredientes do meio técnico-científico-informacional, é hora de reuni-los de novo, coagulando-os segundo uma perspectiva diferente, mais afim com a crescente emergência do ciberespaço e os novos tipos do dar-se e propor-se da informática.

É interessante, neste sentido, acompanhar o pensamento de Pierre Lévy (1995), quando expõe uma espécie de ciclo de evolução do que chama “saber coletivo”; algo que definitivamente ocupa e reorganiza o espaço e o tempo da humanidade, ou seja, o meio humano, ao longo de sua constituição. Sua visão se cerca de um certo utopismo, bastante comum entre os entusiastas da “Era da Informação”, mas deixa, no entanto, em alguns momentos, transparecer as anomias que se revelam neste processo, e, por conseguinte, os riscos associados a cada bifurcação desta trajetória.

Para começar, Lévy define o meio como “espaço antropológico”. Em outros termos “um sistema de proximidade (espaço) próprio ao mundo humano (antropológico) e logo dependente de técnicas, significações, linguagem, cultura, convenções, representações e emoções humanas”. Tendo em vista esta dependência de elementos endógenos ao próprio espaço antropológico, e, portanto, à exaltação da vida que nele se manifesta, o espaço antropológico se constitui segundo planos de existência que se entremeiam: o espaço da terra, o espaço do território, o espaço das mercadorias e o espaço do saber.

O espaço antropológico de Lévy reconhece e afirma o sentido da vida na sua constituição, na medida que vê nas interações entre a vida dos seres humanos e seu meio físico e propriamente humano, a matriz na qual se produzem, se transformam e se geram continuamente espaços antropológicos, heterogêneos porém entrelaçados ou entremeados. Estes espaços plásticos, que se tecem mutuamente em suas interações, compreendem, por sua vez, signos que os sustentam, representações que os evocam, pessoas que os conduzem, e toda a situação em seu conjunto, tal qual é produzida e reproduzida nos atos-fatos realizados por seus integrantes.

A proposição de Lévy poderia ser reformulada do seguinte modo: os espaços vividos se movimentam e se conformam ao redor de objetos e ações que eles mesmos compõem e organizam, ao mesmo tempo, que são por estes objetos e ações também compostos e organizados. Visto por outro ângulo, os indivíduos vivos tramam espaços, pela composição e troca de imagens, palavras, conceitos e coisas, impondo uma certa estrutura, segundo a intensidade afetiva ou de vida, engajada neste processo. Resultam assim espaços diferenciados, efêmeros ou duráveis, formais ou informais, institucionais ou não.

Para Lévy, reconhece-se a importância de um evento qualquer, na ordem intelectual, técnica, social, histórica ou geográfica, por sua capacidade de reorganizar as proximidades e as distancias em um espaço, ou seja, por seu poder de instaurar novos espaços-tempo ou novos sistemas de proximidade. Em virtude de alguns eventos maiores na civilização ocidental, em particular na modernidade, se constituíram de forma acelerada diferentes espaços antropológicos. Passamos a viver em uma multiplicidade de espaços diferentes, cada um com seu sistema de proximidade particular (temporal, geográfico, afetivo, linguístico, etc.). De tal forma que uma entidade qualquer pode estar próxima de nós em um espaço, e bem longe em outro. O fato é que, cada espaço, mesmo interpenetrado por outros, guarda ainda sua topologia e sua axiologia, ou seu sistema de valores ou de medidas, particular.

Os espaços emergem do interior da relação da vida humana como seu meio, como mundos vivos, e são continuamente engendrados pelos processos e interações que se desenvolvem dentro desta relação fundamental. Eles parecem se desenvolver de forma irreversível, ganhando consistência e autonomia e se tecendo mutuamente. Entretanto eles não devem ser entendidos como estratos de infra ou de superestruturas, que se determinam mecanicamente ou que se interagem dialeticamente. Cada espaço é um plano de existência da vida, onde se identificam frequências e velocidades, ou seja, ritmos determinados.

Lévy identifica o “espaço cibernético” como o mais recente plano de existência da vida. A trama que este constitui vem se imiscuindo de forma acelerada, por entre os demais espaços, beneficiando, a principio, apenas um pequeno estrato social, a elite dos “bem sucedidos” nos espaços territorial e transacional.

Formado assim pela inserção estratégica de tecnologias da informação e da comunicação no espaço das transações, tecnologias originalmente concebidas e voltadas para o exercício das funções de armazenamento, controle, e transmissão de dados, o ciberespaço começa a oferecer aqui e ali, acesso a um novo espaço antropológico, maciçamente promovido como indispensável à comunicação e ao saber, e até mesmo à vida[fn]Tocando, localmente, cada indivíduo e traçando inúmeros caminhos, diretos e inversos, do local ao global, nossas redes, tecnológicas, tendem, portanto, pouco a pouco, a substituir as antigas grandes instancias ou instituições encarregadas do global, Estados, Direitos, Igrejas, Bancos e Bolsas, Escolas e Universidades. [...]
Donde sua capacidade de destruir ou substituir, para o pior ou o melhor, o político, o religioso, o direito, a cultura e o saber; as relações de violência e de força; o comercio e o dinheiro; três instancias encarregadas, desde a aurora da história, de fazer aparecer e forjar o liame social. (Serres, 1994, pág. 203-204)[/fn].

Como muito bem coloca o Lucien Sfez (1994), o atual discurso (logos) sobre a técnica, eloquentemente expresso sobre a moderna tecnologia da informação e da comunicação, só assume toda esta relevância “numa sociedade que não sabe mais comunicar consigo mesma, cuja coesão é contestada, cujos valores se desagregam, uma sociedade que símbolos usados em demasia não conseguem mais unificar”. A sedução da tecnologia é tanta, que o centro de gravidade da sociedade moderna está na sua qualificação de sociedade da comunicação ou da informação, entendido este qualificador como um fim em si mesmo, articulado sobre o aparato tecnológico que o sustenta. Como afirma Sfez, o que surpreende é que até o século passado não se falava em comunicação ou informação, pois estes elementos se encontravam no princípio constitutivo da própria sociedade.

Segundo Lucien Sfez três atitudes de pensamento se inscrevem na sociedade atual, se justapondo progressivamente, para criar e valorizar o ciberespaço. Primeira atitude: o discurso da razão instrumental, onde o homem diante da tecnologia que criou, utiliza-a como uma ferramenta; COM a tecnologia o ser humano desempenha as tarefas que determina, se submetendo à disciplina das atividades para as quais concebeu o meio de realização eficaz e eficiente, através das ferramentas que desenvolveu e aplica; o engenho, o instrumental, é na verdade a ponta de um iceberg, sua sombra se estende além de sua materialidade física, e seu papel de intermediário acentua o peso da representação que impõe como interface com a realidade.

Segunda atitude: pela adoção contínua, o instrumento se torna familiar, um contexto natural que passa a compor com o ser humano uma “estrutura orgânica”, onde a tecnologia está NO mundo, e este último, mediado por ela, é partilhado e vivenciado; o aparato tecnológico que sustenta o ciberespaço, conduz ao declínio do espaço físico, de toda extensão, em prol da tele-presença; até mesmo da “intrusão intra-orgânica da técnica e de suas micro-máquinas no seio do vivente” (Virilio, 1993).

Terceira atitude: o domínio absoluto do discurso da técnica, regendo a visão do mundo, criando até uma certa subjetividade individual e social, ao nível de sua própria identidade (talvez alimentando uma certa esquizofrenia); a Creatura do Dr. Frankenstein, retrata muito bem, embora de forma alegórica, este clone de ser humano e social que vem sendo construído à medida que os atos e fatos de nossa vida são apropriados pelas tecnologias da informação e da comunicação.

Em uma brilhante análise, Lucien Sfez denomina esta nova fase de “tautismo”, uma combinação de autismo e tautologia, onde “num universo onde tudo se comunica, sem que se saiba a origem da emissão, sem que se possa determinar quem fala, o mundo técnico ou nós mesmos; nesse universo sem hierarquias, salvo confusas, em que a base é o cume, a comunicação morre por excesso de comunicação”.

Meio e informática: ontogenia comum?

Meio e informática: ontogenia comum? mccastro dom, 05/08/2011 - 18:47

Retomando a intenção inicial, ao compor este longo discurso sobre o engenho, o meio técnico-científico-informacional e o dar-se e propor-se da informática, a conclusão esperada é a afirmação de uma ontogenia comum dos mesmos. Esta conclusão baseia-se no entendimento de que o engenho é, entre tantos outros, um dis-positivo de representação de natureza técnica-científica-informacional, por conseguinte, ideal e substancialmente vinculado ao referido meio, que o produz originalmente.

Por outro lado, a informática, que se dá e se propõe a partir da coalescência dos elementos pessoa, engenho, problema e meio, reproduz em uma escala micro o meio, na medida que manifesta, sob a regência do engenho, os princípios e estruturas epistêmicas ou de conhecimento que a informática porta em gérmen do próprio meio que a produziu originalmente, sob a égide da com-posição, a essência da técnica moderna.

Estas estruturas epistêmicas ou de conhecimento que respondem originalmente à essência da ciência e da técnica modernas, determinam, por sua vez, a própria representação digital do meio no dar-se e propor-se da informática. Ou seja, estruturas epistêmicas que o meio adotou em sua própria conformação à metafísica da Modernidade, garantem assim sua reprodução digital neste simples dar-se e propor-se em distintas situações de aplicação das tecnologias da informação e da comunicação.

O décor tecnológico que nos cerca dá lugar a um verdadeiro fenômeno de indução existencial. Essa indução é uma espécie de transferência do modo de ser inscrito no décor tecnológico ao modo de ser do próprio homem. O ser humano é, de certa forma, modelado segundo a imagem dos objetos técnicos. Na verdade, ele deve ser considerado, nesse contexto, não mais como o sujeito puro (como o era na filosofia da representação), mas como "existente", como relação viva com o mundo. Trata-se do ser humano tal como a fenomenologia contemporânea tentou descrevê-lo: do ser humano que está em questão para si mesmo, enquanto está em suspenso diante de si; do ser humano que se descobre responsável por si mesmo no meio de um mundo no qual é lançado. Para ele, este mundo é, ao mesmo tempo, desafio e apoio, um campo infinito aberto à sua exploração questionante e um limite. Considerado como "existente", o ser humano nunca é transparente a si mesmo. No entanto, não lhe falta clareza sobre si próprio.

A indução existencial é uma espécie de reverberação do meio ambiente e da metafísica que lhe é subjacente sobre o existente humano imerso nesse meio. É uma espécie de transformação interior que afeta o ser mesmo do homem e que constitui exatamente o oposto de uma conversão. Trata-se da passagem daquilo que era uma plenitude de existência para um estado que, em última análise, não é mais do que um simples mecanismo. O termo "indução existencial" se refere a fenômenos extremamente concretos. Quando começamos a tratar o ser humano segundo os critérios da cientificidade, que são os da pesquisa "objetiva" (como descritos acima), transformamos efetivamente o ser humano em objeto e, por conseguinte, o suprimimos enquanto ser humano. (Ladrière, sem data, pág. 27)

Morfogênese da informática no meio técnico-científico-informacional

Morfogênese da informática no meio técnico-científico-informacional mccastro dom, 05/08/2011 - 18:54

Para um melhor entendimento da morfogênese da tecnologia no meio técnico-científico-informacional é necessário resgatar a visão morfológica proposta por Goethe. Mais antiga que a sistêmica, esta visão teve um forte impulso no final do século XVIII, dentro do Romantismo alemão. Em um estudo sobre o pensamento morfológico de Goethe, a filósofa portuguesa Maria Filomena Molder (1993 e 1995), oferece uma interpretação ímpar desta visão da Natureza, unificando todos os fragmentos científicos e filosóficos dispersos pela imensa obra de Goethe. Para Molder, a observação da metamorfose não era nova, aliás, a originalidade é um valor fraco para Goethe, para quem “a história do conhecimento humano repõe ciclicamente os próprios motivos do conhecimento, englobando os seus próprios alvos e correspondendo às solicitações próprias daquilo que é para ser conhecido”. Entre várias referências mais antigas à esta temática da morfogênese, poderia se citar o próprio Lineu, que dedicou um terço da sua obra Philosophia Botanica à Metamorphosis vegetabilis. Molder reconhece no pensamento morfológico de Goethe um relançamento de temas metafísicos, obrigatório em todas as investigações de natureza organicista, levantando questões relativas à metamorfose (em que cada forma é formação), à forma em si, à formação em si, à visibilidade e invisibilidade da forma (vide seu tratado sobre as cores), ao ciclo das formas (nascimento-crescimento-morte). Questões, que segundo Molder, nos exigem uma tarefa de compreensão maior da “epifania diferenciada e unificável daquilo que há enquanto há”. Não se trata em geral da redução indeterminada da multiplicidade à unidade, mas de no terreno concreto das formas singulares, consideradas nos seus pormenores, não perder de vista à redução que está ocorrendo, ousando determiná-la a cada vez. Em Goethe reúnem-se, por conseguinte, os dois grandes movimentos conceituais que Platão e Aristóteles levaram a cabo: por um lado, a procura de um modelo originário, de um arquétipo das morfologias visíveis, por outro, a ideia de um propósito imanente à forma, uma enteléquia, onde se levantam questões de teleologia, expressas através da compreensão da uniformidade dos corpos dos seres, pela descoberta de similitudes estruturais.

Cada forma é algo em aproximação histórica de si própria e da nossa possibilidade de a conhecer, reconhecendo-se através das suas transformações. Apenas na sua efectividade se capta, portanto, a essência de uma coisa, através de um movimento, de um impulso configurativo da história completa das suas acções. A essência de uma coisa apreende-se na medida em que conseguirmos recolher uma imagem sinóptica das sua formas manifestadas, tal como o caráter de um homem unicamente pela reunião expressiva das suas acções e realizações se pode descrever. (Molder, 1993, pág. 17-18)

Mais recentemente, no inicio deste século XX, D’Arcy Thompson retomou o pensamento de Goethe, se contrapondo à forma simplista do transformismo pregado pela teoria evolucionista de Darwin. Depois de argumentar em prol do resgate da ideia de causa final, ou de teleologia, D’Arcy afirma e tenta comprovar em todo seu trabalho, que a forma de qualquer porção de matéria, viva ou morta, e as mudanças de forma, que são aparentes em seus movimentos e em seu crescimento, podem ser descritas em todos os casos como devidas à ação de forças “invisíveis”.

Em resumo, a forma de um objeto é um ‘diagrama de forças’, neste sentido, pelo menos, de que através dela podemos fazer um juízo ou deduzir as forças que estão agindo ou agiram sobre ele: neste sentido estrito e particular, é um diagrama - no caso de um sólido, das forças que foram imprimidas sobre ele quando sua conformação foi produzida, junto com aquelas que permitiram a ele reter esta conformação; no caso de um liquido (ou de um gaz), das forças que estão no momento agindo sobre ele para restringir ou equilibrar sua mobilidade inerente. Em um organismo grande ou pequeno, não é apenas a natureza dos movimentos da substância viva que devemos interpretar em termos de força (de acordo com a cinemática), mas também a conformação do organismo ele próprio, cuja permanência ou equilíbrio é explicado pela interação ou equilíbrio de forças, como descrito na estática. (Thompson, 1966, pág. 11)

Concluindo, nada melhor que outra imagem do artista plástico M. C. Escher (1898-1972) que parece retratar esta conclusão de morfogênese da informática segundo o meio e reprodução deste segundo a tecnologia da informação. Nesta litogravura, duas mãos (uma desenhando outra) emergem do mesmo papel, como por encanto. Deste mesmo papel, deste mesmo meio, cada uma empunhando um lápis, um mesmo instrumento, uma mesma técnica, desenha a forma da outra. A emergência das mãos, sua centralidade na imagem e sua ação mutuamente determinante, fazem lembrar uma observação de Heidegger sobre as mãos:

[...] Só um ser que fala, quer dizer que pensa, pode ter uma mão e realizar em uma manipulação o trabalho da mão. [...] Mas os gestos da mão transparecem na linguagem, e isto na maior pureza quando o homem fala em se calando. No entanto, é na medida que o homem fala que ele pensa e não o contrário, como a Metafísica ainda crê. Cada movimento da mão em cada uma de suas obras é conduzido pelo elemento do pensar, ele se comporta neste elemento. Toda obra da mão repousa no pensar. Por isto o pensar ele mesmo é o para o homem o mais simples, e no entanto o mais difícil trabalho da mão, quando vem o momento no qual ele deve ser expressamente realizado. (Heidegger, 1954/1959, pág. 90)

Escher Mãos

Circularidade do dar-se e propor-se da informática

Circularidade do dar-se e propor-se da informática mccastro dom, 05/08/2011 - 19:17

Toda a argumentação, construída até aqui, sustenta esta tese: existe um movimento de natureza circular e cíclica na instituição-constituição da tecnologia da informação, do meio técnico-científico-informacional, e, por conseguinte, do dar-se e propor-se da informática. Este movimento se reproduz sem maiores obstáculos, dado que o engenho e o dar-se e propor-se da informática são consubstanciais com o meio, segundo as mesmas propriedades (técnica, científica e informacional), ao mesmo tempo, que se apresentam como constituições técnicas-científicas-informacionais que emergem no processo da informatização, no meio da Modernidade[fn]O termo “técnica” deriva do grego technon. Este designa o que pertence à techne. Este termo tem, desde a aurora da antiga língua grega, o mesmo significado que episteme – quer dizer vigiar uma coisa, compreende-la. [...]
Dito de modo elíptico e sucinto: techne não é um conceito do fazer, mas um conceito do saber. techne e portanto técnica querem dizer que algo é com-posto (gestellt) no manifesto, acessível e o disponível, e é pro-posto enquanto presente em sua posição (Stand). Ora na medida onde reina na técnica o princípio do saber, ela-mesma fornece a partir dela mesma a possibilidade e a exigência de uma configuração particular do seu próprio saber ao mesmo tempo em que se oferece e se desenvolve uma ciência que lhe corresponde. Isto é um acontecimento, e este acontecimento advém apenas uma só e única vez no curso de toda a história da humanidade: no interior da história do ocidente europeu, no início ou melhor como início desta época que se denomina os Tempos Modernos. (Heidegger, 1989/1990, pág. 22-23, grifo meu)[/fn], ganhando vigor e presença no século XX, especialmente após a última Grande Guerra.

Como mutuários de uma mesma conjunção de valores, de ideais e de visão de mundo e de homem, engenho, meio e dar-se e propor-se da informática se instituem e se constituem, compartilhando as mesmas condições de reprodução e de disseminação, especialmente de seus efeitos e de seus resultados. Deste modo, o meio se consolida e, devido à própria substância técnica-científica-informacional, se auto-engendra e se auto-organiza, provendo sempre novos objetos com novas facetas, novos arranjos, novas gerações, que o realimentam e o reproduzem.

É a experiência de um paradoxo no uso do engenho, que chama a atenção para essa consubstancialidade do engenho, do meio e do dar-se e propor-se da informática: existe uma total incapacidade do engenho de representação, de representar este mesmo meio do qual retira sua substância.

Com efeito, os objetos e fenômenos deste meio, constituídos sob a estrutura epistêmica deste mesmo meio, e qualificados sob as rubricas técnica, científica e informacional, só admitem representações quantitativas e matemáticas, construídas a partir de um conjunto de dados simbólicos, cuja definição está submetida aos termos, noções e conceitos impostos pelo próprio meio. Ou seja, os princípios e estruturas de conhecimento[fn]Isto significa nada menos que: a técnica é codeterminante no conhecer. Isto só pode ser porque seu caráter mais próprio possui ele mesmo algo de um traço de conhecimento. (Heidegger, 1989/1990, pág. 22-23)[/fn] do engenho estão intimamente comprometidos com o meio do qual é produto e produtor, no dar-se e propor-se da informática.

Esta caracterização do engenho como constituído por este meio, e, ao mesmo tempo, no dar-se e propor-se da informática, como constituinte deste meio, enfim, ambos como constituições técnicas-científicas-informacionais, exige um exame de sua morfogênese no e pelo meio. É isto que desenvolve o capítulo seguinte, examinando o processo de informatização responsável pela gênese e sustentação do engenho, e do meio técnico-científico-informacional, no dar-se e propor-se da informática.

O que importa, de imediato, é a constatação que a ontogenia do dar-se e propor-se da informática, na coalescência dos demais modos de responder e dever refletidos e recolhidos pelo engenho operado pelo homem, se dá na total imersão e interação com um meio técnico-científico-informacional, e, por conseguinte, se instrui e se dinamiza segundo esta simbiose meio-engenho-informatização-meio, que só pode produzir e reproduzir objetos consubstanciais. Como afirma brilhantemente Ladrière:

Portanto, em nossa existência concreta e, a partir do funcionamento mesmo dos objetos técnicos, há indução de uma dualidade do vivido e do construído; existe mesmo (o que é pior) substituição do vivido pelo construído. Quer dizer: há uma extensão crescente do campo da objetividade. Ora, o espírito da construção é o domínio, um saber-fazer fundado num conhecimento preciso das estruturas e dos funcionamentos. No caso da máquina o domínio se mostra particularmente evidente. Sabemos exatamente como se constitui sua estrutura, pois conhecemos os princípios da sua construção. E sabemos como ela funciona, pois conhecemos em função de que performances a serem realizadas ela foi construída. (Ladrière, sem data, pág. 28)

Resta agora tentar compreender a informatização enquanto processo que antecede a informática e não decorre da mesma, como se supõe em geral. A informatização de fato culmina uma ação de forças ou de vetores como a “matematização” e a “logicização”, que “com-põem” este meio, e “con-formam” o engenho.

A informatização é o episódio mais recente da história do ser. Como afirma Heidegger:

Aquilo que é hoje em dia, é marcado pela dominação da essência da técnica moderna, dominação que, em todos os domínios da vida, já se manifesta por características com nome múltiplos, tais como funcionalização, perfeição, automação, burocratização, informação. (Heidegger, 1968, pág. 286)

A Informatização

A Informatização mccastro seg, 05/09/2011 - 06:10

A apelidada “Era da Informação” assenta-se sobre o pressuposto de um processo aparentemente inexorável, qual seja, a informatização tanto da Sociedade quanto da Natureza. Ou, mais corretamente, a informatização de todas as atividades humanas na Sociedade e de todos os meios de conhecimento da Natureza.

Embora a informática tenha surgido no cenário científico-tecnológico, após a Segunda Grande Guerra, a informatização[fn]Em nossas peregrinações de ser, não ser e vir a ser, sentimos, a cada passo, uma diferença entre realidade e realização. Não se trata de fato entre fatos, nem de coisa entre coisas, seja dada, feita ou pronta, seja deste ou de outro mundo. Trata-se da estranheza constitutiva e do desafio próprio da existência histórica dos homens. A realidade é sub-reptícia. Sua vigência nunca é direta. Seu impacto é sempre oblíquo. A realidade se dá, como realização, na medida e enquanto se retrai, como subtração. Ora, dar-se enquanto se retrai, apresentar-se na ausência, manter-se vigente na falta, é o vigor próprio da realidade. Questionar os desafios da informática exige pensar o vigor da realidade realizando-se na informatização. (Carneiro Leão, 1992, pág. 91, grifo meu)[/fn] tem seus princípios em elaboração desde a Renascença, de forma subjacente e singular ao Ocidente. Muitas iniciativas sinalizam este processo avançando a passos largos pela Modernidade. Coube, por exemplo, ao imaginário iluminista alimentar a quimera de uma linguagem universal (Eco, 1994; Rossi, 1993) e lançar os fundamentos intelectuais para a reflexão sobre os engenhos capazes de reproduzir, de algum modo, o pensar humano.

A tecnologia da informação “reflete e recolhe”, pelo retirar-se do homem enquanto seu periférico operativo, no dar-se e propor-se da informática, os outros três modos mencionados de responder e dever de sua manifestação como engenho de representação. O logos informacional-comunicacional é o novo “Discurso do Método”, e funda-se no fazer aparecer do ente, através de seu fantasma informacional-comunicacional, no dar-se e propor-se da informática.

As três causas (materialis, formalis e finalis) de responder devem ao reflexo na tecnologia, o fato e o modo em que aparecem e entram no jogo de produção que caracteriza o dar-se e propor-se da informática, cuja realidade revela, por sua vez, a realização da informatização.

Esse processo de informatização é de tal modo abrangente e profundo que é capaz de fazer prevalecer em sua esteira, um meio, um mundo circundante reduzido à realidade do engenho de representação e o que ali se reflete. Na feliz expressão do geógrafo Milton Santos (1995), um meio técnico-científico-informacional.

Neste meio emergem e proliferam de maneira dominante, outras dis-posições e dis-positivos correlatos que dão abrigo e fazem circular entre si fantasmas informacionais-comunicacionais. Estes são como cópias ou mimeses virtuais dos entes intramundanos, ou seja, representações projetadas sobre o virtual, de uma apropriação, segundo o modo informacional-comunicacional, destes entes, operados pela razão e registrados pela memória, em “dis-ponibilidade para exploração”.

Justamente por emergir desse meio humano, a tecnologia da informação, guarda em si, por mais avançada que seja sua base tecno-científica, uma dimensão humana e social. A mesma que a fez nascer, sustenta sua operação e garante sua reprodução.

Fantasmas Informacionais

Fantasmas Informacionais mccastro seg, 05/09/2011 - 06:15

A aplicação indiscriminada da informática, diante de uma participação humana cada vez mais reduzida ao operacional e periférico da técnica, dissemina uma multidão crescente de fantasmas informacionais, em fluxo contínuo, que se faz reproduzir pela teia (web) que conecta os engenhos de representação. A informatização segue sua realização a partir das formas capturadas e recodificadas da razão e da memória.

Com efeito, esses fantasmas informacionais uma vez capturados no formato digital das tecnologias da informação e da comunicação, se reproduzem segundo padrões ditados pelo próprio engenho, à medida que vão sendo metamorfoseados por suas linguagens de programação e estruturas de armazenamento de dados simbólicos.

Apreendidos assim em bases de dados, pela malha cada vez mais fina de sistemas classificatórios distintos e processos sofisticados de digitalização, estes fantasmas ganham consistência e se materializam sob a técnica da informação, perambulando soltos na névoa dos chamados sistemas de informação e na teia da Internet.

Cada vez mais circulamos em circuitos integrados de larga escala. O cilício, que hoje nos ameaça, é de silício. O desafio, que hoje nos atinge, provém de uma autocracia informacional. A informática se torna um rolo compressor. Em seu tropel a sociedade rola de alto a baixo. Tudo se processa. Por toda a parte opera um micro. Nenhuma força de tradição parece poder resistir à atropelada da computação. As novas gerações de computadores prometem interface para tudo. Aumenta sem cessar o número de periféricos. Pois o grande periférico visado é o homem que espera o inesperado. Pois neste caso nada poderá fugir a informatização. (Carneiro Leão, 1992, pág. 93)

Informatização e Modernidade

Informatização e Modernidade mccastro seg, 05/09/2011 - 06:18

A atual pujança dessa informatização, especialmente nos países economicamente desenvolvidos, permite afirmar que seu poder não nasce de um simples modismo contemporâneo, mas de um processo com fortes e profundas raízes na Modernidade, ou melhor, na metafísica da Modernidade. Um processo no qual a tecnologia da informação, enquanto instrumental por excelência desta Modernidade, se apresenta apenas como epicentro de algo muito maior: o olho de um furacão em movimento, que por onde passa pulveriza sob a forma digital todos os objetos ou fenômenos que encontra.

Sob essa manifestação mais visível da informática, e sob suas atualizações múltiplas em sistemas que vão desde os jogos de entretenimento até os chamados sistemas especialistas ou inteligentes, se anunciam os vetores de sua morfogênese na Modernidade; “ideias-mentoras”, em contínuo movimento de associação e de desdobramento, têm como resultado imediato, o estímulo à composição de sucessivos híbridos digitais e a reprodução do meio que os integra.

Mas o que é isso, informatizar?

Mas o que é isso, informatizar? mccastro seg, 05/09/2011 - 06:20

Mas o que é isso, informatizar?

Para o Pensamento, informatizar não é o verbo que designa os fatos e feitos da informática. Não nos remete apenas para o funcionamento de ferramentas e aparelhos, não se refere a dispositivos de processamento ou a instalações de computação, com todas as mudanças que acarretam. A informatização não é o resultado da expansão mundial de uma parte, de sorte que a totalidade resultante fosse o todo de uma parcialidade geral. A informatização não se reduz a transferir determinada integração de ciência e técnica, de conhecimento e ação para todas as áreas em que se distribuem os homens histórica e socialmente organizados. Informatizar é o processo metafísico de Fim da História do poder ocidental. Na informatização e por ela, o poder de organização da História do Ocidente se torna planetário. A dicotomia de teoria e prática, de mundo paciente de objetos e mundo agente dos cérebros vai sendo superada numa composição absorvente. Por ela se complementam, numa equivalência de constituição recíproca, o sujeito e o objeto, o espírito e a matéria, a informação e o conhecimento, o mundo dos cérebros e o mundo das coisas. A luta entre materialismo e idealismo se torna, então, uma brincadeira de criança. O pessimismo e o otimismo se transformam em categorias inofensivas para classificar irmãos de uma mesma família. Sendo um verbo de essência, informatizar nos precipita na avalanche de um poder histórico de realização. Por isso não indica primordialmente o processamento automático de conjunturas, mas um processo autocrático de estruturação, que tudo aplana, tudo controla, tudo contrai numa, composição onipotente. A terra e o mundo, a história e a natureza, o ser e o nada se reduzem a componentes de compatibilidade universal. A informatização é uma voracidade estrutural em que todas as coisas, todas as causas e todos os valores são acolhidos, são defendidos, são promovidos, mas ao mesmo tempo perdem sua liberdade e fenecem em criatividade. (Carneiro Leão, 1992, pág. 94)

A informatização é uma dessas ideias-mentoras da Modernidade que configura assim um dos principais processos que são sustentados e que, ao mesmo tempo, sustentam o meio técnico-científico-informacional. As relações homem-homem e homem-natureza encontram-se, cada vez mais, condicionadas e mediadas por tecnologias da informação e da comunicação, que, ao mesmo tempo, constituem e são constituídas pelo meio técnico-científico-informacional que abriga progressivamente a vida humana.

Informatização — Língua Técnica

Informatização — Língua Técnica mccastro seg, 05/09/2011 - 06:29

A relação homem-meio, tendo como “traço de união” a tecnologia da informação, orienta um processo muito peculiar de tecnicização, que singulariza justamente a chamada “Era da Informação”. Uma forma de tecnicização que se distingue pela capacidade de reconfigurar em híbridos digitais, qualquer ação humana ou fenômeno natural, e em fantasmas informacionais, os objetos sociais ou naturais, associados a esta ação ou movimento. A “língua técnica” substitui a “língua da tradição”, como afirma Heidegger.

É sobre os princípios tecno-calculadores desta transformação da língua — como dizer em língua como mensagem e como simples produção de sinais — que repousam a construção e a eficácia dos computadores gigantes. O ponto decisivo para a nossa reflexão atém-se a isto: são as possibilidades técnicas da máquina que prescrevem como é que a língua pode e deve ainda ser língua. O gênero (Art) e o estilo da língua determinam-se a partir das possibilidades técnicas de produção formal de sinais, produção que consiste em executar uma série contínua de decisões sim-não com a maior rapidez possível. A natureza dos programas que podem servir de entradas para o computador, entradas com as quais podemos, como se diz, alimentá-lo, regula-se sobre o tipo de funcionamento da máquina. O modo da língua é determinado pela técnica. Mas o contrário não é verdadeiro? O modelo da máquina não se regula sobre os objectivos linguageiros, como, por exemplo, os da tradução? Mas mesmo neste caso os objectivos da linguagem são, antecipadamente e por princípio, ligados à máquina, que exige sempre a univocidade dos sinais e da sua sucessão. É por isso que um poema, por princípio, não pode ser programado.

Com a dominação absoluta da técnica moderna cresce o poder - tanto a exigência como a eficácia - da língua técnica adaptada para cobrir a latitude de informações mais vasta possível. É porque se desenvolve em sistemas de mensagens e de sinalizações formais que a língua técnica é a agressão mais violenta e mais perigosa contra o carácter próprio da língua, o dizer como mostrar e fazer aparecer o presente e o ausente, a realidade no sentido mais lato.

Mas porquanto a relação do homem, tanto quanto ao ente que o rodeia e o sustenta como ao ente que é ele próprio, repousa sobre o fazer aparecer, sobre o dizer falado e não falado, a agressão da língua técnica sobre o carácter próprio da língua é ao mesmo tempo uma ameaça contra a essência mais própria do homem.

Se, avançando no sentido da dominação da técnica que determina tudo, temos a informação pela forma mais alta da língua por causa da sua univocidade, da sua segurança e da sua rapidez na comunicação de informação e de directivas, então o resultado é a concepção correspondente do ser-homem e da vida humana. Assim lemos em Norbert Wiener, um dos fundadores da cibernética, disciplina avançada da técnica moderna: «Ver o mundo inteiro e dar ordens ao mundo inteiro é quase a mesma coisa que estar em todo o lado». E noutro lugar: «Viver activamente significa viver com a informação apropriada».

No horizonte de representação da língua, seguindo a teoria da informação, interpreta-se igualmente de maneira técnica uma actividade como a de aprender. Assim escreve Norbert Wiener: «Aprender é fundamentalmente uma forma de retroacção pela qual o modelo de comportamento é modificado pela experiência que precede». «A retroacção... é um carácter absolutamente universal das formas de comportamento». «A retroacção é a condução de um sistema pela reintrodução no próprio sistema dos resultados do trabalho cumprido».

Uma máquina executa o processo técnico de retroacção, definido como circuito de regulação, assim como - senão de maneira tecnicamente mais reflectida -o sistema de mensagens da língua humana. É por isso que a última etapa, se não for a primeira, de todas as teorias técnicas, é explicar «que a língua não é uma capacidade reservada ao homem, mas uma capacidade que partilha até um certo grau com as máquinas que desenvolveu». Uma tal proposição é possível se se admite que o próprio da língua está reduzido, isto é, limitado à produção de sinais, ao envio de mensagens.

No entanto, também a teoria da informação vai, necessariamente, de encontro a um limite. Porque «cada tentativa de tornar unívoca uma parte da língua (pela sua formalização num sistema de sinais) pressupõe o uso da língua natural, mesmo não sendo ela unívoca» (C. Fr. von Weizsäcker, A língua como informação). A língua «natural», quer dizer, a língua que não foi por princípio inventada e imposta pela técnica, é sempre conservada e permanece, por assim dizer, como pano-de-fundo de toda a transformação técnica. (Heidegger, 1989/1990, pág. 38-42, adaptação da tradução portuguesa)

Pelo processo de informatização, qualquer objeto é, de forma sistemática, traduzido em enunciados de uma língua técnica, que configura uma base de dados simbólicos, doravante reconhecida como seu ente informacional, ao mesmo tempo, que sua existência é dissecada, em diferentes sequências de operações sobre este ente informacional. Operações estas também passíveis de codificação, segundo uma forma lógico-matemática.

Informatização — realização do real pelo virtual

Informatização — realização do real pelo virtual mccastro seg, 05/09/2011 - 06:32

A informatização pretende assim ser a realização do real pelo virtual. O virtual realiza o real, no sentido de “tornar real” o real. Uma incongruência que, cada vez mais, faz sentido para um contingente crescente da humanidade conectada como periférico de tecnologias da informação, interligadas pela teia da Internet.

Mas, neste caso, como informatizar chega a realizar?

Decerto, realizar e informatizar não são a mesma palavra. Mas se não são a mesma palavra, em todas as comunidades linguísticas em uso, pertencem à mesma língua de origem e dizem a mesma coisa, a saber: a transformação do real numa forma controlada de poder. Informatizar é um neologismo derivado de informática para designar toda uma ordem de real, realização e realidade, instaurada pelo processamento micro-eletrônico das informações. Com os recursos denotativos e conotativos da adjetivação, substantivação e verbalização, se colocou em ação nos dois eixos da modernidade, no paradigmático e no sintagmático, um principio de ordem e uma força de organização, a que nada do mesmo nível poderá resistir: a informatização total da sociedade. Para se avaliar a profundidade das transformações históricas que aqui se operam, deve-se levar em conta duas coisas essenciais na dinâmica de realização da informática. Em primeiro lugar, a forma da informática não remete apenas para o âmbito artesanal das artes e ofícios. Remete também para o domínio de qualquer criação, seja na arte, na ciência, na indústria, na organização ou na convivência. Em segundo lugar, a forma da informática indica uma estrutura plural composta de circuitos e programação. De acordo com esta pluralidade se realiza uma composição de forma capaz de processar não apenas dados, mas conhecimentos, sistemas de relações. Tudo é, então, reduzido a formas e somente a formas. Nesta redução universal a informatização não apenas realiza, como, sobretudo, desafia em todos os níveis a criatividade e o inesperado de qualquer sociedade que se informatiza. (Carneiro Leão, 1992, pág. 95)

Informatização — Virtualização

Informatização — Virtualização mccastro seg, 05/09/2011 - 06:37

Esse discurso digital, promovido pela informatização, permite, por sua vez, toda uma nova reapropriação do mundo, sob diferentes bases epistemológicas e operacionais. Pierre Lévy (1998) é um dos pensadores contemporâneos que se questiona sobre a natureza desse processo, preferindo muito mais falar de virtualização, por considerar esta propriedade como imanente à própria essência do processo de informatização.

Contestando a visão comum de que a informática promove uma perda de materialidade das coisas, Lévy prefere reabilitar, a seu modo, o conceito aristotélico e escolástico, que entende o virtual como o que existe em potência e não em ato. Em outros termos, Lévy contradiz a oposição, que diz fácil e enganosa, entre real e virtual, onde este último geralmente se refere a uma simples ausência de existência, ou seja, à própria ilusão.

Lévy define o virtual, em oposição ao “atual”, como o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, estabelecendo assim um complexo problemático, que demanda um processo de resolução em perfeita sintonia com este nó de tendências original.

Para ele, a informática permite repotencializar a realidade, elevando-a a sua virtualidade, uma modalidade a partir da qual é possível realizá-la, segundo novas problemáticas, alinhadas, por sua vez, com os mais diversos interesses. Entretanto, é preciso entender que este poder de repotencialização reside justamente em sua capacidade de desconstrução-reconstrução de diferentes formas de representações da razão e da memória humanas, em múltiplas reproduções de seus fantasmas informacionais, sobre uma base tecno-científica de tecnologias da informação, cada vez mais ampla. Seria isto uma repotencialização ou uma despontencialização?

Informatização, potencialização?

Informatização, potencialização? mccastro seg, 05/09/2011 - 06:41

A questão da potencialização auferida pela informatização é difícil e delicada, mas parece indicar ainda mais a urgência de se criticar a informatização. A Filosofia, e em especial a Filosofia da Técnica, precisam reconhecer este movimento sui generis da informatização, em todas as suas dimensões. Precisam também constatar que no vórtice deste ciclone informacional, que vem atualmente desconstruindo e reconstruindo o mi-lieu (o entre-lugar) humano, situam-se instrumentos que realizam a metafísica da Modernidade, muito mais do que simples ferramentas, como ingenuamente se pode crer. Instrumentos constituídos e instituídos, segundo um determinado sistema de ideias, portanto, orientados por e comprometidos com a metafísica da Modernidade, ressonâncias absolutas da essência da técnica moderna.

Na operação dos chips aparece com toda a clareza desejável a oposição dos discursos técnico-científicos e dos percursos científico-técnicos a todos os demais discursos e percursos possíveis. A Essência técnica do conhecimento científico surge, então, como alavanca de Arquimedes, que desloca e empurra história abaixo a avalanche da informática. A técnica já não pode ser entendida como resultado de aplicação da ciência. Ao contrário, a ciência é que nasce estruturalmente, não decerto da técnica, mas do vigor, e vive na Essencialização da técnica. Nesta Essencialização se encontra: a ciência não é uma interpretação nem especulativa, nem contemplativa, nem reflexiva, nem transcendental da realidade. A ciência é técnica, um conjunto de práticas operatórias, tanto de natureza axiomática, como de natureza operacional, comprometidas com a transformação do real em objetividade e da objetividade em operatividade. O problema fundamental de todo este processo histórico relaciona-se com a composição. Trata-se de se decidir cada vez o que define concretamente o caráter técnico-científico de um conjunto de processos; o que distingue uma integração microeletrônica de qualquer outra composição; que funções contrapõem a razão e a lógica da ciência-técnica a outros possíveis usos da Razão e a outras formas lógicas de ação! (Carneiro Leão, 1992, pág. 98)

Informatização — Referências Teóricas

Informatização — Referências Teóricas mccastro seg, 05/09/2011 - 07:55

A informatização contemporânea orienta-se segundo três referências teóricas que chegaram à maturidade por volta das décadas de 30 e 40 deste século. A primeira foi a de linguagem ou sistema formal. Noção central da lógica matemática, criada por Frege, Russell & Whitehead, Hilbert, e, em sua configuração atual, resultante dos trabalhos realizados por Gödel, Tarski, Church e outros nos anos 1930.

Um sistema formal é uma espécie de jogo de construção compreendendo diferentes categorias de peças. Por um lado estas peças se reúnem segundo regras relativas a sua forma. Por outro, cada peça é um símbolo, isto é, guarda certo sentido. E o jogo é concebido de modo que, quando peças são reunidas em virtude de sua forma, elas constituem um símbolo composto, que guarda um sentido que justamente resulta da combinação apropriada dos sentidos de seus componentes. Assim sendo, um sistema formal funciona segundo dois níveis, o da forma (nível sintático) e o do sentido (nível semântico), e seu interesse está no paralelismo que se estabelece entre estes dois níveis.

Formalizar a razão e a memória humanas comprometidas com atos e fatos não é apenas “ficcionar a facticidade: é ficcionar – produzir sob condições puramente técnicas – a abertura à si da facticidade, sua dimensão hermenêutica” (Milet, 2000, pág. 207).

É ficcionar a transcendência, no sentido que a entende Heidegger: não somente a abertura ontológica ao ente – enquanto ela inclui a teoria, e todas as variedade de explicitação do ente – mas a facticidade desta abertura, a qual se manifesta através de todas as formas do senso comum: o discernimento, a visão de conjunto à luz da qual ela se exercita, o golpe de vista que toma a dimensão de uma situação... tudo que se deixa reunir sob o título de techne. É ficcionar a explicitação (a abertura doa como tal) que se deixa declinar em: abertura hermenêutica (o entender ante-predicativo) e explicitação apofântica (fixando o próprio em um enunciado). E por conseguinte, produzir a techne sob condições puramente técnicas, é – por hipótese – conceber e construir maquinas de pensar. A possibilidade de uma tal automatização repousa sobre a possibilidade de “formalizar o comportamento”. (ibid, pág. 207)

Teoria da Informação

Teoria da Informação mccastro seg, 05/09/2011 - 07:57

A segunda referência teórica é a teoria da informação. A teoria matemática que Claude Shannon expõe em 1948, apoiando-se sobre ideias que já circulavam há uns vinte anos, formaliza um dualismo, o significado e seu suporte material, rompendo com a estrutura clássica de forma-matéria. Seu objetivo é dar uma solução matemática e estatística à transmissão ou comunicação de mensagens por canais imperfeitos, garantindo sua conservação na passagem de um suporte físico para outro. Deste modo, define-se a informação, sem qualquer consideração sobre o sentido que possa ter, mas apenas como algo calculado; algo que defina estatisticamente a capacidade de transporte de um canal de transmissão.

Os modernos suportes ou mídias da informação acentuam este movimento, que da escritura ideográfica à escritura alfabética, afastaram o signo do sentido. Com o alfabeto as letras só ganham sentido pela combinação em palavras, e este sentido ainda assim precisa de um ato de leitura e de interpretação. Esta passagem do ideográfico ao alfabético reduziu o número de signos de milhares a dezenas. A informática vai radicalizar este movimento, se contentando com apenas dois signos de um sistema binário.

A escolha fundamental da informatização, enquanto “maquinação[fn]Na Machenschaft, a maquinação, fusionam a mechane, a maquina, e o machen, o fazer. A palavra designa portanto, no sentido mais amplo, a fabricação, poiesis, a manobra como manejo e manipulação. No sentido mais especificamente moderno, designa o caráter global do fazer, a manobra como conjunto de manejos contra “a terra”. Mas no sentido mais estreito, a maquinação, é a maquinalização. A fusão do “manual” e do “mecânico, é a automatização. (Schürmann, 1982, pág. 223)[/fn] informacional-comunicacional”, foi precisamente de tornar absoluta esta noção reduzida de informação. As peças ou símbolos dos sistemas formais considerados pela informatização não guardam em si um significado, no sentido habitual, mas são apenas informações, compreendidas objetivamente, quer dizer, apreendidas como um objeto ou um estado de fato, e assim capazes de maquinação.

Máquina Universal de Turing

Máquina Universal de Turing mccastro seg, 05/09/2011 - 07:59

A terceira referência é a máquina universal de Turing. Trata-se de um gênero abstrato do computador digital, que em um processo de informatização se apresenta sob quatro aspectos essenciais: como máquina, isto é, objeto potencialmente material, e obedecendo enquanto tal apenas às leis da física; como autômato, pois se posto em movimento, percorre seu percurso sem intervenção exterior; como operador sobre símbolos de um cálculo.

Mais adiante essas referências serão retomadas e devidamente apreciadas.

Informação — Fluído da Informatização

Informação — Fluído da Informatização mccastro seg, 05/09/2011 - 08:02

Os teóricos da informática fazem uma distinção entre dado, informação, conhecimento e até incluem em suas elucubrações a sabedoria. Imaginam uma espécie de escala do mais elementar, o dado, ao mais complexo, a sabedoria. Cada escalão parece ter uma substancialidade, que depende do simples acumulo quantitativo da substância do escalão abaixo, e de uma intensificação das relações internas desta substância, neste acumulo.

Evidentemente esta escala só foi conjecturada no século XX, quando os termos e as noções de dado e de informação, passaram a ser utilizados com frequência na literatura científica, ganhando a partir desta uma vulgarização inigualável, a ponto de serem considerados termos dominantes ultimamente. Dominantes e supostamente entendidos por todos, desde sua elaboração científica no domínio da telecomunicação.

Teoria da Informação

Teoria da Informação mccastro seg, 05/09/2011 - 08:06

Após sustentar em 1938, uma tese sobre a aplicação da álgebra de Boole , aos circuitos de comutação elétrica, o engenheiro e matemático Claude Shannon, juntamente com seu colega dos laboratórios Bell nos Estados Unidos, Warren Weaver, formulou, ao longo dos anos 40, a chamada “Teoria da Informação”.

Nesta teoria, o termo informação era conceituado como o indicador da organização em uma mensagem, sem qualquer conotação com o significado da mesma mensagem; ou seja, a partir de conceitos aportados e adaptados da Termodinâmica, se definia informação, pela primeira vez, como um termo científico, estabelecendo ainda, através de fórmulas estatísticas e matemáticas, como poderia ser medida.

A teoria de Shannon, prescrita face a um problema comunicacional que preocupava a emergente indústria das telecomunicações, determinou, além de seu campo imediato de aplicação, toda uma conceituação e nomenclatura, ao fixar componentes em um modelo voltado para o estudo de mensagens transitando em uma estrutura comunicacional, e promoveu desde então uma visão materialista e mecanicista da informação.

Mantido o modelo de Shannon, mas retirado qualquer suporte material para o canal de comunicação, por onde trafegam as mensagens entre emissor e receptor, passou a ser também celebrado um novo modelo, mais audacioso, no qual sujeito e objeto podem assumir respectivamente o lugar de receptor e de emissor, e a informação, além de designar uma espécie de fluxo místico entre ambos, se constitui em ente informacional, representando algo do receptor ou do emissor.

Este novo modelo, endossando e endossado por movimentos históricos, como o capitalismo, o cientificismo e o tecnicismo, fomenta a tradução de qualquer objeto sensível ou não, que seja de interesse, de estudo, de pesquisa, de gestão ou de possível comercialização, em um conjunto suficiente de dados que o representem sob a forma de dados simbólicos, capazes de serem capturados, armazenados, processados e distribuídos, segundo procedimentos operacionais, também passíveis de serem codificados como algoritmos.

Por esta arriscada senda, desbravada por anos de especulação científica (lógico-matemática, teoria da informação, cibernética, teoria da complexidade) e de práxis (em pesquisa, em organização e em informatização), avança o processo de informatização: os objetos se desvanecem sob mediações informacionais-comunicacionais, e passam a ter sua “sombra” digital, computacional, tratada e manipulada por meio de sistemas formais, formulados em algoritmos; ou seja, o mundo se transfigura em dados simbólicos operados por instrumentos informacionais-comunicacionais. Progressivamente, os suportes e os produtos do trabalho humano são desconstruídos-reconstruídos segundo seus atributos informacionais-comunicacionais.

Cego, portanto, e cego de cegueira radical, é quem, vendo apenas formas processadas, não pode perceber a mesma realização superando as dicotomias pré-cibernéticas nas próprias diferenças cibernéticas. Trata-se do tipo de cegueira que o efeito de distorção da informatização espalha por toda parte nas sociedades informatizadas. De tanto processamento automático já não se consegue ver os processos essenciais. Tudo perde substância e profundidade, tudo se dimensiona em formas com funções politônicas, sejam binárias, sejam terciárias. A funcionalidade se torna um destino histórico de toda a humanidade. (Carneiro Leão, 1992, pág. 97)

Termo e noção de informação

Termo e noção de informação mccastro seg, 05/09/2011 - 08:11

Na década de 50, o termo e noção de informação ganhou um novo impulso, com a comercialização dos primeiros computadores de “uso geral” e a aparente necessidade de formalização de duas ciências: da Computação e da Informação. A Ciência da Informação visava superar as limitações originais da teoria de Shannon, e fundar um campo epistemológico tendo como objeto a “informação”, e um elenco de questões sobre ela, tais como: uso; fontes; formas de extração, de representação e de processamento; atributos e sua mensuração; valor e proteção (Stamper, 1985). Enquanto a Ciência da Computação reunia as formulações de calculabilidade, máquina de Turing, etc. em um conjunto de princípios de constituição básica da tecnologia da informação emergente.

A tendência a reificação da informação, adotada e celebrada também por biólogos e cientistas sociais, estatísticos e administradores, além de tornar o termo um equivalente de código ou dado simbólico, deixou de lado definitivamente, o significado original do termo informação. Segundo sua etimologia, o verbo informar, de origem latina, foi mais usado a partir do século XIV, e abrigou desde sua origem duas famílias de sentidos: primeiro, o sentido mais primordial, entre os gregos, de “dar uma forma a uma matéria”; passando a seguir, com a cultura latina, a significar também “dar conhecimento de alguma coisa a alguém”, à semelhança de dar forma ao conhecimento de alguém, como se conhecimento fosse uma substância, uma matéria. Este último sentido foi, por sua vez, privilegiado desde Descartes (Lalande, 1993).

Ao se tomar a informação como uma propriedade intrínseca do dado simbólico, e este último, como o formato codificado de um atributo da representação ideal de um objeto qualquer, valoriza-se sobremodo a possibilidade de coleta, captura, armazenamento e acumulação de representações digitais dos entes que nos cercam, a organização de seus atributos em modelos de dados, o seu processamento e transformação em diferentes formas de apresentação, e a sua distribuição e comercialização, como um bem material.

A informação obtida na interação com tecnologias da informação é, portanto, uma espécie de enunciado sobre algo, sobre uma coisa; um “dito em direção à coisa” em uma modalidade digital; uma categoria no modo informacional-comunicacional. Este enunciado virtual se dá pela prévia formulação algorítmica do sistema de programação de uma tecnologia da informação, na dis-posição dos dados simbólicos, armazenados na tecnologia e que representariam os atributos de algo sob uma codificação digital. Por conseguinte, este “dito em direção à coisa” só pode se realizar após uma sequência de procedimentos que garantem a dis-ponibilidade da razão e da memória humanas sob a forma digital para sua exploração.

Informação enquanto enunciado

Informação enquanto enunciado mccastro seg, 05/09/2011 - 08:19

Heidegger indica caminhos por onde pensar a informação, enquanto enunciado em seu questionamento sobre “o que é uma coisa?”:

Característica, extensão, comparação, lugar, tempo, são determinações que, em geral, são ditas da coisa. Estas determinações indicam em que perspectiva as coisas se nos mostram, quando, no enunciado, nos dirigimos a elas e falamos delas, indicam os caminhos-do-olhar nos quais olhamos as coisas e a partir dos quais elas se nos mostram. Mas, na medida em que essas determinações são sempre colocadas sobre a coisa, a coisa é, de um modo geral e sempre, dita com elas, como aquilo que já está presente. Aquilo que, em geral, é dito sobre cada coisa, a este «dito em direcção à coisa» e no qual a universalidade e a coisalidade da coisa se determinam, os Gregos chamam kategoria (kata-agorenein). Mas o que é dito deste modo não visa senão o ser-de-um-certo-modo, o ser-extenso, o estar-em-relação, o estar-ali, o estar-agora, que é próprio das coisas enquanto entes. Não podemos trazer para diante do olhar, nem muitas vezes, nem com a penetração suficiente, este estado-de-coisas agora evidenciado, nomeadamente o facto de que as determinações que constituem o Ser do ente e, portanto, da própria coisa, retiram o seu nome do enunciado acerca da coisa. Este nome para as determinações-de-ser não é uma designação como qualquer outra, mas, nesta designação das determinações-de-ser como modos da enunciabilidade, reside uma interpretação particular do Ser. O facto de, desde há muito tempo, as determinações do Ser serem chamadas, no pensamento ocidental, «categorias» é a expressão mais nítida do que já acentuámos: o facto de a estrutura da coisa estar em relação com a estrutura do enunciado. O facto de outrora e ainda hoje a doutrina escolar acerca do Ser do ente, a «ontologia», colocar como objectivo próprio a fixação de uma «doutrina das categorias», exprime a interpretação originária do Ser do ente, quer dizer, da coisalidade da coisa, a partir do enunciado. (Heidegger, 1987/1992, pág. 70)

O enunciado é um modo de discurso segundo uma perspectiva. No caso da informação, do enunciado, do “dito em direção à coisa”, pela tecnologia da informação em interação com o homem, trata-se de um discurso informacional-comunicacional. Onde estes qualificadores denotam um método que inicia pela desconstrução do visado, segundo uma perspectiva informacional-comunicacional, em seus atributos e nos algoritmos que tratam estes atributos segundo uma mimese do visado. A posterior codificação destes atributos em dados simbólicos, a captura destes dados simbólicos para a forma digital e seu armazenamento na tecnologia. Para então, consumindo o método, realizar a reconstrução do visado dis-posto para exploração em sua mimese digital.

O enunciado é um modo de legein - dirigir-se a qualquer coisa, enquanto qualquer coisa. Isto significa: acolher qualquer coisa como tal. Ter qualquer coisa como qualquer coisa e entrega-la como tal, diz-se, em latim, reor, ratio: daí ratio se ter tornado a tradução de logos. O simples enunciado dá, ao mesmo tempo, a forma fundamental em que visamos a coisa e pensamos algo acerca dela. A forma fundamental do pensamento e, em consequência, o pensar, é o fio condutor da determinação da coisalidade da coisa. As categorias determinam, em geral, o Ser dos entes. Perguntar pelo Ser dos entes, pelo que é e como é, em geral, o ente, é a primeira tarefa da filosofia; perguntar deste modo é filosofia do mais alto nível, é primeira e autêntica filosofia, proto philosophia, prima philosophia.

Eis o que é essencial: o pensamento como simples enunciar, o logos, a ratio, é o fio condutor para a determinação do Ser do ente, quer dizer, para a determinação da coisalidade da coisa. «Fio condutor» tem, aqui, o seguinte significado: os modos de enunciabilidade conduzem o olhar em direcção à determinação da presença, quer dizer, em direcção ao Ser dos entes. (Heidegger, 1987/1992, pág. 71)

Ficções Calculadas

Ficções Calculadas mccastro seg, 05/09/2011 - 08:23

Pela descontrução-reconstrução do logos de uma coisa através da práxis informacional-comunicacional este “fio condutor” para determinação do ser do ente se perde. O que já se exigia de extra-ordinário nesta empreitada, se tornou agora impossível através da informatização. Resta apenas o contato com os fantasmas informacionais que eventualmente são puras “ficções calculadas”. A tecnologia da informação, enquanto dis-positivo de representação do logos apresenta-se como um sintetizador de ilusões informacionais-comunicacionais.

Comentando Rilke, Heidegger apresenta a técnica moderna como produção de “ficções calculadas”. Heidegger denomina “cálculo” o projeto, próprio a vontade de poder, de “por em ordem” a totalidade do ente e a ordenar sobre os planos de uma representação sem consideração ao aspecto, preexistente a todo projeto técnico, daquilo que se apresenta de si mesmo.

Para Milet (2000), a produção de ficções calculadas ameaça o “aberto”, enquanto doação invisível que expõe os entes na ordem do visível, e assim os “põe em risco”, ao mesmo tempo em que lhes assegura um lugar e um tempo onde podem manifestar sua estada. O risco é duplo.

Primeiro porque os entes aparecem assim como objetos para representação que se atém ao aparente e não a essência das coisas. Esta obliteração do invisível é que libera a possibilidade do projeto da tecnologia moderna da informação-comunicação. Segundo, porque a objetivação guarda ainda uma dependência, em seu fundo, da fenomenalidade do objeto, que, de si mesmo, oferece sua própria entidade à intuição. Assim as ficções calculadas anunciam o desenraizamento da técnica em relação a este solo de evidências.

Cibernética – Arqué da Informatização

Cibernética – Arqué da Informatização mccastro seg, 05/09/2011 - 08:28

No olho do furacão da informatização que varre atualmente a cultura ocidental repousa uma Scienza Nuova, a cibernética. A exemplo da física-matemática que dominou a Modernidade esta nova ciência lança um novo Discurso do Método, como afirma Gilbert Simondon (1958, pág. 104). Desde o final dos anos 1940 ela vem se afirmando como uma filosofia, uma epistemologia e uma metodologia para as demais ciências.

Não é necessário ser profeta para reconhecer que as modernas ciências que estão se instalando serão, em breve, determinadas e dirigidas pela nova ciência básica que se chama cibernética.

Esta ciência corresponde à determinação do homem como ser ligado à práxis na sociedade. Pois ela é a teoria que permite o controle de todo o planejamento possível e de toda organização do trabalho humano. A cibernética transforma a linguagem num meio de troca de mensagens. As artes tornam-se instrumentos controlados e controladores da informação.

O desdobramento da Filosofia cada vez mais decisivamente nas ciências autônomas e, no entanto, interligadas, é o acabamento legítimo da Filosofia. Na época presente a Filosofia chega a seu estágio terminal. Ela encontrou seu lugar no caráter científico com que a humanidade se realiza na práxis social. O caráter específico desta cientificidade é de natureza cibernética, quer dizer técnica. Provavelmente desaparecerá a necessidade de questionar a técnica moderna, na mesma medida em que mais decisivamente a técnica marcar e orientar todas as manifestações no Planeta e o posto que o homem nele ocupa.

As ciências interpretarão tudo o que em sua estrutura ainda lembra a sua origem na Filosofia, segundo as regras de ciência, isto é, sob o ponto de vista da técnica. As categorias das quais cada ciência depende para a articulação e delimitação da área de seu objeto, a compreendem de maneira instrumental, sob a forma de hipóteses de trabalho.

A verdade destas hipóteses de trabalho não será apenas medida nos efeitos que sua aplicação traz para o progresso da pesquisa. A verdade cientifica é identificada com a eficiência destes efeitos.

Aquilo que a Filosofia, no transcurso de sua história, tentou em etapas, e mesmo nestas de maneira insuficiente, isto é, expor as ontologias das diversas regiões do ente (natureza, história, direito, arte), as ciências o assumem como tarefa sua. Seu interesse dirige-se para a teoria dos, em cada caso necessários, conceitos estruturais do campo de objetividade aí integrado.

"Teoria" significa agora: suposição de categorias a que se reconhece apenas uma função cibernética, sendo-lhe negado todo sentido ontológico. Passa a imperar o elemento racional e os modelos próprios do pensamento que apenas representa e calcula. (Heidegger, 2000b, pág. 97)

Essa longa citação de uma das raras, mas profunda referência, feita por Heidegger, a emergente cibernética dos anos 50, é necessária para dar o tom desta breve análise de um dos fundamentos da informática. A própria noção de informação herdou da cibernética todas as conotações singulares que enfatiza através da tecnologia que a sustenta e dissemina, nos termos desta apropriação.

A cibernética não foi apenas uma mutação na história das técnicas, uma invenção. Trata-se de teoria aplicada “às máquinas e aos seres vivos”, conforme proposta por Wiener, que se dispõe a renovar a concepção geral da natureza, do animal, do homem e da tecnologia, a partir de modelos operatórios. A cibernética representa, filosoficamente um duplo movimento de tecnicização da natureza e de naturalização da técnica que constitui, de fato, um pensar experimental nutrido por modelos, simuladores suscetíveis de serem codificados e integrados a uma lógica tecnológica unitária (Beaune, 1980, pág. 308).

Neste somatório de influências que governou o destino da informática coube ainda à cibernética uma contribuição ímpar: na concepção dos primeiros computadores, na fundação das bases da inteligência artificial, na introdução dos conceitos e do formalismo lógico-matemático nas neurociências, e mais que tudo, na disseminação de um complexo de ideias, conjugando as noções de sistemas, de informação, de comunicação e de cálculo (Dupuy, 1995).

Movimento fundador da cibernética

Movimento fundador da cibernética mccastro seg, 05/09/2011 - 08:32

O movimento fundador da Cibernética nasceu em 1943, com a publicação de dois artigos clássicos. Primeiro, o artigo Comportamento, meta e teleologia, do matemático Norbert Wiener, do fisiologista Arturo Rosenbluth e do engenheiro eletrônico Julian Bigelow, sobre uma possível base de analogia entre os seres vivos e as máquinas, a partir da qual seria possível explicar o comportamento animal pela causalidade circular que religa os organismos e seu ambiente (o famoso feed-back). O artigo foi consagrado pois se acreditava então, que finalmente o inextricável problema da teleologia do ser vivo começava a ter uma solução mecanicista.

Ensaio fundador de Wiener

Ensaio fundador de Wiener mccastro seg, 05/09/2011 - 08:35

A cibernética, tal como se vê antecipada no artigo de 1943, trata inegavelmente seus objetos de estudo como dispositivos que transformam mensagens de entrada (input) em mensagens de saída (output). Esta é uma definição que encontraremos ainda com todas as letras na obra tardia de Wiener, God and Golem, Inc. (1964). O que a impede, porém, de se reduzir a um mero behaviorismo que obedeça a um esquema estímulo-resposta é precisamente a noção de feedback, retro-alimentação. Graças a esse dispositivo, o objeto é capaz de mudar a relação que estabeleceu entre input e output, entre estímulo e resposta. Para o observador que optou por permanecer no exterior do objeto, tudo se passa como se este tivesse a capacidade de modificar a sua resposta a um estímulo dado, e isto a fim de alcançar determinado objetivo. Tudo se passa, pois, aparentemente, como se o objeto fosse capaz de perseguir uma finalidade dada, aprendendo a ajustar seu comportamento em vista dos erros que comete. (Dupuy, 1995, pág. 47)

A tecnologia da informação é, portanto, uma máquina cibernética, um conjunto auto-regulado de instrumentos de representação, composto por uma “memória” (um órgão interno de armazenamento), um “cérebro” (um órgão interno de cálculo e decisão) e uma interface de periféricos de entrada e saída de informações. Esta é a forma que a tecnologia da informação adotou desde o primeiro computador, na trilha dos trabalhos de Turing, Wiener, Shannon, McCulloch e von Neumann.

A tecnologia da informação é uma máquina de pensar “à imagem” do homem, mas não “a sua semelhança”. Pois, segundo este texto fundador na sua constituição, segue o princípio de deixar de lado o conteúdo, a natureza humana, pela abstração da “forma racionalizante” desta natureza. Apreende-se esta forma racionalizante em um dis-positivo de representação, observando o homem em seu exercício mais elementar da razão, como uma “caixa preta” de entrada e saída de mensagens. Esta é a conclusão do artigo de “que uma análise comportamental uniforme é aplicável ao mesmo tempo às máquinas e aos organismos vivos”.

Ensaio fundador de McCulloch

Ensaio fundador de McCulloch mccastro seg, 05/09/2011 - 08:38

O segundo artigo foi Um cálculo das ideias imanente à atividade nervosa, do neuropsiquiatra Warren McCulloch e do matemático Walter Pitts. No qual se identifica o sistema nervoso a uma máquina lógica e se demonstra que uma rede de neurônios formais (simplificados) possui o mesmo poder de cálculo que uma “máquina universal”. Sua ambição filosófica é, portanto, considerável, já que orienta a busca de uma base neurológica para a razão e a memória humanas, fundamentando uma “neurologia da mente”. Acredita-se que estão aí fixados os primeiros critérios que doravante irão determinar o estudo do processo cognitivo.

Esse artigo de McCulloch e Pitts radicaliza o procedimento de Wiener e de seus colaboradores em dois planos. Enquanto estes últimos tratam a mente como uma caixa-preta da qual interessa a funcionalidade, McCulloch parte em busca dos mecanismos que encarnam a mente.

Sem dúvida, o "conteúdo" daquilo mesmo que é capaz de comportamento é agora considerado pertencendo à esfera de um procedimento científico, mas esse conteúdo se descreve a si próprio em termos de comportamentos de unidades menores, no "interior" das quais não se pode pensar em penetrar e que só são consideradas em suas relações com seu ambiente, ou seja, como operadores que transformam inputs em outputs: os neurônios. Portanto, não se deve falar de oposição, mas sim de radicalização, pois a abordagem comportamental e comunicacional é transposta para um nível lógico inferior. (Dupuy, 1995, pág. 53)

"Quanto mais aprendemos sobre os organismos, mais somos levados a concluir que eles não são simplesmente análogos às máquinas, mas são máquinas". Por esta citação de McCulloch pode-se sentir uma radicalização da proposta cibernética enunciada por Wiener. Uma radicalização que soou forte no impulso da cibernética enquanto princípio filosófico da “Era da Informação”.

Aporte de Herbert Simon

Aporte de Herbert Simon mccastro seg, 05/09/2011 - 08:49

Para Herbert Simon, um dos teóricos da informática moderna, somos máquinas de Turing, pois esta máquina formal pode alcançar os mesmo resultados que toda démarche intelectual rigorosa. A tecnologia da informação é assim, em seu berço teórico, uma maquina universal imitando o cérebro humano ao nível das operações formais e das funções de tratamento da informação, ou seja, simulando de modo isomórfico operações lógico-matemáticas de processamento de símbolos.

Em 1955, Allen Newell e Herbert Simon, trabalhando na Rand Corporation, acreditaram estar estabelecendo as provas definitivas de que os computadores poderiam fazer muito mais do que computar. Demonstraram que computadores são sistemas de processamento de símbolos, cujos símbolos tratados poderiam ser qualquer coisa, inclusive propriedades dos entes, dos atos e fatos humanos, enfim do mundo. E cujos programas seriam algoritmos para manipular estes mesmos símbolos, permitindo anima-los e relaciona-los entre si. Deste modo, poderiam ser usados como engenhos capazes de emular certos aspectos importantes da inteligência humana.

Fundações e Conceitos

Fundações e Conceitos mccastro seg, 05/09/2011 - 08:54

O movimento da Cibernética foi marcado pelo selo da lógica matemática desde sua origem. Seu principal pensador, Norbert Wiener, tendo estudado em Cambridge com Russell, afirmava categoricamente que o mesmo impulso intelectual que levou ao desenvolvimento da lógica matemática, conduzia ao mesmo tempo à mecanização ideal ou real dos processos do pensamento. Da mesma forma, é possível identificar nos demais fundadores do movimento, a primazia de uma visão do mundo centrada na lógica matemática, seja em suas formações ou em suas posições a partir da constituição do movimento.

Fundamentados na lógica-matemática, todos esses pioneiros teóricos da informática militavam dentro de um enfoque que buscava reconhecer no ser humano e nas coisas, uma espécie de “ente informacional”, como já denominado anteriormente. Ou seja, esperavam descobrir um ente de natureza informacional, transparente e racional, que se destacaria de um fundo de ruído (“diabólico”, segundo Wiener).

Este modelo informacional, sobressai particularmente no pensamento de Norbert Wiener, que se empenha em operar uma separação bem nítida entre a dimensão informacional, única essencial para ele, e os suportes materiais, secundários e sem importância. Wiener chega mesmo a imaginar e propor, já nesta época, que este modelo poderia se “materializar” em uma máquina computacional, e até mesmo ser transmitido como uma mensagem entre máquinas (Breton, 1995).

Os caminhos da lógica e da teoria da informação se entrecruzam antes mesmo de suas formalizações modernas, quando então se interligam ainda mais, através dos conceitos de operação e de codificação. Com efeito, após Leibniz, e mais intensamente ainda após Frege, a lógica começa a se aprisionar dentro de uma visão que prima pela otimização da codificação, e que tende a produzir uma linguagem monosêmica, instrumento ideal para informatização.

Quanto ao conceito de “operação”, deve-se partir da assertiva de Shannon, de que informação é aquilo que permanece invariante sob todas as codificações ou traduções que podem ser aplicadas às mensagens produzidas por processos. Ou seja, dado um tradutor que opera sobre uma mensagem, se a tradução é reversível, sua saída contém a mesma informação que a sua entrada. A informação é, portanto, o que permanece invariante por uma série de operações reversíveis. Deste modo, a comunicação passa a ser um caso particular do cálculo: uma série de operações cujo sentido pode ser invertido de tal forma que os dados iniciais possam ser reencontrados.

Como foi dito, a lógica matemática foi revitalizada por uma associação à teoria dos autômatos, pela Cibernética e pela Teoria da Informação. Wiener afirmava que a ciência de hoje é operacional, ou seja que ela considera cada proposição como essencialmente referente às experiências possíveis ou aos processos observáveis. Desta maneira, o estudo da lógica deve reduzir-se ao estudo da máquina lógica.

A cibernética fixa três conceitos fundadores de sua aplicação: sistema, feedback (retro-alimentação) e informação codificada. O conceito de sistema como uma caixa-preta que admite entradas dando em resposta, saídas. Entradas e saídas como mensagens codificadas, em uma linguagem reduzida que a caixa–preta “entende”. A retro-alimentação, por sua vez, é que garante o controle do processamento das mensagens em saídas, introduzindo mais uma informação no sistema, o seu estado a cada instante.

O já citado artigo de Wiener de 1943, fundador da Cibernética, é exemplar a este respeito, ao adotar uma leitura dos fenômenos, como “caixas-pretas”, onde se privilegia a lógica do fenômeno, passível de se depreender a partir de uma análise da estrutura de comportamento expressa no próprio fenômeno; de sua funcionalidade, refletida nas relações entre entradas e saídas. A essência de um fenômeno qualquer seria, portanto, a organização dos cálculos entre informação aferente e informação eferente.

Homem Racional — caixa-preta ou autômato-natural

Homem Racional — caixa-preta ou autômato-natural mccastro seg, 05/09/2011 - 09:04

Seja como caixa-preta, da qual interessa representar a operação da razão e da memória que “sinalizam” as entradas e saídas de seu fazer, seja como um autômato natural, no qual neurônios cerebrais “comportam-se” como circuitos eletro-eletrônicos em uma máquina, está em jogo uma imagem de homem, animal racional[fn]Vale lembrar aqui o poeta Fernando Pessoa: “O homem não difere do animal senão em saber que o não é. É a primeira luz, que não é mais que treva visível. É o começo, porque ver a treva é ter a luz dela. É o fim, porque é o saber, pela vista, que se nasceu cego. Assim o animal se torna homem pela ignorância que nele nasce.” (Pessoa, 1988, pág. 18)[/fn].

Esta imagem do homem como animal racional é várias vezes criticada por Heidegger como uma visão moderna da razão, ligada ao triunfo de um fenômeno paradoxal, denominado por Zimmerman (1990) “humanismo naturalista”. O paradoxo está justamente no reconhecimento do homem como um animal, idêntico a qualquer outro na Terra, e ao mesmo tempo distinto de qualquer outro, por ser dotado de razão. Uma racionalidade que lhe daria o direito de definir, julgar e usar coisas do modo que bem entender.

Este humanismo naturalista simboliza para Heidegger a auto-elevação do homem à situação de sujeito de uma empreitada para ser “mestre e senhor da Natureza”. No fundo, seria a resposta moderna e equivocada ao princípio aristotélico do “animal racional”, que atravessa o pensamento de gerações sucessivas, desde o início da metafísica ocidental até a total degeneração do logos grego, enquanto “ser capaz” de reunir e distinguir todas as coisas, em uma “racionalidade instrumental”, onde o logos é apenas um instrumento humano; e sendo assim, pode ter sua mimese perfeita e mais rápida em uma “tecnologia da inteligência”, como Lévy (1990) denomina a tecnologia da informação.

A revolução cibernética, associada ao advento da informática, é um sinal de que o logos condicionou-se à “matematização da natureza”[fn]Com as três referidas caracterizações da ciência moderna - ciência de factos, ser experimental e ciência que mede – não encontramos o traço fundamental da nova posição do saber. O traço fundamental deve residir naquilo que, fornecendo-lhe a medida, determina completamente, de um modo igualmente originário, o movimento-de-fundo da ciência enquanto tal: trata-se da relação-de-trabalho com as coisas e do projecto metafísico da coisalidade da coisa. De que modo devemos conceber este traço fundamental?
Atribuímos um nome ao carácter-de-fundo, que procuramos, da moderna atitude do saber, ao dizermos que a nova pretensão do saber é matemática. É de Kant a seguinte afirmação, muitas vezes citada, mas menos vezes compreendida: «Mas eu digo que, em cada teoria particular acerca da natureza, só se pode encontrar uma autêntica ciência, na medida em que se encontrar nela a matemática.» (Prefácio a Primeiros princípios metafísicos da ciência da natureza). (Heidegger, 1987/1992, pág. 74-75)[/fn], à “logicização da razão” pela logística[fn]O pensar sobre o pensar se desenvolve no ocidente como lógica. Esta recolheu conhecimentos particulares sobre uma maneira particular de pensar. Apenas recentemente que se fez frutificar cientificamente estes conhecimentos da lógica, e isto em uma ciência particular que se denomina “logística”. Ela é a mais especial de todas as ciências especiais. A logística é tomada atualmente em vários lugares, antes de mais nada nos países anglo-saxões, como única forma possível de filosofia estrita, porque seus resultados e seus métodos guardam uma relação segura e imediata com a construção do mundo técnico. (Heidegger, 1954/1959, pág. 33-34)[/fn] e à “industrialização da memória”[fn]O pensamento é um reconhecimento? Mas que quer dizer aqui “reconhecimento”? Ou bem o reconhecimento repousa no pensamento? Mas o que quer dizer aqui “pensamento”? A memória não é um reservatório para aquilo que pensou o pensamento, ou bem o pensamento repousa ele mesmo na memória? Qual a relação entre reconhecimento e memória? Colocando estas questões nós nos movemos no espaço daquilo que acede à linguagem no verbo “pensar” e que aflora nele. (...) O “Gedanc” equivale quase à alma (Gemüt). “muot” – o coração. Pensar, no sentido da palavra inicialmente falante, aquele do “Gedanc”, é quase ainda mais original que este pensar do coração que Pascal, séculos mais tarde, já como contragolpe ao pensar matemático, buscou reconquistar.
O pensar, compreendido no sentido de “representações” lógicas e racionais, se revela, em relação ao “Gedanc” inicial, como uma restringência e um empobrecimento da palavra de tal ordem que mal se pode imaginar a grandeza. (Heidegger, 1954/1959, pág. 146)[/fn]. Prevaleceu o “princípio de razão”, que não visa o excesso do ser, sua simplicidade, mas a possibilidade de reduzi-lo a uma identidade conceitual, intercambiável, permitindo produzir uma antecipação do devir e exercer retro-especulação (feedback) como guia deste devir. Isto é a cibernética.

Matematização – Ideia Mentora da Informatização

Matematização – Ideia Mentora da Informatização mccastro seg, 05/09/2011 - 11:53

Sob a informática direta ou indiretamente associada à explosiva e crescente formalização deste instrumental, subjaz a matemática ou a lógica-matemática, imanente a esta mediação, como “princípio, meio e fim” das ciências.

Encontramos aí um traço eminentemente fundamental da concepção cientifica moderna: o conhecimento científico se move no domínio da representação; contudo, o meio por excelência dessa representação é a matemática. O verdadeiro paradigma de todo objeto é o objeto matemático. O que não deixa de ser bastante paradoxal, porque, no final das contas, o objeto matemático é construído: não nos é dado à maneira dos objetos naturais. É muito difícil a questão de sabermos como exatamente ele é construído. Sobre essa questão, não possuímos ainda, no momento atual, uma clareza satisfatória. Em todo caso, é certo que não descobrimos o objeto matemático na percepção: ele é elaborado passo a passo, por atos específicos de abstração e de tematização. Por outro lado, porém, uma vez construído, impõe-se a nós como o objeto que existe nele e por ele mesmo. Foi isto que levou alguns grandes matemáticos a considerar que a realidade matemática existe em si, fora do espírito humano e a pensar que, ao construirmos um objeto matemático, nada mais fazemos, de fato, senão descrever uma realidade que existe fora de nós e independentemente de nós. (Ladrière, sem data, pág. 21)

Husserl (1976), em seu texto A Crise da humanidade europeia e a filosofia, apresenta uma análise fenomenológica do que denomina cientificidade, e particularmente sua significação positivista, ou seja, redução da ciência apenas ao conhecimento dos fatos. Para ele esta tendência domina todas as ciências e denota uma crise profunda do estatuto da cientificidade. Em suas palavras: “o positivismo decapita a filosofia” (pág. 7-8), e “puras ciências positivas fazem homens puramente positivos”. O positivismo[fn]Todas as disciplinas científicas estão sob o domínio do positivismo, a tendência para o positivismo, onde “positivo” é compreendido em termos de fatos, e fatos são compreendidos em termos de uma interpretação particular da realidade. Fatos são fatos apenas se podem ser enumerados, pesados, medidos, e experimentalmente determinados. (Heidegger, 1979/1985, pág. 15)[/fn] promove o fetichismo do fato e não permite que se questione o olhar sobre os fatos, ou seja, o ato ou o vivido pelo qual temos acesso aos fatos.

Segundo Kolakowsky (1976, pág. 10), “o positivismo é uma posição filosófica relativa ao saber humano, (…) constitui um conjunto de regras e de critérios de juízo sobre o conhecimento humano”. Entre estas regras para enunciação de juízos válidos sobre o mundo, a primeira é a do “fenomenalismo”: não há diferença real entre a ‘essência’ e o ‘fenômeno’; temos o direito de registrar o que se manifesta efetivamente na experiência, porém as opiniões sobre substância, formas substanciais, qualidades ocultas sob a experiência não são dignas de fé. O corolário desta regra é o “nominalismo”: regra pela qual fica interdito supor que um saber qualquer, formulado em termos gerais, tenha na realidade outros equivalentes que os objetos concretos singulares.

“Um fato é um fato”, eis a máxima positivista. O que leva seus seguidores a enfatizar apenas o fato com tal, deixando de lado o modo de acesso ao fato, o como do olhar que constitui o fato. Deste modo um positivista não admite refletir sobre seus atos vividos e tende a fazer abstração de sua subjetividade e do sentido que impõe a qualquer fato. Deixando de lado sua constituição do fato, portanto o sentido que este tem para si, o positivista deixa de lado também os problemas vitais, o que leva Husserl a afirmar: “esta ciência não tem nada a nos dizer (…). As questões que exclui por princípio são precisamente as questões que são as mais relevantes para nossa época infeliz, para uma humanidade abandonada aos desarranjos de seu destino: estas são as questões que tratam sobre o sentido ou a ausência de sentido de toda esta existência humana” (Husserl, 1976, pág. 10).

Para Husserl, o risco positivista que incorrem as ciências tem uma dupla consequência. Por um lado, a atenção do cientista é polarizada sobre o estudo do fato, por outro lado, este privilégio acordado à pura observação dos fatos leva à cegueira da instância subjetiva ela mesma. Este desinteresse do cientista por sua própria subjetividade, em ação na démarche científica que adota, é a condição maior para a crise atual das ciências. Ou seja, a falta de reflexividade na pesquisa científica, a não atenção dada ao “enigma da subjetividade” que nela opera, leva ao “objetivismo”, sinônimo de positivismo, segundo Husserl.

Esse objetivismo nasce com Galileu e a matematização da natureza, de acordo com Husserl. As geometrias platônicas e euclidianas conservam uma ligação estreita com o sensível no modo como figuram, de maneira geométrica, os números compreendidos como ideias, e se aplicam assim a produzir uma cópia sensível das ideias inteligíveis. Ao contrário, a geometria do século XVII se constitui como uma disciplina bem mais abstrata. Ela deseja romper deliberadamente com o referente sensível. Se nomeando “geometria analítica”, ela adota a linguagem abstrata da álgebra. Desde então, a natureza, idealizada em fórmulas algébricas, se torna uma “multiplicidade matemática”, ou seja, um domínio possível do conhecimento, regido por uma teoria que o determina exaustivamente quanto a sua forma, segundo Husserl.

Rompidas suas ligações com a realidade sensível, esta nova geometria algebrizada se elabora como um domínio formal autônomo, tendo suas regras e seus procedimentos próprios. Matematizar a natureza é, por conseguinte, torná-la um objeto abstrato regido por leis universais, e desconectado da diversidade do sensível e do individual. Assim estabelecem-se as condições para nascimento de uma “física matemática”, onde a natureza, physis grega, recebe o nome de física e todo um novo sentido. Com a matematização da natureza, ou seja, com o início da física como disciplina científica nasce também um tipo de espírito focalizado sobre seu objeto, a natureza física, consequentemente cego em relação a si mesmo enquanto sujeito operante.

Essência da Matemática

Essência da Matemática mccastro ter, 05/10/2011 - 05:47

Heidegger, no livro “O Sofista de Platão” (1992/1997), curso dado em 1924-1925, levantava também um pensar sobre a matematização. No parágrafo §15 (pág. 69) desta obra, no qual examina a essência da matemática de acordo com Aristóteles, começa afirmando que o conhecimento matemático tem como tema aquilo que mostra a si mesmo, por ser resgatado de algo e especificamente daquilo que é imediatamente dado. O matemático é o assim extraído daquilo que mostra a si mesmo de modo imediato.

Esta extração, separação ou abstração está conectada com a chora, lugar; e, este lugar pertence aos entes eles mesmos. O matemático toma algo de seu próprio lugar, embora o matemático não esteja em um local (topos). Em termos modernos isto soa paradoxal, mas esta separação é para Aristóteles o modo como o matemático ele próprio se torna objetivo.

Segundo Heidegger, Aristóteles enfatiza que o objeto matemático está em “local algum”. O local (topos) deve ser algo, como, por exemplo, quando temos água em uma jarra e esvaziamos, passando agora a ser preenchido por ar, o local, onde havia água e agora tem ar, sempre esteve lá independente do conteúdo. O não-local não significa o topos como algo separado do que nele se encontra, mas como distinto. O local tem assim certo poder (dynamis), implicando que o local pertence ao ente ele mesmo; o local constitui precisamente a possibilidade da presença própria do ente em questão. Deste modo, pode afirmar que cada ente tem seu local.

Em um curso apresentado em 1935-1936, Heidegger (1962/1971) afirma que a essência das matemáticas (o que se poderia chamar o matemático) evocava na Grécia antiga a lição, o ato de aprender (mathesis) e o que se poderia aprender e, portanto, ensinar (mathemata).

Isto, por sua vez, se enquadrava dentro de um contexto amplo onde os gregos distinguiam vários tipos de realidade: ta physika (as coisas que surgem e se produzem delas mesmas); ta poiomena (as coisas instituídas pela mão ou ofício do homem); ta chremata (as coisas na medida em que estão em uso); ta pragmata (as coisas que lidamos para trabalhá-las ou transforma-las), ta mathemata (as coisas na medida em que podemos aprendê-las).

Este aprender significa “apropriar-se o uso de”, ou seja, o aprender é uma forma de apreender. Por outro lado, aprender é sempre aprender a conhecer, tomar conhecimento. “As mathemata são as coisas na medida em que tomamos conhecimento delas”. Neste sentido, é que a sentença no portal da Academia platônica (“que ninguém entre que não seja geômetra”) deve ser entendida, segundo Heidegger, não como uma exigência de formação em geometria ou matemáticas, mas como a compreensão “que a condição fundamental de possibilidade de um justo saber é o saber das pressuposições fundamentais de todo saber, e a atitude que tal saber sustenta”.

Deste modo, o sentido do aprender é fixado ontologicamente: o aprender é reconhecimento do ser sempre já conhecido da coisa. O aprender tem assim o caráter de antecipação. Recolhemos a possibilidade de conhecer na coisa mesmo. Segundo Milet (2000) a originalidade de Heidegger é de incluir todas as ordens de coisas na perspectiva matemática[fn]A nossa expressão “o matemático” tem sempre dois sentidos: significa, em primeiro lugar, o que se pode aprender do modo já referido e somente desse modo; em segundo lugar, o modo do próprio aprender e do proceder. O matemático é aquilo que há de manifesto nas coisas, em que sempre nos movimentamos e de acordo com o qual as experimentamos como coisas e como coisas de tal gênero. O matemático é a posição-de-fundo em relação às coisas na qual as coisas se nos pro-põem, a partir do modo como já nos foram dadas, têm de ser dadas e devem ser dadas. O matemático é, portanto, o pressuposto fundamental do saber acerca das coisas. (Heidegger, 1987/1992, pág. 81-82)[/fn], em particular as pragmata, onde aprender um instrumento é se reapropriar de uma familiaridade latente. “É a reapropriação daquilo que está pré-revelado no saber inerente ao instrumento que torna possível a aprendizagem de sua natureza, e com a aprendizagem, a produção, o exercício, e o uso”.

Deste modo, Heidegger determina a essência da matemática em seis pontos capitais:

  • A matemática é um projeto que “salta” por cima das coisas em direção a sua “coisidade”; ela abre um espaço de “mostração” das coisas, que é o domínio dos “fatos”;
  • Nesse projeto é posto também aquilo pelo qual as coisas são dadas, ou seja, as modalidades segundo as quais elas são estimadas de antemão; os axiomas são proposições de fundamento, princípios;
  • Como axiomática, o projeto matemático, retomando a essência das coisas, traça ao mesmo tempo seu esboço de construção e sua estrutura de relações;
  • Ela define desta maneira um domínio, onde a axiomática se aplica, que é a natureza (conectividade espaço-temporal dos movimentos nos quais as coisas são determinadas como corpo e nada mais);
  • O gênero do projeto matemático demanda primitivamente uma matemática precisa, da mensuração sob distintas formas.

Metafísica Moderna e Matemática

Metafísica Moderna e Matemática mccastro ter, 05/10/2011 - 05:50

A metafísica moderna nasce do projeto matemático, na medida em que visando o ente em sua totalidade deve fatalmente buscar seu solo matemático, até encontrar algo inabalável.

A “matemática” só se torna decisiva para a metafísica com a mudança da veritas para o certitudo. A matemática não é contudo aí apenas um modelo de conhecimento “maximamente rigoroso”. Ao contrário, o elemento matemático – o estar-certo – caracteriza o modo fundamental do ser enquanto a re-presentacionalidade.

O problema é que este papel da matemática precisa fracassar logo que o estar-certo enquanto subjetividade torna-se mais nítido para si e a autoconsciência, sobretudo enquanto incondicionada, mostra-se como um âmbito, cuja dimensionalidade nunca é alcançada através do elemento “matemático” de um modo sintônico com sua essência. Este elemento permanece na circunscrição da grandeza e isto significa da consciência imediata e de seu cálculo. (Heidegger, 2000a, pág. 160-161)

“Logicização” – Matriz Teórica da Informatização

“Logicização” – Matriz Teórica da Informatização mccastro ter, 05/10/2011 - 05:57

A exploração tecnológica parece dizer, em um primeiro sentido, que a técnica, através seus complexos instrumentais e seus métodos, se amparou do ser do homem – e do mundo. Para Heidegger, isto é inegável, mas ainda não se disse nada mantendo-se nesta constatação: se a existência é interpelada pela técnica, é porque esta é portadora de um poder de exploração que rege a necessidade mesmo dos funcionamentos técnicos e não se deixa portanto explicar por eles. É este poder que constitui o próprio da tecnologicização do mundo. É este poder que demanda ser pensado para que um caminho seja preparado em direção ao homem. Este poder endereça uma exploração – através da “tecno-logicização do mundo”. “Logicização” sinaliza duplamente: em direção ao logos como a palavra que mostra e desvela, e a este título, acorda o pensamento aquilo que é mostrado; o logos é a exploração ou ainda, a palavra requerente. Mas a “logicização” sinaliza em direção ao “cálculo”; certamente, em direção aos processos algébricos da lógica-matemática, e em direção a sua realização nas máquinas de calcular. Mas de maneira mais geral e mais fundamental, em direção ao por em ordem generalizado da totalidade do ente, através da qual já reconhecemos “o cálculo absoluto de todas as coisas”. (Milet, 2000, pág. 45)

É preciso sempre lembrar a natureza representacional da tecnologia da informação. Pelo método informacional-comunicacional uma coisa é capturada para um modo digital, tornando-se uma dis-ponibilidade para exploração. Essa dis-ponibilidade, enquanto mimese virtual da coisa, é uma dis-posição artificial da razão e da memória que apreenderam a coisa, e se dá como um conhecimento originalmente construído segundo o método informacional-comunicacional.

O método informacional-comunicacional, por sua vez, é uma especialização do método científico, o seu rebento mais novo e hiperativo. Realiza, segundo Chazal (1995, pág. 9), de certa maneira, uma das previsões de Kant (“Lógica”): “Com o desenvolvimento da história natural, da matemática, etc., novos métodos serão descobertos, próprios a condensar o saber anterior e tornar supérfluos uma quantidade de livros. Da descoberta de tais métodos e de tais novos princípios depende a possibilidade que estejamos graças a eles em condições de tudo descobrir por nós mesmos sem sobrecarregar a memória.”

Essa previsão de Kant soa como uma profecia dos resultados alcançados com a informatização, onde a disseminação do método informacional-comunicacional garante esta condensação do real em virtual, e, em seguida, a transformação desta nova “base de conhecimento virtual” em algo capaz de apoiar nossa vontade de saber no sentido “de tudo descobrir por nós mesmos sem sobrecarregar a memória”.

Condensação do real em virtual

Condensação do real em virtual mccastro ter, 05/10/2011 - 06:06

Nas palavras de um entusiasta da informatização, Pierre Lévy (1995):

Aqui, cabe introduzir uma distinção capital entre possível e virtual que Gilles Deleuze trouxe à luz em "Diferença e Repetição". O possível já está todo constituído, mas permanece no limbo. O possível se realizará sem que nada mude em sua determinação nem em sua natureza. É um real fantasmático, latente. O possível é exatamente como o real: só lhe falta a existência. A realização de um possível não é uma criação, no sentido pleno do termo, pois a criação implica também a produção inovadora de uma ideia ou de uma forma. A diferença entre possível e real é, portanto, puramente lógica.

Já o virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual. Contrariamente ao possível, estático e já constituído, o virtual é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização. Esse complexo problemático pertence à entidade considerada e constitui inclusive uma de suas dimensões maiores. O problema da semente, por exemplo, é fazer brotar uma árvore. A semente "é" esse problema, mesmo que não seja somente isso. Isto significa que ela "conhece" exatamente a forma da árvore que expandirá finalmente sua folhagem acima dela. A partir das coerções que lhe são próprias, deverá inventá-la, co-produzi-la com as circunstâncias que encontrar.

Por um lado, a entidade carrega e produz suas virtualidades: um acontecimento, por exemplo, reorganiza uma problemática anterior e é suscetível de receber interpretações variadas. Por outro lado, o virtual constitui a entidade: as virtualidades inerentes a um ser, sua problemática, o nó de tensões, de coerções e de projetos que o animam, as questões que o movem, são uma parte essencial de sua determinação. (Lévy, 1995, pág. 16)

Esta definição da virtualidade torna evidente uma dependência da informática, de dois vetores maiores atuando na Modernidade: lógica e ciência. A primeira se apresenta de pronto quando Lévy toma como referência para uma definição do virtual, a afirmação feita por Deleuze, de que a diferença entre possível e real é puramente lógica[fn]E o que é a “lógica”?
A lógica é um “imperativo, não destinado ao conhecimento do verdadeiro, mas a dispor e gerir um mundo que para nós deve significar o mundo verdadeiro” (nº. 516; 1887). Aqui o lógico é concebido enquanto comando e uma forma de comando, quer dizer enquanto um “instrumento” da Vontade de poder. Eis uma declaração ainda mais decisiva: “A lógica não procede da Vontade de verdade” (nº. 512; 1885). Ficamos estupefatos. A verdade segundo o próprio conceito de Nietzsche é bem aquilo que é estabelecido e solidamente estabelecido e não obstante, a lógica não resultaria da vontade de estabelecer solidamente, de tornar estável? Segundo o próprio conceito de Nietzsche ela só poderia proceder da vontade de verdade. Se Nietzsche declara de pronto: “A lógica não procede da vontade de verdade”, é que ele entende aqui por engano a verdade em um sentido diferente: não no seu sentido próprio, segundo a qual ela seria uma espécie de erro, mas no seu sentido tradicional segundo a qual a verdade significa: a concordância do conhecimento com as coisas e o real. (Heidegger, 1961/1971, II pág. 149)[/fn]. Quanto ao método da ciência, inerente à linguagem desta reflexão de Lévy, vê-se logo pela declaração, repisada várias vezes de: um problema, uma problemática, uma resolução, que parece estar imanente às coisas, ou seja, a confissão de um olhar que só a ciência dispensa às coisas; um olhar onde não cabe o que Silesius diz: “a rosa é sem porque...”.

As teorias que embasam a informática, como, por exemplo, a cibernética, as teorias da computação e da informação, a lógica-matemática, e outras, respondem à natureza da técnica enquanto um “conceito do saber” (o sentido grego do termo techne é conhecer-se no fato de produzir) e não apenas um conjunto de instrumentos manipulados segundo uma perspectiva utilitarista. Respondem também à natureza da razão e da memória que se informatiza, nem que seja segundo uma visão reducionista de suas funcionalidades. E assim, como teorias, como observações da razão e da memória, visam “apoderar-se e assegurar-se do real”.

E, no entanto, como teoria, no sentido de tratar, a ciência é uma elaboração do real terrivelmente intervencionista. Precisamente com este tipo de elaboração, a ciência corresponde a um traço básico do próprio real. O real é o vigente que se ex-põe e des-taca em sua vigência. Este destaque se mostra, entretanto, na Idade Moderna, de tal maneira que estabelece e consolida a sua vigência, transformando-a em objetidade. A ciência corresponde a esta regência objetivada do real à medida que, por sua atividade de teoria, ex-plora e dis-põe do real na objetidade. A ciência põe o real. E o dis-põe a pro-por-se num conjunto de operações e processamentos, isto é, numa sequência de causas aduzidas que se podem prever. Desta maneira, o real pode ser previsível e tornar-se perseguido em suas consequências. É como se assegura do real em sua objetidade. Desta decorrem domínios de objetos que o tratamento científico pode, então, processar à vontade. A representação processadora, que assegura e garante todo e qualquer real em sua objetidade processável, constitui o traço fundamental da representação com que a ciência moderna corresponde ao real. O trabalho, que tudo decide e que a representação realiza em cada ciência, constitui a elaboração que processa o real e o ex-põe numa objetidade. Com isto, todo real se transforma, já de antemão, numa variedade de objetos para o asseguramento processador das pesquisas científicas. (Heidegger, 1954/2002, pág. 48)

Método informacional-comunicacional

Método informacional-comunicacional mccastro ter, 05/10/2011 - 06:41

A ciência e seu método, no dar-se e propor-se da informática, são os alicerces de sua constituição enquanto engenho de representação e de sua aplicação no processo de informatização. Em conformidade com o modelo de pesquisa científico, o essencial do método informacional-comunicacional é uma sucessão recursiva de passos em uma espiral: definição do problema, formulação de hipóteses, teste das hipóteses, retorno ao início com um avanço, a solução do problema original, mas com o aparecimento de outros problemas. Assim imagina-se que seguindo o método percorre-se a “espiral evolutiva” da ciência que se repercute como “teoria do real”, no aperfeiçoamento constante da constituição da informática e de sua aplicação.

Porque a ciência moderna é uma teoria neste sentido, adquire importância decisiva em toda a sua observação o modo de tratar da ciência, ou seja, a maneira de ela proceder, em suas pesquisas, com vistas ao asseguramento processador, numa palavra, o seu método. Uma frase de Max Planck diz: "real é o que se pode medir". Isso significa: a decisão do que deve valer, como conhecimento certo para a ciência, no caso para a física, depende da possibilidade de se medir e mensurar a natureza, dada em sua objetidade e, em consequência, das possibilidades dos métodos e procedimentos de medida e quantificação. Esta frase de Max Planck só é correta por expressar algo que pertence à essência da ciência moderna e não apenas das ciências naturais. O cálculo é o procedimento assegurador e processador de toda teoria do real. Não se deve, porém. entender cálculo em sentido restrito de se operar com números. Em sentido essencial e amplo, calcular significa contar com alguma coisa, ou seja, levá-la em consideração e observá-la, ter expectativas, esperar dela alguma outra coisa. Neste sentido, toda objetivação do real é um cálculo, quer corra atrás dos efeitos e suas causas, numa explicação causal, quer, enfim, assegure em seus fundamentos, um sistema de relações e ordenamentos. Também a matemática não é um cálculo com números para se obter resultados quantitativos. A matemática é um cálculo que, em toda parte, espera chegar à equivalência das relações entre as ordens por meio de equações. E por isso mesmo "conta" antecipadamente com uma equação fundamental para todas as ordens possíveis. (Heidegger, 1954/2002, pág. 49-50)

Em um ensaio pouco conhecido sobre arte, dado durante uma viagem à Grécia em 1967, Heidegger falando do caráter cibernético da tecnologia moderna, cita Nietzsche: “A vitória da ciência não é o que distingue nosso século XIX, mas ao invés disto a vitória do método científico sobre a ciência.” Método aqui significa a maneira na qual a esfera de objetos a ser investigado é demarcada de antemão, assim como é fixado o que Heidegger denomina a “objetidade” do investigado.

O método informacional-comunicacional opera uma pro-posição da razão e da memória humanas sobre si mesmas, como objetidade passível de dis-po-la como uma representação do pensar; certamente naquilo que pode ser reduzido do logos, à lógica dos enunciados sobre uma coisa qualquer. Através deste processo, esta representação lógica se formula como algoritmos e o conteúdo dos enunciados sobre o qual opera a lógica, se configuram como dados simbólicos. O que se denomina usualmente “sistema de informação”, constituído segundo este método apresenta-se como uma “máquina universal de cálculo” onde tudo que foi codificado em sua “língua técnica” pretende demonstrar certa “inteligência artificial[fn]Decisiva é a transformação do espírito em INTELIGÊNCIA: qual seja a simples habilidade ou perícia no exame, no cálculo e na avaliação das coisas dadas, com vistas a uma possível transformação, reprodução e distribuição em massa, sujeita em si mesma à possibilidade de uma organização, o que não vale para o espírito. Todo o literatismo e estetismo são apenas uma consequência ulterior e uma degenerescência do espírito falsificado em inteligência. O mero engenho, o apenas espirituoso, é aparência de espírito e a tentativa de esconder a sua ausência. (Heidegger, 1952/1966, pág. 89)[/fn]”, obtendo diferentes resultados.

Assim como há uma construção do objeto matemático, há também uma construção do objeto físico e do objeto científico em geral. Enquanto tal, o objeto científico só existe em virtude das operações pelas quais lhe damos consistência: só se encontra presente como objeto numa representação por modelo. Sem dúvida, os mais representativos "artefatos" desse aspecto de construtividade são as máquinas e, sobretudo, as máquinas sofisticadas que, por uma metáfora que é muito significativa, chamamos de as "máquinas pensantes". Tais máquinas imitam efetivamente, numa certa medida, alguns aspectos do comportamento humano e, notadamente, os aspectos lógicos desse comportamento. Trata-se de máquinas pensantes, mas não de máquinas celebrantes. (Ladrière, sem data, pág. 28)

Informática, uma herança da Lógica Moderna

Informática, uma herança da Lógica Moderna mccastro ter, 05/10/2011 - 06:45

A informática herda da lógica seus principais caracteres, na medida em que os utiliza. Como a lógica, a informática é um conjunto de instrumentos que primam pelo rigor de uma racionalidade artificial; instrumentos de conhecimento, ao mesmo tempo objetos de conhecimento. A tecnologia da informação toma da lógica o princípio de seu funcionamento, pela vertente da álgebra de Boole, e assim se apresenta como uma “interpretação técnica do cálculo das proposições, a encarnação no cobre o no silício das regras válidas do pensar” (Chazal, 1995, pág. 32).

Enquanto arremeda uma pretensa “inteligência artificial”, a tecnologia da informação propõe-se como um novo instrumento de apoio ao pensar. Mas que pensar é este, fundamentado na lógica e no cálculo? Diante da produção, comunicação e consumo crescente de informação, através das “tecnologias da inteligência”, Heidegger faz um convite ao aprofundamento desta questão:

É por isso que também se torna necessária a formulação do que até agora foi silenciado: situa-se este pensamento já na lei de sua verdade se apenas segue aquele pensamento compreendido pela "lógica", em suas formas e regras? Por que põe a preleção esta expressão entre aspas? Para assinalar que a "lógica' é apenas uma das explicações da essência do pensamento; aquela que já, o seu nome o mostra, se funda na experiência do ser realizado pelo pensamento grego. A suspeita contra a lógica - como sua consequente degenerescência pode valer a logística - emana do conhecimento daquele pensamento que tem sua fonte na experiência da verdade do ser e não na consideração da objetividade do ente. De nenhum modo é o pensamento exato o pensamento mais rigoroso, se é verdade que o rigor recebe sua essência daquela espécie de esforço com que o saber sempre observa a relação com o elemento fundamental do ente. O pensamento exato se prende unicamente ao cálculo do ente e a este serve exclusivamente. Qualquer cálculo reduz todo numerável ao enumerado, para utilizá-lo para a próxima enumeração. O cálculo não admite outra coisa que o enumerável. Cada coisa é apenas aquilo que se pode enumerar. O que a cada momento é enumerado assegura o progresso na enumeração. Esta utiliza progressivamente os números e é, em si mesma, um contínuo consumir-se. O resultado do cálculo com o ente vale como o enumerável e consome o enumerado para a enumeração. Este uso consumidor do ente revela o caráter destruidor do cálculo. Apenas pelo fato de o número poder ser multiplicado infinitamente e isto indistintamente na direção do máximo ou do mínimo, pode ocultar-se a essência destruidora do cálculo atrás de seus produtos e emprestar ao pensamento calculador a aparência da produtividade, enquanto, na verdade, faz valer, já antecipando e não em seus resultados subsequentes, todo ente apenas na forma do que pode ser produzido e consumido. 0 pensamento calculador submete-se a si mesmo à ordem de tudo dominar a partir da lógica de seu procedimento. Ele não é capaz de suspeitar que todo o calculável do cálculo já é, antes de suas somas e produtos calculados, num todo cuja unidade, sem dúvida, pertence ao incalculável que se subtrai a si e sua estranheza das garras do cálculo. O que, entretanto, em toda parte e constantemente, se fechou de antemão, às exigências do cálculo e que, contudo, já a todo o momento, é, em sua misteriosa condição de desconhecido, mais próximo do homem que todo ente, no qual ele se instala a si e a seus projetos, pode, de tempos em tempos, dispor a essência do homem para um pensamento cuja verdade nenhuma "lógica" é capaz de compreender. Chamemos de pensamento fundamental aquele cujos pensamentos não apenas calculam, mas são determinados pelo outro do ente. Em vez de calcular com o ente sobre o ente, este pensamento se dissipa no ser pela verdade do ser. Este pensamento responde ao apelo do ser enquanto o homem entrega sua essência historial à simplicidade da única necessidade que não violenta enquanto submete, mas que cria o despojamento que se plenifica na liberdade do sacrifício. (Heidegger, 2000b, pág.70-71)

Cálculo, lógica e algoritmo – Bases da Informatização

Cálculo, lógica e algoritmo – Bases da Informatização mccastro ter, 05/10/2011 - 06:53

Segundo Hobbes: “a Razão nada mais é que o cálculo” (Leviatã, 1651). Mas, o que é o cálculo? A fórmula simples de Hobbes guarda uma parte deste mistério que é a razão humana (Parrochia, 1992). Para uma justa aproximação é preciso contextualizá-la no movimento da Modernidade, onde outras posições parecem indicar uma orientação para seu entendimento, como por exemplo: Descartes, concebendo os pensamentos como representações simbólicas de partes ou aspectos da realidade; Leibniz, concebendo uma “característica universal”, isto é, um sistema de cálculo simbólico geral permitindo operar, por símbolos interpostos, sobre o conjunto de objetos abstratos e concretos e obter a totalidade das proposições verdadeiras como combinações convenientes de símbolos; e, La Méttrie, exigindo que os cálculos simbólicos efetuados pelo espírito humano resultem de interações mecânicas.

Uma genealogia da informática deve reconhecer não somente sua origem na lógica matemática, enquanto um instrumento intelectual autônomo, como na lógica moderna que emerge especialmente nos trabalhos de Leibniz. Trabalhos que como demonstra Heidegger, criam um problema ao insinuar a possibilidade de se fundamentar a metafísica na lógica, e não o inverso[fn]A lógica contemporânea mostra uma nova distorção do problema. Não apenas é a metafísica reduzida à lógica, mas a lógica é reduzida à matemática. A lógica contemporânea é simbólica, lógica matemática, e assim uma lógica que segue o método matemático. (Heidegger, 1978/1984, pág. 106)[/fn]. Heidegger defende: a) a lógica fundada na metafísica e b) a lógica como apenas uma metafísica da verdade.

A característica universal

A característica universal mccastro ter, 05/10/2011 - 07:01

Apesar do avanço progressivo, dentro dos enunciados da lógica, no uso de variáveis simbólicas em lugar de termos concretos, ao longo da época clássica e medieval, a linguagem natural ainda predominava à época de Leibniz; ou seja, um mesmo raciocínio poderia ser expresso de várias maneiras diferentes. Para Leibniz, não se tratava apenas de construir uma linguagem que fosse capaz de facilitar a comunicação, mas de fundar uma escritura universal graças à qual se poderia, do mesmo modo que na álgebra e na aritmética, construir demonstrações (Rossi, 1993). O que o levou, segundo Rossi, a se interessar pelos aspectos sintáticos da linguagem, pela descoberta da “magia do algoritmo” ou do “caráter funcional” dos procedimentos formais e pela possibilidade de uma ciência geral das formas.

Respondendo a um ideal de univocidade lógica, e influenciado pela filosofia e escrita chinesas, assim como pela estrutura binária do I Ching, que afirmava ser capaz de enunciar de modo poético qualquer situação da realidade, através de seus 64 hexagramas, Leibniz expôs pela primeira vez, em 1666, os princípios de uma escritura ideográfica, única capaz de expressar de forma direta as ideias, sem passar pelo intermediário da fonética. Ele denominou esta “escritura”, a característica universal.

O projeto leibniziano de uma característica universal se fundamentava – como se sabe – sobre os três princípios seguintes: 1) as ideias são analisáveis, e é possível descobrir um alfabeto dos pensamentos que constitua o catálogo das noções simples ou primitivas; 2) as ideias podem ser representadas simbolicamente; 3) é possível representar simbolicamente as relações entre as ideias, e, por regras oportunas, proceder a sua combinação. Este projeto de Leibniz, no entanto, não nasceu certamente sobre o terreno da “álgebra” ou do “formalismo lógico” contemporâneo. (Rossi, 1993, p. 202)

Segundo Leibniz, a álgebra representava uma modelo de escritura racional, com o inconveniente de só se aplicar aos números. Portanto, fazia-se necessário uma “álgebra geral”, uma linguagem filosófica que permitisse a expressão de todas as ideias, de forma tal, que não mais existiriam disputas metafísicas ou morais; estas seriam resolvidas por um cálculo. Enunciava-se assim uma nova abertura no percurso da moderna lógica matemática.

Entretanto, vale frisar que a característica universal não foi concebida inicialmente sob a forma de uma álgebra ou de um cálculo, mas de uma linguagem ou de uma “escritura universal, quer dizer, inteligível para não importa que leitor especializado em uma linguagem qualquer” (Rossi, 1993). Nesta época, Leibniz considerava ainda, nos mesmos passos de Bacon e de Kircher, os caracteres da língua universal como compostos “de figuras geométricas e de pinturas do gênero daquelas que utilizavam no passado os egípcios e que empregam hoje em dia os chineses; pinturas que não se referem a um alfabeto ou a letras determinadas, o que é uma lástima para memória”.

Inicialmente encantado pela obra de John Wilkins, Essay towards a Real Character, and a Philosophical Language, publicada em 1668 (Eco, 1994; Rossi, 1992 e 1993), Leibniz vai posteriormente criticá-la pelo fato de não se empenhar na construção de uma linguagem verdadeiramente “filosófica”, isto é, própria para indicar as relações lógicas entre os conceitos. Para Leibniz, Wilkins se satisfez em criar uma linguagem que poderia facilitar o comércio entre as nações. A linguagem internacional, afirmava Leibniz, é a menor das vantagens que uma linguagem universal pode oferecer, pois esta antes de tudo é um instrumentum rationis.

A característica universal proposta por Leibniz se assenta assim sobre as seguintes teses:

  • A linguagem universal ou característica real procede de um sistema de signos que “representam diretamente os pensamentos, e não as palavras”, consequentemente, podem ser lidos e compreendidos independentemente da língua que se fala efetivamente;
  • A construção de uma linguagem universal coincide com aquela de uma escritura universal;
  • Os hieróglifos egípcios, os caracteres chineses e os símbolos da química são formas exemplares;
  • Pode-se aprender a linguagem universal em pouco tempo, servindo também para propagar a fé cristã e converter os povos;
  • O aprendizado da linguagem universal coincide com o da enciclopédia ou da ordenação sistemática das noções fundamentais; o projeto da enciclopédia é organicamente ligado ao da linguagem universal; “aquele que aprende esta linguagem aprende ao mesmo tempo igualmente a enciclopédia que é a verdadeira porta abrindo às ciências”;
  • O aprendizado da linguagem universal constitui em si um remédio para a fraqueza da memória; neste sentido, a proposta de Leibniz segue de perto a tradição da “arte da memória” (Yates, 1966);
  • A superioridade da linguagem universal sobre a escritura chinesa vem do fato que as ligações entre os caracteres correspondem à ordem e ao lugar que existem entre as coisas;
  • Os caracteres da linguagem universal objetivam expressar as referências e as relações que existem entre os pensamentos; como para a álgebra e a aritmética eles devem servir à invenção (ingenium) e ao juízo.

A construção da “característica universal” visava conduzir assim não apenas a realização de um meio de comunicação, mas contribuir igualmente de uma maneira direta à realização da ars inveniende. O nome que se dá na linguagem universal a um objeto ou a uma noção determinada, não serve apenas para perceber as relações que existem entre a coisa significada e as outras, pertencentes a mesma classe ou espécie, e a determinar as referências entre a coisa mesma e as diferenças e os gêneros nos quais ela está contida. Do mesmo modo, a nomenclatura não serve apenas para indicar a “posição” que ocupa o objeto no sistema do universo, mas igualmente “para indicar as experiências que se devem empreender racionalmente a fim de estender nosso conhecimento”.

Para que o nome de cada objeto ou de cada noção possa exprimir a definição deste objeto ou desta noção, de modo que os termos da linguagem artificial se tornem símbolos apropriados e transparentes, é preciso que se determinem os elementos primeiros e mais simples que compõem o alfabeto do pensamento. Mas para determinar este alfabeto, é preciso um inventário de todos os conhecimentos humanos; é indispensável se dispor de uma enciclopédia onde todas as noções estejam classificadas dentro do quadro de um sistema unitário, e onde se possa referenciá-las a um número limitado de categorias fundamentais. Razão pela qual Leibniz devotou grande parte de sua vida à elaboração de uma enciclopédia universal, que mais que um balanço do conhecimento humano, servisse de guia à pesquisa científica.

Decorrente da “característica universal”, como sua vertente operatória, Leibniz propôs o calculus ratiocinator, recuperando das matemáticas seu poder de operar sobre símbolos segundo procedimentos exatamente especificados, mas estendendo este poder além do domínio da quantidade. Para Leibniz, um cálculo só pode ser feito sobre uma característica, um sistema de signos visíveis cujas combinações e transformações estão sujeitas a regras sem ambiguidade.

Este projeto se associa também a sua tentativa de construir uma “máquina de raciocinar”, que não teve condições de se materializar com os recursos mecânicos da época. Em relação às tentativas anteriores, como a máquina de Pascal, ela oferecia a vantagem de ser capaz de realizar as quatro operações aritméticas. Sobre este modelo, Charles-Xavier Thomas de Colmar (1785-1870) construiu o arithmomètre um engenho prático, portável, de fácil uso e sobretudo que funcionava. Esta máquina foi comercializada com grande sucesso, vendendo mais de 1500 unidades em trinta anos e recebendo a medalha de ouro na exposição de Paris de 1855 (Breton, 1987).

Umberto Eco (1994) resume o esforço que Leibniz sustentou ao longo de toda sua vida, como a construção em quatro momentos fundamentais de um imenso edifício filosófico-linguístico: 1) a determinação de um sistema de elementos primitivos, organizados em um alfabeto do pensamento, ou enciclopédia geral; 2) a elaboração de uma gramática ideal, onde sua proposta de um latim simplificado seria um exemplo; 3) eventualmente, uma série de regras para tornar os caracteres pronunciáveis; 4) a elaboração de um léxico de caracteres reais, sobre os quais fosse possível fazer um cálculo capaz de conduzir o locutor a formular automaticamente proposições verdadeiras.

Sistema formal e algoritmo

Sistema formal e algoritmo mccastro ter, 05/10/2011 - 07:06

No século XIX surge a proposta de sistema formal, em contrapartida a essa busca de uma linguagem universal, reunindo em si propriedades gramaticais e semânticas. Uma vez eliminado todo apelo à intuição nas construções matemáticas, sendo estas então dissociadas da consistência lógica exigida pela verdade categórica, as chamadas “ciências matemáticas” paradoxalmente se engajam na via do rigor crescente (rigor mortis?). Substituem-se nas construções matemáticas as palavras da linguagem usual, por símbolos “virgens de sentido”, e, por conseguinte, suscetíveis de receber exata e exclusivamente aquele sentido que os axiomas lhes conferirem, segundo o sistema formal que os definiu.

A especificação das regras segundo as quais devem ser conduzidas as deduções válidas, constitui a etapa seguinte dessa formalização. Explicitadas, as regras de lógica se tornam por sua vez hipotéticas e convencionais, como os axiomas; levando a demonstração de um teorema em um sistema formal, a ter a aparência de uma transformação ordenada de configurações de símbolos, de manipulação de signos tipográficos, seguindo procedimentos exatamente definidos. A evidência dos encadeamentos lógicos não tem mais lugar na dedução, travestida em um estrito jogo formal.

Por uma volta inesperada, a demonstração sofre uma metamorfose e vira algoritmo cego mas eficaz, manipulação de símbolos em um plano virtual, abstrato e purificado, que distingue a Modernidade ocidental de qualquer outra. Como já apresentado, brevemente, estes sistemas têm certas propriedade importantes:

  • primeiro, a semântica de um sistema formal concerne as interpretações concretas que dele se podem fazer; intrinsecamente desprovido de significado, o sistema formal se presta a por em evidência isomorfias estruturais entre domínios concretos aparentemente sem relações; ou seja, a mesma axiomática pode formalizar várias teorias ou modelos;
  • a sintaxe de um sistema formal se relaciona unicamente a suas características internas; dentre as propriedades sintáxicas destacam-se a consistência (se o sistema não contém fórmulas que não possam ser derivadas de seus axiomas), a completude (se dada uma expressão bem formada do sistema, pode-se demonstrá-la como falsa ou verdadeira) e decidibilidade (na medida em que o sistema exige um método que possa distinguir entre proposições demonstráveis ou refutáveis, e outras).

Caberá ao matemático Gödel, em 1931, a responsabilidade por abalar definitivamente esta formalização progressiva, ao demonstrar que um sistema formal suficientemente poderoso para codificar a aritmética, não atenderia ao requisito de completude. Pondo um termo na ambição dos matemáticos formalistas de codificar a matemática (e até o mundo!), em sistemas formais dedutivos, perfeitamente coerentes.

Por outro lado, foi justamente abordando a questão da decidibilidade que Alan Turing elaborou o modelo de autômato universal, em seguida batizado de “máquina universal” ou de Turing. A perfeita definição de algoritmo que ele alcançou nesta tentativa, reforçou a demonstração de Gödel, ao mesmo tempo em que assentava as bases teóricas da informática, através da máquina universal, como já relatamos. Fato que o levou a participar ativamente da construção de protótipos de computador, na Inglaterra da década de 1940.

Na gênese de uma ordem dedutiva perfeita emerge o “algoritmo rigoroso”, que paradoxalmente faz seu ninho em um autômato cego, que privilegia o poder operatório, a velocidade, a instrumentalidade, ou como prefere Lyotard (1979) o “performativo”. Prevalece, cada vez mais, a visão utilitarista da matemática da contabilidade renascentista, da ciência do Estado - a estatística, e da filosofia analítica deste século.

Informática — "logiciel" e "matériel"

Informática — "logiciel" e "matériel" mccastro ter, 05/10/2011 - 08:22

As linguagens de programação da informática (o logiciel, como diriam os franceses), ao se conformarem com o algoritmo, realizam o sonho de Leibniz, de certo modo. Embora com restrições significativas, culminam este avanço em lógica matemática, na linha reducionista, que pretende substituir as incertezas da razão, pela infalibilidade do cálculo, do sistema formal e coerente de signos sobre o qual opera um conjunto de instruções, e que assim se apresenta como um programa.

O funcionamento da tecnologia da informação, sobre o equipamento que a sustenta, se dá pela execução dessa programação algorítmica e imperativa, isto é, dessa sequência de instruções elementares que são executadas sequencialmente. O elenco de instruções disponível é pequeno. É sua combinação em um programa que dá à tecnologia o poder de representar qualquer operação lógica da razão. De um modo geral, apenas cinco instruções são suficientes para a representação da razão: leitura/escritura de dados; armazenamento de dados na memória digital; atribuição de um valor, ou do resultado de um cálculo a um endereço de memória; decisão quanto a sequência de instruções a seguir, em função de uma condição; e repetição de uma série de instruções.

Em seu lado matériel (como diriam os franceses), a informática repousa sobre a descoberta que processos físicos podem ser exatamente isomorfos à operações lógicas. Este princípio, como mencionando anteriormente, teve uma formulação original em uma tese de doutoramento de 1938, defendida por Claude Shannon, o mesmo da teoria da informação. Nesta tese, Shannon demonstrava a analogia de estrutura entre o funcionamento de circuitos elétricos e a álgebra de Boole. A concepção de componentes lógicos e aritméticos dos computadores, segue ainda hoje os princípios fundamentais expostos por Shannon.

A proposta de uma máquina universal, assentada em termos de cálculo[fn]Como esse cálculo rege pura e simplesmente, parece que perto da vontade nada mais há do que o mero asseguramento da pulsão de calcular. Essa pulsão constitui a primeira regra de cálculo para o cálculo de tudo. (Heidegger, 1954/2002, pág. 82)[/fn] e informação, oferece-se como o novo paradigma tecno-científico, pretensamente capaz de aportar respostas inovadoras a questões clássicas, do tipo: conhecimento, sabedoria, ser, teleologia, memória, percepção, cognição etc.

Estaria a essência da informática explicitando um dos segredos da história do pensamento ocidental, a forma oculta de seu ideal cientificista, o motor invisível de seu tecnicismo, o selo de sua potência industrial? Segundo Pierre Lévy (1987), ela estaria revelando a própria essência do que se chama Ocidente.

Cálculo e Algoritmo

Cálculo e Algoritmo mccastro ter, 05/10/2011 - 08:29

A informática é a expressão atual mais contundente da essência da técnica moderna, a Ge-stell, através de sua natureza imediata de representação da realidade através da lógica e do cálculo. Mas esta afirmação ainda requer um maior esclarecimento.

Tal esclarecimento supõe uma explicitação mais aprofundada do cálculo. Se o termo retorna frequentemente a partir dos anos quarenta, é no Princípio de razão que Heidegger se mostra o mais preciso quanto ao cálculo. Como muitas vezes, é o comentário de uma camada etimológica que produz a clareza desejável. Ratio significa a conta – e não somente a quantificação, mas o comportamento que conta sobre e com, que põe em ordem e dispõe segundo as coisas a fazer. É a dimensão pragmática do cálculo. No fundo desta, se abriga uma exigência de inteligibilidade. Não há por em ordem sem pressuposição do que é a coisa e, por conseguinte: “A conta que supõe presente uma coisa como tal coisa.” Ela a produz como base de conta, como “fundo” – a dimensão teorética do cálculo se manifesta no “perceber que toma em consideração”, “vor-nehmen”. O cálculo se faz Razão – Vernunft. A produção do fundo regra este pela representação: eis o cálculo como objetivação. A modernidade manifesta e realiza a essência da técnica através da unidade das dimensões teorética e pragmática do cálculo na objetivação. (Milet, 2000, pág. 85-86)

O tratamento da informação, o processamento de dados, é o cálculo, que encerra em si o conceito de operação matemática, organizada e metódica, com vistas à produção de um resultado determinado. No entanto, é possível estender a definição de cálculo, além do conjunto de operações matemáticas, se forem consideradas outras espécies de operações organizadas e metódicas, tais como: selecionar, classificar, permutar, combinar, comparar, substituir, transcodificar etc.

O algoritmo apresenta-se, deste modo, como uma forma estendida do cálculo, ou seja, uma sequência finita (é preciso que atinja um resultado) e ordenada (convenientemente disposta para se atingir o resultado desejado) de operações (regras ou instruções), com vistas à resolução de uma determinada classe de problemas, de natureza informacional ou comunicacional. O algoritmo abre assim caminho para a noção de programação de computador, pois segundo um dos mestres da ciência da computação, Niklaus Wirth: “algoritmo + dados = programa de computador”.

Programa de Computador = Algoritmos + Dados

Programa de Computador = Algoritmos + Dados mccastro ter, 05/10/2011 - 08:36

No processo de informatização de um sistema-objeto[fn]O sistema-objeto deve ser entendido como a leitura, já sob a perspectiva do método informacional-comunicacional, de um recorte arbitrado sobre a realidade dos atos-fatos humanos. De modo que nele, sob o ângulo da informática, estão realçados os problemas a serem processados, após uma tradução segundo a língua técnica do computador, sob a forma de tarefas homens-máquinas, estruturas de dados simbólicos e fluxos de dados, de acordo com uma sistematização, uma ordenação lógica.[/fn], um dos objetivos iniciais é diante de uma problemática definida, identificar uma solução hipotética, incluindo os procedimentos informacionais e os dados a serem operados por estes procedimentos, de maneira a projetá-la, respectivamente, em algoritmos e em dados simbólicos, e, posteriormente, codificá-la em um programa com sua estrutura de dados associada, na língua técnica do computador.

Naturalmente, uma vez formalizado um programa, pela dissecação de um ato-fato humano, em seus dados simbólicos e no conjunto de operações sobre estes (o algoritmo), corre-se o risco de perda da percepção global do ato-fato original, em si mesmo. O rigor da descrição formal passa, por sua vez, a ser doravante a referência e a explicação do dito ato-fato.

Deste modo, o ato-fato original, enquanto ente, submete-se à lógica puramente operatória, perdendo eventuais polos de significação. Um programa de computador pretende ser uma equação ótima combinando algoritmo(s) com estrutura(s) de dados simbólicos, dentro do computador, visando à consecução de tarefas, que traduzem a visão do ato-fato humano como um problema de natureza informacional.

Fatos sob a forma de estruturas de dados simbólicos e algoritmos como fórmulas operativas sobre estas estruturas, são por si mesmos sem significado. Para que o engenho de representação mimetize aproximadamente o que Heidegger denomina “ocupação”, cabe ao homem que o opera dar alguma relevância a esta construção algoritmos-dados. Mas os predicados que devem ser adicionados para registrar esta relevância junto à construção artificial são apenas mais algoritmos-dados sem significado; e paradoxalmente, quanto mais fatos, sob esta configuração são adicionados ao engenho, mais distante de uma “ocupação” se situa a interação homem e engenho[fn]Pode-se apreender formalmente o conceito referencial que constitui o mundo como significância no sentido de um sistema de relações. Deve-se, porém, atentar para o fato de que tais formalizações nivelam de tal modo os fenômenos que, em remissões tão "simples" como as que a significância abriga, perdem o conteúdo propriamente fenomenal. Essas "relações" e "relatas" do ser para, da função, do estar com de uma conjuntura, em seu conteúdo fenomenal, resistem a toda funcionalização matemática; também não são algo pensado, posto pela primeira vez pelo pensamento, mas remissões em que a circunvisão da ocupação sempre se detém como tal. Esse "sistema de relações" constitutivo da mundanidade dissolve tão pouco o ser do manual intramundano que, na verdade, é só com base na mundanidade do mundo que ele pode descobrir-se em seu "em si substancial". E somente quando o ente intramundano em geral puder vir ao encontro é que subsiste a possibilidade de se tornar acessível o que, no âmbito deste ente, é simplesmente dado. Com base neste ser simplesmente dado é que se podem determinar "propriedades" desses entes em "conceitos de funções matemáticas". Conceitos de função dessa espécie só se tornam ontologicamente possíveis remetendo-se a um ente cujo ser possui o caráter de pura substancialidade. Conceitos de função não são outra coisa do que conceitos formalizados de substância. (Heidegger, 1986/1998, pág. 133-134)[/fn].

A Máquina Universal

A Máquina Universal mccastro ter, 05/10/2011 - 08:40

A Industrialização da Memória

A Industrialização da Memória mccastro ter, 05/10/2011 - 09:07

Ao longo desta investigação o termo memória foi usado inúmeras vezes. Para que seu sentido fique bem claro e se possa falar de uma “industrialização da memória” é necessário elaborar o termo e a noção.

Na tradição ocidental, o termo memória teve o privilégio de ser referência a um titã da mitologia grega, Mnemósina (Mnemosine). Heidegger recupera seu sentido original ao se referir a um poema de Hölderlin, e articular este sentido ao pensar:

Mnemósina, a filha do Céu e da Terra, se torna, como esposa de Zeus, durante nove noites a Mãe das Musas. Jogo e Musica, Dança e Poesia pertencem ao seio de Mnemósina, à Memória. É claro que este termo designa outra coisa que a única faculdade, determinável pela psicologia, de reter o passado na representação. Memória pensa naquilo que tem de ser pensado. Mas, sendo o nome da Mãe das Musas, “Memória” não significa um pensar qualquer de não importa que pensável. Memória é o recolhimento do pensar sobre aquilo que em tudo desejaria ser já guardado no pensar. Memória é o recolhimento do pensar fiel. Ela protege próximo a ela e ela guarda consigo aquilo que é necessário pensar de antemão de tudo aquilo que é e que se revela à nós como o ente, como sendo o recolhimento do ser (als Wesendes, Gewesendes). Memória, a Mãe das Musas! O pensar fiel àquilo que demanda ser pensado é no fundo de onde soa a poesia. A poesia são então as águas, que por vezes escoam às avessas em direção à fonte, em direção ao pensar como pensar fiel. Tanto quanto crermos poder alcançar da lógica um esclarecimento sobre isto que é a poesia, tanto quanto não poderemos nos por a pensar à maneira pela qual toda poesia repousa no pensar fiel. Tudo que encanta na poesia brota do “recolhimento junto a...” que é aquele do pensar fiel. (Heidegger, 1954/1959, pág. 29-30)

Ao longo do ensaio, “O que se chama pensar?”, Heidegger alerta para a perda deste sentido profundo da Memória, em sua articulação com o pensar. No exame da questão, a partir “daquilo que nos faz mais pensar em nosso tempo que nos faz pensar é que não pensamos ainda”, Heidegger acompanha a máxima de Nietzsche “O deserto cresce...” para concluir que “a desolação é, na cadência máxima, o banimento de Mnemósina” (ibid, pág. 36).

Por conseguinte, poderia ser que aquilo que faz mais pensar fosse alguma coisa do alto, talvez mesmo o mais alto que seja para o homem, se pelo menos o homem habite este ser que ele é enquanto pensa, quer dizer enquanto é requerido pelo pensado, pois, com efeito, sua essência repousa na Memória. (Heidegger, 1954/1959, pág. 37)

Memória informacional-comunicacional

Memória informacional-comunicacional mccastro ter, 05/10/2011 - 09:18

Que distância guarda a Memória da memória informacional-comunicacional tratada nesta investigação, embora a mesma denominação pareça indicar uma proximidade, algo em comum que na Memória se re-vela e na memória se vela de todo. Pois, nesta última, o que se tem é a mimese da Memória, capturada naquilo que tem mais próximo de um registro de símbolos, palavras ou imagens, que representam um ato ou um fato. Uma mimese onde prevalece de pronto a interpretação da Memória como apenas um depósito de símbolos armazenados na mente, referentes a atos ou a fatos, e passíveis de serem codificados em dados simbólicos, a serem armazenados em um suplemento artificial de memória, componente da tecnologia da informação.

Esta interpretação da Memória como simples depósito de palavras ou imagens, por sua vez, se aproxima em certo sentido, da memória informacional, guardando, no entanto, certa distancia de todos os esforços realizados desde a Antiguidade por estabelecer uma “arte da memória”. Pelo contrário, aproxima-se muito da evolução desta arte da memória e de suas técnicas aperfeiçoadas através da Idade Média e da Renascença, como muito bem indica Frances Yates (1966) em seu clássico, “The Art of Memory”.

Aquilo que se busca pela arte da memória e aquilo que se constrói pela memória informacional-comunicacional é, no primeiro caso, um artifício de Memória, enquanto no segundo, uma memória artificial. A diferença significativa é que na arte da memória, ainda se guardam os princípios enunciados por Heidegger de uma Memória, essência do homem, e se elaboram técnicas para o pensar, com base em linguagem, imagem, tropos, figuras e esquemas, que não visam a mimese, mas as condições de possibilidade do pensar, do meditar. Enquanto na memória artificial, só interessa a codificação, o registro, o armazenamento, a ordenação, a classificação, a busca e a recuperação como instrumentos de dis-ponibilidade da memória para sua exploração.

Por memória artificial, na teoria da informação moderna, entende-se a forma de sua codificação para armazenamento e recuperação, assim como o suporte material, a mídia, onde podem-se inscrever os dados simbólicos como sequências de 0 e 1, de acordo com o código binário. Esta memória, seja como disco rígido, disquete, CD-ROM, etc., é o suplemento de memória dis-posto pela tecnologia da informação, para armazenamento daquilo que é representável de atos e fatos na Memória. Guarda assim uma analogia com aquilo que a escrita representou no passado remoto enquanto um suplemento[fn]Neste sentido de suplemento já era questionada nos diálogos de Platão: “E o rei replicou: "Incomparável mestre em artes, oh Theuth (O tekhnikótatú Theúth), uma coisa é o homem capaz de trazer à luz a fundação de uma arte, outra aquele que é capaz de apreciar o que esta arte comporta de prejuízo ou utilidade para os homens que deverão fazer uso dela. Neste momento, eis que em tua qualidade de pai dos caracteres da escrita (patér òn grammáton), atribuíste-lhes, por complacência para com eles, todo o contrário (tounatíon) de seus verdadeiros efeitos! Pois este conhecimento terá, como resultado, naqueles que o terão adquirido, tornar suas almas esquecidas uma vez que cessarão de exercer sua memória [...] Não é, pois, para a memória, mas para a rememoração que tu descobriste um remédio (oúkoun mnémes, allà hupomnéseos, phármakon heûres)”. (Fedro, 274 e 275b, apud Derrida, 1972, p. 126-127)[/fn].

Memória e Mídia

Memória e Mídia mccastro ter, 05/10/2011 - 09:24

Toda memória requer um suporte, uma mídia, e desde o passado mais remoto o homem buscou a forma ideal desta mídia, apesar da injunção de “esquecimento e perda de memória” que em Platão paira como uma ameaça à adoção de diferentes mídias, como suplementos da memória.

Desde o uso da voz e de gestos, como mídias baseadas na intimidade do próprio corpo, mas capazes de registrar e transmitir a memória individual ou comunal, até a mais completa externalização desta memória através da arte e da escrita, manifesta-se a necessidade de memorização e transmissão, ou em um único termo, a necessidade de “tradição”.

As mídias foram variadas segundo o “fazimento poético” até se alcançar a mídia padrão dis-posta no registro digital, onde voz, ou imagem, ou escrita são configuradas segundo uma única língua técnica. Na língua franca da informática o suplemento de memória é um traço já materializado e não apenas uma entidade formal. A lógica do suplemento é “tecno-lógica”.

Todo suplemento é técnica, é prótese, no sentido de “posto-lá-diante”, de “pro-posição”, onde a técnica é o que nos é pro-posto, segundo um saber originário, uma mathesis que “nos pro-põe as coisas”. E toda técnica suplementar é um suporte de memória exteriorizando um programa, um hábito. Mas todo suplemento técnico não é por sua vez uma técnica de memorização.

Memória, segundo Stiegler

Memória, segundo Stiegler mccastro ter, 05/10/2011 - 09:40

Como afirma Stiegler (1994), se o homem também se define pela memória genética e pela memória epigenética, isto quer dizer que o processo de externalização e suplementação da memória, é uma ruptura que indica o advento de uma terceira memória, epifilogenética. Esta memória essencial ao humano, é técnica, inscrita no instrumental, que se torna transmissível e acumulável, constituindo uma tradição, um patrimônio, uma herança.

A epifilogênese, acumulação recapitulativa, dinâmica e morfogenética (filogênese) da experiência individual (epi), designa a aparição de uma nova relação entre o organismo e seu meio, que é também um novo estado da matéria: se o indivíduo é uma matéria orgânica e portanto organizada, sua relação ao meio (a matéria em geral, orgânica e inorgânica), quando se trata de um quem, é mediatizada por esta matéria organizada embora inorgânica que é o organon, o instrumento com seu papel instrutor (seu papel de instrumento), o que. É neste sentido que o que inventa o quem ao mesmo tempo em que é por ele inventado. (Stiegler, 1994, pág. 185)

Por outro lado, para Stiegler, o que antecipa, quer, pode, pensa e conhece, é o quem. O suplemento do quem, sua prótese, é seu que. O quem não é nada sem o que pois estão em relação transdutiva[fn]“Entendemos por transdução uma operação, física, biológica, mental, social, pela qual uma atividade se propaga de próximo em próximo no interior de um domínio. fundando esta propagação sobre uma estruturação do domínio operado de lugar em lugar: cada região estrutura constituída serve à região seguinte de princípio e modelo, de gatilho de constituição, de tal maneira que uma modificação estenda-se assim progressivamente ao mesmo tempo que esta operação estruturante. (...) Existe transdução quando existe atividade partindo de um centro do ser, estrutural e funcional, e se estendendo em diversas direções à partir deste centro, como se múltiplas dimensões do ser aparecessem ao redor deste centro; a transdução é aparição correlativa de dimensões e de estruturas em um ser em estado de tensões pré-individuais, quer dizer em um ser que é mais que unidade e mais que identidade, e que ainda não se defasou a relação a si mesmo em dimensões múltiplas.” (Simondon, 1989, pág. 24-25)[/fn] no processo de exteriorização na vida. Há uma dinâmica do que, irredutível a do quem, na medida em que a lógica do suplemento é “tecno-lógica”, mas que depende da dinâmica do quem como poder de antecipação. Poder este que depende, por sua vez, do “já-aí”[fn]O que Heidegger denomina o ”já-aí”, constitutivo da temporalidade do Dasein, este passado que não vivi e que no entanto é meu passado, sem o qual eu não teria jamais tido algum passado meu, esta estrutura de herança e de transmissão, que é a fundação da faticidade-mesma pois a tradição pode sempre me ocultar o sentido da origem que no entanto somente ela me transmite, supõe que o fenômeno da vida que é o Dasein se singulariza na história do vivente na medida em que nele, a camada epigenética da vida, longe de se perder com o vivente quando este morre, se conserva e se sedimenta, se lega à sobrevivência e à descendência como um dom assim como uma dívida, quer dizer como um destino [...]. (Stiegler, 1994, pág. 150)[/fn] do que lhe pro-põe seu passado não vivido. Na “negociação transdutiva dos termos, há co-individuação”.

Se a memória pode industrializar-se é porque é tecno-logicamente sintetizada, e esta síntese é originária, na co-invenção do “quem” e do “que”, na constituição do suplemento requerido diante da limitação, do esquecimento, da falta, que demanda um suporte, instrumento e meio de conservação e condições de elaboração.

Stiegler avança assim a questão do tempo apreendido a partir da questão “tecno-lógica”, da memória artificial registrada no instrumento, que é sempre uma herança no “já-aí”, imanente, portanto, ao ser-no-mundo. As estruturas epifilogenéticas tornam possíveis o “já-aí” e sua apropriação, em uma “maiêutica instrumental”. “O paradoxo da exteriorização nos fez dizer que o homem e o instrumento se inventam um ao outro, como uma maiêutica tecnológica” (Stiegler, 1994, pág. 183).

Resgatando também o pensamento de Leroi-Gourhan, Stiegler percorre esta memória em expansão, como verdadeira história da exteriorização da memória, que anuncia o quadro geral de uma história do suplemento do ponto de vista “tecno-lógico”. Por sua leitura do clássico de etnografia “A memória e os ritmos”, Stiegler reconhece os três níveis de memória (genética, epigenética e epifilogenética) como níveis programáticos, ou seja, como gramáticas. E vislumbra uma quarta memória advinda com a tecnologia da informação, enquanto engenho de representação, atuando como “suporte gramatical” de todas, e base da industrialização da memória.

Memória Artificial

Memória Artificial mccastro ter, 05/10/2011 - 11:15

Stiegler recupera a noção de “finitude retencional”[fn]A memória se objetiva se sintetizando tecnicamente. Qual é a sintetização passiva característica do “que” da técnica contemporânea, e também do quem que somos?
Existe síntese passiva porque existe finitude retencional. Na época das sínteses analógica, digital e biológica, a finitude retencional é assumida economicamente, tornando-se objeto privilegiado do investimento industrial: o imperativo econômico tem a iniciativa de sua efetividade. Isto tem como primeira consequência uma realização hegemônica do tempo apreendido como cálculo. (Stiegler, 1996, pág. 119)[/fn] de Husserl, para demonstrar que quando a vida se torna técnica por excelência, passa a ser também “finitude retencional”. Além da retenção primária, pertencente ao “grande momento” do objeto, e a retenção secundária, a relembrança, Stiegler afirma também uma retenção terciária, suporte da epifilogênese, à semelhança da chamada “consciência de imagem”, que não teria sido elaborada por Husserl.

Toda apreensão de um presente é assim “a origem de um rabo de cometa de retenções”. Não se trata de uma a série de imagens que fariam cortejo ao percebido, mas de um país que se constitui à medida que avança-se, e que é o país do passado, não menos efetivo que o país do presente.

O “extrair, transformar, estocar, distribuir, reprocessar”, mencionados por Heidegger como modos de desencobrimento no dis-por da técnica moderna, dependem, segundo Stiegler, desta retenção, sem a qual não pode haver estocagem. A retenção informacional-comunicacional seria assim um caso particular de memorização em uma língua técnica.

E, como técnica e conhecer têm a ver entre si, Stiegler pode afirmar também que conhecer, em sua essência, e saber, ainda mais profundamente, seriam “finitudes retencionais”. No caso da estocagem do dis-posto para exploração pela tecnologia da informação, retenções refundadas em língua técnica[fn]Poderíamos acreditar que a interpretação técnica da língua como instrumento de comunicação e de informação é evidente por si própria, na medida em que a técnica se compreende a si mesma como um instrumento e apresenta todas as coisas sob esse aspecto. Mas à luz do que acaba de ser discutido sobre o que é próprio da técnica e da língua, esta apresentação fica superficial. Pelo contrário, é preciso perguntarmo-nos: em que medida o que é próprio da técnica moderna acaba por se impor à língua levando-a a sua refundação em pura informação, de tal maneira que ela provoca o homem, quer dizer, obriga-o a assegurar a energia natural e a colocá-la à disposição? Em que medida há, além disso, na própria língua, a exterioridade que oferece a tomada e a possibilidade de uma refundação em língua técnica, isto é, em informação? (Heidegger, 1989/1990, pág. 36)[/fn], segundo um método informacional-comunicacional.

Certamente se a língua “tecnicizando-se” pode tornar-se informação é preciso que ela já porte em si mesma esta possibilidade. Deste modo, é viável transformar a plurivocidade de um dizer na univocidade de signos[fn]Mas o dizer como mostrar pode igualmente ser concebido e efetuado de tal maneira que mostrar significa somente: dar sinais. O sinal torna-se então uma mensagem e uma instrução acerca de uma coisa que, em si mesma, não se mostra. Um som que retine, uma luz que brilha, não são, tomados em si próprios, sinais. Só são produzidos e impostos como sinais se aquilo que devem significar a cada vez é antecipadamente admitido, se aquilo é dito. Pensemos nos sinais em morse, que são limitados ao ponto e ao traço e nos quais o número e a ordem são associados às sonoridades da língua falada. O sinal particular só pode ter a cada vez uma de duas formas, ponto ou traço. A série dos sinais é neste caso reconduzida a uma série de decisões sim-não. As máquinas são com-postas à produção de tais séries: estas, graças aos fluxos de corrente e aos impulsos elétricos, seguem este modelo abstrato de produção de sinais e fornecem as mensagens correspondentes. Para que tal espécie de informação se torne possível cada sinal deve ser definido de maneira unívoca; da mesma maneira cada conjunto de sinais deve significar de maneira unívoca um enunciado determinado. O único caráter da língua que subsiste na informação é a forma abstrata da escrita, que é transcrita nas fórmulas de uma álgebra lógica. A univocidade dos sinais e das fórmulas, que é necessariamente exigida por este fato, assegura a possibilidade de uma comunicação certa e rápida. (Heidegger, 1989/1990, pág. 38-39).[/fn], que facilitem a estocagem e a distribuição certa e rápida. “O modo da língua é determinado pela técnica”. A tecnologia da informação, enquanto engenho de representação, reduz à sua língua técnica, informacional-comunicacional, unívoca, exata e transmissível, a pluralidade de vozes que dão a entender uma palavra.

É a conservação artificial da memória, em próteses tecnológicas da informação e da comunicação, enquanto produção da memória como tal e de suas regras em algoritmos de sua funcionalidade, que caracteriza a informática, como motor da industrialização da memória. Ao se tornar exploração industrial pelo dis-positivo de representação informacional-comunicacional, a síntese sempre performática das regras de sua funcionalidade, codificadas segundo a gramática da língua técnica), é responsável pelo desvanecer das diferenças culturais e, pior ainda, por inutilizar o pensamento meditativo.

Hoje em dia nada mais vem ou se forma em nós. Por que? Porque nos faltam as possibilidades de um comércio de pensamento como uma tradição que nos desperte e nos ajude, porque em lugar de tal comércio nós deixamos nossa língua para os procedimentos das maquinas eletrônicas a pensar e a calcular: este último evento vai conduzir a técnica e a ciência contemporâneas a métodos inteiramente novos e também a imensos sucessos, métodos e sucessos que verdadeiramente porão fim ao pensamento meditativo, como a uma coisa inútil e cuja consequência pode-se bem passar sem. (Heidegger, 1957/1962, pág. 66)

A informática, engenho de representação

A informática, engenho de representação mccastro ter, 05/10/2011 - 11:35

Martin Heidegger, em um de seus ensaios, “A época das concepções do mundo” (1949/1962, pág. 99-146), faz uma longa meditação sobre a essência da Modernidade, ou dos Tempos Modernos, a partir do questionamento a respeito da “concepção moderna do mundo”. A metafísica funda uma era ao meditar sobre a essência de um ente, estabelecendo uma interpretação determinada do ser e do ente, e, ao mesmo tempo, ao decidir por uma acepção da verdade, fixando o modo pelo qual ela advém.

Meditando sobre fenômenos característicos de uma era, pode-se entrever aspectos da metafísica que a orienta. No caso da Modernidade, entre os fenômenos onde os “sinais do Tempo” são vestígios seguros da metafísica que a sustenta encontram-se: a ciência, a técnica, a arte, a cultura.

Sobre as condições de possibilidade da ciência e técnica modernas, Heidegger tem uma tese fundamental: essas condições são de natureza metafísica. “A técnica mecanizada é até aqui o prolongamento mais visível da essência da técnica moderna, a qual é idêntica a essência da metafísica moderna” (Heidegger, 1949/1962, pág 69). Portanto, parece existir entre engenho de representação, enquanto natureza da informática, e a metafísica moderna, uma perfeita sintonia.

Metafísica aqui é tomada por Heidegger num sentido bastante particular e determinado, que só pode ser esclarecido pela totalidade de sua filosofia. Segundo as indicações de Jean Ladrière (sem data), a metafísica é, para Heidegger, uma maneira de determinar o ente.

Para Ladrière, o que Heidegger, chama de ente[fn]Trata-se de tudo aquilo que, de um modo ou de outro, é; de tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, possui uma forma qualquer de realidade. Ao considerarmos um elemento da realidade como ente, nós o consideramos apenas na medida em que podemos aplicar-lhe este termo simples e misterioso, eminentemente filosófico: ser. Trata-se de um termo absolutamente indeterminado e neutro; e que vale por sua generalidade mesma. Portanto, segundo Heidegger, a “metafísica” é um modo de determinar o ente, de interpretá-lo, de caracterizá-lo e de compreendê-lo. Não se trata, necessariamente, de uma espécie de visão intelectual, de uma concepção explicitamente formulada ou de um discurso sistemático sobre o ente. Sem dúvida, a compreensão do ente pode se exprimir num discurso. Mas ela é, antes de tudo, implícita, vivida. A interpretação do ente é, primordialmente, uma atitude prática e efetiva em relação a ele, um modo de nos situarmos diante dele, de nos relacionarmos com ele. Portanto, no sentido heideggeriano, a metafísica é, primordialmente, uma determinação fundamental do ente que se constitui no implícito e que só é tematizada no discurso de modo secundário. (Ladrière, sem data, p. 18)[/fn], em conformidade com toda a tradição filosófica ocidental, é tudo aquilo que de uma maneira ou de outra pode servir de sujeito ao verbo ser na terceira pessoa do singular. Por conseguinte, tudo aquilo que, a qualquer titulo, pode ingressar no campo da experiência, quer se trate da percepção, da imaginação, do sentimento, do pensamento especulativo, da experiência poética ou da experiência mística.

Heidegger entende que cada época da história ocidental caracteriza-se por uma metafísica. O que interessa especificamente referenciar aqui é a metafísica que domina a chamada “Modernidade”, isto é, a época da Ciência e da Técnica Modernas. Ou seja, a metafísica que norteou o que se denomina a Modernidade em sua determinação do ser, do ente e da verdade. “Tentando expressar aquilo que universalmente pode ser dito de todo ente como tal, a metafísica se inaugura como uma lógica do ente, uma teoria de seus predicados, de sua essência, de sua entidade, enfim uma onto-logia” (Taminiaux, 1983, pág. 264).

A metafísica dos Tempos Modernos, imanente à concepção moderna de mundo, distingue-se daquela que sustentava a concepção medieval de mundo e a concepção antiga de mundo, na medida em que, nestas últimas, o homem não representa o mundo, ou melhor, não faz o mundo se apresentar diante de si por meio de uma representação, princípio dominante na metafísica da Modernidade.

Entendendo representação[fn]representação e ideia: Stellen é "localizar (algo), pôr de pé". A preposição vor significa "diante, em frente a etc." Portanto, vorstellen é "trazer, mover adiante; pôr algo em frente a algo"; assim "representar, querer dizer, significar" e "introduzir, apresentar uma pessoa" etc. O reflexivo sich vorstellen significa "apresentar-se, introduzir-se" - com um acusativo sich, e "representar para si mesmo, imaginar, conceber" - com um dativo sich. Vorstellung é uma "realização, apresentação, introdução" "ideia, concepção, imaginação etc." Vorstellung também compartilha da ambiguidade de várias palavras com -ung: ela pode significar o ato de "representar (vorstellen)" ou “o que é representado (Vorgestelltes)". (Inwood, 2002, pág. 161)[/fn] como uma espécie de imagem do mundo, reproduzida na imaginação do homem a partir da percepção, Heidegger conclui que só a partir do final da Renascença se constitui efetivamente este tipo de representação do mundo a partir da percepção subjetiva, fazendo do sujeito um absoluto e do mundo um espetáculo separado.

Vale dizer que para Heidegger, uma concepção do mundo deve ser entendida como uma “imagem[fn]Quanto a palavra imagem, devemos pensar na reprodução de alguma coisa. Um Weltbild seria portanto como um quadro do ente em sua totalidade. No entanto, Weltbild diz mais. Pois assim entendemos o Mundo (Welt) ele mesmo, o ente em sua totalidade, assim como nos impõem suas diversas ordens de medidas. Imagem (Bild) designa, por conseguinte, não um simples decalque, mas o que se faz entender na forma alemã: Wir sind über etwas im Bilde (literalmente: “somos quanto a qualquer coisa, na imagem”, ou seja, “somos ou estamos no fato desta coisa”). (…) Fazer a ideia de alguma coisa de maneira a ser fixada, é portanto pôr o ente ele mesmo diante de si para ver de que se trata, e tendo assim o fixado, o manter constantemente nesta representação. (…) Lá onde o Mundo se torna imagem concebida (Bild), a totalidade do ente é compreendida e fixada como aquilo sobre o qual o homem pode se orientar, como aquilo que ele quer por conseguinte levar e ter diante de si, aspirando assim a pará-lo, em um sentido decisivo, em uma representação. Weltbild, o mundo na medida de uma “concepção”, não significa portanto uma ideia do mundo, mas o mundo ele-mesmo apreendido como aquilo que se pode “ter-ideia”. O ente em sua totalidade é portanto tomado agora de tal maneira que ele é só e verdadeiramente ente na medida em que é parado e fixado pelo homem na representação e na produção. (…) O ser do ente é agora buscado e descoberto no ser-representado do ente. (Heidegger, 1949/1962, pág. 117)[/fn] do mundo” (Weltbild), onde o termo mundo apresenta-se como uma denominação do ente em sua totalidade. O mundo não se reduziria, por conseguinte, ao Cosmos ou a Natureza, pois a História dele faz parte. Mesmo assim, Natureza e História se penetrando reciprocamente, não esgotam o Mundo, pois esta designação “entende também e, sobretudo, o Mundo em seu princípio”.

Como indica Heidegger, o que faz da concepção do mundo dos Tempos Modernos, algo totalmente distinto das concepções do mundo medieval e antiga, é “que o ente se torne ente na e pela representação”. É preciso cautela neste entendimento. Não foi o Mundo, enquanto imagem concebida que se tornou moderno, deixando de ser medieval. Com efeito, o que caracteriza e distingue os Tempos Modernos é justamente o Mundo ter se tornado uma imagem concebida.

Segundo Heidegger teria havido, em relação ao ente, uma atitude inteiramente distinta a partir dessa época. Neste sentido, uma metafísica distinta daquela da Idade Média e daquela da Antiguidade grega. Ele a chama de “metafísica da representação”. Onde o termo representação se baseia numa metáfora, na verdade, numa dupla metáfora: falamos de representação para caracterizar o estatuto de um representante, de algo que age em nome de outro; mas, também falamos de representação para designar a realização efetiva de um espetáculo, onde o espectador é um puro olhar abstrato, e o espetáculo está presente diante do espectador, como objeto.

A primeira metáfora sugere a ideia de algo que faz às vezes de outrem ou de outra coisa: a representação é uma espécie de transferência de atribuição em virtude da qual uma pessoa pode agir em nome e lugar de outra, servir de lugar-tenente para a pessoa que ela representa. A segunda metáfora, por sua vez, sugere a ideia de presentificação: a representação expõe diante de um espectador, sob uma forma concreta, uma situação significante, figuras evocadoras, encadeamentos de ações exemplares; deste modo, torna presentes o destino, a vida, o curso do mundo, no que eles têm de visível, mas também em suas significações invisíveis.

Os dois sentidos metafóricos estão ligados: quando o destino se torna presente, por exemplo, na tragédia, não é em pessoa, mas através de gestos e palavras que nada mais fazem que dar uma aparência concreta a situações imaginárias nas quais o espectador pode ver a ação do destino; e, simetricamente, a representação que faz as vezes de outro tem sua eficácia pela presença real do representante, que deve se mostrar em pessoa para preencher sua missão. Existe, portanto, na representação a superposição de dois tipos de presentação: por um lado, aquela efetiva e direta de uma pessoa, um ato, um fato; por outro, aquela indireta, mediatizada pela primeira, de uma realidade que não pertence ao campo da apreensão direta. A primeira desaparece de alguma forma sob a segunda, ela reduz sua eficácia ao se fazer instrumento da segunda, permitindo a realidade representada entrar em uma esfera de apreensão, se tornando conhecida. Razão pela qual a representação tem uma importância epistemológica imensa.

Do ponto de vista filosófico, a metáfora da representação é utilizada para significar que o ente é interpretado como um espetáculo dado a um espectador; e aquilo que é assim dado em espetáculo, desempenha o papel de um substituto da realidade. Mas o espectador, na ocorrência, é de certa forma desvanecente: não é um ente ao lado dos outros, mas um puro olhar. Esse puro olhar, este puro espectador, é o que a filosofia moderna chamou de "sujeito". Se acompanharmos a evolução da filosofia moderna em suas diferentes peripécias, perceberemos que a noção de sujeito cada vez mais se empobrece. Em Descartes, o sujeito ainda é uma substância, uma "coisa pensante". Em seguida, porém, o conceito de sujeito se purifica. O sujeito se torna, por assim dizer, uma pura função do olhar; converte-se nesta pura instância pela qual o mundo é constituído em espetáculo. A realidade se esgota no fato de ser para um sujeito; o ente é constituído em objeto e interpretado como tal. (Ladrière, sem data, pág.19)

Era da Informação — Era da Representação

Era da Informação — Era da Representação mccastro ter, 05/10/2011 - 11:40

A problemática da representação em si e no tocante a representação de fenômenos, através de discursos descritivos, dados quantitativos, modelos matemáticos e estatísticos, cartas e mapas, imagens de satélites, reúne por si só temas de reflexão que acumularam e ainda acumulam uma imensa bibliografia. Tanto mais pela importância, e, em grande parte, pelo natural modismo da simulação e do virtual, em uma pretensa Era da Informação, que se revela em plena sintonia com a metafísica[fn]Em que medida isso surge da metafísica moderna? À medida que se pensa a entidade dos entes enquanto vigência para a representação seguradora. Entidade é agora objetividade. A questão da objetividade, da possibilidade de oposição (a saber, do re-presentar que assegura e calcula) é a questão da possibilidade de conhecer. (Heidegger, 1954/2002, pág. 64)[/fn] dos Tempos Modernos, ou, melhor dizendo, com a Weltanschauung moderna.

Na dita qualificação informacional de nossa era, ganha um significado todo especial a problemática da representação. Primeiro, porque demanda uma maior abertura de todos os interessados na informatização da sociedade, para a necessária reflexão das questões pertinentes à representação digital de qualquer ente. É da maior importância a crítica de instrumentos como a tecnologia da informação, presumivelmente capaz de modelar e analisar os fenômenos, sob a forma digital.

Segundo, porque na própria aplicação da informática, ou seja, no dar-se e propor-se da informática sobre um engenho de representação, constata-se um estranho jogo de diferentes representações. Um jogo em grande parte análogo àquele que Foucault (1966) reconhece em sua analise do quadro Las Meninas, que efetivamente “representa o mundo das representações disposto de maneira ordenada”.

Para Foucault, neste quadro reúnem-se os principais elementos da representação: o pintor produzindo a representação, o objeto representado e a visão da representação que tem um espectador qualquer. No entanto, por um enigmático paradoxo, o quadro também evidencia a impossibilidade de se representar o ato de representação.

Ou seja, o que não é representado é justamente o sujeito unificador e unificante que posiciona e integra esses elementos da representação, os tornando objetos para si mesmo. Para Foucault, essa experiência é como um prenúncio da episteme moderna, que irá inventar e fundamentar o homem como sujeito, e, ao mesmo tempo, objeto de estudo (Dreyfus & Rabinow, 1983).

Seguindo essa rica analogia, apresentada por Foucault, verifica-se que uma aplicação qualquer da informática parece indicar também um deslocamento na fundamentação do sujeito unificador e unificante. No dar-se e propor-se da informática, é concedido ao engenho o lugar privilegiado de sujeito, na constituição da representação final, pois sob seu comando são conjugados os elementos deste dar-se e propor-se, de modo a se ter como resultado a representação que se vê na tela do engenho.

Mas isto é, no mínimo, uma tese provocante, que merece uma argumentação maior, pois poderia, quem sabe, romper em definitivo com a quimera da “inteligência artificial”, e de seu sustentáculo o engenho de representação, que se re-velaria como sintetizador de ilusões informacionais-comunicacionais. Além de por em questão a pretensa neutralidade dos instrumentos disponibilizados pela Técnica Moderna.

Engenho de Representação — Transformador de Metáforas

Engenho de Representação — Transformador de Metáforas mccastro ter, 05/10/2011 - 11:56

Em termos bem concretos, na aplicação do engenho em um processo de informatização, desponta o modelo informacional digital como paradigma na construção da representação de um fenômeno. Como um elemento fundamental deste novo Discurso do Método, este modelo informacional, exógeno à qualquer disciplina que dele faça uso, determina uma forma digital para a representação de um fenômeno.

Esse método informacional-comunicacional, que define a forma digital de representação de um fenômeno, ou seja, o que o engenho irá doravante pro-por e dis-por, é uma metáfora do fenômeno visado, segundo alguns autores. Ao se preencher o modelo informacional do engenho, com dados simbólicos referentes a propriedades de qualquer fenômeno, sobre o qual dirigiu-se um olhar objetivante, já se deu partida a uma sequência de traduções que transformam sucessivamente um modelo conceitual em outro, uma metáfora em outra. Razão pela qual, estudiosos do processo cognitivo dão a este método a denominação de “transformação metafórica”[fn]Segundo George Lakoff (1985 e 1987), um dos principais teóricos citados pelos estudiosos, o sistema conceitual, que permite pensar e agir, é de natureza fundamentalmente metafórica, ou seja, a maior parte dos conceitos, que fundamentam o pensamento e a ação, são em grande parte compreendidos em termos de outros conceitos, assim formando uma cadeia que se sustenta, em ultima instância, na corporalidade.[/fn].

Ou seja, no simples ato de alimentar com dados um engenho está sendo reproduzida a transformação fundamental de uma sucessão de traduções, que já havia começado no momento da idealização, dentro de uma perspectiva científica, de um modelo do fenômeno visado, passou-se pelos modelos textuais, tabulares e analógicos de configuração de dados simbólicos disponíveis para este modelo ideal, chegando enfim ao modelo informacional digital. Com efeito, neste último fundamenta-se um marco, formalizando bases de dados digitais sobre as quais uma nova sucessão de transformações metafóricas vai poder se realizar, na medida em que se exercitem as funções de analise e síntese do engenho.

Até alcançar este marco fundamental, é importante reconhecer esta série de transformações, que apreendem, segundo um “olhar científico”, o fenômeno sendo investigado, enquadrando-o como uma metáfora de nossa percepção e de nossa idealização do mundo, e conduzindo-o através de sucessivas metáforas, até alcançar o conceito também metafórico, de “modelo do domínio de pesquisa”. Desta estrutura conceitual abstrata, em sua escala específica de investigação, procede-se à transformação em outra metáfora, pelo levantamento dos dados simbólicos disponíveis para o fenômeno visado dentro deste domínio; dados geralmente reconhecidos em seus formatos já reduzidos a modelos textuais (textos digitais), modelos tabulares (tabelas de dados) e modelos analógicos (imagens).

Finalmente, a partir desse conjunto de modelos textuais, tabulares e analógicos da realidade, pratica-se mais uma transformação em outra metáfora, o modelo informacional digital do engenho, que se configura, por sua vez, nas bases de dados digitais armazenadas no engenho. Chega-se, deste modo, ao ponto onde se reúnem quase todas as condições de possibilidade para o tratamento informacional-comunicacional que habilitará o engenho, a desempenhar sua funcionalidade.

À semelhança da “produção do pintor”, que é um dos elementos da problemática da representação, conforme indicado por Foucault em sua analise do quadro Las Meninas, toda esta sucessão de transformações segue uma metodologia teleológica. Pari passu, sempre sob o comando do engenho, atuando à semelhança do “sujeito unificador” de toda esta sucessão de transformações metafóricas, vai se chegar a metáfora final, o modelo informacional digital, a partir do qual, através do poder de analise e de representação do engenho, pode ser produzida uma variedade de presentações virtuais, na tela do computador ou em papel.

Funções de programação disponíveis no engenho completam as condições de possibilidade, que assim facultam a última transformação metafórica do modelo informacional digital, em modelo virtual do fenômeno. Modelo virtual capaz de ser apresentado em diferentes imagens digitais, no espaço delimitado do monitor (vídeo) de um micro ou da folha de papel de uma impressora. Imagens estas que podem ser vistas por um espectador, outro elemento da problemática da representação, segundo a interpretação dada por Foucault do quadro Las Meninas.

Sobre esse modelo virtual é possível se aplicar todas as funções de manipulação, de análise e de simulação, de construção e de apresentação de imagens de todo o gênero, sejam em forma de tabelas, gráficos, figuras, etc. As funções disponíveis no engenho de representação regem a interação usuário-computador, assumindo o papel de sujeito unificador e deixando o usuário como mero espectador, aparentemente ativo pelo simples fato de “comandar” o engenho.

O cálculo desempenhado pelo engenho, como re-presentação, "ficciona" imagens de atos e fatos humanos, tornando-os além de fictícios, manipuláveis. Estas imagens são “ficções calculadas” e como tal são antecipações construídas sem referência integral a qualquer aspecto pré-dado, pois seria impossível açambarcar todas as referências necessárias à conjuntura dos atos e fatos. O cálculo, portanto, revoluciona o estatuto da imagem de um ato ou fato, que deixa de ser o que é para se tornar algoritmo.

É interessante notar que, para alguns teóricos do engenho deveria se instalar pela interface oferecida pelo engenho, uma interação de co-responsabilidade complexa com o usuário do engenho. Ou seja, seria necessário nesta interação, um nível de competência equivalente entre as partes envolvidas, usuário e engenho, para se acompanhar e controlar o conjunto de transformações metafóricas entre: modelos mentais, na cabeça da pessoa; modelos informacionais digitais, enquanto programas e base digital de dados; e, modelos virtuais, apresentados na interface homem-máquina.

Conceituação e Representação

Conceituação e Representação mccastro ter, 05/10/2011 - 12:07

Dentro desse enredo multifacetado da transformação metafórica, as novas formas de abordagem conceitual e de representação do ente, aportadas pelo engenho, merecem uma critica radical. Primeiro, porque descortinam uma perspectiva sui generis para a compreensão do engenho, e a partir do dar-se e propor-se da informática. Segundo, porque oferecem à reflexão uma série de problemas filosóficos, cognitivos e técnicos que se dissimulam, sob dar-se e propor-se.

Segundo Hubert Dreyfus (sem data) está em jogo o velho sonho cartesiano de que toda compreensão do ente consiste em formar e usar representações simbólicas, que se acreditava serem constituídas de descrições complexas construídas sobre ideias primitivas ou elementos. Kant adicionou a ideia importante de que conceitos implicavam em regras. Frege demonstrou que as regras poderiam ser formalizadas de modo a serem manipuladas sem intuição nem interpretação. A pesquisa em informática só fez estender e implementar a proposta, concebendo no caminho a possibilidade de que a razão e a memória humanas poderiam ser codificadas como algoritmos e dados simbólicos.

No caso da informática, a abordagem conceitual do ente se assenta sobre os princípios do cognitivismo e a representação do ente, enfim sobre a noção de modelo. A referência à matematização não concerne tanto o uso de métodos matemáticos, mas geralmente a construção de modelos aptos à explicar o ente em uma pluralidade de situações. Neste sentido, a representação informacional-comunicacional do ente visa aplicar uma espécie de filtro através de um modelo que “essencializa” o ente, possibilitando mimetizá-lo no que interessa manipulá-lo.

Isso por sua vez implica uma atitude do cognitivismo, de não querer responder questões concernentes ao “que” ou ao “porque” do conhecimento, sendo seu único interesse o “como”. Nas palavras de Kremer-Marietti (1994, pág. 8): “Quanto à filosofia cognitiva, que não concerne o ‘que’ do conhecimento, mas seu ‘como’, as questões ’como conhecemos?’, ‘como pensamos?’ visam tanto o estatuto dos dados sensíveis como aquele das palavras da linguagem ou dos signos em geral. Estas questões convêm tanto à sensibilidade quanto à inteligibilidade e à atividade” (apud, Lanciani, sem data).

Se o “como” se torna o único momento de conhecimento digno de atenção, parece decorrer que só há um interesse pela realização concreta deste “como”, que assim justificaria as conquistas teóricas do cognitivismo. Por conseguinte, o momento da “informática”, onde se criam e se implementam concretamente dis-positivos de representação, é a apoteose da técnica, na concretude dos princípios e modelos cognitivistas. Mais que isto, a informática é a expressão clara e contundente da essência da técnica moderna, a Ge-stell.

Mais ainda, e isso é uma das teses principais do cognitivismo, se torna suficientemente claro que o papel “performativo” das tecnologias da informação implica na construção de dis-positivos que são a manifestação concreta da compreensão que se pode, ou não, ter finalmente alcançado e representado de um ato ou fato humanos, ou de qualquer outro ente, dentro de um determinado domínio de estudo: compreender – na perspectiva cognitivista – equivale à reproduzir, à replicar, à mimetizar.

Cognitivismo e Representação

Cognitivismo e Representação mccastro ter, 05/10/2011 - 12:32

Assim sendo a tese capital do cognitivismo, que provém diretamente do pensamento cibernético, é que a vida da mente, do cérebro, e do pensamento, nada mais é que um cálculo lógico, ou, para qualquer fim que seja, pode-se representar como tal. Um ato ou um fato humanos e o comportamento humano que os acompanham, podem ser representados por uma matematização massiva.

Esta tese, na fundamentação do cognitivismo[fn]A intuição central do cognitivismo é que a inteligência – compreendida a humana – se assemelha de tal modo à computação em suas características essenciais que a cognição pode de fato se definir por computações sobre representações simbólicas. (Varela, Thompson & Rosch, 1993, pág. 73)[/fn], nunca é posta em discussão Admite-se apenas especulações sobre como interpretar e aplicar esta tese ao nível operacional, ou seja, ao nível dos algoritmos e estruturas tecnológicas que a concretizam. A tese é sempre confirmada por sua funcionalidade, e por anos de ciência moderna que sempre admitiu a possibilidade de superpor redes matemáticas sobre eventos do mundo físico, representando-os de modo inquestionável (vide Lei, algoritmo e simulação).

A representação do “com-posto informacional-comunicacional” de razão e de memória humanas relativos a um ato ou um fato, sob a forma de algoritmos operando sobre dados simbólicos, é um modelo informacional-comunicacional. Na perspectiva da física matemática o modelo guarda certa analogia e pontos de referência com a realidade física estudada, enquanto no cognitivismo efetua-se um salto, por operações sucessivas de abstração. Embora válida a abstração em qualquer modelagem, neste caso o desígnio pragmático da abordagem cognitivista, permite falar de uma radicalização da modelagem, na medida em que o modelo é ao mesmo tempo absolutamente abstrato e interessado apenas na capacidade operativa e produtiva do que representa.

Com-posto informacional-comunicacional

Com-posto informacional-comunicacional mccastro ter, 05/10/2011 - 13:58

A representação do “com-posto informacional-comunicacional” de razão e de memória humanas relativos a um ato ou um fato, sob a forma de algoritmos operando sobre dados simbólicos, é um modelo informacional-comunicacional. Na perspectiva da física matemática o modelo guarda certa analogia e pontos de referência com a realidade física estudada, enquanto no cognitivismo efetua-se um salto, por operações sucessivas de abstração. Embora válida a abstração em qualquer modelagem, neste caso o desígnio pragmático da abordagem cognitivista, permite falar de uma radicalização da modelagem, na medida em que o modelo é ao mesmo tempo absolutamente abstrato e interessado apenas na capacidade operativa e produtiva do que representa.

A abordagem cognitivista da modelagem pode ser entendida como seguindo estrito senso a metáfora da “caixa preta”: dados entram na caixa - suas entradas – e após certa elaboração sai um conjunto de dados - suas saídas. Não interessa o que se passa dentro da caixa, importa apenas que as entradas (algoritmos e dados simbólicos) correspondam às representações de atos ou fatos que a caixa vai mimetizar, respondendo com saídas que também representam respostas similares ao comportamento humano diante dos mesmos atos ou fatos representados.

O modelo informacional-comunicacional, enquanto abstração do engenho de representação, comporta quatro níveis como com-postos, como “bonecas russas”: o submodelo biológico, baseado nos mecanismos neurológicos que sustentam a cognição; o submodelo psicológico, baseado na modelagem dos modos de obtenção, armazenamento e recuperação de informações; o submodelo computacional, representante da reprodução de maneira algorítmica das faculdades cognitivas, segundo as premissas de que o cérebro é uma máquina de cálculo e pensar é calcular; o submodelo matemático, onde se restringe a atuação dos submodelos anteriores garantindo a conversão da competência cognitiva e, a sequência lógica de procedimentos cognitivos. Razão e memória humanas são assim transformadas segundo um modelo capaz de representá-las enquanto fatos e atos virtuais.

Toda a operação de modelagem, de construção de uma representação da razão e da memória é uma operação de simbolização destinada a criar e nomear objetos a serem tratados por esta representação. Quer dizer, que cada modelo é dotado de símbolos mais ou menos relacionados aos entes objetivados de atos e de fatos existentes fora do modelo, através de dados simbólicos. O modelo representa assim um universo com suas leis, onde o símbolo deve se comportar enquanto operado pelas funções definidas no interior do modelo, da mesma maneira que os entes representados pelos dados simbólicos.

Engenho de Representação — Camadas Operacionais

Engenho de Representação — Camadas Operacionais mccastro ter, 05/10/2011 - 14:02

Qualquer tecnologia da informação não é uma tabula rasa. Sobre sua base material, organizando circuitos lógicos e aritméticos e memória, segundo um sistema binário, já opera um programa, composto por algoritmos e dados simbólicos, que estabelece seu modo performativo e sua interface na interação com seu usuário. Sobre esta camada de programação, representando o engenho, outra camada de programação oferece as diferentes funções de representação do engenho, que o tornam capaz de aplicações diversificadas, no tratamento de textos, no processamento de imagens, na resolução de problemas matemáticos e estatísticos.

O computador é programado e tudo que nele é codificado, obedece ao sistema binário, 0 e 1. Do mesmo modo tudo que entra e sai do computador, passa por esta conformação ao sistema binário. As camadas de programação que lhe configuram como engenho de representação são também codificações em sistema binários, em última instância. O mistério cerca a proximidade e o distanciamento entre o baixo nível do sistema binário, implementado nos circuitos do computador e o alto nível de um programa de processamento de texto, de uso comum hoje em dia. Enquanto este mi-lieu permanecer velado e não pensado, a essência da informática, formulada como dis-positivo de representação, só será uma etiqueta, mas não um significado, uma re-velação. A funcionalidade expressa em seu poder de representação encobre e desencobre a essência da informática, assim como o agir humano vela e re-vela sua essência humana.

Na proximidade-distanciamento entre os níveis operacionais do engenho, reside também a separação da noção de informação, como sinal circulando e armazenado no baixo nível operacional da máquina, e como conteúdo com significado reconhecido pela pessoa ocupada com um instrumento do engenho, por exemplo, uma base de dados de população. No primeiro, a informação é considerada de um ponto de vista sintático, exatamente como Shannon a estabeleceu em sua Teoria. Na segunda, o conteúdo sintático ganha seu significado na “dis-posição” pessoa-com-engenho-de-representação, tratando um problema qualquer segundo o modelo informacional-comunicacional do mesmo.

A sintaxe pode ser representada em termos matemáticos binários, ou em qualquer outro sistema matemático de codificação. Deste modo, pode ser reconduzida a um tratamento lógico-matemático de um grupo de símbolos. A sintaxe é estritamente cálculo. Por outro lado, esta constatação parece prevalecer e reforçar outra mais sutil e questionável de que o significado pode ser retirado deste mesmo tratamento, desde que se faça um investimento maior no programa e na memória do engenho, e especialmente na mimese que estes representam da razão e da memória humanas diante de diferentes atos e fatos da vida.

Engenho de Representação — Linguagem

Engenho de Representação — Linguagem mccastro ter, 05/10/2011 - 14:06

Há um processo em curso que faz com que a representação da linguagem não seja determinada a partir dela mesma, do falar um com o outro, mas sim pela maneira como o computador fala e calcula isto. A equiparação da linguagem com o computador. Este destino da Física, que chegou agora à Física Nuclear, inquieta os pensadores entre os físicos, visto que eles veem que o homem, colocado neste mundo construído pela Física Nuclear, não tem mais acesso ao mundo. Agora só continuam acessíveis a calculabilidade e o efeito. Nesta situação tentamos nos ajudar, por exemplo, com a palestra que Heisenberg fez sobre Goethe e as ciências naturais modernas. Ali ele procurou algo totalmente insustentável, ou seja, mostrar que aquilo para o que se dirige a Física, isto é, a fórmula universal, a recondução a um princípio simples, corresponderia ao fenômeno originário de Goethe ou às ideias platônicas. Heisenberg não reparou que uma fórmula matemática, por mais simples que seja, é algo fundamentalmente diferente do fenômeno originário de Goethe. Mas o problema de Heisenberg é ainda maior, ele não consegue colocar a sua Física em relação vital com o homem. Outros físicos ligam a ciência à fé.

Falar é dizer = mostrar = deixar ver = comunicar e ouvir de modo correspondente, subordinar-se e adaptar-se a uma exigência, corresponder. (Heidegger, 1987/2001, pág. 228, grifo meu)

“Como o computador fala e calcula isto” é a redução à sintaxe e ao poder operatório do algoritmo em sua presunção de enunciar sentido. Fica-se apenas com o lógico, os símbolos matemáticos e as regras de relação válidas para os entes matemáticos, enquanto representações do que de razão e de memória se pode codificar em algoritmos operando sobre dados simbólicos.

Na Metafísica moderna, a esfera da interioridade invisível se determina como a região da presença dos objetos calculados. Esta esfera, Descartes a caracterizou como consciência do ego cogito.

Quase ao mesmo tempo em que Descartes, Pascal descobre, antítese da lógica da razão calculante, a lógica do coração. O interior e o invisível da dimensão do coração é não somente mais interior que a interioridade da representação calculante – e, por isto, mais invisível – mas leva ao mesmo tempo mais longe que a região dos simples objetos produtivos. (...) No interior desta consciência incomum reside um espaço intimo no interior do qual, para nós, toda coisa superou o numérico do cálculo, e pode assim, livre de limitações, se expandir no todo sem entraves do aberto. Tal supérfluo sobre-numérico nasce, quanto à sua presença, na interioridade e invisibilidade do coração. (Heidegger, 1949/1962, pág. 367-368)

Com a informática, impulsionada pela informatização, a questão do sentido do ser proposta por Heidegger desde “Ser e Tempo” torna-se ainda mais vital à superação da metafísica. O sentido do ser daquilo que é, o sentido do ser do ente, e agora o sentido do ser do ente informacional é a questão premente desta “Era da Informação”.

Para Marc Richir (1990, pág. 9), “o Dasein, sempre ex-stasiado ao sentido, não dispõe de sentido a seu bel prazer, não é o mestre do sentido, este está dissimulado em suas profundezas insondáveis”. Posto deste modo, a determinação do sentido do ser daquilo que é, surge, enquanto determinação, de uma “instituição simbólica”. Entendida em sua generalidade como o conjunto coeso de sistemas simbólicos (línguas, práticas, técnicas e representações) que codificam o ser, o agir, as crenças e o pensar dos homens, sem que estes decidam; como o “já dado” de antemão (Richir, 1996, pág. 14).

Sendo assim é urgente pensar a essência da informática e o processo de informatização, face às mudanças em curso na instituição simbólica contemporânea, quando a técnica moderna alcança seu ápice no engenho de representação. Quando a essência da técnica moderna, a Ge-stell, vislumbrada por Heidegger há meio século atrás, se manifesta em todo sua resplandecência e plenitude no dar-se e propor-se da informática em cada situação individual, e na informatização galopante da humanidade.

Afinal, o que É a informática?

Afinal, o que É a informática? mccastro ter, 05/10/2011 - 14:15

Lamentavelmente, as respostas à questão “o que é a informática?” não conseguem evitar o lugar-comum das definições baseadas seja na funcionalidade, seja na estrutura, seja nas aplicações do computador. É muito difícil ver a informática além do computador.

A pobreza das respostas dadas à questão “o que é a informática?” demonstra que todas sofrem da natural dificuldade de responder o que é, sem cair em uma “de-finição”, em uma imposição de uma finitude do que é, nos limites de sua entidade e de suas propriedades, enquanto objeto visado. Neste caso, só há como recolher e promover os aspectos funcionais, estruturais ou aplicativos da informática.

Uma possível solução a esta aporia é a investigação da natureza da informática no sentido de sua “produção original”, de sua genealogia. Examinando na coalescência dos elementos (causas) que constituem o dar-se e propor-se da informática, a morfogênese deste dar-se e propor-se sob a ação de ideias mentoras, em sua ontogenia comum com o meio técnico-científico-informacional, sob luz da essência da técnica moderna, a Ge-stell, a com-posição. Outra possível solução seria um esforço de aprofundamento das notas de Heidegger à questão da técnica e tantos outros escritos seus, sob o tema, buscando desvendar a essência da informática, onde fulgura a Ge-stell.

Essa última solução é o caminho que responde de fato à essência da informática, enquanto plena manifestação da essência da técnica moderna, preparando um relacionamento livre com a informática, capaz de abrir o Dasein à experiência do “que é a informática?”. Um caminho que percorrido em toda sua extensão pode conduzir à compreensão do homem, pelo entendimento da metafísica contemporânea[fn]Pode-se chamar, numa única palavra, de “técnica” a forma fundamental de manifestação em que a vontade de querer se institucionaliza e calcula no mundo não-histórico da metafísica acabada. [...]
Compreende-se aqui o nome “técnica” de modo tão essencial que, em seu significado, chega a coincidir com a expressão acabamento da metafísica. (Heidegger, 1954/2002, pág. 69)[/fn].

É grande a exigência sobre o “ser capaz” para percorrer este caminho reconhecendo todos seus meandros e ramificações. O nível de concentração e de sustentação da atenção necessários ao entendimento profundo dos dizeres de Heidegger ainda estão aquém do necessário para tal a empreitada. O resultado foi uma espécie de solução de compromisso entre as duas soluções possíveis.

A ascese pelo ser capaz de ir aonde se abre este pensar a “questão da informática”, deve aprender a aprender, deve ser fiel ao pensar na rememoração interrogativa da longa história do ser. Deve trilhar uma nova vereda de aprendizado da técnica que reconheça, como afirma Taminiaux (1983, pág. 266), a metafísica, enquanto discurso sobre todo ente como tal, onto-logia; enquanto afirmação do ente supremo como fundamento de todos os entes, teo-logia; enquanto esquecimento crescente do Ser, selando o destino do Ocidente e até aquele do próprio planeta; mas, acima de tudo, enquanto longe de ser algo exterior ao Ser, mas um disfarce sob o qual o Ser mesmo se destina ao homem ocidental.

Mas como haveríamos de encontrar a luminosidade do pensamento, se não nos deixamos conduzir pelo amplo caminho do pensamento e, assim, aprendemos a pensar no vagar?

Talvez a questão seja mais primária. Talvez precisemos primeiro aprender a aprender, e aprender a poder aprender. E, talvez, seja ainda mais primária. Talvez precisemos primeiro estar prontos para aprender a aprender. O que é isso, aprender? Uma só palavra não é capaz de responder, mas somente de esclarecer: aprender é apropriar-se com saber de algo a partir de uma indicação e assinalamento, a fim de presentear esse algo como propriedade do saber, sem perdê-lo ou empobrecê-lo. Aprender diz respeito a um tornar próprio mediante o saber, uma propriedade do saber que não nos pertence, mas à qual nós pertencemos. Precisamos primeiro aprender a aprender. Tudo deve ser muito primário, muito cheio de espera, muito lento, para que, enquanto o único envio de destino, o verdadeiro possa vir verdadeiramente ao nosso encontro e ao encontro de nossos sucedâneos, sem que seja preciso calcular quando, onde e em que fisionomia isso ocorrerá com propriedade. Deve surgir uma geração de lentos, para que a pressa exagerada da vontade de produção e a corrida das prestações e apontamentos, para que a cobiça de informações imediatas e soluções baratas não nos precipitem num vazio ou nos desviem para a fuga, em opiniões e crenças apenas derivadas, que nunca podem constituir origem, unicamente subterfúgio. (Heidegger, 1994/1998, pág. 202-203)

Na periferia da questão “o que é a informática?” sua natureza foi de certo modo descoberta, embora sua essência continue velada. A não ser por alguns vislumbres ocasionais onde a força do questionamento fenomenológico de Heidegger ajudou a romper os limites sobrepostos a esta investigação. Mas faltou admitir a técnica como o aquilo que melhor “re-presenta” o homem, na própria ambivalência da metafísica dos Tempos Modernos, onde o Ser se disfarça em representação.

A questão da técnica e em especial da informática continua aberta. A re-velação da natureza da informática empreendida neste trabalho descortina um leque de possibilidades de aproximação de sua essência, mas também aumenta o risco de se deixar de ver a floresta pela diversidade de árvores que se contemplou.

Ao concluir essa exposição, fica ainda a forte sensação que, uma vez relidos e repensados o texto e sua bibliografia, ou seja, refeito e repensado todo o percurso, sem se afastar um só momento do pensamento de Heidegger, sobre o homem, a técnica e a metafísica, se habilitará o ser capaz de revelar a essência da técnica moderna, a Ge-stell, sob o fulgor da informática.

Como vislumbrou Chazal, a partir de um quadro de Delvaux, onde diante de um espelho uma bela mulher vestida se reflete inteiramente nua, o engenho de representação, em sua mimese da razão e memória humanas, reflete também sob a luz da Ge-stell o animal racional grotescamente promovido pelo pensamento ocidental. O difícil é ver o meio e a luz que ilumina esta mimese, sem se perder no deslumbramento da realização tecnológica.

Mas, isto não é possível em um doutorado e quiçá não o seja em toda uma vida. Vale, no entanto, o esforço, não apenas como pensar, mas especialmente como exercício, como ascese que nos possa conceder o “ser capaz” de enfrentar a questão da informática segundo a “lógica do coração”.

De qualquer modo, no dizer do poeta Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se a alma não é pequena”...

Nossa conclusão provisória em um pensar que apenas está começando, é que o dar-se e propor-se da informática culmina todo o avanço tecno-científico moderno, na expressão flagrante da essência da técnica moderna, a Ge-stell, em um engenho de representação informacional-comunicacional, produto e produtor de um meio técnico-científico-informacional.

Na “manualidade” deste instrumento a humanidade corre o sério risco de perder-se no encantamento de seu poder de representação e, por conseguinte, na sedução de um ilusório domínio sobre as coisas. A vontade de poder se potencializa com seu êmulo artificial e expõe assim o homem a sanha, a hubris, com todas as suas consequências.

O que passa muitas vezes desapercebido em tudo isso, que ora constata-se, é a questão da regência deste dar-se e propor-se da informática. Quem rege e como rege este dar-se e propor-se, são críticos na constituição da informática. O que é o homem enquanto dialoga com esta tecnologia? Quem sou eu enquanto usuário de informática?

Mas, como afirma Heidegger, onde há o risco lá se encontra também o que pode salvar. Nesta ambiguidade dramática reza o ser capaz de pensar a essência da técnica moderna, em postura de reconhecimento e redenção do perigo extremo que ameaça trancar o homem na dis-posição da representação informacional-comunicacional, como único modo de descobrimento do real.

GEOPROCESSAMENTO E SIG

GEOPROCESSAMENTO E SIG mccastro ter, 08/04/2015 - 20:34

O SIG é uma grande aplicação da informática a uma ciência clássica, a Geografia. Por esta razão, enquadramos, justamente nesta seção sobre a Técnica, o SIG enquanto resultante da tecnicização da Geografia, e, por conseguinte, um excelente estudo de caso da técnica moderna moldando uma ciência clássica (veja também Morfogênese Técnica-Meio). O SIG é uma construção. O sig é a infra-estrutura desta construção. O sig é o software que rege a construção do SIG, enquanto sua infra-estrutura técnica. O sig traz latente em seu sistema de programação a construção futura de qualquer SIG, em termos de metodologia (do grego methodos, caminho) de constituição de um Sistema de Informação Geográfico. Nos algoritmos implementados na programação do sig, métodos e técnicas de constituição de um SIG estão prontos a serem aplicados. Do mesmo modo, a própria organização da base espacial sobre a qual o sig deve operar já está previamente definida por seu sistema de programação. No desenvolvimento do sistema de programação do sig, incluindo a definição da estrutura de sua base espacial, concorreram diferentes disciplinas, como a Cartografia, a Geografia, a Geodésia, e outras. Estas disciplinas foram originalmente "traduzidas" e apropriadas por tecnologias como a informática, o CAD, e outras. A coalescência destas iniciativas teve como resultado um engenho computacional capaz de representar o espaço geográfico, o sig. Na constituição do SIG a partir do sig convergem por sua vez uma série de atividades que, atuando em um meio técnico-científico-informacional e recorrendo aos recursos técnicos, científicos e informacionais que este meio oferece, identificam os problemas e reúnem os elementos (modelos, métodos, dados) necessários a esta constituição do SIG. A tecnologia do sig orienta a consecução das atividades, a resposta do meio, a formulação dos problemas e a reunião dos elementos para constituição de um SIG capaz de realizar a exploração da representação geográfica sob a forma de cartografia automatizada, análises espacias e simulações.

O sig é um engenho de representação do espaço geográfico e o SIG constituído a partir do sig, a elevação desta representação à condição de modelo geográfico por excelência.

Partindo destas reflexões montamos esta seção com os seguintes objetivos:

  • apresentar o SIG enquanto se promove atualmente como uma "ciência da informação geográfica" (Geographic Information Science - GIS), ou seja, examinar os elementos de uma Teoria do SIG;
  • compartilhar aspectos práticos na constituição e instituição de um SIG; veja a página Práxis;
  • debate sobre o sistema de informação geográfico (sig) enquanto engenho de representação e análise do espaço geográfico; veja a página Desconstrução;
  • disseminar o que se encontra na Internet sobre esta temática, em particular artigos técnicos, software gratuito, bases digitais.
  • construir um esquema-resumo do que se tem discursado sobre o SIG na literatura técnica (em construção).

É preciso refletir seriamente sobre o sig, seu potencial e seus limites. Trata-se de uma das mais avançadas tecnologias de nosso tempo, com atuação crescente na visão de mundo e nas políticas de desenvolvimento.

Desconstrução do SIG

Desconstrução do SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 19:41

O discurso do SIG é o discurso da representação do mundo. Neste sentido, faz eco à concepção de mundo contemporânea, ou, como diria Martin Heidegger (Caminhos de Floresta, p. 97), se orienta pela metafísica da Modernidade . Metafísica esta que deve ser entendida como a empreitada histórica ocidental que busca a determinação do ser do ente e a da concepção da verdade. Para Heidegger, esta metafísica da subjetividade, se voltando para a questão da natureza ontológica do ente, foi levada a interpretar ser a partir de ente, deste modo, a esquecer a diferença ontológica e abandonar a questão do ser.

Esta reflexão orienta-se por essa linha crítica de abordagem fenomenológica e hermenêutica da Modernidade, da Razão Moderna e do meio humano que esta mobiliza. Dentro deste domínio amplo, a reflexão tem a pretensão de desvendar um paradoxo muito específico, mas ao mesmo tempo muito geral. Em outras palavras, um paradoxo que em sua especificidade, ou em sua faceta regional, no âmbito da Geografia Humana, se manifesta na diferença ontológica entre SIG e sig, e que, na plenitude de sua generalidade, poderia se classificar como paradoxo da essência e da aparência.

Essa diferença ontológica entre SIG e sig se anunciou pela primeira vez quando investiguei a "natureza" do SIG. Àquela ocasião pressenti que o SIG, enquanto Sistema de Informação, não é o sig, enquanto uma tecnologia da informação (TI). Embora o sig detenha a aparência de um SIG (Sistema de Informação Geográfico), e guarde, de fato, em grande parte, seu vir-a-ser, reunindo em si os princípios de sua futura constituição e instituição em uma dada pesquisa ou organização.

Ao longo de minha experiência, no desenvolvimento de SIGs para pesquisas diversas, o que era um pressentimento inicial tornou-se uma evidência: existe de fato uma significativa diferença entre o SIG e o sig. Não se pretende apenas demonstrar esta evidência, mais ou menos óbvia, mas assegurar que o SIG não é e não está determinado de modo absoluto pelo sig, e nem deve ser ou estar assim determinado.

Em termos filosóficos, o "ente" sig guarda em si algumas possibilidades de "ser" SIG, ou seja, o sig é um SIG em potência, mas sua manifestação de fato, na constituição e instituição de um SIG concreto, pode se dar segundo a condução tecnológica do sig ou segundo a orientação do "ser" humano que se estabelece como aquele que de fato constitui e institui o SIG a partir do sig. Dito de outro modo, o SIG se constitui e se institui de qualquer modo na interação entre pessoa e ente sig, porém a natureza tecnicista ou humanista do SIG se dá em função da presença ou ausência de certa atitude de "ser" humano nesta interação.

Resumindo, focalizando o SIG, no âmbito da Geografia Humana, defino um domínio para essa investigação. Um domínio onde o referido paradoxo ontológico SIG-sig adota a seguinte formulação: o Sistema de Informação Geográfico, o SIG, é e não é o sistema de informação geográfico, o sig. Em termos menos enigmáticos: o Sistema de Informação Geográfico, o SIG, é e não é o sistema tecnológico sobre o qual ele se constitui, ou, como vai se explicar nesta seção, o sintetizador de ilusões geográficas, cuja sigla também é sig. No reconhecimento do sig, como um engenho de representação do mundo, contendo em germe a disposição de quase todos os elementos ingredientes do SIG, ao longo de sua constituição e de sua instituição, reafirma-se: o SIG é e não é a tecnologia sobre a qual se constitui. O SIG não é o sig, pois pode e deve ser muito mais que ele; ao mesmo tempo, o SIG é o sig pois realiza o que este traz em princípio, embora possa não se reduzir apenas a isto.

SIG e Informatização

SIG e Informatização mccastro qui, 09/20/2018 - 15:06
  1. informatização tanto da Sociedade quanto da Natureza. Ou mais corretamente, a informatização de todas as atividades humanas na Sociedade e dos meios de conhecimento da Natureza.
  2. novo Meio, onde reinarão de forma absoluta objetos sócio-técnicos e fantasmas informacionais, de todos os gêneros e de todas as espécies. Na feliz expressão de Milton Santos (1995), por sua natureza, este novo Meio deveria ser denominado meio técnico-científico-informacional.
  3. objetos sócio-técnicos, que talvez pudéssemos até qualificar de “híbridos”, na acepção de Bruno Latour (1994), ou seja, artefatos constituídos pela íntima relação entre os dois eixos epistemológicos que orientaram a Razão na Modernidade, Sociedade e Natureza.
  4. em meio e no meio desses objetos híbridos, uma multidão crescente de fantasmas informacionais, em fluxo contínuo, reproduzidos a partir de suas formas originalmente sociais ou naturais, segundo os padrões ditados pelos sistemas informáticos que aos poucos foram sendo formalizados segundo sistemas classificatórios distintos, e ora se materializam sobre uma diversidade de tecnologias da informação. Fantasmas informacionais que se comportam como as sombras digitais das entidades que ocupam o plano formado pelos referidos eixos.
  5. sob essas manifestações mais visíveis da informática, e sob suas atualizações múltiplas que vão desde os jogos aos chamados “sistemas especialistas”, se ocultam algumas das principais ideias-forças da Razão Moderna[1], em contínuo movimento de associação e de desdobramento, tendo como resultado imediato, a composição de sucessivos híbridos digitais e de seu meio artificial.
  6. a informatização se configura assim como um dos principais processos que são sustentados e que, ao mesmo tempo, sustentam o que Milton Santos (1995) denomina muito bem meio técnico-científico-informacional. A dialética homem-meio encontra-se assim condicionada e mediada pela tecnologia da informação, informando, constituindo, e sendo informada e constituída por, um meio técnico-científico-informacional.
  7. a dialética homem-meio, tendo como “traço de união” a tecnologia da informação, determina um processo muito peculiar de auto-organização, que se singulariza na chamada Era da Informação, por sua capacidade de reconfigurar em híbridos digitais, qualquer objeto social ou natural, para o qual dirija sua atenção.
  8. pela ação do processo de informatização, qualquer objeto é, de forma sistemática, pulverizado em uma base de “dados simbólicos”, doravante reconhecida como seu “ente informacional”, ao mesmo tempo em que sua “existência” é dissecada, em diferentes sequências de operações sobre seu ser informacional. Operações estas também passíveis de codificação, segundo uma forma lógico-matemática.
  9. a informática permite re-potencializar a realidade, elevando-a a sua virtualidade, ou a uma modalidade tal, a partir da qual ela é capaz de ser então atualizada, segundo novas problemáticas, alinhadas, por sua vez, segundo os interesses os mais diversos. Este poder de re-potencialização da informática reside justamente em sua capacidade de múltiplas reproduções digitais de fantasmas informacionais da realidade, sobre a base tecno-científica de um objeto híbrido, o computador.
  10. necessidade de uma tentativa de desconstruir o SIG, nos termos indicados, procurando desvendar sua essência em sua aparência tecnológica, o sig. Ao longo desta trajetória crítica, espera-se reconhecer as ideias-forças, ou Ideias Mentoras, que respondem pela ontogenia do sig.

 

O desafio permanente é o de desconstruir sem perder de vista o sig e o meio técnico-científico-informacional que o institui e constitui, e que por ele é instituído e constituído.
 

[1] Qualifico de Moderna à Razão, que se institui na Modernidade, da mesma forma que se usa qualificar o Homem de Antigo, de Medieval, ou de Moderno, como se não se tratasse de um mesmo “ser humano”, em cada uma destas épocas. Com efeito, é possível distinguir uma racionalidade, entendida como uma operação da Razão, distinta na época moderna, como pretendia demonstrar Weber (1917/1959 e 1964). Uma Razão talvez dirigida por uma metafísica própria da época, a exemplo do que Heidegger (1962) nos convida a pensar.

 

Geoprocessamento e Informatização

Geoprocessamento e Informatização mccastro qui, 09/20/2018 - 16:14
  1. a base informacional onde se assenta e sobre a qual opera o sig, instrumentaliza enfim o sonho da New GeographyOu é esta que potencializa ainda mais, por sua renovação teórica, em termos matemáticos e estatísticos, a “vontade de informatizar” que domina nossa era.. Mais importante ainda, o sig porta em si os germes de uma nova ordem, capaz de promover uma profunda transformação não apenas nos métodos e resultados obtidos, mas, seguramente, sobre as próprias fundações epistemológicas da Geografia e sobre a natureza do trabalho do geógrafo.
  2. o sig substantifica a noção de “Geoprocessamento”, já considerada clássica dentro da Geografia. Uma noção que significa muito mais do que o uso corrente dá a entender: uma técnica ingênua, caracterizada como o “processamento de dados” aplicado à Geografia. Com efeito, ao se analisar os requisitos e compromissos do chamado “processamento de dados” tradicional é possível compreender o “Geoprocessamento” como, efetivamente, uma agenda, um programa, ou melhor dizendo, um processo “amplo, geral e irrestrito” de informatização da Geografia.
  3. Michael Goodchild (1992)“Geographical Information Science”, International Journal of Geographical Information Systems 6 (1).: o sig é um instrumento que abre as portas para a construção de uma “nova ciência”. O sig instrumentalizaria, portanto, a implementação de uma verdadeira “ciência do espaço”, ou de “uma ciência da informação geográfica”. A nosso ver, uma ciência normativa, segundo fundamentos conceituais originários do corpo teórico subjacente à informática, e, portanto, metodologicamente exógena à Geografia.
  4. a “Ciência da Informação Geográfica” proposta por Goodchild, tendo o mesmo acrônimo “SIG” (em inglês Geographic Information Science - GIS), pretende apenas problematizar o lado informacional da Geografia, visando sua plena informatização. Ou seja, busca uma visão da ciência geográfica, a partir do ponto de vista, ou da perspectiva da Informática e não da Geografia.
 
 

SIG, técnica? sig, tecnologia?

SIG, técnica? sig, tecnologia? mccastro qui, 09/20/2018 - 20:52
  1. O SIG seria em seu fundamento uma técnica ou arte ou um conjunto articulado de técnicas de representação e análise geográficas?
  2. O sig seria, então, a tecnologia da informação e da comunicação (TIC) sobre a qual se baseia o SIG?
  3. François Sigaut, ao discutir a diferença entre “técnica” e “tecnologia”, no prefácio de um livro de ensaios do etnólogo André-Georges Haudricourt:

    • Se os dois termos podem ser tomados um pelo outro, é porque qualquer um dos dois não tem um sentido bem preciso para nossos contemporâneos. Porque, contrariamente a uma opinião bastante corrente, nossa vida quotidiana é cada vez menos marcada, menos formada e menos estruturada pela técnica. A técnica supõe o contato direto do homem com a natureza, com a matéria. Ora, as máquinas nos dispensam ou nos privam mais e mais deste contato, sem que o ensino geral (do qual as técnicas são excluídas) aporte qualquer compensação. O que cria esta ilusão, é que o capital de saber técnico acumulado em nossa sociedade é hoje em dia infinitamente maior do que jamais foi. Mas a parte de cada um de nós neste capital jamais foi tão desprezível. [apud Séris, 1994, p. 4]SERIS, J.-P. (1994), La Technique. Paris, PUF. (o grifo é meu)

  4. Porque não encarar a tecnologia do SIG, o sig, como mais uma “caixa-preta”, a exemplo da maior parte dos aplicativos construídos sobre a informática (processadores de texto, planilhas, bancos de dados, etc.), da qual só nos interessa conhecer suas funções e usos, e, eventualmente, para os mais curiosos, sua estrutura, apenas tecnológica?

  5. Um SIG não existe como um sistema prêt-a-porter, ele é socialmente constituído e instituído, em cada situação especifica, pela coalescência de alguns elementos, entre os quais o mais óbvio é o pacote sig. Estes elementos devem ser todos reunidos e mantidos em interação no caldeirão de um projeto de trabalho, sob o fogo constante da cobrança de resultados, dentro de prazos pré-definidos, até sua coalescência, que, entre outros resultados, permite a plena concretização do SIG, propriamente dito.

  6. Por “incorporar” uma metodologia de análise geográfica, o pacote sig impõe certa metodologia de desenvolvimento e de posterior exploração do SIG, que é raramente explicitada nos manuais e na documentação do software, mas que ordena suas demais dimensões sócio-técnicas, assim como o projeto de pesquisa e o pensamento e o discurso geográficos, implicados no uso de um sig

  7. A desconstrução do SIG vai, no entanto, além de seu entendimento enquanto técnica ou tecnologia, ou até ambos. Parafraseando HeideggerHEIDEGGER, M. (1958), Essais et Conférences. Paris, Gallimard., quando afirma que "a essência da técnica não é absolutamente nada de técnico", podemos dizer que "a essência do SIG não é absolutamente nada de sig":

A técnica não é a mesma coisa que a essência da técnica. Quando buscamos a essência da árvore, devemos compreender que aquilo que rege toda árvore enquanto árvore não é ele mesmo uma árvore que se possa encontrar entre outras árvores.

Da mesma forma a essência da técnica não é absolutamente nada de técnico. Enquanto não percebamos nossa relação com a essência da técnica, nos limitamos a nos representar a técnica e a praticá-la, a nos acomodar ou fugir dela. Estamos atados à técnica e privados de liberdade, seja a afirmando com paixão, ou a negando do mesmo modo. Quando, no entanto, consideramos a técnica como alguma coisa neutra, é então que lhe somos submetidos da pior maneira: pois esta concepção, que goza hoje em dia de um favorecimento particular, nos torna completamente cegos diante da essência da técnica.

 

 

Do sig ao SIG

Do sig ao SIG mccastro qui, 09/20/2018 - 21:58

A virtualidade do sig, como diz Pierre Lévy, vai aos poucos se atualizando pela interação com seus usuários. É como se o sig guardasse em si certa ordem de fertilização, de gestação e de manifestação, que vai aos poucos se manifestando através de sua alimentação e de sua comunicação com seus usuários.

Uma vez iniciado o processo de fertilização do sig, pelo carregamento dos dados nos formatos exigidos, segue-se o processo de gestação, pela articulação progressiva dos dados das bases digitais de coordenadas e de atributos georeferenciados. Com o tempo, surgem os primeiros sinais de manifestação do SIG, através das análises e dos resultados, geralmente em forma de cartogramas. Esta manifestação é regida por ordens, latentes no sig, que determinam cada passo do projeto, cada ação das pessoas, cada inclusão dos demais ingredientes para constituição do SIG. Tudo sempre dentro das configurações requeridas pelo sig.

Pela modelagem, carregamento e manutenção de uma base digital de coordenadas de objetos espaciais e de uma base digital de atributos georeferenciados a estes objetos espaciais, vão sendo habilitadas as funções ofertadas pelo engenho de representação e de análise ofertado pelo pacote, ou seja, vão sendo atualizadas as virtualidades do sig. Estas funções por sua vez, capacitam seus usuários com métodos e técnicas de análise geográfica, e garantem uma variedade de aplicações possíveis.

Encantados com o crescente poder computacional à sua mão, os usuários do sig se deixam guiar por suas virtualidades que vão sendo atualizadas, à medida que as bases digitais crescem em diversidade de dados, e também em integração entre estes dados. As inúmeras opções de tratamento de dados e de apresentação de resultados, do engenho de representação e de análise do sig, facilmente acionadas a qualquer momento, seduzem o usuário e acabam, muitas vezes, comprometendo ainda mais a proposta e a metodologia definidas na origem do projeto de pesquisa.

Percebe-se assim um desenvolvimento sistemático e ordenado, comandado e gerido por um único ingrediente, o sig. Como agente ordenador e catalisador de todo o projeto de pesquisa, o sig acaba por determinar, muitas vezes, as formas de instituição e de constituição de um SIG, orientando até mesmo os resultados e conclusões do projeto de pesquisa que o adotou. A estranha relação entre pessoa-computador, já mencionada anteriormente, é em grande parte a causa desta enorme distorção: a alienação e o distanciamento em face à informática, de grande parte dos pesquisadores, facilitam a autonomia desta, e até mais, seu imperialismo metodológico.

 

Meio Técnico-Científico-Informacional e SIG

Meio Técnico-Científico-Informacional e SIG mccastro sex, 09/21/2018 - 14:26
  1. SIG é constituido por cinco elementos: pessoa, tecnologia, problema, organização e ambiente ou meio. Sem a coalescência destes elementos não temos um SIG, mas apenas um sig. Nosso interesse aqui neste capitulo se volta para o sig como e o meio que o produz, e para o SIG como um todo e o meio que por ele é produzido e também o legitima. Devemos, no entanto, sem perder de vista esta noção de totalidade do SIG, incluindo em si o meio, atentarmos mais para a relação específica entre meio e tecnologia, ou sig.
  2. O sig é um instrumento instituído, de forma privilegiada por sua afinidade com o pensar humano, segundo os princípios genéticos deste “meio”. Desta forma, um instrumento constituído segundo a própria forma e substancia deste “meio”. Por sua vez, instrumental este que é, por sua adoção individual e pelo decorrente agenciamento social que pratica, concomitantemente instituinte, após “elevado à potência” do SIG, deste mesmo “meio”, assegurando sua sustentabilidade e reprodução.
  3. Questões relevantes desta investigação:
    • qual a relação que existe entre meio técnico-científico-informacional, sig, e SIG? Podemos considerá-la uma relação orgânica, e como Varela intitulá-la como um tipo de “autopoiesis”?
    • qual seria o sentido, se existe algum, de se justapor essas noções, representadas pelas expressões “meio”, sig e SIG, em uma mesma investigação?
    • haveria algum significado na ordem das ideias, conforme indicado, primeiro o meio e depois o sig ou o SIG)?

Meio Técnico-Científico-Informacional

Meio Técnico-Científico-Informacional mccastro sex, 09/21/2018 - 15:39

Direcionando o objeto de estudo da Geografia para “os fatos referentes à gênese, ao funcionamento e à evolução do espaço” [Santos, 1978, p.117], Santos se dedica através de sua imensa obra “a correta definição de suas categorias analíticas, sem a qual estaríamos impossibilitados de desmembrar o todo através de um processo de análiseÉ interessante notar esta colocação de categorias analíticas sob um idéia articuladora, no caso espaço, como se assemelha a proposta platônica: “primeiro, a reunião de particularidades dispersas sob uma única Idéia, para que todos compreendam o que está sendo falado[...] segundo, a separação da Idéia em partes, por sua divisão nas juntas, como dita a natureza, não quebrando qualquer membro ao meio como poderia fazer um mau entalhador”. [Platão, Phaedrus, 265I, trad. B. Jowett], para reconstruí-lo depois através de um processo de síntese” [p. 117].

Entre essas categorias analíticas, Milton Santos vem dando um lugar privilegiado ao “meio”. Mas, ao novo “meio” geográfico, qualificado pela técnica, pela ciência e pela informação. Nas próprias palavras de Milton:

“O meio geográfico, em via de constituição (ou de reconstituição), tem uma substancia científico-tecnológico-informacional. Não é um meio natural, nem meio técnico. A ciência, a tecnologia e a informação estão na base mesma de todas as formas de utilização e funcionamento do espaço, da mesma forma que participam da criação de novos processos vitais e da produção de novas espécies (animais e vegetais). É a cientifização e a tecnicização da paisagem. É, também, a informatização, ou antes, a informacionalização do espaço. A informação tanto está presente nas coisas como é necessária à ação realizada sobre essas coisas. Os espaços assim requalificados atendem sobretudo aos interesses dos hegemônicos da economia e da sociedade, e assim são incorporados plenamente às correntes de globalização.” [Santos, 1994, p. 51]

Em seu último livro, Milton Santos (1995) se dedica a desconstruir e a reconstruir sua teoria do espaço geográfico, associando aos elementos conceituais que a compõe e às categorias analíticas que oferece, as diferentes perspectivas que a sustentam e reforçam, provenientes de distintos campos de conhecimento, como a filosofia, a técnica, a ciência, a sociologia, a economia, e, evidentemente, a própria geografia.

Resgatando as poucas referencias existentes à técnica, nos estudos institucionais à Geografia, Santos procura assim mesmo articulá-las na constituição de um novo saber, na formulação de uma “ontologia do espaço geográfico”. Um saber sem dúvida imprescindível para a interpretação e para compreensão do espaço, que atualmente vem se construindo de forma ortogonal, ao plano formado pela clássica estrutura relacional Sociedade-Natureza.

Milton Santos enfrenta assim o desafio tão bem colocado, há algum tempo pelo historiador das técnicas François Sigaud (1981), em um artigo publicado na consagrada revista L’espace geographique, cujo título traduz de forma eloquente um sério, e ainda bastante atual, convite a reflexão, através da questão: “porque os geógrafos se interessam quase por tudo, exceto as técnicas?”

Santos não só responde a questão mas vai muito mais além, construindo uma forte argumentação em torno da constatação de que o "meio técnico-científico-informacional é a nova cara do espaço e do tempo.”

Do entendimento que “o próprio espaço geográfico pode ser chamado de meio técnico-científico-informacional", e que “o meio ambiente construído se diferencia pela carga maior ou menor de ciência, tecnologia e informação, segundo regiões e lugares: o artifício tende a se sobrepor e substituir a natureza”, Santos redefine e redireciona o objeto de estudo da Geografia, o espaço.

Essa proposta de redefinição e redirecionamento do espaço geográfico, se assenta sobre algumas categorias de análise, entre as quais se destaca justamente o tradicional “meio” geográfico (o milieu de Vidal de la Blache), que Santos se apropria com um maior discernimento conceitual.

Para Santos, é necessário reviver o polissêmico sentido da noção clássica de “meio” geográfico, integrando nesta alquimia novos elementos; elementos estes constituídos com base na constatação de que se está construindo no próprio “meio” geográfico uma racionalidade de base técnica, científica e informacional, de forma bastante diferenciada a nível regional, criando “zonas luminosas e opacas”, de acordo com a densidade desta mesma racionalidade.

“O espaço hoje se subdivide entre subespaços onde há uma carga considerável de racionalidade e áreas onde isso ainda não ocorre. Onde os nexos científicos, tecnológicos, informacionais são importantes, temos aqui um meio técnico-científico-informacional, uma porção do território onde as racionalidades dos agentes hegemônicos se tornam possíveis e se dão eficazmente, porque essa área geográfica é formada por objetos criados prévia e deliberadamente para o exercício dessa racionalidade. Esse meio técnico-científico que inclui saber é o suporte de produção do saber-novo, faz com que os outros espaços se tronem apenas os espaços do fazer. Os espaços comandados pelo meio técnico-científico são os espaços do mandar, os outros são os espaços do obedecer.” [SANTOS, 1994, p. 106]

 

Ontogenia comum?

Ontogenia comum? mccastro sex, 09/21/2018 - 15:58
  1. ontogênese comum do sig e deste “meio”. Nossa  colocação se assenta no entendimento de que o sig é, entre tantos outros, um objeto "técnico-científico-informacional", por conseguinte, ideal e substancialmente vinculado ao referido “meio”.

  2. existe uma instituição e uma constituição mútuas do meio técnico-científico-informacional e do sig. Da totalidade representada pelo primeiro, e de um de seus objetos, representado pelo segundo.

  3. sig e “meio” se associam da mesma forma que, em um holograma, a parte é capaz de retratar o todo. Temos assim, de certa maneira, e ao mesmo tempo, o todo na parte, e a parte, como um todo, no todo.

  4. ambos são, de fato, consubstanciais, segundo as mesmas propriedades: técnica, científica e informacional. Emergem simultaneamente, no campo das ideias, na fundação da Razão Moderna, e ganham vigor e presença neste século, após a última grande guerra.

  5. como mutuários de uma mesma conjunção de valores, de ideais e de visão de mundo e de homem, sig e “meio” se instituem, compartilhando as mesmas condições de reprodução e de disseminação, especialmente de seus efeitos e de seus resultados, na interação com o humano. Por todas essas razões, se auto-engendram e se auto-organizam, provendo sempre novas facetas, novos arranjos, novas gerações, que re-alimentam sua instituição/constituição mútua.

  6. ao afirmar Milton Santos (1994) que o próprio espaço geográfico pode ser chamado de meio técnico-científico-informacional, penso que ele já imaginava que o sig, um instrumento que vem conquistando um lugar privilegiado no trabalho do geógrafo, deveria ser considerado um dos elementos instituidores deste mesmo “meio”. Em um trabalho elucidando melhor seus conceitos, Santos (1995) escreve:

    • A expressão meio técnico-científico pode, também, ser tomada em outra acepção talvez mais específica, se levarmos em conta que, nos dias atuais, a técnica e a ciência presentearam o homem com a capacidade de acompanhar o movimento da natureza, graças aos progressos da teledetecção e de outras técnicas de apreensão dos fenômenos que ocorrem na superfície da terra. [Santos, 1995, p. 192]

 

Quanto ao estatuto sistêmico do SIG, devemos interpretá-lo, primeiramente, como um convite a compreensão do SIG como, de fato, um sistema, inter-relacionado entidades ao redor de uma tecnologia da informação. Ou seja, um sistema social de natureza específica, um sistema de informação, que se forma pela coalescência de quatro entidades, que se articulam, tendo como pivô o pacote sig, a tecnologia propriamente dita (vide MODELO DA ALAVANCA). As quatro entidades são: pessoa(s), problema/tarefa(s), organização e, enquadrando tudo, o ambiente, social, cultural, político, econômico, técnico, que contextualiza a gênese de um SIG.

Segundo o estatuto sistêmico, cada SIG é um SIG. A combinação das entidades, ao redor da tecnologia sig, institui/constitui um SIG, submisso a um ambiente determinado, dentro de uma organização específica, orientado para certos problemas/tarefas, e construído/operado por dadas pessoas, indivíduos únicos.

O que importa, como queríamos demonstrar é que a ontogenia de qualquer SIG, na coalescência das entidades mencionadas, se dá na total imersão e interação com um meio técnico-científico-informacional, como define Milton Santos, e, por conseguinte, instruída e dinamizada segundo esta simbiose enteEste ente ou "sendo" como uma vertical, atravessando planos horizontais e paralelos, se manifesta em diferentes escalas, do individuo à organização, passando pelo nível grupal.-“meio”, que só pode produzir e reproduzir objetos consubstanciais aos dois.

 

Ideias Mentoras do sig

Ideias Mentoras do sig mccastro sab, 09/22/2018 - 16:45

Ideias-Mentoras

Vale dizer que, nesta difícil empreitada de uma história das ideias-mentoras do sig, tomamos emprestado a concepção, talvez um pouco fantástica, do historiador Ioan P. Couliano (1990). Uma concepção da história das ideias elaborada sob a forma de imagens, ou seja, ainda pouco conceituada, mas que nos oferece um caminho diferente de reflexão, diante do desafio deste tipo de historiografia.

De acordo com Couliano, para se admitir um significado, um certo sentido na história, é preciso reconhecer as dimensões sincrônicas e diacrônicas, em todo fenômeno histórico. Neste sentido, ele faz um apelo a nossa imaginação, na tentativa de construir uma nova visão da história, a partir do que denomina “objetos ideais”, entendidos como Ideias que atravessam nossas dimensões espaço-temporais, deixando em sua passagem, ideias mentoras refletidas no pensar, no agir e no fazer humanos. Objetos ideais que precisam ser identificados em sua multidimensionalidade para que possamos ter uma nova compreensão da história.

Tomando as limitações de toda sorte que sofreriam os hipotéticos habitantes de um mundo de duas dimensões, a Flatland imaginada pelo matemático Edwin Abbott Abbott (1992/1884), Couliano nos convida a pensar sobre as dificuldades análogas que temos de compreender a manifestação de ideias em nosso mundo. Em sua visão, traços da presença e da influência dos referidos objetos ideais atravessando nosso plano histórico mais imediato.

Com base na ficção de Abbott, Couliano levanta assim a hipótese que estes objetos ideais atravessam a “superfície histórica” do tempo, deixando em nosso pensar, agir e fazer, registros ou traços de todo tipo. Traços que para nós, habitantes desta superfície histórica, viriam a se constituir em ideias mentoras de sistemas filosóficos, políticos, econômicos, culturais e tecno-científicosPara Couliano, essa aproximação “morfológica” da história, que já tem seus antecedentes [Spengler, 1948], deve ser articulada segundo uma visão mais complexa do que aquela facilitada pela imaginária Flatland. Ou seja, de acordo com uma visão da história das idéias, que reconheça nela a ação de um processo dinâmico de proporções “extra-ordinárias” (n-dimensões). .

Para compreender melhor a hipótese de Couliano, vale à pena resgatarmos em linhas gerais a ficção de Abbott. Em 1884, o clérigo Edwin Abbott, reitor da City of London School, escreveu uma novela surpreendente, Flatland: Um Romance de Muitas Dimensões por um QuadradoFlatland: A Romance of Many Dimensions by a Square publicado originalmente em 1884 sob o pseudônimo “A. Square”, teve um lugar único na literatura científica por mais de um século. Escrita por Edwin Abbott, um clérigo e matemático, especialista em Shakespeare, esta narrativa encantadora de um mundo bidimensional, alcançou renome como uma apresentação de conceitos geométricos que vinham sendo desvendados no século passado, como os das geometrias não-euclidianas, e ao mesmo tempo como uma sátira da hipócrita hierarquia social victoriana. [Abbott, 1992], que teve uma repercussão e um sucesso inesperado, inclusive inspirando a pesquisa de cientistas famosos, como por exemplo Albert Einstein.

Para Couliano, nossa tentativa de entendimento da constituição de certas ideias no “tecido histórico” da humanidade enfrenta as mesmas dificuldades dos flatlanders. Reconhecemos o objeto ideal apenas por alguns de seus traços, literalmente impressos nas obras de artistas, escritores e pensadores, ou manifestos nos atos e “fazimentos” humanos.

Com efeito, diante da manifestação desses objetos ideais em meio à vida, assumindo o contorno das ideias mentoras nos pensamentos, atos, fatos e coisas que nos cercam, não conseguimos ir além da aparência imediata, em grande parte devido à opacidade natural destes mesmos pensamentos, atos, fatos e coisas.

Se aceitarmos uma hipótese como esta de Couliano, sem dúvida a história das ideias estaria ganhando uma nova possibilidade de interpretação. Poderíamos mesmo supor que, em diferentes momentos, objetos ideais estariam cruzando lentamente a superfície do tempo, delineando um horizonte, ou até bordando na história, em sua passagem, os traços que facultariam a emergência do que denominamos “Ideias Mentoras”, que acreditamos se situar na fundamentação do pensar, do agir e do fazer humanos.

Em outros termos, registros da passagem destes objetos ideais pela história, configurariam sistemas de ideias, que disputariam o predomínio sobre o pensar, o agir e fazer humanos, em diferentes épocas e sociedades. As civilizações se constituiriam  em função, não apenas das condições de vida na Flatland, mas também do contato com os ditos objetos ideais atravessando a “superfície” da história, e podendo assim intervir de maneira imprevisível no pensar, no agir e no fazer dos Flatlanders, e na decorrente ordenação do que eles chamariam de história.

Talvez Couliano esteja praticando uma certa simplificação, fortemente dosado de “idealismo”, ao admitir uma história que se ordena apenas pelos sistemas de ideias que se condensam na passagem dos ditos “objetos ideais” através da superfície do tempo. Sua hipótese mereceria uma reflexão mais aprofundada, começando pela conceituação mais rigorosa do que sejam estes “objetos ideais”, e uma crítica mais elaborada da ação mesmos, através do que quer que possa significar sua tentativa de ver a história como uma “espacialização” do tempo. No entanto, a imagem assim construída sobre a ficção de Abbott, consegue estimular nossa imaginação, da mesma maneira que a parábola de Flatland foi capaz de fazer com tantos outros pensadores.

"Estatistização" para Governança

"Estatistização" para Governança mccastro sab, 09/22/2018 - 20:28

A estatística, como a entendem seus fundadores na escola alemã, é a ciência da constituição do Estado; procede essencialmente por descrições de tipo literário, e reúne elementos, do que atualmente se denomina: ciência política e geografia humana. O caráter universitário desta disciplina, com um certo pedantismo intelectual, procura fortalecê-la pelo uso ostensivo do princípio das quatro causas de Aristóteles.

Desta maneira, supõe que cada país poderia ser descrito seguindo o método das quatro causas: causas materiais (território e população), causa final (meta natural da comunidade), causa formal (direito, costume) e causa eficiente (administração). Estas quatro causas, cujo manipulação atualmente não é de uso ordinário, definiam princípios de uso corrente nas universidades do século XVII, dentre os quais se destacavam a causa formal, encarnada pelo governo ao ditar o direito, e a causa final, expressa na meta natural de uma comunidade, cuja revelação era dada pela estatística.

Esta estatística universitária alemã será incapaz de acompanhar as transformações sofridas pelo Estado e pela sociedade ao final do século XVII. Segundo Marx, ela degenerará em uma “bouillie”, dando lugar à “aritmética política” inglesa, que herdará o nome de estatística. Antes de desaparecer, a estatística original alemã, combaterá a “nova estatística”, qualificando-a de Tabellenstatistik, praticada por “serviçais de tabelas”.

A aritmética política inglesa, ancestral imediata de nossa estatística, foi inventada por William Petty (1632-1687), médico e homem político, admirado até por Marx. Impregnado da nova racionalidade, fruto da Razão Moderna, Petty defendeu a precisão, com base em números, pesos e medidas, em lugar do uso de discursos e argumentos, mesmo que racionais. Segundo ele, as questões de governança devem ser conduzidas de acordo com as regras ordinárias da aritmética, a exemplo de demonstrações matemáticas.

Em sua Aritmética Política de 1671, Petty se bateu também contra a ilusão que consiste em atribuir o milagre holandês daquela época, à alguma inteligência superior de seu povo. Para Petty, a prosperidade holandesa era decorrente do trabalho assíduo de comerciantes e marinheiros, favorizados por sua posição geográfica: ganha-se mais pela industria que pela agricultura, e mais ainda pelo comércio que pela industria.

Fazendo gravitar o problema da prosperidade ao redor do comércio, submetendo todas as esferas da produção à uma moeda fixa, e enaltecendo governança pela informação apurada por uma estatística contábil universal, Petty estabeleceu um novo “eixo de rotação” da Terra. Segundo o filósofo Marc Sautet, Copérnico havia feito da Terra um planeta como os outros, mas Petty fez da “Terra” uma mercadoria como qualquer outra [Sautet, 1995].

Desta forma, a aritmética política ofereceria uma nova “linguagem”, segura e universal; além da aspiração de estar definindo os meios para um debate democrático, graças ao uso que faz da medida e da racionalidade, igualmente publicáveis e controláveis. Bem recebida em toda Europa do Iluminismo, teve sua reprodução ampliada e reforçada pela Matemática Social de Condorcet e os Ensaios de Aritmética Política de Buffon.    

O século XIX presenciou o amadurecimento, entre outros frutos da Razão Moderna, da estatística. Seus instrumentos matemáticos são forjados então, em estreita relação com o desenvolvimento de uma entusiástica coleta de informações. Esta expansão da estatística pode ser explicada com base na:

  • conduta natural de uma burguesia em ascensão, interessada em inventariar e assumir o comando de seu novo domínio;
  • tentativa de matematização universal, já explicada na seção anterior, em curso desde o final da Renascença;
  • encarnação progressiva do espírito do Iluminismo, tão bem expresso em Saint-Simon, mas já embrionário em Kant - uma sociedade pode ser feita;
  • “febre” de crescimento dos Estados e do imperialismo colonialista, exigindo o aperfeiçoamento de suas administrações e da correlata produção de dados;
  • progressiva instalação de organizações industriais e financeiras, com seus crescentes requisitos informacionais.

"Matematização" da Natureza

"Matematização" da Natureza mccastro sab, 09/22/2018 - 20:00
  • primeiro, seria necessário se destacar dentre as ideias de Natureza, àquela que sustentou o desenvolvimento de sua “matematização”;
  • segundo, expor o “momento” original, onde esta ideia de Natureza incentivou a referida “matematização”, na corrente de “Pitágoras-Platão-Aristóteles”, fundamentando uma  duradoura “arquitetura” de filosofia da Natureza, com a “estabilidade” que designa a raiz etimológica da palavra grega épistèmè;
  • terceiro, e último, analisar a gênese e alguns aspectos do “momento” que  formou e desenvolveu a ciência moderna, através da “revolução” promovida pela corrente de “Galileu-Descartes-Newton”, que edificou uma nova “arquitetura” para a filosofia da Natureza;

"Geografização" do Mundo

"Geografização" do Mundo mccastro sab, 09/22/2018 - 20:37

A geografização do mundo ocidental é uma das ideias-mentoras da Modernidade, um vetor na constituição e instituição da Geografia Moderna e de seu instrumental, como o sig. Seu desenvolvimento inicial se dá por uma aproximação direta, pelo lado dos exploradores e circunavegadores, com a sistemática conquista e ampliação do mundo conhecido, no contato íntimo com as novas terras descobertas, e, ao mesmo tempo, por um distanciamento intencional, pelo imenso esforço de mapeamento, classificação e catalogação de uma nova Imago Mundi. Nesta nova Imago Mundi, o código cartográfico simbólico medieval, no qual tudo, inclusive o ser humano, se inseria em um cosmos divino, onde proximidade e distanciamento perdiam sentido, pela integração de tudo em um "mundo fechado", cede lugar ao ponto de vista ortogonal e distante sobre a Terra, o ponto de vista de lugar nenhum, de esfera nenhuma: o ponto de vista de Deus. Ou seja, o ponto de vista situado fora das esferas concêntricas do "mundo fechado" tradicional.

Revela-se assim a constituição progressiva de um milieu intelectual excepcional onde prospera a ideia e o processo de geografização do mundo, que desde então se sucede em perfeita harmonia com a Weltanschauung moderna, conforme constatada por Heidegger (2014): “o evento fundamental da idade moderna é a conquista do mundo como imagem”, pois é através desta estratégia de enquadramento que “o homem busca uma posição pela qual ele pode ser este ser particular, que dá a medida e traça o balizamento de tudo que é”. Proximidade e distância são as duas faces de uma mesma moeda, tendo como figuras de um lado a conquista física e material do mundo e de outro sua cartografização e catalogação.

Neste extraordinário milieu renascentista, pela interação entre novos atos, posturas e imagens, entre conquistas intelectuais e técnicas, e novas conquistas no terreno e no gabinete do cosmógrafo, é que vai assim se dar o impulso irreversível para o que denominamos geografização do mundo ocidental moderno, enquanto ideia-mentora e processo histórico.

"Informatização" da Sociedade

"Informatização" da Sociedade mccastro sab, 09/22/2018 - 20:49

O emprego crescente de conceitos informáticos e cibernéticos nas diversas disciplinas, o uso intensivo de processos de modelagem e de simulação para estudar os fenômenos físicos ou humanos, ou a tendência ao “aprofundamento” do método científico pela formulação de sua cadeia de pensamento por meio de algoritmos são algumas das manifestações da emergência de um “paradigma da informática”.

Não se trata de um paradigma assentado apenas sobre um corpo de doutrina sistemática, tendo seus partidários e adversários declarados. Mais do que isto, vem se apresentando também como uma postura intelectual, alimentada por metáforas (processo, entrada, saída, memória etc.), procedimentos e hábitos de investigação. A própria utilização crescente de tecnologias da informação e de sistemas de informação ou de apoio à decisão vem favorizando a infiltração deste paradigma na cultura da “alta modernidade”.

Algumas interrogações se impõem de imediato: na vertente ontológica, a redução do mundo ao que dele se apreende como informação, e a representação de sistemas físicos, viventes ou psíquicos como máquinas de tratamento de informação; na vertente metodológica, a velha questão a respeito da primazia de uma única racionalidade científica, codificável, programável e aplicável a todas as situações e coisas, e também a indagação a respeito da finalidade da atividade científica, voltada para prever e calcular sempre melhor ou para tornar mais inteligível e claro o mundo que nos cerca [uma ciência para manipulação ou para compreensão? como indaga Schumacher, 1977].

 

Mas o que é isso, informatizar?

Para o Pensamento, informatizar não é o verbo que designa os fatos e feitos da informática. Não nos remete apenas para o funcionamento de ferramentas e aparelhos, não se refere a dispositivos de processamento ou a instalações de computação, com todas as mudanças que acarretam. A informatização não é o resultado da expansão mundial de uma parte, de sorte que a totalidade resultante fosse o todo de uma parcialidade geral. A informatização não se reduz a transferir determinada integração de ciência e técnica, de conhecimento e ação para todas as áreas em que se distribuem os homens histórica e socialmente organizados. Informatizar é o processo metafísico de Fim da História do poder ocidental. Na informatização e por ela, o poder de organização da História do Ocidente se torna planetário. A dicotomia de teoria e prática, de mundo paciente de objetos e mundo agente dos cérebros vai sendo superada numa composição absorvente. Por ela se complementam, numa equivalência de constituição recíproca, o sujeito e o objeto, o espírito e a matéria, a informação e o conhecimento, o mundo dos cérebros e o mundo das coisas. A luta entre materialismo e idealismo se torna, então, uma brincadeira de criança. O pessimismo e o otimismo se transformam em categorias inofensivas para classificar irmãos de uma mesma família. Sendo um verbo de essência, informatizar nos precipita na avalanche de um poder histórico de realização. Por isso não indica primordialmente o processamento automático de conjunturas, mas um processo autocrático de estruturação, que tudo aplana, tudo controla, tudo contrai numa, composição onipotente. A terra e o mundo, a história e a natureza, o ser e o nada se reduzem a componentes de compatibilidade universal. A informatização é uma voracidade estrutural em que todas as coisas, todas as causas e todos os valores são acolhidos, são defendidos, são promovidos, mas ao mesmo tempo perdem sua liberdade e fenecem em criatividade. (Carneiro Leão, 1992, pág. 94)

 

Representação e SIG

Representação e SIG mccastro sab, 09/22/2018 - 21:39

Passemos agora da desconstrução à reconstrução do SIG, reestabelecendo sua totalidade, segundo a perspectiva de seu núcleo tecnológico, o sig, operando enquanto um “engenho representador” de fenômenos geográficos. Até aqui, dissecamos o sig e investigamos sua genealogia, segundo determinadas Ideias Mentoras. Entretanto, para avançarmos em sua compreensão, é preciso retomar sua reconstrução, tendo como perspectiva sua forma predominante, a de um “engenho representador”. De acordo com esta nova visão integradora, propomos agora nos questionar sobre sua capacidade de representação da realidade geográfica.

Poderíamos percorrer este caminho de reconstrução do SIG, segundo a perspectiva do engenho representador, de duas maneiras diferentes. A primeira, e a mais comumente encontrada na literatura técnica sobre cartografia e SIG, desenvolve uma série de considerações sobre o mapa como meio de comunicação, e portanto sobre as técnicas mais eficazes para sua construção [Brunet, 1980].

A segunda maneira, que optamos, reúne o que encontramos até o momento de reflexão sobre a problemática da representação da realidade, e, em particular, de representação de fenômenos geográficos. Preferimos assim percorrer um caminho de aprofundamento mais filosófico do que uma investigação das técnicas de representação já tratadas de forma exaustiva pela literatura exemplificada no parágrafo anterior.

Com efeito, diante do sig, visto segundo essa perspectiva de um “engenho representador” da realidade geográfica, optamos justamente por problematizar a representação em si mesmo. Entendemos que só assim podemos efetivamente contribuir para uma reflexão maior do que é o SIG?, evitando assim nos associarmos ao crescente côro dos que discorrem sobre as técnicas de representação cartográfica através do sig.

Transformação metafórica de representações

Transformação metafórica de representações mccastro sab, 09/22/2018 - 21:47

A aplicação de um pacote sig parece indicar também um “deslocamento” na fundamentação do sujeito unificador e unificante. Neste caso, o trabalho “impessoal”É claro que o desenvolvimento do sig se dá de forma pessoal, através da ação de especialistas em informática e/ou geógrafos, mas sua utilização se dá por sua vez de maneira totalmente “impessoal” pois o usuário se submete às disposições previamente implementadas pelo desenvolvimento do sig. do próprio pacote sig, concede ao computador o lugar privilegiado deste sujeito, na constituição da representação final, integrando os elementos da representação que se conjugam em uma “tela” de computador. Mas isto é, no mínimo, uma tese provocante, que merece uma argumentação maior, pois poderia, quem sabe, nos obrigar a despertar do sonho, a que estamos permanentemente submetidos: o da neutralidade dos instrumentos disponibilizados pela informática.

Senão, vejamos. Primeiro temos, em termos bem concretos, na aplicação do pacote sig, o modelo de dados digitais, espaciais e estatísticos, ofertado pelo pacote. Um modelo que desenvolvido “alhures” da disciplina geográfica, aspira determinar uma única forma de representação, segundo um novo Discurso do Método. Neste caso específico, um discurso do método que define a forma de representação do espaço geográfico, de suas propriedades e de seus objetos. Em outros termos, podemos dizer que o que se propõe através do sig é uma nova metáfora do espaço geográfico.

Ao preencher o modelo de dados do sig, com dados referentes a qualquer organização espacial, sobre a qual nos interessa analisar determinados fenômenos geográficos, damos inicio a uma sequencia de traduções que transformam um modelo conceitual em outro. Um processo que os pesquisadores em sig deram a denominação de “transformação metafórica”Segundo George Lakoff (1985 e 1987), um dos principais teóricos citados pelos especialistas em sig, nosso sistema conceitual, que nos permite pensar e agir, é de natureza fundamentalmente metafórica., ou seja, a maior parte dos conceitos, que fundamentam nosso pensamento e ação, são em grande parte compreendidos em termos de outros conceitos, assim formando uma cadeia que se sustenta, em ultima instância, na corporalidade. .

Ou seja, no simples ato de “alimentar” um sig estamos estabelecendo, sem nos darmos conta, um marco fundamental de uma sucessão de traduções, do ideal, ao analógico, e enfim ao digital. Ao mesmo tempo, estamos fundamentando neste marco, uma base digital sobre a qual uma nova sucessão de transformações metafóricas vai poder se realizar, na medida que se exercitem as funções de analise e síntese do sig.

Até alcançar este marco fundamental, passamos por uma série de transformações à nível intelectual. A grosso modo, transformamos a “realidade geográfica”, em si uma metáfora de nossa percepção e de nossa idealização do mundo, em sucessivas metáforas, até alcançarmos o conceito também metafórico, de “organização espacial” ou de “espaço geográfico”. Abstrações teóricas que fundamentam a epistemologia geográfica.

Em seguida, desta estrutura conceitual abstrata, como a concebemos em sua escala específica de estudo, procedemos a transformação para uma outra metáfora. Aquela que reconhecemos em suas formas já reduzidas, parte gráfica e parte tabular, no “mapa geográfico” e em sua correspondente “matriz de informações geográficas”.

Finalmente, mais uma tradução desse conjunto mapa e respectiva tabela de atributos, em uma outra metáfora, a do modelo de dados do sig, que se configura, por sua vez, nas bases de dados digitais, espaciais e estatísticos, que habilitam o engenho de analise e representação do sig a desempenhar toda a sua funcionalidade.

Toda esta sucessão de traduções segue uma metodologia, uma certa “arte”. Esta metodologia orienta primeiro, a tradução de uma metáfora conceitual em outra, passando do “analógico”, em perfeita conformidade com a percepção da realidade geográficaEsta “realidade geográfica” é de certa forma ainda captada e expressa por um mapa geográfico, dada a forma analógica que este mapa ainda guarda da “realidade visual”. É claro que no mapa geográfico temos que levar em conta a interpretação e a redução praticadas por quem o produziu. por nossos sentidos, ao “digital”, estruturado à nível interno do sig, sob a forma de uma base digital de dados, espaciais e estatísticos.

Pari passu, sempre sob o comando de seu usuário, o pacote sig, atuando à semelhança do “sujeito unificador” de toda esta sucessão de transformações metafóricas, possibilita a transformação dessa ultima metáfora digital em outra metáfora, a “visual”. Através do poder de analise e de representação do engenho computacional do sig, o usuário interage com o computador produzindo uma variedade de “cartas virtuais”, eventualmente fixadas em papel.

Funções pré-programadas no sig facultam essa transformação metafórica da base digital de dados, espaciais e estatísticos, em imagens cartográficas digitais, no espaço delimitado de um monitor “desktop” ou de um papel, em uma impressora ou em um plotter.

Sobre essa metáfora visual, uma espécie de imagem virtual, assentada sobre um “modelo digital de dados”, é possível se aplicar todas as funções de manipulação de objetos espaciais, de análise e de simulação, de construção e de apresentação de cartas de todo o gênero. As funções disponíveis no engenho de analise e representação do pacote sig acabam regendo a interação usuário-computador, assumindo o papel de sujeito unificador e deixando o usuário como mero espectador.

Transformação Metafórica

Teoria do SIG

Teoria do SIG mccastro ter, 08/04/2015 - 20:43

Para os antigos gregos, theoria é contemplação, reconhecimento de nexos. Nossa "teoria" está muito distante deste sentido. No seu afã de praticidade, de praxis, de ação, nossa teoria oferece a modelagem como seu propósito. Em certo sentido, o modelo pode ser um reconhecimento de nexos, desde que não limite este reconhecimento e impeça a continuidade da contemplação DO QUE É, como sentido originário da theoria. A "informatização" da Geografia deve ser contemplada, além da simples aplicação crescente de instrumentos baseados em tecnologias da informação e da comunicação (TICs).

GEOMÁTICA OU GEOPROCESSAMENTO

Definições de SIG

Definições de SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 03:47

As definições sucessivas do que É o SIG não conseguem ir além de descrições da funcionalidade disponível, ou de sua "anatomia", ou de suas diferentes aplicações possíveis. Estas descrições, por sua vez, geralmente não vão além do pacote sig comercializado no mercado de informática como um "SIG". Na promoção do sig esquece-se aspecto mais relevante do que seja um SIG: um SISTEMA DE INFROMAÇÃO. O sig é a possibilidade de um sistema de informação geográfico, como o ovo é a possibilidade de uma ave...

FUNCIONALIDADE OU ESTRUTURA OU APLICAÇÕES
DEFINIÇÕES BASEADAS NA FUNCIONALIDADE, NA ESTRUTURA OU NAS APLICAÇÕES

SIG enquanto «Sistema de Informação»

SIG enquanto «Sistema de Informação» mccastro sex, 08/07/2015 - 04:57

SIG = SI qualificado

 

Natureza do SIG

Natureza do SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 03:52

A camada de algoritmos e bases de dados que cobre uma tecnologia da informação e da comunicação, seja um computador ou até um smartphone, e que se denomina sig, representa um SIG "em potência". O SIG que eventualmente se realizará por sobre este sig, pode se chamado de um sig "em ato", para usar uma ótima colocação de Aristóteles , muito em voga até a Idade Média: dynamis (potência) e energeia (ato). Não que o SIG seja "mais" que o sig, assim como a ave não é o ovo, a atualização da virtualidade do SIG em um sig, realiza algo totalmente distinto e justamente que merece investigação.

 

sig x SIG

Modelo Figurativo do SIG

Modelo Figurativo do SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 04:02

O que pode ser mostrado, não pode ser dito. Ludwig Wittgenstein

Modelo da Alavanca

Ao se tentar “re-velar” a natureza do SIG, construímos nossa argumentação fenomenológica e ontológica, tomando por base a “imagem-modelo da alavanca”. Nesta figura, que se poderia considerar mesmo um ideograma do trabalho humano, seja intelectual ou não, se pode identificar quatro entidades ao redor da alavanca (tecnologia sig); entidades de cuja coalescência emerge o Sistema de Informação Geográfico:

  • a pessoa, como o ser humano que deve resolver um problema através da execução de uma tarefa em uma organização, e, para tal, se apropria de uma instrumento, uma tecnologia, para sua consecução;
  • a pedra a ser movida, como o aspecto imediato de um problema qualquer, a ser solucionado, geralmente traduzido, segundo alguma metodologia, como tarefa(s) a ser(em) realizada(s) por uma ou mais pessoas, em uma organização; cada pessoa, por sua vez,  fazendo uso de uma tecnologia; no caso do SIG, a tecnologiaO hardware e o software que compõem os produtos comercializados como SIGs; segundo Séris (1994), o termo “tecnologia” se refere ultimamente a ferramentas ou instrumentos, e não mais a um discurso sobre a técnica, como outrora., mais do que um instrumento qualquer, desempenha também o papel de intermediário, de mediador, ao representar para a pessoa, através de seus recursos próprios, o problema a ser analisado;
  • o solo, onde se assentam e, portanto, podem operar todas as entidades (simbolizadas por pessoa, alavanca-tecnologia e pedra), simboliza a organização, ou seja, a instituição que dá significado (finalidade, razão de ser), além de garantias e sustentação, para a justa operação destas entidades;
  • o quadro do modelo, como uma verdadeira “moldura” (framework), representa o ambiente ou contexto social, político, cultural e econômico, ou, mais concretamente, o meio técnico-científico-informacional, de onde emergem as demais entidades, que ganham deste mesmo “enquadramento”, constituição, instituição e sentido; de fato, um “Sistema de Informação” é uma construção social, que em sua concepção, implementação e manutenção reflete opções (ou imposições) da organização onde se instala, e especialmente do meio social, político, econômico e cultural, onde se insere.

 

Este modelo figurativo incorpora na simplicidade de sua imagem, o arquétipo de uma fecunda série de metáforas que aduzem outras tantas ideias, tão necessárias para uma compreensão maior da natureza de um Sistema de Informação Geográfico. Para a sua devida sondagem, recomenda-se, como no ditado Zen, que ele seja encarado como um “dedo que aponta”, um artifício que não merece uma maior atenção e polêmica sobre sua forma em si, e sim, sobre a direção e o alvo que indica.

 

O modelo em sua “totalidade”...

O modelo em sua “totalidade”... mccastro qua, 08/05/2015 - 04:11

O SIG "em potência" no sig só se tornará uma realidade, ou seja se realizará, pela coalescência de pessoa-técnica-problema-organização em um "meio" propício, de forte natureza técnica-científica-informacional, e sem deixar em momento algum de ser conduzido e regido pela tecnologia da informação e da comunicação (TIC) que lhe é central, o sig. O papel da pessoa é da maior relevância para a atualização do SIG, passagem de potência à ato do sig. Este papel pode se resumir a uma condição de marionete, como assistente periférico do sig, em um processo totalmente direcionado, ordenado e regido pelo sig. Ou, este papel pode ser de reconhecimento da "autonomia" do sig e do necessário acompanhamento e supervisão do processo para evitar o equívoco de uma "autonomia" do SIG e, por conseguinte, a subserviência total a sua produção e seus resultados. Caso contrário, o sig enquanto GIS (Geographic(al) Information System) será o trampolim para o utópico delírio de muitos de seus aficionados, o cig enquanto GIS (Geogaraphic(al) Information Science).

 

SIG = Coalescência pessoa-sig-problema-organização-ambiente

Modelo da Alavanca e Causas Aristotélicas

Modelo da Alavanca e Causas Aristotélicas mccastro qua, 08/05/2015 - 04:19

O modelo da alavanca pode ser considerado como um paradigma de toda atividade humana. Até se poderia utilizar a noção de "mônada" em qualquer fazimento, desde que se entenda "mônada" como: partícula sem extensão porém cognoscível, sendo componente básico de toda e qualquer ato humano, físico ou anímico, e que apresenta as características de imaterialidade, indivisibilidade e eternidade em qualquer atividade humana. Ou seja, aquilo que se dá na passagem de atos a fatos e que compondo com outras mônadas forma o que se poderia chamar uma "inteligência coletiva" emergente na atualidade desde um "meio técnico-científico-informacional". Meio produtor e produzido por uma diversidade crescente de instrumentos tecnológicos de natureza técnica-científica-informacional, como por exemplo os inúmeros "aplicativos" de telefones "inteligentes" e, em nosso caso, o sig. Assim, o SIG que venha a se constituir a partir de um sig e sob sua regência tem uma dimensão política, cultural, social e econômica, guardando sua intangibilidade e aparecendo apenas como sig. Apesar da aparente movimentação de pessoas, equipamentos e dados em mídias físicas, tudo que se refere ao SIG está se passando em uma esfera ou campo mental. O paradigma do modelo da alavanca chama atenção para uma tétrada bem determinada e sempre presente onde se passa de atos a fatos, ou seja, onde "fazer" ganha importância sobre ser-pensar, ou praxis sobre theoria: pessoa-instrumento-problema-meio (este compreendendo organização e contexto).

 

Modelo SIG x Causas Aristotélicas

 

Esta tétrada pode ser comparada com as quatro causas aristotélicas: causa material, causa formal, causa final e causa eficiente. Na interpretação de Heidegger (2002), "as quatro causas são os quatro modos, coerentes entre si, de responder e dever". Assim parafraseando Heidegger posso dizer: no SIG, que se dá e propõe em um laboratório de pesquisa ou uma empresa, "regem e vigem quatro modos de dever e responder. Entre si são diferentes, embora pertençam um ao outro na unidade de uma coerência".

Para nos precavermos dos mal-entendidos acima mencionados sobre o que é dever e responder, tentemos esclarecer seus quatro modos, a partir daquilo pelo que respondem. [...] Dar-se e propor-se (ύποκεΐσθαι) designam a vigência de algo que está em vigor. É que os quatro modos de responder e dever levam alguma coisa a aparecer. Deixam que algo venha a viger. Estes modos soltam algo numa vigência e assim deixam viger, a saber, em seu pleno advento. No sentido deste deixar, responder e dever são um deixar-viger. A partir de uma visão da experiência grega de responder e dever, de αιτία, portanto, damos aqui à expressão deixar-viger um sentido mais amplo, de maneira que ela evoque a essência grega da causalidade. O significado corrente e restrito da expressão deixar-viger diz, ao contrário, apenas [16] oferecer oportunidade e ocasião, indicando assim uma espécie de causa secundária e sem importância no concerto total da causalidade.

 

 

Componentes do Modelo Figurativo do SIG

Componentes do Modelo Figurativo do SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 04:22

Passando da visão geral do modelo figurativo e do quadro em que se encerra, entendido como o ambiente social, político, econômico e cultural, para a consideração das entidades individuais do modelo, outras tantas metáforas se apresentam; algumas relativas a cada entidade de per si, e outras, às suas inter-relações. Tratar de cada entidade ou componente do modelo não pode deixar de lado o modelo de que faz parte. Tanto mais se considerado o "dar-se e propor-se" do SIG segundo as quatro causas aristotélicas fica ainda mais evidente que causa material, causa formal, causa final e causa eficiente, se apresentam enquanto um "dever e responder" assim qualificado de material, formal, final e eficiente, de modo relativo e dinâmico. É fundamental ter em mente que cada componente do modelo assume sua condição causal e sua qualificação, dependendo da conjuntura e circunstância em que se dá a constituição e instituição do SIG a partir do sig.

Alavanca

Alavanca mccastro qua, 08/05/2015 - 04:24

Começando pela entidade "alavanca", representando o sig, a tecnologia no modelo figurativo, se tem mais uma vez a revelação do SIG a ser constituído, como um “arte-fato” (arte instanciando e instanciada em fato), centrado em um instrumento (até literalmente, no desenho do modelo figurativo), e sua decorrente metodologia de aplicação. O SIG, no entanto, não é a simples implementação de um instrumento, mas, muito pelo contrário, se funda na realização da potencialidade do sig, por meio da arte humana ou técnica (a techne dos gregosA techne no pensamento antigo grego era muito mais do que a técnica moderna, pois segundo Heidegger (2012, p. 21) era o primeiro dos cinco modos de des-velamento (aletheuein) consignados por Aristóteles como "caminhos possíveis, que estavam abertos para a existência grega experimentar e inquerir o ente do mundo" (HEIDEGGER 2012, p. 22). A techne deveria ser traduzida desta maneira como arte, ou saber-fazer, ou perícia — na ocupação, na manipulação, na produção.), exercida exclusivamente por um "ser" humano, desde uma ideia, consignada a priori, segundo sua materialização em tecnologia da informação. Uma ideia com raízes profundas na gênese da Razão Moderna, assim conjurada pela metafísica da Modernidade. Portanto, é preciso se começar por uma breve investigação das raízes deste tipo de tecnologia, na história do pensamento ocidental moderno, para mais adiante, continuar a análise do SIG consoante as metáforas decorrentes da entidade alavanca, enquanto símbolo-central do modelo figurativo.

Não esqueçamos que a alavanca talvez seja a ferramenta humana mais antiga; inclusive Arquimedes teria dito algo como, "dê-me um ponto de apoio e desloco a Terra com uma alavanca". A alavanca é um bastão que se apresenta como uma extensão do braço humano, que tendo seu fulcro apoiado em um solo, ou em si mesmo (um bastão em outro bastão) como no caso do alicate, pode potencializar a força humana. Consideramos a metáfora das diversas formas de alicates como diferentes figurações de um mesmo princípio, qual seja aquele que se vela sob a tecnologia da informação, enquanto engenho de representação e mímese da inteligência humana.

Alicate

A “Maquina Universal” sob o sig

A “Maquina Universal” sob o sig mccastro qua, 08/05/2015 - 04:32

O sig é um software, ou seja a combinação de um programa de computador + uma base de dados. É uma camada de "algoritmos + dados" revestindo uma tecnologia da informação. A tecnologia da informação aparece então travestida em "geógrafo virtual" capaz de atender as necessidades de representação e análise espacial, desde que sua base de dados espaciais e de atributos dos mesmos, esteja devidamente carregada, segundo o protocolo que o sig estabelece para tal. Uma vez a fantasia de sig seja preenchida com um "corpo" de dados ela parece ter vida e poder ser exercitada para representar e analisar este corpo de dados. Pierre Lévy escreveu dois livros, "A Máquina Universal" e "Tecnologias da Inteligência", que bem descrevem a tecnologia da informação, ou como prefere chamar a "tecnologia da inteligência" que se assenta por sobre a noção de máquina universal, elaborada na primeira metade do século XX, especialmente por Alan Turing.

 

Alavanca

A noção de "máquina universal"

A noção de "máquina universal" mccastro ter, 08/28/2018 - 19:42

Desde a suspeita de Hobbes de que pensar é calcular, que a Modernidade se amparou da noção de que a lógica pode ser codificada, como Boole tentou na primeira metade do século XIX, mas que mesmo Leibniz, no século XVII, já era de certo modo precursor com sua "característica universal". As ideias-motoras da informática já estavam se apresentando aguardando tão somente seu ordenamento e aplicação no século XX, por Turing, Weiner, von Neumann e outros, em uma concepção que perdura até hoje, mesmo quando se trata da moderna "inteligência artificial": a "máquina universal".

 

Máquina Universal

Componentes da Alavanca

Componentes da Alavanca mccastro qua, 08/05/2015 - 04:40

A alavanca, a ferramenta propriamente em sua estrutura mais simples, tem duas partes um bastão e um fulcro, seu ponto de apoio. Este fulcro no caso do sig, é o computador que hospeda este software ou programa e sua base de dados. Este computador precisa de uma infraestrutura que o sustente operacionalmente. Em grandes empresas ou laboratórios de pesquisa este contexto é constituído pela Arquitetura do Sistema de Informática da organização e o ambiente de trabalho em que se situa o sig, sobre o computador, sobre este Sistema de Informática.

Por sua vez, o bastão, no caso do sig, pode ser visto como o software e sua base de dados, ou seja, algoritmo+dados. Onde o algoritmo se encarrega da representação cartográfica e análise espacial, assim como de todo o interface com o usuário, e os dados se organizam em uma base de dados espaciais e seus atributos, bem próximos ao problema, ou seja, codificados, georeferenciados e interconectados, de maneira eficaz e eficiente para "representar" o problema (a pedra tocada pelo bastão no modelo figurativo), naquilo que pode ser representado enquanto dados geométricos e topológicos, em uma base de coordenadas de objetos espaciais, e dados quantitativos e até qualitativos, relativos a cada objeto espacial.

 

Alavanca = bastão + fulcro

Arquitetura técnica sustentando o sig

Arquitetura técnica sustentando o sig mccastro qui, 08/06/2015 - 16:08

A Arquitetura do Sistema de Informática de uma organização é composta basicamente de:

  • TECNOLOGIA, reunindo toda a tecnologia da informação e da comunicação implementada;
  • DADOS, compreendendo todos os dados codificados e armazenados no banco de dados da organização, este composto de bases de dados preferencialmente integradas entre si;
  • APLICAÇÕES, as diversas camadas de programas básicos, utilitários e aplicativos, assim como as camadas de protocolos de comunicação e transferência de dados entre os mesmos.
  • SERVIÇOS, as inúmeras funções e serviços necessários para manter TECNOLOGIA, DADOS e APLICAÇÕES disponíveis e responsivos.

As duas faces do cubo não visíveis correspondem ao lado humano da Arquitetura que planeja, supervisona e gere do nível coletivo ao individual a própria existência do Sistema de Informática.

 

Sistema de Informática

Estrutura do sig

Estrutura do sig mccastro qui, 08/06/2015 - 16:19

Todos os pacotes sig atualmente oferecidos no mercado têm uma estrutura tecnológica similar: um "engenho de representação e análise espacial", uma base espacial com seus atributos, utilitários que completam a funcionalidade do engenho e um programa de interface com o usuário.

 

Estrutura do sig

SIG, “Paradigma Informático” e Ideologias

SIG, “Paradigma Informático” e Ideologias mccastro qua, 08/05/2015 - 04:38

O computador de qualquer geração que seja, é uma implementação da denominada "máquina universal" de Turing. Po sua universalidade se apresenta como "potência de todos os possíveis". No caso do sig, virtualiza o geógrafo pela concepção e implementação de um "geógrafo virtual" como um conjunto de possibilidades que guarda em potência. Sua capacidade de realizar operações segundo uma lógica formal sobre dados simbólicos, registrados como sinais digitais garante a passagem de potência a ato das possibilidades de representação cartográfica e análise espacial do "geógrafo universal" que busca aparentar ser. Sua base de dados armazena e oferece acesso ao "espaço geográfico" reconhecido como um conjunto de objetos espaciais que foram pulverizados de sua realidade analógica em sinais digitais que se referem às representações geométricas e topológicas e dados quantitativos e qualitativos, destes mesmos objetos espaciais.

 

Paradigma informático

Duas ideologias fundamentam o sig, imprimindo uma intencionalidade definitiva sobre este software enquanto vestimenta da máquina universal, travesti de "geógrafo virtual", fazendo dele O QUE É, um engenho de representação e análise espacial. Estas ideologias, enquanto ideias mentoras da Modernidade, vão sustentar e garantir a constituição e instituição do SIG a partir do sig.

Ideologias SIG

Pedra

Pedra mccastro qua, 08/05/2015 - 05:13

No modelo figurativo do SIG, a "pedra" indica o problema a ser solucionado, geralmente pela consecução de tarefas. A metodologia que identifica e ordena estas tarefas está pré-programada no sig e orienta a própria interpretação de qual seja o problema a solucionar. Ou seja, cada tarefa ditada pela metodologia de desenvolvimento de um SIG desde um sig, já conta de antemão com funções coadjuvantes do sig. Estas funções apoiam e conduzem cada tarefa a sua consecução. Na completa consecução das tarefas, o problema estaria solucionado ou desdobrado em um novo problema ou outros tantos mais.

O problema se enquadra como sistema-objeto, ou uma interpretação ou leitura de tal sistema. Cada tradução sucessiva do problema em um sistema-objeto, no sentido de objetivação da adequada composição de todos os componentes do modelo da alavanca são como perspectivas possíveis da conjuntura e circunstância em que se situa a pedra a ser abordada pelo sig. Atualmente, com as sucessivas e variadas aplicações do sig, já se tem uma taxionomia de domínios de problemas e tarefas em que pode se constituir um SIG para sua abordagem. Cuidado especial para a possibilidade de "soluções em busca de problemas", estratégia muito comum na propaganda e disseminação do sig.

A PEDRA

Domínios de problemas/tarefas

Domínios de problemas/tarefas mccastro qua, 08/05/2015 - 05:19

A partir desta concepção, seria válida qualquer tentativa de se identificar domínios de tarefas (referentes a diferentes paisagens organizacionais), além daqueles cobertos pela tradicional “informatização de escritórios"A aplicação generalizada da informática para apoiar todo trabalho de escritório, incluindo as atividades de comunicação interna e externa, predominantes dentro de um escritório. em curso, onde possam se constituir especificamente artefatos do tipo SIG.

Refiro-me, como sempre, ao SIG, enquanto um aparato determinado por um modelo genérico de Geoprocessamento, segundo o paradigma informático, porém com uma vestimenta condizente, exatamente de acordo, com sua esfera de atuação, segundo um ideal de gestão e um “sistema-objeto”, onde se candidata como aplicação.

Segundo essa linha de pensamento, o SIG tem na organização, e em especial no meio ou paisagem em que busca se coadunar, um “pano de fundo” hermenêutico para a interpretação de sua natureza, sobre o qual se poderiam identificar os seguintes domínios particulares de tarefas, candidatas a seu uso: marketing, administração pública, análise sócio-espacial, análise ambiental.

Esses domínios de tarefas, ou esferas de aplicação potencial do SIG, vêm passando por toda a sorte de mudanças, uma metamorfose que tem como principal catalisador o fato de estarem submetidas a própria informatização. De fato, enquanto categorias de tarefas, simbolizadas de forma sintética pela pedra do modelo figurativo, elas impõem diferentes requisitos sobre o componente alavanca, assim como são, pelo mesmo, influenciadas, e até condicionadas.

 

Marketing

Marketing mccastro qua, 08/05/2015 - 05:21

Marketing ou geomarketing é uma esfera de uso crescente de tecnologias da informação, que encontrou no sig o instrumental perfeito para apoiar suas análises geodemográficas, visando o reconhecimento de uma possível “diferenciação de áreas espaciais”, de acordo com seus perfis populacionais, analisados segundo sua qualificação como consumidores potenciais; a geodemografia, no centro da atual revolução na pesquisa em marketing, incorpora uma estratégia que visa exercer sobre a vida do dia a dia, o poder de uma racionalidade construída sobre informações, que permitem as instituições públicas e privadas “saber quem somos e onde moramos”GOSS, J. “We Know Who You Are and We Know Where You Live: The Instrumental Rationality of Geodemographic Systems”, Economic Geography, 1994; “Marketing the New Marketing - the Strategic Discourse of Geodemographic Information Systems”, in Pickles, J. (ed.), Ground Truth. New York: The Guilford Press, 1995.; a geodemografia é justamente a metodologia, a roupagem, que vestindo o sig, permite aos profissionais de marketing elucubrações sobre o comportamento de consumidores, com base em modelos de identificação e localização residencial.

Administração Pública

Administração Pública mccastro qua, 08/05/2015 - 05:29

A administração pública enquanto capacidade de governo de um território é um imenso potencial de aplicações do Sistema de Informação Geográfico, que vai desde sua utilização pioneira e progressiva em sistemas cadastrais, os denominados Land Information Systems - LIS, passando por sua adoção em inúmeras outras aplicações que visam espacializar dados de gestão de território e engenharia ambiental, até seu uso para fins estratégicos e militares; os sistemas cadastrais possibilitam a construção de inventários integrando registros com atributos básicos, gestores de qualquer objeto espacial considerado como recurso, com dados espaciais sobre a geometria e a topologia destes mesmos objetos; desta maneira, o SIG manifestando-se sob a forma de distintos sistemas cadastrais se apresentam como os candidatos naturais, tanto para a administração pública, como para a administração privada ou em vias de privatização de serviços públicos, como luz, gás, telefone etc...

Análise Sócio-Espacial

Análise Sócio-Espacial mccastro qua, 08/05/2015 - 05:33

A análise sócio-espacial é domínio de problemas/tarefas onde se tem a pretensão de, por meio do SIG, explorar novas relações além da econômica, ou seja, outras dimensões que vêm sendo desconsideradas dentro do modelo desenvolvimentista ocidental, no qual este tipo de análise encontra seu lugar predileto; o que não poderia ser obtido pelo incansável aperfeiçoamento dos modelos econômicos, ou pela simples tentativa de matematização dos fenômenos; através da abordagem sócio-espacial, à qual se candidata uma classe de SIG, é possível se pôr em prática uma análise, dentro de uma concepção holística, reconhecendo seu objeto como a sociedade concreta, corporificada pelas dimensões dos processos e relações sociais (economia, política, cultura), pela dimensão espacial, e pela dimensão temporal (histórica) refletida nas dimensões anteriores; afinal de contas, o espaço não é o contexto vazio e neutro onde têm lugar os fenômenos, como conceitua a Física clássica; o espaço simboliza e é simbolizante do social, embora não possuindo uma dinâmica própria, independente dos processos sociais; o espaço condiciona as relações e os processos sociais que o modelaram através de uma dialética sócio-espacial; uma vez produzido, este espaço passa a influenciar e eventualmente determinar, através de sua materialidade e de seu conteúdo simbólico, os futuros processos sociais.

Análise Ambiental

Análise Ambiental mccastro qua, 08/05/2015 - 05:36

A análise ambiental atende à esfera de problemas ambientais. Segundo Xavier da SilvaXAVIER-DA-SILVA, J. “Geoprocessamento e Análise Ambiental”, RBG 54 (3), 1992; “Análise Ambiental da Apa de Cairuçu”, RBG 50 (3), 1988a; Análise Ambiental. Rio de Janeiro, UFRJ, 1988b; “Sistemas de Informação Geográfica: uma Proposta Metodológica”, Anais da IV Conferência Latinoamericana sobre Sistemas de Informação Geográfica e II Simpósio Brasileiro de Geoprocessamento, São Paulo, USP, 1993; “Geomorfologia e Geoprocessamento”, in A. J. T. Guerra & S. B. da Cunha (ed.), Geomorfologia. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1994; “A Pesquisa Ambiental no Brasil: Uma Visão Crítica”, in B. Becker, A. Christofoletti, F. Davidovich & P. Geiger (ed.), Geografia e Meio Ambiente. São Paulo, Hucitec, 1995., tem sua ocorrência dentro das dimensões básicas, territorial e temporal, do mundo físico, o que permite o uso de registros de ocorrências passadas, para identificar a evolução do fenômeno em estudo; desta forma procedimentos de diagnóstico e de prognose podem se estabelecer, “vestindo” o Sistema de Informação Geográfico com a metodologia adequada para formalização de procedimentos analíticos, tais como: inventários ambientais, monitorias, assinaturas, avaliações, cenários prospectivos e outros; a ampla difusão do SIG na análise ambiental, enfrenta, no entanto, algumas dificuldades por conta da diversidade de articulações a serem representadas, correspondendo ao contato, interação, fragmentação e miscigenação de elementos, sobre as quais evoluem as formas geográficas representadas pela paisagem; a paisagem, possível objeto da análise ambiental, está sujeita a processos, e, portanto a modificações e desenvolvimentos; tratam-se de processos naturais decorrentes da geomorfologia, do clima, da organização de plantas e animais, do desenvolvimento do solo e de perturbações de diversas ordens; atualmente a atuação antrópica é um dos fatores principais dentro das perturbações mencionadas, pois afeta os ritmos naturais e modifica diretamente a paisagem; some-se ainda o fato que, no estudo dos processos, deve-se procurar articular diferentes escalas de espaço e de tempo, além do exame comum dos fluxos entre elementos adjacentes na paisagem; o movimento, o funcionamento e as mudanças que operam na paisagem representam o maior desafio para a compreensão do pesquisador, e consequentemente, para sua representação no SIGHAINES-YOUNG, R. et alii. Landscape Ecology and Geographical Information Systems. Londres: Taylor & Francis, 1993..

Articulação alavanca-pedra

Articulação alavanca-pedra mccastro qua, 08/05/2015 - 06:06

A articulação entre o bastão da alavanca (sig) e a pedra, no modelo figurativo do SIG, representa a Base de Dados que se apropria dos dados do problema (a pedra) segundo a estrutura de dados mais adequada aos requisitos do problema e mais acordada aos requisitos do software sig.

Base de Objetos Espaciais

 

Complementos do sig

Complementos do sig mccastro qua, 08/05/2015 - 06:08

Convém lembrar ainda, que o sig requer, para sua plena apropriação e consequente constituição do SIG, de alguns complementos fundamentais para a informatização de um outro conjunto de tarefas relevantes, intimamente associadas com a instituição de um SIG.

Subsistema de Referencia a Dados

Subsistema de Referencia a Dados mccastro qua, 08/05/2015 - 06:10

Subsistema de Referencia a Dados, abrigando um conjunto de descrições sobre todos os dados disponíveis para os pesquisadores, documentando sua origem, procedência metodológica, entidade responsável pela produção, publicação ou acervo da qual faz parte, características de coleta, captura e representatividade; este sistema deve atuar como “pano de fundo” das bases de dados e das base espaciais, geradas e utilizadas pelos pesquisadores, garantindo a descrição necessária de todo e qualquer “item de dado” destas bases.

Subsistema de Códigos Locacionais

Subsistema de Códigos Locacionais mccastro qua, 08/05/2015 - 07:35

Subsistema de Códigos Locacionais, documentando as distintas especificações de estrutura espacial adotadas pelos pesquisadores; não só a divisão política-administrativa, mas todas as formas de divisão territorial, especialmente aquelas criadas pelo estudo do espaço geográfico, são geocodificadas, descritas e controladas, juntamente com as respectivas bases espaciais a que se referem.

Subsistema de Legislação

Subsistema de Legislação mccastro qua, 08/05/2015 - 07:37

Subsistema de Legislação Territorial, referenciando e resumindo toda a legislação que possa representar uma imposição normativa relevante, do político-institucional em atuação na configuração do espaço geográfico em estudo.

Subsistema de Programas Afins

Subsistema de Programas Afins mccastro qua, 08/05/2015 - 07:38

Subsistema de Programas Afins, documentando todo e qualquer programa governamental ou não, que esteja atuante, através do político-institucional, na organização do espaço em estudo.

Pessoa

Pessoa mccastro qua, 08/05/2015 - 07:41

A PESSOATipologia de usuários

 

Formação em Geografia

Formação em Geografia mccastro qua, 08/05/2015 - 07:45

Alguma formação em Geociências é imprescindível, pela própria natureza do SIG, especialmente quando sua aplicação for orientada para a Análise Ambiental ou Sócio-Espacial. Não só pela capacidade que aufere, nem que seja teórica, de buscar incessantemente um alinhamento harmônico entre tecnologia, Geografia e geógrafo, mas também pelo estímulo a trilhar determinados caminhos da inteligência e da competência, só parcialmente refletidos nos processos automatizados ofertados pelo SIG. O SIG reúne em si, em sua constituição enquanto artefato tecnológico, assim como em sua instituição enquanto processo de informatização, diferentes disciplinas científicas: geografia, planejamento urbano e regional, engenharia ambiental, informática, cartografia, geodesia, fotogrametria, sensoriamento remoto, ciências cognitivas, estatística espacial, psicologia comportamental, e outras tantas, interessadas na espacialização das informações). Dentre estas, um lugar privilegiado deve ser dado à Geografia, destaque especial já impresso no próprio título “SIG”. Segundo um dos mais reconhecidos especialistas em SIG, o geógrafo Michael F. Goodchild, de todas as disciplinas, a Geografia é claramente a única capaz de reduzir a distância entre inteligência e aplicação do SIG, ou seja, a habilidade de combinar uma compreensão do fenômeno geográfico real com as questões relativas a suas possíveis representações, em uma base espacial digital. A representação espacial é uma parte vigorosa da educação de um geógrafo, e, portanto, deve refletir uma compreensão ampla dos processos implicados e explicados na paisagem geográfica [Goodchild, 1995]. Essa colocação vai ao encontro do que afirma o geógrafo Yves Lacoste, quando ressalta o papel explicativo da Geografia, muito além de sua clássica forma descritiva. Neste papel explicativo, a Geografia não se limita às coincidências e interseções entre múltiplos conjuntos espaciais de diversas ordens de grandeza, passíveis de serem representados por um SIG; visa também as interações entre as diferentes espécies de fenômenos, que foram assim delimitados cartograficamente; e, após observadas as nuanças e os contrastes das configurações concretas de um território ou de uma paisagem, busca lhes explicar, desembaraçando o novelo de fenômenos atuais e as marcas que deixaram aqueles do passado [Lacoste, 1982].

Competência em informática

Competência em informática mccastro qua, 08/05/2015 - 07:47

Alguma competência em informática, enquanto tecnologia básica do SIG, impregnada por uma metodologia de sistematização e tratamento de informações, é também indispensável, para que o usuário do SIG possa se sentir mais a vontade na sua adoção. Em particular, para que possa Ser capaz de exercer um senso crítico do SIG, para que possa contemplar suas limitações, algumas imanentes ao próprio modelo informacional, imposto pela tecnologia.

Tipologia de Usuários SIG

Tipologia de Usuários SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 07:53

Da mesma forma que se tentou estabelecer uma tipologia de tarefas, é necessário também que se elabore uma categorização que enfoque as pessoas, enquanto usuárias do SIG. Uma taxinomia que ofereça uma maior compreensão da variedade de usuários em contato com o SIG, e, portanto, da diversidade de requisitos impostos sobre o “ser-no-mundo” deste instrumental. Além da tradicional classificação, em níveis de aptidões do “noviço” até o “especialista”, baseada no expertise do indivíduo no problema ou no instrumento, propõe-se um espaço classificatório em três dimensões, que poderia oferecer uma descrição melhor do perfil dos usuários do SIG, tomando por base aspectos da interação pessoa-tecnologia:

  • usuário que desenvolve em diferentes graus o SIG, combinando e transformando as entidades que o compõem, segundo o modelo figurativo, de acordo com as suas necessidades, inclusive definindo e implementando sua base espacial e de dados, assim como os parâmetros de seus algoritmos de análise e apresentação de resultados;

  • usuário que opera o SIG já desenvolvido e implementado, desde o acionar apenas seus comandos de apresentação, impressão de resultados, e operação de outros dispositivos de sua configuração, até sua atuação em conexão com o SIG, dentro e fora da instituição onde se insere este último;

  • usuário que controla, em diferentes níveis, a própria existência do SIG, garantindo sua disponibilidade em conformidade com objetivos institucionais, sociais, políticos, culturais e econômicos.

Tipologia Usuários

Solo

Solo mccastro qua, 08/05/2015 - 08:04

A entidade solo, representando a organização que ordena, integra, dirige, combina e sustenta as entidades que sobre ela se assentam (pessoa-alavanca-pedra enquanto pessoa-tecnologia-tarefa), é a base de onde emanam, pela influência do ambiente social e político, os problemas (traduzidos em tarefas) a serem enfrentados pelas pessoas-tecnologias, por sua vez, congregadas pela, ou congregando a própria organização.

Modelo de Organização

Modelo de Organização mccastro qua, 08/05/2015 - 08:09

Uma organização é fruto da coalescência de estratégias, processos, pessoas, estilos gerenciais, aptidões, estrutura se dando ao redor de e em ressonância a valoresMINTZBERG, H. & QUINN, J.B. The Strategy Process. Englewood Cliffs: Prentice-Hall, 1991.. Sem uma organização com todos estes ingredientes sustentando um sig, jamais há de haver a constituição e instituição de um SIG. Assim como em nosso modelo figurativo do SIG, uma alavanca sem solo onde apoiar jamais coadunará os demais componentes do modelo em ação.

 

Organização

Sistema de Informática

Sistema de Informática mccastro qua, 08/05/2015 - 08:12

A parte visível de um Sistema de Informática é composta de tecnologia, dados e aplicações, cercados de serviços que sustentam sua operacionalidade, disponibilidade e responsividade. Os outros três lados não visíveis (inteligência, emoção e mobilidade) representam os aspectos humanos que garantem a existência e visibilidade dos três lados visíveis.

 

Sistema de Informática

Comercialização do SIG

Comercialização do SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 08:16

Lamentavelmente há uma propaganda enganosa dos fornecedores de pacotes sig, disseminando a ilusão de que investindo na compra ou adoção de um pacote desta natureza se tem um SIG ou pelo menos se está a meio caminho de um SIG. A constituição e instituição de um SIG não é de maneira alguma garantida pela simples aquisição de um sig. Por mais encantamento que se tenha pelos resultados de representação e análise espacial ilustrando a documentação e as apresentações dos fornecedores de sig, é preciso comedimento com o entusiasmo e fascinação pelo pacote sig. Um SIG é uma construção árdua porém segura e produtiva. Entretanto seus produtos e resultados muitas vezes não terão o esplendor e ornamentação dos resultados apresentados nos folhetos e promocionais de um sig.

 

Só o sig é vendido...

Geoprocessamento

Geoprocessamento mccastro qua, 08/05/2015 - 08:17

Para que o geoprocessamento efetive sua agenda de informatização das Geociências, é preciso que na construção de um SIG para um projeto de pesquisa haja uma submissão à regência do sig, enquanto engenho de representação e análise espacial. Nesta condição de regente da representação e análise, o sig é em grande parte determinante da metodologia a ser seguida. Ao mesmo tempo, seus protocolos de entrada de dados serão ordenadores das "transformações metafóricas" pelas quais devem passar os dados a serem apropriados e processados pelo engenho.

Geomática

Institucionalização do SIG

Institucionalização do SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 08:21

Quanto mais funcionalidade for apropriada do sig na constituição e instituição de um SIG, maior será o impacto no projeto, no laboratório, na organizaçãoPAVA, C. Managing New Office Technology. An Organizational Strategy. New York: Free Press, 1983..

Transformação

Intercâmbio de dados

Intercâmbio de dados mccastro qua, 08/05/2015 - 08:24

É mandatório na apropriação do sig na constituição e instituição de um SIG acatar protocolos de codificação de geodados, georeferenciamento, assinaturas, etc. Neste sentido faz-se necessário o desenvolvimento de um sistema de metadados ao longo de toda apropriação do sig.

padrões

Quadro

Quadro mccastro qua, 08/05/2015 - 08:31

O ambiente social, político, cultural e econômico, representado pelo quadro no modelo figurativo, “emoldura” as demais entidades do modelo, lhes conferindo um recorte específico na paisagem, um destaque especial para sua dinâmica, e toda uma “razão de ser” para o que representa, ao mesmo tempo que se deixa ocultar sob o realce natural dado a figura em si.

O quadro, moldado nos últimos quatro séculos pela exaltação da Razão Moderna, estabeleceu a direção e as condições necessárias para constituição de uma cercadura sobre o “fazimento” humano tendo como vértices: a Ciência, a Técnica, a Epistemologia e a Prática, modernas. Estes polos sobre a dita cercadura se projetam ou se refletem não só sobre a figura enfocada (pessoa-alavanca-pedra-solo), mas também sobre sua própria forma e ordenação; estas últimas, por sua vez, se apresentam como a própria expressão destes polos ou vértices, verdadeiras forças modeladoras, no sentido de D’Arcy Thompson (1966).

A constituição social, política, cultural e econômica de um Sistema de Informação como o SIG, tem sido objeto de inúmeras análises. Algumas, mesmo partindo de uma visão cândida de “geração espontânea” do objeto técnico, no mínimo reconhecem e valorizam seus impactos sobre a relação Sociedade e Natureza, e sobre cada uma diretamente (Sheppard, 1995 e Pickles, 1995). As condições impostas pelo quadro sobre as entidades do modelo figurativo, determinam e configuram seu ente, sua entidade, desde sua concepção até sua operação.

Considerado o modelo figurativo como uma justa representação do SIG, poderia se aventar a possibilidade de que sua imagem do “fazimento” humano, embora primitiva e ingênua, não deixe de ser capaz de retratar, através de traços impressos em sua morfologia, a atuação de um “campo de forças” engendrado e mantido pela Razão Moderna.

Quadro

 

Centralidade da técnica no modelo e no quadro

Centralidade da técnica no modelo e no quadro mccastro qua, 08/05/2015 - 13:41

Em seu desenho, em sua configuração, o modelo figurativo do SIG, de fato, reflete a primazia, a centralidade da técnica, materializada na tecnologia do SIG, o sig, ressaltando:

  • seu papel instrumentalizador dentro de uma ciência moderna, que parte do privilégio dado à antinomia e à distância entre sujeito e objeto;
  • sua mediação promotora de uma epistemologia com forte embasamento lógico-matemático; e,
  • seu agenciamento imperialista e monopolista de toda e qualquer prática humana.

De fato, tocando localmente cada indivíduo e traçando inúmeros caminhos, diretos e indiretos, do local ao global, a tecnologia da informação sobre a qual se assenta o SIG, em associação com as redes de telecomunicações, se estabelece como um dos principais resultados do moderno “vetor tecno-científico” (BECKER, 1988)BECKER, Bertha. “A Geografia e o Resgate da Geopolítica”, in RBG 50. Rio de Janeiro: IBGE, 1988., capaz de infligir, pouco a pouco, uma profunda metamorfose sobre as antigas grandes instâncias ou instituições encarregadas do global: Estado, Direito, Igreja, Bancos e Bolsas, Escolas e Universidades (SERRES, 1994)SERRES, M. Atlas. Paris: Julliard, 1994..

 

 

Tecnologia da Informação em Rede

Tecnologia da Informação em Rede mccastro qua, 08/05/2015 - 13:44

O filósofo das ciências Michel Serres (1994), é um dos autores solidário a essa constatação: o artefato tecnológico informacional e a rede de comunicações que interliga suas distintas implementações, impõem uma nova malha espaço-temporal, e podem vir a ter, desta forma, a capacidade de deslocar ou até mesmo dissolver as instâncias do político, do religioso, do direito, da cultura e do saber; as relações de poder, de violência e de força; o comércio e o dinheiro; enfim, as principais instâncias encarregadas desde a aurora da história, de fazer surgir e forjar a relação social.

Esta fascinação que exercem atualmente as mídias, segundo Serres, seria menos sobre o espetáculo de som e imagens que veiculam, do que sobre a descoberta estonteante de que existimos juntos, segundo relações que enfim construímos. Renasce a Utopia, o não-lugar da “realidade virtual”, o grande sonho de todos os tempos, de tecer de novo, na e pela tecnologia da informação, o “tecido social”, longe das relações de poder, de bens e de dinheiro, de meio geográfico...

Serres, no entanto, questiona com toda pertinência: quem comandará este “malha informacional”, o badalado Ciberespaço?; será, mais uma vez, o capital, que se reforçando, se tornando virtual e se apropriando deste mundo sem fronteira, irá conquistar a subjetividade e em definitivo o espaço, o tempo, as coisas, os seres humanos, o próprio devir?

Paul Virilio (1993) é outro pensador que também nos alerta para o risco da difusão progressiva de uma “cibernética sócio-política” que tende à excluir, não somente os mais fracos, mas o livre arbítrio do trabalho humano, em prol de uma “convivência interativa”, que nada mais é do que “uma servidão discreta do ser às maquinas ‘inteligentes’”.

Neste mesmo trabalho, Virilio considera que o ambiente “real”, o espaço das cidades e dos campos, não escapando mais à influência da informatização da Sociedade, será cartografado digitalmente, ampliado ao longo de uma dimensão simulada (o ambiente virtual do computador), analisado e monitorado eletronicamente, e, finalmente, sujeito às decisões e intervenções que se julgarem necessárias sob esta ótica puramente informacional.

Natureza Primeira, Segunda e Terceira

Natureza Primeira, Segunda e Terceira mccastro qua, 08/05/2015 - 13:47

O fato incontestável é que a informatização dos meios sociais de pesquisa, produção, consumo, administração, destruição, educação e entretenimento, pervagando toda a Sociedade vem promovendo enquanto base arquitetônica de uma Natureza Terceira, a fractalização das culturas, das economias, e dos espaços, sob a tensão global-local.

O geógrafo Timothy LukeLUKE, T. W. “Placing Power/Siting Space: The Politics of Global and Local in the New World Order”, in Environment and Planning D: Society and Space 12 (613-628), 1994., em uma recente revisão crítica da Geografia, retoma as ideias de Natureza Primeira e Segunda, e verifica que ambas partilham em suas construções originais de uma certa previsibilidade e confiabilidade, sobre as quais se assentam toda a ideologia de progresso e de desenvolvimento. Entretanto, as noções e os conceitos que estas ideias instituíram em suas origens, já não captam mais, por inteiro, as mudanças em andamento na própria tecnoesfera industrial da Natureza Segunda, nem mesmo na biosfera ecológica da Natureza Primeira. Estas construções estão sendo sobrepostas, interpenetradas, desestabilizadas e reconstituídas por uma Natureza Terceira, da “ciberesfera informacional”.

Meio técnico-científico-informacional

Meio técnico-científico-informacional mccastro qua, 08/05/2015 - 13:55

A concepção de um “meio técnico-científico-informacional”, proposta por Milton Santos (1994), impondo um novo sistema da natureza, parece se assemelhar bastante a esta ideia de Natureza Terceira. Santos afirma que o “meio técnico-científico-informacional” é a nova cara do espaço e do tempo, onde progressivamente “se instalam as atividades hegemônicas, aquelas que têm relações mais longínquas e participam do comércio internacional, fazendo com que determinados lugares se tornem mundiais”. Santos conclui que o espaço geográfico em via de (re)constituição tem uma “substância científico-tecnológico-informacional”. Este espaço não é nem um meio natural, nem um meio técnico, mas a simbiose dos dois. A ciência, a tecnologia e a informação estão na base mesma de todas as formas de utilização e funcionamento do espaço, da mesma forma que participam da criação de novos processos vitais e da produção de novas espécies (animais e vegetais). É a ‘cientifização’ e a ‘tecnicização’ da paisagem. É, também, a informatização, ou, antes, a ‘informacionalização’ do espaço. A informação tanto está presente nas coisas como é necessária à ação realizada sobre essas coisas. (SANTOS, 1994)

SIG e Razão Geográfica

SIG e Razão Geográfica mccastro qua, 08/05/2015 - 14:00

O sig se situa entre os objetos técnicos engendrados por este movimento unilateral da Razão Moderna, e, devido a seu poder e encantamento crescentes não só junto à comunidade de geógrafos mas além de suas fronteiras, precisa ser vivificado por uma dimensão desprezada no próprio âmago desta mesma Razão, a qual denominarei LogosA razão de ser da Inteligência está em sua adequação ao real, através de uma Razão apropriada e conduzida por um Intelecto (Logos), por sua vez capaz de refletir (speculare) esta Inteligência. Segundo a filosofia medieval, a Razão é a faculdade de relacionar a partir de princípios, contemplados pelo Intelecto; ou seja, o Intelecto “em movimento” (Chenique, 1975).. Só esta dimensão, favorecendo uma revoluçãoEm seu sentido literal de voltar, de retornar aos fundamentos da inteligência humana. no seio da própria Razão, pode lhe imprimir novos graus de liberdade e movimentação, que permitam contemplar em meio ao “fazimento” geográfico, a natureza, a ideologia e o valor do SIG, para que este último possa ocupar seu legítimo lugar e papel na Geografia.

Desafios impostos pelas tecnologias da informação

Desafios impostos pelas tecnologias da informação mccastro qua, 08/05/2015 - 14:03

 Para esta revolução é preciso, segundo o cientista político Lucien Sfez (1994), enfrentar três atitudes de pensamento que se inscrevem de forma insidiosa na Sociedade atual, se justapondo progressivamente, para “re-produzir” e “super-valorizar” de forma incondicional a mencionada Natureza Terceira:

  •  a primeira atitude é aquela que favorecendo o discurso da razão instrumental; predomina onde o homem livre diante da tecnologia que criou, a utiliza como uma ferramenta: com a tecnologia o ser humano desempenha as tarefas que determina, permanecendo “senhor e mestre” das atividades das quais concebeu o modo de realização eficaz e eficiente; esta atitude esquece que o aparato, o engenho, o instrumental, é na verdade a ponta de um iceberg, sua sombra se estende além de sua materialidade física, e seu papel de mediador entre pessoa e problema/tarefa acentua o peso da representação que impõe, como interface com a “realidade”;
  • a segunda atitude se manifesta quando, pela adoção contínua, o instrumento se torna familiar; se molda um contexto “natural” que passa a compor com o ser humano uma “estrutura orgânica”, na qual a tecnologia está no mundo, e este através dela é conhecido, partilhado e vivenciado; desta forma, o aparato tecnológico que sustenta a Natureza Terceira, conduz ao declínio do espaço real, de toda extensão, em prol da telepresença, daquilo que o filósofo Paul Virilio (1993) denomina “a intrusão intra-orgânica da técnica e de suas micro-máquinas no seio do vivente”;
  • a terceira e mais recente atitude, se revela pelo inconteste domínio do discurso da técnica, regendo uma visão do mundo, criando uma subjetividade individual e social, a nível de sua própria identidade; a Creatura do Dr. Frankenstein, como toda a sua história, retratam muito bem, embora de forma alegórica, este duplo de espaço social e natural, que vem sendo construído por sobre as tecnologias da informação.

Em uma brilhante análise, Lucien Sfez intitula esta última fase de “tautismo”, uma combinação de tautologia e autismo: um universo em que tudo é informação e comunicação, sem que se saiba a origem e a natureza da informação, sem que se possa determinar seu emissor legítimo ou seu receptor pretendido, o mundo técnico ou nós mesmos, nesse universo sem hierarquias, salvo emaranhadas, tanto a informação como a comunicação constroem sua própria auto-destruição, ou seja, pela sobrecarga e pelo excesso, ambas se desvanecem numa interminável agonia de espirais.

 

Desafios do SIG para a Geografia

Desafios do SIG para a Geografia mccastro qua, 08/05/2015 - 14:06

A Geografia, em particular, precisa enfrentar o desafio não apenas do SIG, mas dos sistemas informacionais que reordenam de diferentes formas as estruturas de pesquisa e de gestão da Sociedade e da Natureza, assim como os sítios institucionais do processo político, econômico, social e cultural, onde:

  • a “lógica da tecnologia”, pela exigência de sua universalização e globalização, em uma constante expansão, transforma tudo em objeto informacional e comunicacional, ao mesmo tempo;

  • a “informacionalização” institui novos códigos sócio-espaciais e sócio-crônicos que padronizam a representação da Sociedade e da Natureza, e de suas relações, apoiando e legitimando de forma insinuante os processos de análise ambiental e de gestão de território;

  • se assiste a coexistência da realidade concreta do lugar, expressa em termos de um contexto sócio-espacial, com as zonas de operação informacional, sustentadas pelo imaginário social alimentado por fluxos, acessos e processos informacionais.

Calibrando o Modelo Figurativo

Calibrando o Modelo Figurativo mccastro qua, 08/05/2015 - 14:16

“Calibrando” este modelo geral de um “Sistema de Informação”, sob a ótica de seu qualificador “Geográfico”, algumas considerações especiais podem ser desenvolvidas, no tocante, em particular, ao cenário nacional:

  • o ambiente social e político atual, o “ecotopo” típico do SIG, tem sido primordialmente ocupado por instituições públicas e acadêmicas, onde ainda mais se ressalta o teor social e político do SIG, com a necessária ênfase em questões relativas a Ética e a Democracia; a mundialização de uma ideologia da informação/informatização vem escondendo sob o manto de uma valorização exclusiva do núcleo tecnológico do SIG, o papel fundamental das demais entidades do modelo figurativo, especialmente a proporção de Geociências (enquanto teoria e práxis), imprescindível para a harmonia do modelo, e sucesso da empreitada SIG; empreitada em que sobressai muito mais sua constituição social, fundada na combinação de fatores culturais exógenos (especialmente a tecnologia estrangeira, prenhe de uma Weltanschauung e de uma decorrente abordagem metodológica) e endógenos, entre os quais se perfilam desde o imaginário nacional-desenvolvimentista até a indisponibilidade e o difícil acesso a dados sobre o país;

  • a organização, geralmente governamental, vive atualmente o desafio da privatização inconsequente, alimentada pela ideologia da perda de identidade do Estado e pela necessidade de se repensar a gestão democrática das instituições públicas; prevalecem, nesta conjuntura ideológica, os projetos com forte acento informacional (e, portanto, com uso intensivo de informática), que como caravanas atravessam os desertos em que vêm se transformando as instituições, se abastecendo aqui e ali de fundos e recursos nos oásis de financiamento nacionais e internacionais; uma empreitada do gênero SIG é impraticável em tais contingências, dada sua exigência de direção e continuidade de esforço;

  • qualquer problema/tarefa, neste contexto é definido de modo impreciso, dentro de projetos com preocupação maior no aporte de recursos tecnológicos, do que na pesquisa e desenvolvimento, no aprofundamento do conhecimento humano e sua projeção sobre Sociedade e Natureza; uma tipologia das problemas/tarefas, necessária para um melhor entendimento do SIG como também para sua direção e avaliação, fica o mais das vezes no campo conceitual;

  • a tecnologia, o núcleo tecnológico elementar do SIG, é geralmente ofertado no mercado de informática, como uma roupagem, uma fantasia a ser devidamente recheada pelo corpo de uma base espacial e de dados (e das demais entidades do modelo figurativo), quando então deixa entrever sua funcionalidade (oculta sob os comandos abreviados de seus menus ou de seus botões), sem, no entanto, deixar transparecer sua metodologia, quanto mais sua “ciência geoespacial”, a não ser após uma árdua e longa experiência em uso; a estratégia de marketing, da maioria das tecnologias ditas sig, encantam pela aparência de simplicidade, ao operar sobre demonstrações construídas sobre bases espaciais e de dados fictícias, ou hipotéticas, ou somente disponíveis em realidades totalmente distintas das encontradas em nosso país;

  • a pessoa, o ser humano, pedra angular do SIG, raramente é reconhecido e tratado como tal; sua capacitação, no sentido de seu ser-capaz de constituir e instituir o SIG “de dentro para fora” do próprio modelo figurativo quase nunca é considerado; apenas interessa sua habilidade, se tanto, na interação com a tecnologia, geralmente objeto dos cursos oferecidos pelos fornecedores de produtos ditos sig; esta “re-habilitação” da pessoa, como se fosse uma máquina a ser re-ciclada, se reduz a uma espécie de treinamento sobre a tecnologia, que mais se assemelha a um adestramento, a um repertório de procedimentos do tipo pavloviano (ação-reação), determinando apenas a interação operacional da entidade pessoa com a entidade alavanca (tecnologia), do modelo figurativo.

Gênese da Ideia Expressa pelo Modelo Figurativo

Gênese da Ideia Expressa pelo Modelo Figurativo mccastro qua, 08/05/2015 - 14:27

Apresentado o modelo figurativo como uma estrutura acabada, porém apontando uma certa dinâmica, onde seus componentes foram analisados e interpretados dentro da figura, de forma circular, e talvez até mesmo tautológica, é conveniente resgatar, tanto quanto possível, a gênese desta estrutura enquanto expressão de um ideia. Afinal, como dissemos anteriormente: estrutura deve ser um conceito “de chegada” e não “de partida”...

Com base no trabalho do filósofo Raymond Abellio (1965 e 1989), pude constatar que um instrumento, como, no caso o SIG, se estabelece através de um processo, que uma vez conhecido pode esclarecer outros tantos aspectos de sua própria natureza.

Esse dito processo percorre etapas, através das quais a Razão pode vir a ser exercida em sua dimensão mais profunda, o Logos, assumindo seu legítimo e devido lugar. Etapas que Abellio define como “sacramentos” ou “asceses”, e que poderiam afigurar-se da seguinte maneira, usando uma terminologia cristã:

  • Concepção, percurso das “águas indiferenciadas” até o nascimento da Razão; uma fase pré-racional até a manifestação de uma Razão instrumental, tecno-científica, que coloca uma separação entre “eu” e “mundo”; nesta etapa, intensifica-se aos poucos este distanciamento entre sujeito e objeto, pelo poder separador dos sentidos, que afastam o mundo da pessoa, para poder percebê-lo...
  • Batismo, quando, pelo despertar da consciência que se pode ter dos próprios sentidos, atuando como mediadores entre um sujeito e um objeto aparentes, uma “relação” passa a ser conscientemente percebida e mantida entre Homem e Mundo; nesta etapa pode se dar uma intensificação da consciência da relação sujeito-objeto, dentro da qual o conceito de “objeto” guarda em si, de forma subjacente, o conceito de “sujeito”...
  • Comunhão, quando, pela intensificação da experiência do Batismo, surge a possibilidade de um novo estado de consciência, condição para a atuação da “Razão Objetiva”, que permite ao ser humano se reconhecer “sujeito” em um mundo de sujeitos, ou melhor, uma "subjetividade pura"...

Constituição de um objeto

Constituição de um objeto mccastro qua, 08/05/2015 - 14:32

As etapas não são todas obrigatoriamente percorridas, e as passagens de uma para outra não são instantes, mas transcursos. Quanto ao processo pelo qual se constitui o chamado “ob-jeto”, “aquilo-posto-adiante” do sujeito (princípio radical que lhe atribui existência), é preciso reconhecer que o primeiro (o objeto) é definido pelo estabelecimento de um conjunto aberto de relações, que crescem a cada etapa, lhe conferindo maior funcionalidade, utilidade, mas sem revelá-lo em seu ser.

Abellio propõe como paradigma da constituição do objeto do tipo empírico ou não (objeto do pensamento), ao longo das referidas etapas ou asceses, uma estrutura, uma “totalidade” instável, atemporal, atuando em um momento não isolável e segundo um movimento dialético, em cada eixo principal; estrutura, que pode aportar novas revelações se aplicada à gênese do modelo figurativo do SIG:

Estrutura

  • primeiramente, um objeto qualquer se constitui por se destacar do mundo, enquanto condição a priori de sua emergência...
  • o mundo se apresenta assim como “pano de fundo”, horizonte de objetividade, não tematizável, não “visível”, mas que garante a “visão” do objeto...
  • o objeto se destacando, tomando sentido, rejeitando sua indistinção caótica com o  mundo, estabelece uma primeira relação, do tipo Objeto/Mundo
  • esta mesma dualidade também se instala do lado do sujeito: um órgão de sentido (visão, audição, etc.) se destaca do fundo “em repouso” da pessoa (enquanto corpo, emoção e intelecto), formando uma segunda relação do tipo Sentido/Pessoa
  • tanto objeto e sentido, como emergências locais de uma realidade global, devem então ser “re-enraizadas”, ou se arriscam a dissolução; a percepção, portanto, se estabelece na proporção que combina duas relações: objeto/mundo=sentido/pessoa
  • a contradição dialética inclusa em toda relação de dois termos, se exprime pela presença implícita nesta mesma relação de um terceiro termo (o sinal /), que não se revela, mas que se situa na instalação do próprio processo dialético, pela percepção sustentada pela Razão (Ratio); ao expressar toda relação, o simbolismo algébrico ou aritmético reconhece este fato; uma relação, portanto, não é apenas dual, mas trina; o traço de divisão-ligação nada mais é do que um sinal simbolizando a presença da “intuição intelectual”, em sua dupla função de dissociação redutora e de reintegração, de análise e de síntese;
  • a função analítica, ligada aos sentidos, estabelece a distância no mundo, a extensão, a possibilidade de mensuração quantitativa; enquanto a função de síntese, de reintegração, retoma a extensão, a quantidade, lhe auferindo uma nova propriedade; ou seja, da separação original se pode ordenar, se firmar uma hierarquia, se atribuir qualidades; pela consciência deste movimento, a relação original se amplifica e se intensifica, por movimentos sucessivos podendo se constituir em uma proporção do tipo ; onde o sinal de igualdade, dois traços superpostos, deve ser entendido como símbolo de uma necessária leitura simultânea de duas relações, em lugar de sua leitura em sucessão; a atuação de uma Razão que analisa e sintetiza o mundo, analisando e sintetizando no mesmo processo, seu “mediador”, o ser humanoA difícil épochè proposta pela fenomenologia transcendental de Husserl, ou seja, o reconhecimento e a exclusão prévias de todos os pressupostos psicológicos ou objetivistas que possam obscurecer a visão que o Intelecto dirige para qualquer objeto do mundo ou o próprio mundo..

 

Partindo da clássica dialética sujeito-objeto para uma nova estrutura dialetizando em si mesmo sujeito e objeto, Abellio faz um convite à reflexão sobre algumas  questões: pessoa ou mundo - quem dá partida, ou seja, quem “inicia” quem? como compreender complexidade e interdependência? seria a percepção uma condição de “sur-presa” do mundo? como entender a teleologia e possíveis direções do processo?

Sistema de Informação Geográfica ou Sistema de Informação Geográfico

Sistema de Informação Geográfica ou Sistema de Informação Geográfico mccastro qua, 08/05/2015 - 15:19

Apesar da ampla difusão da denominação “Sistema de Informação Geográfica”, e de sua sigla “SIG”, cabe uma reflexão sobre o que este título pode estar indicando, além do arte-fato que comumente referencia. Nesta parte da teoria do SIG vai se tentar justamente criticar a aposição do qualificador “geográfico” e, em especial, sua associação a qualquer um dos termos da expressão “Sistema de Informação”.

A qualificação de “geográfico”, independente do termo a que se refere, pressupõe uma filiação ou uma associação à disciplina “Geografia”, entendida como um “sistema de investigação” capaz de se formular também, ela mesma, como um “Sistema de Informação” (Churchman, 1971). De qualquer forma, reconhece ao menos a capacidade do objeto técnico "Sistema de Informação", de representar e expressar integral ou parcialmente a “análise geográfica” em plena ação, face um problema qualquer eleito em função das questões ou do objeto de estudo ideal da Geografia. Ou seja, a qualificação de “geográfico” admite que o "Sistema de Informação" mantém uma certa afinidade seja com o “objeto” e as questões essenciais da Geografia, seja com o “método”, a lógica da análise geográfica.

No entanto, o próprio qualificador “geográfico” no título do SIG, exige uma certa “arqueologia”, que, objetiva e pragmaticamente, deve ser reduzida de imediato, além de balizada por duas questões: existiriam realmente condições históricas, traços no pensamento geográfico, capazes de induzir a concepção e materialização do sig, dentro da Geografia? ou, seria o sig uma construção de “fora para dentro” da Geografia? e, neste último caso, de qualquer forma, que condições vêm favorecendo e/ou dificultando sua adoção pela Geografia?

Uma resposta “curta e grossa” é a seguinte: podem ser percebidos traços na história do pensamento geográfico, que indicam fatores bastante favoráveis a idealização e gênese de um “Sistema de Informação”, legitimamente qualificado como “geográfico”, mas a materialização que veio a ocorrer, através do sig, não responde à sua suposta idealização, concepção e implementação na Geografia O fato de alguns geógrafos (como, por exemplo: Tomlinson, Marble, Peuquet e Dobson, entre outros), terem sido coadjuvantes importantes na construção e internalização dos precursores dos SIGs atuais, dentro da Geografia, não significa de forma alguma que não se tenha adotado o paradigma informático na constituição destes primeiros SIGs, e portanto toda uma filosofia e sistema conceitual exógeno à Geografia.; arrisco afirmar que, o SIG, em sua versão atual, é uma construção de “fora para dentro” da Geografia.

SIG nasce da ou domestica à Geografia

SIG nasce da ou domestica à Geografia mccastro qua, 08/05/2015 - 15:22

Na análise que se segue, foram eleitas duas vertentes marcantes na própria história da Ciência Moderna, com reflexos diretos sobre o discurso geográfico contemporâneo, face o Sistema de Informação Geográfico. A primeira vertente, em concordância com a ideia que, desde sua origem na Modernidade, privilegiou a identidade de uma ciência através de seu objeto de estudo; circunscrevendo saberes segundo perspectivas a priori sobre a “realidade”.

No caso da Geografia, após diferentes ensaios de formulação de seu objeto de estudo, tem prevalecido a seguinte proposta, enquanto delineador de um domínio, de um campo, e fundador de um ideário: estudo da relação ou das relações Sociedade e Natureza.

Em consonância com o objetivo desta teoria do SIG, entende-se que o qualificador “geográfico” como que sufixado ao título “Sistema de Informação” só pode ter algum sentido, através da clara associação de sua “razão de ser”, enquanto pretenso instrumental da Geografia, com o “objeto de estudo” desta ciência. Foi com este propósito e dentro dos limites de uma perspectiva “tecnológica”, que se ousou partir nesta arriscada especulação sobre o objeto da Geografia, questão que até para um geógrafo de formação e profissão, representa um dos mais difíceis desafios.

A segunda vertente a ser percorrida, privilegiando, por sua vez, uma definição de ciência com base no “método” adotado e, por conseguinte, determinando a forma de apresentação dos resultados, exaltou, no caso da Geografia: ora uma forma discursiva, herdada da cultura latina impressa no pensamento ocidental, com forte orientação das antigas ciências do trivium (linguagem, retórica e lógica); ora uma abordagem iconográfica (pictórica, geométrica e simbólica), expressa por meio de mapas, fundamentada nas antigas ciências do quadrivium (matemáticas, geometria, astrologia e música, particularmente as primeiras), assistida pela técnica e pela evolução acelerada da tecnologia nestes últimos séculos; ora uma combinação das duas formas, discursiva e iconográfica.

Da mesma forma que na primeira vertente, se reconhece o imenso espaço de saber que se descortina ao avançar por essa segunda vertente, e a audácia, neste caso, reside em restringi-lo a termos conhecidos, ou seja, o “jogo de linguagem” que se estabelece com a informática, enquanto tecnologia da informação, que se arvora a se imiscuir no próprio método das ciências naturais e humanas, assim como na apresentação de seus resultados. Afinal de contas, uma ciência também precisa se preocupar com sua transmissão, com a comunicação das “informações” que sustentam e representam suas investigações.

Essas considerações servem de abre-ala para a questão se na tradução de GIS para SIG, deve o qualificador deste Sistema de Informação ser entendido como afirmando um sistema afim à Geografia ou pertencente à Geografia. Servem também para estabelecer se o qualificador geográfico se refere à "informação" ou ao "sistema de informação". Nossa preferência recai sobre esta última opção por razões que se apresentarão a seguir.

SIG e Geografia

Sistema de Informação “Geográfico”, pela afinidade com o objeto...

Sistema de Informação “Geográfico”, pela afinidade com o objeto... mccastro qua, 08/05/2015 - 15:41

Na Geografia, a proporção Objeto/Mundo = Sentido/Corpo, fundamentada pelo pensamento de Abellio ganha contornos elucidativos quanto ao significado do "geográfico" pela afinidade com o próprio objeto da Geografia. Esta proporção adequada aos termos aqui analisados se torna portanto Geografia = Geógrafo, em que a primeira razão Objeto/Mundo poderia se equivaler à Geografia e a segunda razão Sentido/Corpo, ao GeógrafoSe entendido o objeto como “objeto geográfico”.. Desta maneira é possível a proporção Geografia = Geógrafo,  além de sua dinâmica própria, receber uma movimentação por parte da dupla razão que a configura, como simboliza os dois traços horizontais do sinal de igual que estabelece a proporção. Esta dupla razão está em constante tensão segundo uma direção ascendente e uma descendente: enquanto uma ciência voltada para compreensão da relação Sociedade-Natureza na perspectiva geográfica, ou para o controle e manipulação, subserviente ao princípio cartesiano de ser "mestre e senhor da natureza", portanto aos interesses e às ideologias do progresso e do desenvolvimento, inclusive em sua versão mais atual, o “desenvolvimento sustentável”.

A tensão entre estes movimentos, ascendente e descendente, reafirma ainda mais a necessária presença e ação do Logos, enquanto “diretor” da da dupla razão em situação de proporção; presença e ação capazes de reunir estes movimentos de forma harmoniosa, concedendo à “ciência para compreensão” o instrumental adequado, e à “ciência para manipulação”, a sabedoria necessária.

De certa maneira, não foram respondidas as questões que fundaram esta incursão pelo “objeto” das Geociências e sua possível afinidade com a proposta de um SI, qualificado como “geográfico”. Entretanto, parece ficar mais evidente a importância de uma crítica aprofundada nesta direção, na tentativa de se resgatar a “orient-ação” necessária para a justa apropriação do sig pelas Geociências, ou vice-versa, para a justa apropriação das Geociências pelo SIG, como pretendem os adeptos de um extensivo “programa” de informatização das Geociências, o Geoprocessamento (vide suas proposições em Dobson, 1983, 1993a e 1993b)DOBSON, J.E. “Automated Geography”, in Professional Geographer 35 (2), 1983; “A Rationale for the National Center for Geographic Information and Analysis”, in Professional Geographer 45(2), 1993a; “The Geographic Revolution: A Retrospective on the Age of Automatede Geography”, in Professional Geographer 45 (4), 1993b..

Sistema de Informação “Geográfico”, pela aplicação do método...

Sistema de Informação “Geográfico”, pela aplicação do método... mccastro qua, 08/05/2015 - 15:53

A história da geografia, é a história da confusão entre o modelo e a realidade. Franco Farinelli

Geografico-Metodo

 

Tuathail valoriza o geodiscurso

Tuathail valoriza o geodiscurso mccastro qua, 08/05/2015 - 15:59
  1. O geógrafo Gearóid Ó Tuathail (1994)Ó TUATHAIL, G. (1994), “(Dis)placing Geopolitics: Writing on the Maps of Global Politics”, in Environment and Planning D: Society and Space 12, 1994. procura resgatar uma visão crítica, que possa oferecer e explicitar uma re-valorização do discursivo na Geografia, favorecendo um equilíbrio entre ele e o iconográfico.
  2. O mapa é indiscutivelmente um dos que se destaca como um “retrato”, onde se congela o dinâmico e se homogeneíza, segundo uma sistema classificatório, a paisagem naturalmente heterogênea. O mapa, produto de uma visão estruturalista, é uma construção geométrica. Sua espacialidade é a de um “grafo” matemático, de formas e figuras em um espaço euclidiano, isotrópico, e abstrato. O mapa estruturalista pode ser compreendido como um produto matemático, uma grade geométrica bidimensional do mundo, um “grafo” fixado e acabado, uma figura estável, uma composição linear de um mundo.
  3. Em contraste com a leitura estruturalista de um mapa, existe uma proposta de leitura do mapa como um “tecido”, em sintonia com a própria palavra latina original, mappa. Mapear seria escrever ou tecer um produto textual ou têxtil, um “geo-grafismo”, onde o hífen denotaria o indeterminado, o que recusaria qualquer fixação matemática; revelando também um movimento que desafiaria a redução a qualquer flatland bidimensional.
  4. Radicalizando desta forma a compreensão deste  instrumento básico, o mapa, Ó Tuathail revitaliza o estudo da “Geo-grafia”, como o estudo da projeção interminável de “geo-grafismos”, “mapas de significado”, pelo ato de (re)produzir um “gráfico”, ou “tecido”, ou “texto” de um sistema-mundo.

Christian Jacob e a arte do mapa

Christian Jacob e a arte do mapa mccastro qua, 08/05/2015 - 16:07
  1. O historiador Christian Jacob (1992)JACOB, C. L’Empire des Cartes. Paris: Albin Michel, 1992., promove uma reflexão sobre o entrelaçamento entre mapa e texto, tão presente literal e iconograficamente nos mapas da Renascença, e discorre sobre sua desunião posterior,  fruto de um processo de normalização progressiva, que levou mapa e texto, a se constituírem como objetos totalmente distintos um do outro. Entretanto, a autonomia da carta em relação ao livro não rompeu com sua pertença à um universo de saber essencialmente discursivo.
  2. O conflito entre o legado simbólico de um mundo antigo, esvanecendo diante da ciência emergente e da forma cartográfica em busca da precisão, se fazia ainda sentir na arte renascentista de produção de mapas, enriquecendo as cartas com todo o tipo de textos, símbolos e cores, que atualmente seriam qualificados como “ruídos” indesejáveis em uma representação cartográfica.
  3. Entretanto o questionamento que Jacob coloca de inicio, não é este, mas justamente: afinal de contas, o que é o mapa? Questão geralmente sem uma resposta direta, pois  é costume se definir o mapa como imagem de um “outro”, que não é o mapa. Esta dificuldade revela, no entanto, um aspecto da natureza do mapa: a condição de sua eficácia intelectual e social está nesta sua qualidade de “transparência”: esta sua “ausência” de ruído, que possa interferir no processo de comunicação. Desta forma pode-se definir o mapa como um significado sem significante; o mapa se esvanece na operação visual e intelectual que desdobra seu conteúdo.
  4. O mapa não é portanto um objeto, mas uma função. Uma função que tem seu ponto de partida aquém do momento em que o mapa em si é consultado, ou seja, ao se ocultar enquanto “veículo” de um saber,  o mapa continua a atuar como um mediador interposto entre o espaço e sua representação, uma “ilusão” construída laboriosamente segundo uma Weltanschauung, um contexto sócio-político, procedimentos técnicos, convenções gráficas e artifícios visuais. A Figura abaixo tenta retratar esta atuação peculiar da carta, enquanto instrumental de visualização, simbolizada por um “óculos”, posicionado diante de seu usuário, por uma prévia construção de um “geógrafo”, que, desta maneira, “captura”, “apreende” o olhar do usuário, em lugar de uma visão direta do mundo, inapreensível em escalas geográficas menores.

Oculos

O mapa digital

O mapa digital mccastro qua, 08/05/2015 - 16:09

O SI qualificado como “geográfico”, se oferece como o gerador por excelência da “carta digital”, um produto paradoxalmente distinto e, ao mesmo tempo, “mimético” do mapa geográfico clássico. Esta “carta digital” conjugada com todo o artifício disponibilizado pela TI moderna, fascina e cativa especialmente por sua imensa “elasticidade”, sua “regenerabilidade” quase instantânea, sob novas e múltiplas aparências, e sua “conformidade” imediata aos desígnios e à retórica de seu criador.

A carta digital, desta maneira, vem se insinuando na pesquisa de natureza geográfica, com toda força e todo apelo que goza a informatização geral das disciplinas científicas, em seu trabalho mais essencial. A ação combinada, dentro das Geociências, de técnicas diversas como o sig, o processamento de texto, a editoração eletrônica, a multimídia, e outras tantas com base na TI, oferecem a possibilidade de criação perpétua de resultados antes inimagináveis.

Brunet e seus «chorèmes»

Brunet e seus «chorèmes» mccastro qua, 08/05/2015 - 16:12

Nesta direção parece se situar o trabalho do geógrafo Roger Brunet (1980, 1990), e do grupo GIP-Reclus, ao propor toda uma nova linguagem para mapear a organização espacial da Sociedade. Segundo Brunet, o que denominou de “chorèmes” seriam o novo “alfabeto do espaço”, único capaz de fazer face a atual organização do espaço, enquanto obra humana. O espaço a que Brunet se refere seria uma dimensão intrínseca da Sociedade, que se revela não apenas através das formas visíveis e materiais da ação antrópica sobre a Natureza, mas também se organiza por campos de força, fluxos que só a análise geográfica pode desvendar.Além dos trabalhos de Brunet e seu grupo de seguidores, constantes da bibliografia, recomenda-se duas críticas notáveis em Scheibling, 1994 e em Herodote, 1995.

Brunet defende uma concepção de espaço geográfico, distinta de espaço natural desde sua origem, pela própria relação principiadora Homo-Natura. Partindo de uma espaço geográfico de natureza social, cujas formas e estruturas provêm do “fazimento” humano, Brunet identifica processos de construção deste espaço: a apropriação, a exploração, a comunicação, a habitação e a gestão. “Atores do espaço”, mobilizados por estes processos, produzem e consomem o espaço geográfico, por sua atuação consciente ou não.

Para Brunet compete ao geógrafo estudar os espaços concretos e o espaço geográfico, este último uma abstração, conforme conceituado, onde se podem analisar, identificar e verificar as leis do espaço. Não se trata, segundo Brunet, de um espaço matemático, nem geométrico, nem físico, mas de um espaço das “formas” e das “estruturas” que ordenam o espaço da Sociedade. Os “chorèmes” (termo inventado por Brunet a partir do radical grego khorê, de corografia), seriam as unidades elementares que permitiriam representar qualquer espaço, em qualquer escala, garantindo a necessária articulação entre o espaço geográfico conceitual e o espaço concreto, solucionando a velha querela entre o nomotético e o idiográfico na Geografia.  

As posições de Roger Brunet, embora revelem um trabalho e uma longa reflexão, ensaiada desde o  inicio dos anos 70, e possam significar uma tentativa válida de avanço no pensamento geográfico, sempre sob o desafio das questões que se colocam sobre a relação Sociedade e Natureza, estão sendo combatidas por geógrafos de peso como Yves Lacoste, que até fez questão de dedicar um recente número da revista Herodote à crítica da proposta de Brunet, e do próprio Sistema de Informação Geográfico.

Preocupado com a proliferação “perniciosa”, inclusive no ensino, de representações “coremáticas”, Lacoste toma posição de denúncia contra a “banalização” da Geografia através da avalanche de esquemas metafóricos, com base nos ditos “chorèmes”. Confundindo esquematização com modelação, démarches que traduzem atitudes intelectuais muito diversas, os seguidores de Brunet tentam impor um modelo único, incapaz de apreender a diversidade de fenômenos espaciais tratados pela Geografia, e que sobressaem de categorias científicas bastante heterogêneas, segundo Lacoste.

Finalmente, «geográfico» pelo método...

Finalmente, «geográfico» pelo método... mccastro qua, 08/05/2015 - 16:17

Concluindo, a afinidade com o método geográfico, visto sob o ângulo de sua intensa associação com o mapa, pode ser uma das razões que explique o qualificador “geográfico”, dado especialmente o caráter propositalmente mimético adotado pela insinuante informatização, em seus estágios de conquista. Entretanto, ficam em aberto muitas questões para serem melhor aprofundadas, tais como:

  • a partir de um certo limiar de apreensão cognitiva do espaço, para compreender o espaço geográfico, o observador necessita assumir uma posição privilegiada que lhe confira uma visão ortogonal deste espaço, enquanto um mosaico de áreas diferenciadas; desde a antiguidade, que o “analógico” do mapa tradicional bidimensional vem tentando estabelecer a proporção justa de traços, cores, símbolos e textos, para a representação do multidimensional em uma Flatland, de onde se deve empreender um processo de reconstrução, onde memória e imaginação assumem um papel ativo; com a carta digital, ainda comumente estabelecida pela desconstrução/reconstrução do mapa tradicional, mas oferecendo a partir de então inúmeras possibilidades de “manipulação”, estaria se constituindo um novo arranjo epistemológico pessoa-mapa, de forte mediação tecnológica? em que termos? com ou sem uma maior liberação da Flatland imposta pelo mapa tradicional?
  • a modelagem e a simulação ofertadas a partir da carta digital parecem descortinar um imenso horizonte, no qual o “virtual” assume o papel, muitas vezes, do “real”, estimulando algumas facetas dos “sentidos” e de aspectos psicofísicos do ser humano, a nível do intelecto, do emocional e do institivo-motor; certamente não se está articulando o mesmo “aparato” humano que é posto em operação diante do mapa tradicional, muito menos diante da paisagem “real”; que metamorfoses esta nova dinâmica cognitiva deve desencadear, até mesmo a nível epistemológico?, que transformações estão sendo promovidas pela “análise espacial” com base em um SIG?
  • a aparência sedutora que o "Sistema de Informação" qualificado de “geográfico”, disfarçado sob o mesmo tipo de invólucro lúdico de um “jogo” em computador, é um convite à um outro tipo de “virtual”: o “geógrafo virtual”; dominando a tecnologia em seus mínimos detalhes, conhecedor dos dados georeferenciados disponíveis, esperto quanto as corretas práticas cartográficas, mas sem qualquer formação geográfica, indivíduos de distintas bases educacionais se arvoram a praticar “análises espaciais”, de forte pretensão geográfica; estaria se instituindo, como naqueles “jogos de aventura” em que cada jogador se identifica integralmente com um personagem, uma “realidade virtual” muito mais ampla, em que se reproduz não apenas o espaço mas seu observador, e mais ainda, sua inteligência?

Sistema de Informação “Geográfico” como qualificador do “Sistema”...

Sistema de Informação “Geográfico” como qualificador do “Sistema”... mccastro qua, 08/05/2015 - 16:23

É preciso reconhecer que um "sistema" não deveria ser qualificado posto que se refere a uma "totalidade" enfatizando a afinidade e dependência do que quer que seja nesta totalidade. No entanto, o "Sistema de Informação" pode e deve ser qualificado pois representa tão somente uma janela que oferece uma visão sobre uma aparente parcela do "sistema" ou da "totalidade".

Sistem-geografico

GIS - Geographic Information «Science»

GIS - Geographic Information «Science» mccastro qua, 08/05/2015 - 16:25
  1. A proposta de criação do National Center for Geographic Information and Analysis - NCGIA, segundo exposto pelo geógrafo Jerome E. Dobson (1993a)DOBSON, J.E. “A Rationale for the National Center for Geographic Information and Analysis”, in Professional Geographer 45(2), 1993a., um de seus principais idealizadores e fundadores: a “maior e mais transcendental (sic) necessidade da Geografia é compreender as ligações conceituais e funcionais entre o GIS e o núcleo intelectual da Geografia”. Dobson se justifica perante os colegas geógrafos pela centralidade concedida ao GIS, pois o considera o maior “condutor” de conhecimento de e para o mundo científico e técnico.
  2. “A revolução do GIS se caracterizou como um deslocamento fundamental dos meios de representação e análise da realidade geográfica, do analógico para o digital”. Para Dobson, o analógico se tornando incapaz de lidar com a explosão de informações a partir do Renascimento, colocou a Geografia em uma posição de desvantagem, comparativamente a outras disciplinas; graças às tecnologias da informação, este quadro está se revertendo...
  3. A revolução liderada pelo GIS, como propugna Dobson, corre o risco de se parecer mais com uma “sublevação”, uma “subversão” promovida por elementos exógenos à tradição do pensamento geográfico. Nunca é de mais ressaltar a importância do ser humano na condução equilibrada desta proposta de metamorfose forçada “de fora para dentro” da Geografia. A informatização da disciplina é inevitável, mas não pode implicar de maneira alguma na transformação das pessoas em periféricos de sig, “dispositivos” lúdicos acionados pela interação com o sig.

A revolução do sig só tem sentido se tomada strictu sensu conforme o significado original da palavra “revolução”, um movimento que reporta à origem, a partir do qual tudo se forma segundo sua razão de ser. Este tipo de revolução é “permanente”, não sendo ativada “de fora para dentro”... 

Conclusão sobre a natureza do SIG

Conclusão sobre a natureza do SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 16:33

Ao se encerrar este discurso, esta breve travessia pelo “labirinto” que guarda o mistério da natureza do Sistema de Informação Geográfico, a sensação que se tem é que não se chegou a uma conclusão. Fica-se, na verdade, com um misto de alegria e frustração. Alegria pelo exercício da reflexão e pelos vislumbres que foram obtidos ao longo do percurso, e frustração por não se ter efetivamente alcançado ou desvendado “o que é” do SIG, no “centro” deste labirinto. Mas, como diz o poeta: “Tudo vale a pena, se a alma não é pequena”...   

De fato, a questão permanece, assim como as reflexões que a alimentam, e que em parte foram apresentadas nesta teoria do SIG. A natureza do Sistema de Informação Geográfico, ou de qualquer “Sistema de Informação”, continua sendo um mistério, talvez por sua íntima associação com um campo que ainda desafia a compreensão humana, a mente, sede desta mesma compreensão. O modelo figurativo do SIG nos serve apenas como algo apontando para este mistério no afã de compreensão DO QUE É O SIG?.

Como um preâmbulo a uma “história sem fim”. Esta é a maneira que pretende se colocar este trabalho, por meio do qual também pude fazer um registro ordenado e objetivo, das constatações que alcancei em minha jornada pessoal, profissional e agora acadêmica, sobre alguns aspectos menos técnicos, de uma das tecnologias mais instigantes e revolucionárias da humanidade, a informática (cuja essência busquei em outro estudo). Uma investigação que só se tornou possível através da crítica radical de uma de suas aplicações mais atuais, o Sistema de Informação Geográfico.

Informatizacao

 

Práxis do SIG

Práxis do SIG mccastro qua, 08/05/2015 - 19:25

O SIG pode ser constituído sobre um computador e instituído em uma organização, exclusivamente sob a regência da tecnologia sig e do meio técnico-científico-informacional que a produziu e que esta tecnologia reproduz. Ou pode ser constituído e instituído sustentando neste processo de integração do sig a um projeto acadêmico ou empresarial a constante visão do modelo figurativo do SIG, enquanto paradigma do processo de integração.

Para não ficar totalmente a mercê do sig e do meio, e, deste modo, ter certo controle sobre o processo de constituição e instituição de um SIG, é indispensável seguir uma metodologia de integração de tecnologias da informação, entre aquelas já consagradas pela Informática. Algumas questões específicas da constituição e instituição de um SIG, devem ser contempladas o que implica na adequação da metodologia de integração desta espécie de tecnologia da informação. Vamos examinar a metodologia a ser adotada, os ajustes necessários e uma série de considerações práticas pertinentes a natureza do SIG, tendo sempre em mente o modelo figurativo do SIG.

Do sig ao SIG - um projeto de integração

Do sig ao SIG - um projeto de integração mccastro ter, 09/25/2018 - 14:10

Com o desenvolvimento atual da tecnologia da informação e da comunicação (TIC) surgiram os chamados "aplicativos". É possível enquadrar o sig nesta categoria, embora ainda guarde muito da categoria dos "pacotes" como eram conhecidos os sistemas semi-prontos comercializados há alguns anos. Estas categorias de software, eventualmente acompanhando um hardware, necessitam conforme sua maior ou menos funcionalidade e base de dados, de uma metodologia de integração de sistemas, não de desenvolvimento de sistemas. Alguns erros se cometem ainda hoje quando se tenta "inventar a roda", ou seja desconsiderar aplicativos ou pacotes e desenvolver algo similar. Alguns erros também se cometem ao conduzir a apropriação e integração de aplicativos ou pacotes em um projeto de informatização na academia ou na empresa, através de uma metodologia clássica de desenvolvimento de sistemas.

  • Integração de sistemas
  • Concepção e realização de sistemas com predominância informática, como o SIG, pela integração de constituintes com vistas a fornecer ao utilizador um sistema integrado em seu ambiente e respondendo às necessidades expressas, acompanhado de serviços necessários a sua operacionalidade.

    • equipamentos e programas padrões como o sig
    • equipamentos e programas específicos como as extensões de um sig
    • equipamentos não informáticos
  • Realizar sistemas complexos como o SIG com uso intensivo de informática
    • Fases
      • Engenharia de sistema onde se concebe o sistema decompondo-o em subsistemas
        • Identificação de constituintes realizáveis por engenhos
        • Especificação dos constituintes
        • Definição da integração dos constituintes.
      • Realização dos constituintes pelos engenhos
      • Integração de sistema onde o sistema é realizado pela composição de seus constituintes, verificando seu inter-funcionamento
    • O conjunto engenharia e integração do SIG se denominam engenharia de sistema
  • Integração funcional entre aplicações do SIG
  • Integração geo-semântica entre bases de coordenadas de objetos espaciais e base de atributos georeferenciados
  • Integração técnica e tecnológica

Do sig ao SIG - ciclo de constituição

Do sig ao SIG - ciclo de constituição mccastro ter, 09/25/2018 - 14:29

Resumo da estrutura de constituição de um SIG, de acordo com uma metodologia de integração do sig. Este ciclo de constituição do SIG é acompanhado em paralelo por dois outros ciclos indicados a seguir, o Ciclo de Dados e o Ciclo de Papéis. Dada sua centralidade no modelo figurativo do SIG, é du suma importância um caminho para sua integração aos trabalhos de representação e análise espacial, sejam estes apenas atividades ou tarefas cotidianas ou mesmo projetos com uma missão e metas muito bem definidas.

  • Ciclo de constituição
  • Estudos iniciais
    • Estudos
      • Oportunidade
      • Viabilidade
    • Agenda de requisitos ou caderno de encargos
      • Necessidades
      • Objetivos
      • Restrições
        • Existente
        • Sistemas futuros
        • Políticas-institucionais
  • Área de estudo e contexto geográfico
  • Definição SIG
    • Especificação
    • Concepção
  • Realização SIG
    • Constituintes
    • Integração
    • Validação
  • Instalação SIG
    • Retomada do disponível
    • Transferência para o novo
    • Desdobramento
    • Implementação
  • Operação SIG
    • Exploração
    • Administração
    • Manutenção
    • Reengenharia
  • Desativação SIG
    • Dados
    • Mapas e análises
    • Reutilização

Do sig ao SIG - ciclo de dados

Do sig ao SIG - ciclo de dados mccastro ter, 09/25/2018 - 14:43

O ciclo de dados possivelmente é aquele de maior relevância para constituição de um SIG a partir do sig. As etapas a seguir são apenas títulos do que requer um elaboração maior que se seguirá.

Ciclo dos dados

  • Especificação
  • Aquisição
  • Análise
  • Organização
  • Apropriação

Do sig ao SIG - ciclo de papéis

Do sig ao SIG - ciclo de papéis mccastro ter, 09/25/2018 - 14:47

Duas grandes categorias de papéis se destacam na constituição do SIG a partir da integração do sig, em conformidade com o modelo figurativo do SIG. Especialmente se mais do que constituir um SIG se pretende alcançar sua instituição. Aqui resumem-se estas duas grande categorias de papéis: aqueles cuja atividade visa prover o necessário para a constituição do SIG, e aqueles cuja atividade visa estabelecer os objetivos, os requisitos, as condições e finalmente a própria utilização e aproveitamento pleno da funcionalidade disponibilizada pelo SIG.

Papéis

  • Cliente
    • Competência do domínio do problema a resolver
    • Definir finalidade, necessidades, restrições e imposições
    • Verificar e validar solução proposta
    • Enquanto mestre da obra
      • definir problema
        • necessidades a satisfazer
        • objetivos a alcançar
        • restrições a respeitar
        • Compor a versão inicial do "caderno de encargos"
      • contratação
        • carta-convite
        • seleção de ofertas
        • indicação de provedor
      • apoio ao provedor na formulação detalhada de requisitos
      • análise de documentos produzidos no projeto
      • homologação nas revisões de andamento
      • infra-estrutura de recepção da solução
      • apropriação da solução desenvolvida
  • Provedor
    • Competência nos domínios
      • solução sócio-técnica
      • estado da arte
      • savoir-faire
    • Especificar solução resposta à demanda do cliente
    • Garantir a constituição da solução
    • Orientar a instituição da solução
    • Enquanto mestre d'obra
      • elaboração de proposta de sistema-solução aos requisitos do cliente
      • concepção, desenvolvimento e instalação do sistema-solução
      • análise detalhada de requisitos e refinamento iterativo
      • especificações e metodologias
      • organização e gestão do projeto de desenvolvimento
      • composição e organização da equipe de projeto
      • revisões técnicas
      • adoção de padrões e normas
      • apresentação da solução
      • garante a constituição do SIG

Do sig ao SIG - detalhamento constituição-instituição

Do sig ao SIG - detalhamento constituição-instituição mccastro ter, 09/25/2018 - 15:12

 

  • "Integrador SIG"
    • Arquiteto
      • Complexidade funcional do problema a solucionar
      • Complexidade técnica da solução
      • Conciliação de múltiplos compromissos
        • necessidades e restrições
        • estado da arte e tecnologias disponíveis
        • fontes diversificadas
          • bases de coordenadas de objetos espaciais
          • bases de atributos georeferenciados de objetos espaciais
    • Engenheiro
      • Implementação da solução SIG
      • Gestão de projeto
  • Conceitos
    • Componentes básicos
      • SIG
      • sig
      • Bases
        • Coordenadas de objetos espaciais
        • Atributos georeferenciados a objetos espaciais
      • Utilitários
      • Sistemas complementares
    • Métodos, modelos, técnicas e ferramentas
      • Engenhos sig = realizar produtos como a "análise espacial"
      • Arquitetura = conceber um SIG conjugando vários engenhos e bases
      • Integração = realizar sistemas pela composição de diferentes sistemas
    • Fases de integração de um SIG
      • Fase de engenharia do SIG
      • Fase de realização ou implementação dos componentes
      • Fase de integração propriamente dita do SIG
    • Processo de integração de um SIG
      • Integração funcional
      • Integração semântica
      • Integração técnica
      • Arquitetura do SIG
  • Integrador do SIG
    • Gestor do projeto ou programa
    • "Mestre d'obra" do SIG
    • Proposta
      • orçamento
      • prazos
      • funcionalidades
      • qualidade do SIG
    • Tipologia de SIGs
      • ZEE
      • Gestão do Território
      • Cadastral
  • Processos de integração do SIG e seu domínio
    • Ciclo de vida de um SIG
      • Estudos preliminares
        • Oportunidade
        • Viabilidade
          • Técnica
          • Financeira
        • "Agenda de Requisitos"
          • Necessidades
          • Objetivos
          • Recomendações técnicas
          • Limitações
          • Restrições
        • Proposta
          • Especificação
          • Carta-convite
      • Integração
        • Definição do SIG
          • Especificação
          • Concepção
        • Realização
          • Constituintes
          • Integração
          • Validação
      • Instalação
        • Integração no ambiente definitivo
        • Capacitação
      • Operação
        • Exploração
        • Administração
        • Manutenção
          • Preventiva
          • Corretiva
        • Evolução
          • Funcioinal
          • Ambiental
          • Tecnológica
        • Transformações
        • Migrações
        • Reengenharia
      • Desativação
        • Aplicações
        • Dados
        • Reciclagem
        • Reutilização
    • Ciclo de integração de um SIG
      • Fase descendente da concepção
      • Fase ascendente de realização
    • Principais processos do projeto de integração do SIG
      • Visão contratual
        • Processo de aquisição de constituintes do SIG
        • Processo de fornecimento de constitintes do SIG
        • Responsabilidade do gestor do projeto e do "mestre d'obra" do SIG
      • Visão gerencial
        • Gestão do projeto
        • Gestão da integração do SIG
        • Gestão da comunicação e disseminação
      • Visão de engenharia
        • Processos de integração
        • Processos de operação
        • Processos de manutenção
      • Visão logística
        • Processos de sustentação
          • Documentação
          • Gestão de configuração
          • Instalação
          • Serviços
          • Segurança
          • Material
        • Processos de distribuição
      • Visão de qualidade
        • Processos de controle de qualidade
        • Processos de certificação
      • Visão de maturidade
        • Processos de aquisição
        • Processos de disseminação
        • Processos de aprendizado
    • Domínio do gestor do projeto ou programa
      • Processo de aquisição
        • Agenda de requisitos
        • Seleção da proposta vencedora
        • Escolha do "mestre d'obra" do SIG
        • Validação das especificações
        • Receita do SIG
      • Processo de gestão
    • Domínio do projeto pelo mestre d'obra do SIG
      • Processo de aquisição\fornecimento de constituintes
        • Análise das ofertas
        • Critérios de avaliação
        • Estratégia de solução
        • Estimativa de custos e prazos
        • Proposição
      • Processo de gestão
        • Cronograma com responsabilidades
        • Gestão administrativa
        • Gestão técnica
        • Gestão contratual
        • Controles, revisões e auditorias
        • Gestão de riscos
        • Reuniões
      • Processo de integração
        • Métodos
        • Modelos
        • Ferramentas
      • Processos de sustentação técnica
        • Configuração
        • Documentação
        • Serviços logísticos
      • Processo de garantia de qualidade
    • Domínio do empreendimento de integração do SIG
      • Boa utilização dos meios e competências
      • Capitalização de cada projeto em matéria de competências e savoir-faire
        • Funcionalidades reutilizáveis
        • Técnicas
        • Métodos
        • Ferramentas
        • Modelos
        • Melhorias
      • Compartilhamento de meios técnicos e logísticos
      • Política de investimento em métodos e ferramentas de produtividade
      • Capitalização da memória de cada projeto SIG

Do sig ao SIG - engenharia do SIG

Do sig ao SIG - engenharia do SIG mccastro ter, 09/25/2018 - 15:17

 

Processo de engenharia do SIG

A engenharia do SIG é aquela parte do ciclo de construção do SIG que tomando por base a sua necessidade, expressa sob a forma de uma "agenda de requisitos" de um projeto matriz, conduz à especificação do SIG constituído\instituído, composta de especificações de seus constituintes.

  • Definição de "engenharia de SIG"

    A engenharia do SIG é a arte de dominar sua complexidade aportando soluções ao conjunto de problemas ao nível de seus constituintes e de sua integração, à montante e à jusante.

    • Objeto = SIG
      • SIG propriamente dito = Sistema de Representação e Análise Espacial
        • sig
        • Bases digitais
      • Subsistemas complementares
        • Sistema de Dados Básicos
        • Sistema de Referência a Dados
        • Sistema de Programas Afins
        • Sistema de Legislação Espacial
    • Objetivos
      • Garantir a adequação do SIG às necessidades reais por uma justa especificação dos requisitos
      • Prever as propriedades e comportamentos do SIG
      • Garanti-las pela concepção de uma adequada arquitetura de constituintes
    • Compromissos múltiplos
      • Mundo do problema a solucionar
        • missões a realizar
        • objetivos
        • limitações
        • restrições
      • Mundo da solução SIG
        • Possibilidades das tecnologias existentes e do estado da arte
        • Padrões
        • Produtos no mercado
        • Restrições orçamentárias
        • Prazos de projeto
    • Elementos
      • Concepção do sistema
      • Sistema-objeto, entendido como o sistema que contextualiza o SIG e onde este se insere
        • Sistema humano a montante
          • Organização
          • Processo decisório
        • Sistema operacional a juzante
          • Problemas de otimização
          • Confiabilidade
          • Ergonomia
      • Ambiente do sistema-objeto
        • Efeitos técnicos, indiretos das incorreções do SIG
        • Estudos de impacto
          • Riscos
          • Efeitos sociais
      • Ciclo de vida do SIG
      • Sustentação logística
      • Engenhos e tecnologias
      • Abordagens
        • Processo de engenharia do SIG

          Define as démarches a mobilizar ao longo do ciclo

        • Modelização em engenharia do SIG

          Concepção de um SIG consistindo em modelizá-lo segundo diferentes pontos de vista e de maneira mais e mais detalhada, por aproximações sucessivas, até sua realização

Do sig ao SIG - níveis de abstração

Do sig ao SIG - níveis de abstração mccastro ter, 09/25/2018 - 16:07

 

Níveis de abstração

O processo de engenharia do SIG segue uma démarche onde o SIG a conceber é visto sucessivamente a diferentes níveis de abstração

  • contextual

    Funcionalidade e restrições correspondentes à missão do projeto e consequentemente do SIG que o sustentará

    • área geográfica de abrangência
    • sistema -objeto do SIG
  • conceitual - arquitetura funcional

    Aspectos funcionais do SIG, definindo as aplicações que oferece contribuindo para a missão do projeto; restrições, impedimentos e limitações.

    • competências e limitações humanas
    • funcionalidade e restrições técnicas
  • estrutural - arquitetura orgânica

    Aspectos organizacionais relevantes

    • organograma
    • arquitetura de informática
  • concreto - arquitetura física

    Aspectos operacionais

    • personagens e papéis
    • configuração tecnológica

Do sig ao SIG - fases do processo

Do sig ao SIG - fases do processo mccastro ter, 09/25/2018 - 16:10

 

Fases do Processo

Processo interativo de resolução de problemas visando transformar necessidades em requisitos e estes em soluções comprometidas com o equilíbrio entre necessidades e possibilidades

  • Análise de requisitos (exigências do sistema)

    Tem por objetivo identificar as necessidades (aplicações desejadas do SIG e restrições previstas) e transformá-las em requisitos expressos em uma agenda a ser cumprida inicialmente pelas especificações do SIG e, posteriormente, na materialização do sistema, pelos resultados obtidos em sua operação.

    A agenda de requisitos é um referencial permanente do SIG ao longo do projeto, se detalhando e aperfeiçoando até a integração completa de todos os constituintes do SIG em uma solução capaz de produzir os resultados esperados.

    • Definição
      • Espaço do problema
      • Formulações de necessidades
      • Princípios expressos em cadernos de encargos ou agenda de requisitos
      • Especificação completa, coerente, factível e verificável de requisitos funcionais e não-funcionais
      • Referencial de exigências, compromissos e requisitos do SIG
    • Objetivo
      • definir especificação do SIG a realizar do ponto de vista do demandante
      • detalhamento do conjunto de requisitos
        • funcionais (funcionalidade do SIG e complementos)
        • não-funcionais (desempenho e qualidades exigidas)
      • definir ambiente no qual o sistema deverá operar
        • integrador
        • demandador
      • identificar imposições e restrições
        • funcionais
        • geoespaciais
        • informacionais
    • Etapas
      • Análise das necessidades
        • Quem faz?
          • Demandante
          • Demandante-Integrador: Proposta
          • Integrador: retomada e revisão
        • Desafio
          • fazer convergir para as necessidades reais
          • dominar instabilidade e incoerências das expressões de necessidades
          • pôr em evidência expressões de necessidades não explicitadas
        • Extração das necessidades verdadeiras
        • Transmissão entre parceiros de projeto
          • Modelizações funcionais (diagramas)
          • Esquemas e maquetes parciais
            • Sistema
            • Interfaces
        • Resultado: Especificação de requisitos
          • Convergência sobre um conjunto de exigências expressando necessidades reais
          • Separação para cada necessidade
            • domínio da restrição ou imposição (estrita)
            • domínio da expectativa (flexibilidade)
        • Validação
          • Completude externa
          • Coerência externa
            • resoluções de conflitos
            • busca de consenso
      • Refino dos requisitos
        • Decompor e detalhar as necessidades de um SIG
        • Objetivos
          • rigor
          • realismo
        • Verificação precisa e em níveis de abstração
          • Coerência
          • Completude interna
          • Modelizações ao nível conceitual dos dados e processos
          • Viabilidade técnica e orçamentária
            • Escolhas de concepção
            • Verificações por modelizações quantitativas
            • Prototipagem
            • Análise de risco
          • Testabilidade
        • Validação externa como o cliente
          • Reuniões de validação
          • Protótipos
    • Especificação de requisitos (documento "agenda de requisitos")
      • Missão do Programa ou Projeto
      • Missão do SIG
      • Objetivos
        • Finalidade
        • Missão
        • Contexto operacional
      • Expectativas dos usuários
      • Cenários operacionais
      • Fluxos tratados pelo sistema e principais processos mobilizados
      • Condições ambientais
      • Restrições e imposições
        • Internas
          • demandantes
            • Políticas e Diretrizes
            • Plano Diretor
            • Planejamento estratégico
            • Arquitetura de integração (sistema objeto)
            • Recursos alocados
          • integradores
            • Metodologia
              • Representação geoespacial
              • Análise geoespacial
            • Ferramentas disponíveis
            • Padrões
              • Formatos de Arquivos
              • Metadados
        • Externas
          • Leis, resoluções, normas, regulamentações
          • Padrões industriais
          • Concorrência
          • Estado da arte tecnológico
        • Operacionais
          • Exploração
          • Logística
      • Ergonomia
      • Fatores de qualidade
        • desempenho
        • viabilidade
        • disponibilidade
        • confiabilidade
        • segurança
        • manutenibilidade
        • operabilidade
        • interoperabilidade
      • Impactos eventuais
        • processo decisório
        • programas
        • projetos
        • competências humanas
        • organizações
    • Validação
      • Requisitos
      • Expectativas
      • Restrições
      • Imposições

Do sig ao SIG - analise funcional

Do sig ao SIG - analise funcional mccastro ter, 09/25/2018 - 16:14

 

Análise funcional

Construção da arquitetura funcional do sistema, identificando os constituintes do SIG, suas articulações técnicas e humanas. Trata-se de um modelo do problema a ser solucionado pela constituição-instituição de um SIG. A validação desta fase consiste em verificar a completude da arquitetura funcional e a alocação efetiva de todas as exigências funcionais e não-funcionais sobre o SIG.

  • Espaço problema-solução
    • Aplicações do SIG
      • ZEE
      • Gestão do Território
      • Sistema cadastral
    • Diagnóstico geoespacial
    • Apoio à decisão
    • Simulação
  • Construção da arquitetura funcional
    • Decomposição interativa da funcionalidade esperada
      • Funcionalidade geral requisitada
      • Funcionalidade dos constituintes
        • sig
        • Bases
        • utilitários
        • complementos
      • Modalidades de apropriação dos constituintes
    • Definir a funcionalidade em suas atividades em termos de transformação de fluxos
      • comportamento temporal
      • interações (trocas de fluxos de dados)
    • Alocar requisitos não-funcionais
  • Modelagem do problema a solucionar via SIG
    • Fluxos de dados geoespaciais
    • Transformações
    • Organização de dados geoespaciais
    • Representação
    • Análise espacial
    • Prospecção
    • Apoio à decisão
  • Validação
    • Completude da arquitetura funcional
    • Alocação de todos os requisitos
      • Funcionais
      • Não-funcionais

Do sig ao SIG - síntese

Do sig ao SIG - síntese mccastro ter, 09/25/2018 - 16:17

 

Síntese

Construção da arquitetura física do SIG, definindo os elementos do sig, que suportarão as funções da arquitetura funcional, assim como suas interações técnicas e humanas. Especificação final da solução SIG respondendo aos requisitos da agenda. A validação da síntese consiste em verificar a completude da arquitetura física e a satisfação de todos os requisitos funcionais e não-funcionais.

  • Espaço solução
  • Arquitetura física
    • Elementos dos constituintes de um SIG em sustentação das funções da arquitetura funcional
    • Articulação e interação entre os elementos constituintes de um SIG

  • Solução concreta em resposta aos requisitos
    • Decomposição em subsistemas
      • SIG propriamente dito
        • sig - funções básicas e extensões funcionais
        • Bases digitais
          • Base de coordenadas de objetos espaciais
          • Base de atributos georeferenciados aos objetos espaciais
        • Utilitários - funcionalidade apropriada
      • SIG-complementos
        • Sistema de Dados Básicos
        • Sistema de Referências a Dados
        • Sistema de Programas Afim
        • Sistema de Legislação Afim
    • Alocação às funções e desempenhos previstos na Arquitetura Funcional
    • Definição e alocação dos constituintes às interfaces
      • Internas, entre constituintes
      • Externas
        • Entre SIG e outros sistemas
        • Entre SIG e usuários
    • Considerações sobre restrições e limitações físicas
  • Fases descendente desde a arquitetura funcional e ascendente a partir dos constituintes disponíveis
    • Concepção da arquitetura técnica
      • Agrupar da arquitetura funcional, para alocação pelos constituintes do SIG

        • funções
        • comportamentos
        • objetos
      • Obter constituintes
        • coerentes
        • de dimensão razoável
        • aptos a sustentar os requisitos
        • compatíveis com o ambiente técnico-operacional
      • Minimizar interfaces entre constituintes, evitando conexões fortes entre objetos ou funções
      • Fatorizar as funções comuns nos constituintes específicos
    • Pesquisa da infraestrutura sócio-técnica do SIG
    • Concepção dos constituintes
  • Validação da síntese
    • Completude da arquitetura física
    • Satisfação dos requisitos
      • Funcionais
      • Não-funcionais