Jogos e desafios do espaço
Le déchiffrement du monde: théorie et pratique de la géographie. Paris: Belin, 2017.
1. A produção incessante do espaço geográfico envolve multiplicidade de atores cujos interesses convergentes ou contraditórios geram conflitos permanentes, sendo o Estado, a coletividade territorial e a empresa os mais claramente identificáveis, ao lado de indivíduos, famílias e instituições supranacionais cuja participação, embora mais discreta, também modela o mundo.
2. O espaço resultaria em simples extensão sem seus criadores, que são igualmente seus usuários, sendo todos os atores sociais solidários e concorrentes entre si, de modo que o vetor resultante de suas contradições produz as transformações observáveis no espaço.
3. Seis grandes categorias de atores interferem na produção do espaço, a saber, o Estado e a coletividade local, a autoridade supranacional, a empresa, o indivíduo isolado ou em família e diversos grupos, todos dotados de estratégias e táticas territoriais que a geografia não pode deixar de identificar.
O indivíduo e a família no espaço
4. Reconhece-se facilmente o indivíduo como produtor de espaço em suas manifestações excepcionais, como exploradores, industriais, arquitetos e déspotas, que constituem antes ornamentos do espaço do que seu tecido comum.
5. O indivíduo ordinário produz espaço por meio de seu cotidiano, sendo habitante que remodela sua habitação, eventual empreendedor cuja ação é proporcional aos meios de que dispõe, e ser móvel cujos deslocamentos, ainda que resultem de decisões individuais ou familiares, também derivam de gestos não intencionais.
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como habitante, remodela sua moradia com liberdade variável conforme a pressão social
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como empreendedor, sua marca no espaço é proporcional à extensão e aos instrumentos de que dispõe
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como ser móvel, desloca-se em itinerários fixos de rotina ou em trajetos incertos de viagem e mudança
6. A interação das decisões individuais na produção do espaço remete à questão da inovação e da imitação e ao grau efetivo de liberdade alcançado por essas estratégias, uma vez que todo indivíduo permanece enredado em determinações sociais e pertencimentos grupais.
7. A estratégia mais fundamental do indivíduo consiste em obter meios de subsistência, um emprego e um abrigo, o que lhe confere sempre uma dimensão territorial, ainda que sua capacidade de transformar essa posição esteja limitada pelas regulamentações coletivas.
8. A solução imediata para dispor dessa dupla posição, na produção e no espaço, consiste em não se mover, permanecendo na célula natal para beneficiar-se das solidariedades familiares e de um abrigo já constituído.
9. Outros preferem ou são obrigados a partir, movidos por espírito de aventura, pressão social ou persecução, seguindo migrações que obedecem a modos, modelos e filiais estritamente codificados que permitem recriar solidariedades no local de destino.
10. Uma vez assegurada a sobrevivência, buscam-se melhorias de qualidade de vida segundo modas e modelos limitados, concentrando-se as escolhas em poucos lugares valorizados, como ilustram as migrações de aposentados franceses e os sucessivos destinos californianos e asiáticos dos hippies.
11. A margem de autonomia do indivíduo revela-se pequena e sua capacidade de produzir espaço é predominantemente indireta e agregada, sendo o efeito de massa dos comportamentos, e não a decisão pessoal isolada, o que efetivamente conta.
12. Existem sempre desviantes que, se conseguem ser seguidos ou consagrados socialmente, chegam a criar novos caminhos e paisagens, ainda que a produção do espaço releve fundamentalmente da estatística e do grande número.
13. Não existe indivíduo teórico em matéria de espaço, mas pessoas reais com relações diferenciadas conforme seu estatuto, cujos comportamentos agregados, como no caso das compras de sábado ou das discotecas, não configuram propriamente comportamentos de grupo.
Comunidades fundamentais
14. Certos grupos agem deliberadamente como tais na produção do espaço, relevando e amplificando o poder individual sobre o território e acrescentando-lhe dimensão própria.
15. O grupo familiar constitui a primeira dessas coletividades, transmitindo cultura, atitudes e patrimônio localizado, sendo suas regras de parentesco e transmissão patrimonial objeto necessário de atenção geográfica.
16. O agregado doméstico configura unidade elementar de análise por concentrar decisões de aparência individual, por introduzir os conceitos de ciclo de vida familiar, por constituir lócus das relações de gênero e por fornecer a base estatística disponível para dados individuais.
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concentra decisões sobre patrimônio, residência, trabalho e consumo de lazer
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permite compreender estratégias de residência, emprego e mobilidade via ciclos de vida
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introduz as relações entre homens e mulheres na análise geográfica
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oferece a principal base estatística para aproximar dados individuais
17. Grupos étnicos, povos e tribos possuem usos e costumes suficientemente particulares para marcar o espaço, efeito acentuado quando minoritários e obrigados a se defender, como demonstram seitas que chegaram a criar cidades e redes próprias.
18. As religiões produzem espaço direta e indiretamente por meio de templos, escolas, cemitérios, lugares sagrados de peregrinação, administração e propriedades fundiárias, moldando arquiteturas e regras de uso conforme seus ritos e interditos.
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edificam templos, escolas e cemitérios
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mantêm lugares tabus e lugares santos que atraem peregrinos
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possuem administração, bens fundiários e até empresas próprias
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produzem arquiteturas e regras de uso do espaço conforme ritos e interditos
19. Além das grandes instâncias de enquadramento social, associações e confrarias atuam diretamente sobre o espaço, desde grupos de pesca até movimentos ecologistas e grupos de pressão que impõem políticas setoriais localizadas.
20. Grupos a-territoriais agem sobre lugares distintos de forma deliberada, indireta ou implícita, incluindo clãs e camarillas que gerem territórios na sombra, como máfias e redes de passadores.
21. Classes sociais também ocupam posições particulares no espaço, por escolha ou obrigação, manifestando-se em bairros altos e baixos reconhecíveis em cada grande cidade e em territórios exclusivos ou abandonados conforme a posição de classe.
O espaço para o lucro
22. A empresa, cujo objetivo é o lucro e não o espaço, instala-se em teoria com liberdade plena onde e quando desejar, revelando-se, todavia, um dos maiores produtores de espaço existentes.
23. As empresas criam espaço por meio de sua própria atividade, instituindo locais de trabalho e redes de comunicação, transformando ambientes distantes pela exploração de recursos, ora melhorando ora degradando o meio, e atraindo outras atividades conexas.
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criam locais de trabalho, moradia e serviços associados
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instituem redes de comunicação alimentadas por encomendas e entregas
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transformam ambientes distantes pela exploração de recursos
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aménagem ou degradam solos, subsolos e cursos d'água conforme o caso
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atraem atividades conexas e de subcontratação, com efeitos imediatos ou diferidos
24. As grandes empresas orientam suas táticas de localização por quatro fatores relacionados à redução de custos, a saber, o suprimento de matérias-primas, o transporte, os salários e os encargos financeiros.
25. A busca de baixos salários explora a divisão espacial do trabalho e as desigualdades legislativas, valendo-se de paraísos fiscais e zonas francas como recursos de pressão e chantagem territorial.
26. A qualidade da mão de obra impõe limites a essas estratégias, levando por vezes ao retorno de investimentos às regiões industriais ocidentais tradicionais quando prevalecem exigências de tecnicidade e criatividade.
27. O progresso das telecomunicações não dissolveu o espaço em favor da dispersão, mas reforçou concentrações já existentes, de modo que a instantaneidade das transmissões favorece novos polos sempre reunidos, e não aleatoriamente disseminados.
28. Nenhum lugar reúne todas as vantagens simultaneamente, o que leva a grande empresa a segmentar suas funções entre diferentes localizações, num processo contínuo de esgotamento e deslocamento das reservas de mão de obra barata, como ilustra a transição de Taiwan e Singapura para Bangladesh.
O Estado em seus aparelhos
29. O Estado constitui a primeira divisão social coerente do mundo e o primeiro nível de apropriação do globo, reunindo território, população e poder num conteúdo simultaneamente abstrato e concreto.
30. Como agente de produção do espaço, o Estado desempenha ações diretas de alojamento de seu próprio aparelho, edificando construções de forte valor simbólico e integrador, algumas capitais tendo sido inteiramente criadas para esse fim.
31. O próprio pessoal do Estado chega a criar espaços próprios hierarquizados, cujo modelo mais acabado foi o da nomenklatura soviética, persistindo em toda parte marcas físicas da hierarquia do poder, como a distância a Matignon em Paris.
32. Os militares figuram entre os maiores produtores de espaço, tanto em tempo de paz, por meio de quartéis e bases e seus efeitos induzidos, quanto em tempo de guerra, pelas destruições, deslocamentos populacionais e implantações duradouras que deixam.
33. Cabe geralmente ao Estado organizar a rede de ligações vitais do país, ainda que companhias privadas executem obras, sempre sob autorização e frequente apoio estatal, como demonstram exemplos históricos de vias coloniais e imperiais.
34. Os maiores empreendimentos de interesse coletivo são obra do Estado, único capaz de mobilizar somas colossais e exércitos de trabalhadores, sendo Suez e Panamá exceções de iniciativa privada ainda assim vigiadas de perto pelos Estados.
35. O conceito de Estado faraônico designa aquele que se arruína em obras grandiosas destinadas a consolidar o consenso popular, fenômeno que combina motivações prometeicas, megalomaníacas e por vezes tirânicas.
36. Decisões impalpáveis revelam-se possivelmente mais eficazes que as grandes obras na produção do espaço, incluindo a própria existência das fronteiras e as medidas legais e fiscais que afetam desigualmente diferentes territórios.
37. O Estado combina decisões de alcance geral e decisões de alcance local que igualmente produzem espaço, sendo a criação de parques naturais e apelações controladas exemplo de intervenção pontual cujos efeitos redistributivos dividem concepções keynesianas e neoliberais.
Poder local e território
38. O poder estatal pode ser delegado a coletividades territoriais cuja capacidade de produzir espaço varia conforme o grau de competência, os meios de ação e a autonomia decisória concedidos em cada país.
39. As coletividades locais apresentam-se hierarquizadas e desigualmente dotadas de poder, como ilustra o caso francês, no qual a fragmentação comunal e as disparidades de receita fiscal produziram históricas desigualdades entre municípios.
40. O poder sobre o espaço é por vezes compartilhado ou disputado com instituições territoriais de outra natureza, criadas para gerir problemas comuns a determinado espaço que ignoram o recorte administrativo legal.
41. Essas coletividades agem diretamente sobre o espaço por definição, devendo coexistir com as malhas administrativas preexistentes e, em certos casos, com territórios de grupos étnicos cuja coerência entra em choque com o recorte estatal.
Emergência do supranacional
42. O Estado cede poder também por cima, sob pressão do mercado e do princípio de subsidiariedade, num processo de mundialização cuja eficácia territorial das instâncias mundiais permanece limitada frente à ação mais direta do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional.
43. As ações territoriais das articulações regionais revelam-se provavelmente mais eficazes, sendo o caso da União Europeia particularmente notável por seu financiamento de políticas agrícolas, trocas estudantis e reconversões regionais, com resultados desiguais entre países membros.
44. As organizações não governamentais assumiram amplitude e atividade que as situam entre os atores do território, sobretudo nas regiões mais deprimidas e instáveis do mundo, com efeitos locais tangíveis mesmo quando não intencionais.
45. O impacto geográfico de ações transnacionais mostra-se mais forte por parte de grandes firmas e de Estados com políticas mundiais declaradas, incluindo redes criminosas internacionais que determinam o destino de regiões inteiras.
O sistema dos atores
46. Todos esses atores cooperam e competem simultaneamente na modelagem do espaço geográfico, disputando ou associando-se para remodelar posições em nível estatal, local, empresarial e individual.
47. Os seis polos do sistema conectam-se por quinze arcos de potência desigual, envolvendo frequentemente três ou quatro tipos de atores simultaneamente nas decisões sobre o espaço.
48. As relações entre Estado e empresa constituem objeto de controvérsias e grandes políticas, dependendo não apenas do modo de produção mas do porte relativo das firmas, algumas superando o produto bruto de nações inteiras.
49. O Estado deveria regular os excessos empresariais, mas frequentemente se coloca a seu serviço, favorecido pela circulação de dirigentes entre os dois âmbitos e pela onda neoliberal que socializa perdas e privatiza lucros.
A internacional dos decisores
50. A situação complexifica-se com empresas estrangeiras, cujas estratégias de localização mundiais tornam ambíguos conceitos como “comprar nacional”, como ilustram os casos de montadoras japonesas nos Estados Unidos e da disputa entre Boeing e Airbus.
51. A dominação do aparelho estatal e das empresas por grupos de interesses convergentes, porém contraditórios conforme o momento e o lugar, constitui fonte essencial de desigualdades locais e regionais na produção do espaço.
52. Um número crescente de firmas tornou-se verdadeiramente transnacional, com composição de capital eclética que confere pleno sentido à ideia de uma internacional do capital sob a mundialização.
As chances do local
53. No nível local, os conflitos entre indivíduos, coletividades territoriais e Estado envolvem táticas de partilha ou evitação, sendo a apropriação privada de espaços litorâneos exemplo célebre de disputa decorrente do exercício da liberdade individual às custas de terceiros.
54. Os conflitos locais são naturais, ainda que o âmbito local seja por vezes apresentado como espaço de consenso fecundo, sendo essa ideologia do consenso capaz de ocultar desigualdades e gerar novos egoísmos e exclusões, como as preferências por autóctones e empresas locais.
A sombra e o mirante
55. A distância entre Estado e indivíduo pode ser vista como garantia de autonomia pessoal, embora o Estado sempre busque reduzi-la por meio de táticas espaciais panópticas, como grandes avenidas e agrupamentos forçados de populações.
56. O indivíduo dispõe de táticas próprias de resposta, expressando escolhas pelo voto, pela mobilidade ou pela dissimulação em espaços obscuros que escapam ao controle estatal.
57. O desenvolvimento do setor informal ou subterrâneo constitui tática de escape tanto diante da impotência quanto do excesso de presença estatal, com dimensão espacial própria que contribui para a produção do chamado Antimundo.
Um mundo de interações
58. O Estado emerge no interior de um sistema de atores que não domina, funcionando antes como ponto de convergência e regulador, sendo esse sistema fortemente variável de um lugar e de um Estado a outro.
59. Os atores do espaço não são entidades frias e anônimas, mas pessoas concretas, dirigentes e comunidades específicas, sendo o Estado sempre particular, grande ou pequeno, forte ou fraco, democrático ou oligárquico.
60. A empresa também varia em porte e natureza, fundamentando seu lucro na superexploração do trabalho ou em técnicas avançadas, sem que disso resulte desordem, mas sim ordens diferentes produzidas por confrontos de estratégias.
61. Compreender um território exige identificar seus atores, estratégias e meios de ação, considerando que decisões distantes, como a fixação de preços de commodities, produzem efeitos concretos sobre lugares aparentemente isolados.
62. O mundo funciona como sistema de atores articulado em múltiplos níveis geográficos contraditórios, cuja complexidade não se resolve em pura desordem, cabendo à geografia compreender como essas ações se organizam em sistemas traduzidos no espaço.
