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Modelos

Roger Brunet (avec l'aimable autorisation de la Société de géographie de Liège; conférence prononcée le 24 novembre 1999 et publiée dans le Bulletin de la Société de Géographie de Liège, 2000, n°2, p. 21-30).

1. As ideias de modelos e modelagem tiveram uma entrada notável na geografia durante os anos 1960, evoluindo desde então sob o efeito da prática e de críticas em parte justificadas, e nenhuma pesquisa séria pode prescindir de um esforço de modelagem para chegar ao essencial e avaliar os desvios entre os objetos geográficos singulares e os modelos que auxiliam sua interpretação, sob a dupla condição de que os modelos adquiram sentido nas e pelas práticas, objetivos e intenções das ações humanas, e que se saiba usar modelos, testados ou novos, para compreender a estrutura e a dinâmica dos objetos geográficos singulares.

2. Embora se pudesse pensar o assunto dos modelos na geografia como esgotado, com uma grande época de modelagem nas décadas de 1960 e 1970 e uma subsequente onda pós-modernista que a teria submerso, as coisas são mais sutis, pois toda ciência tem seus ritmos e flutuações ligados a movimentos da sociedade, e a época atual, definida pela submersão da pesquisa sob um ensino de massa, a falta de referências e o retorno do singular e do sujeito egológico, contrasta com um período anterior de expansão econômica e tecnológica e de afirmação da onipotência dos Estados Unidos e dos meios de cálculo.

3. Ao mesmo tempo em que tudo favoreceria o idiográfico em oposição ao nomotético, raramente se viu época mais produtora de normas e regulamentos, com os manuais escolares se precipitando em novos tipos de modelos e os planejadores e eleitos se mostrando extraordinariamente ávidos por modelos do espaço europeu e de territórios, o que demonstra que as coisas são mais complexas e que é necessário situá-las em uma tripla perspectiva histórica, teórica e prática, especialmente para um geógrafo sensível à diferença e à singularidade dos lugares, mas que busca compreendê-la.

O QUE É UM MODELO?

4. A definição clássica de modelo, dada por Haggett em 1965, como uma representação idealizada do mundo real construída para demonstrar certas de suas propriedades, é frequentemente traduzida de forma redutora como representação simplificada, enquanto a etimologia da palavra, vinda do italiano “molde” e da raiz “med” (medir), evoca a ideia de avaliação e ajustamento, e a definição de Alain Rey, como sistema que representa as estruturas essenciais de uma realidade, afasta-se da ideia de simplificação e aproxima-se da ideia de essência.

5. Vários domínios próximos da noção de modelo são frequentemente utilizados em seu lugar, como o tipo, que vem de “typus” (imagem, modelo) e evoca uma ideia de triagem e arrumação, enquanto o modelo é referência e termo de comparação, pressupondo o tipo, e o caso e o exemplo, quando tomados em sua exemplaridade, também funcionam como modelos, dos quais se extrai a singularidade complexa para tirar algo de alcance geral.

6. Toda definição de um objeto propõe um modelo, pois ao definir uma cuesta, um vulcão, uma cidade ou um bocage, evoca-se uma imagem geral e, imediatamente, quantidades de imagens particulares, e cada vez que se define uma categoria de objetos, um tipo no seio dessa categoria ou um caso exemplar, está-se lidando com modelos, sendo que alguns são icônicos e se representam por desenhos, mas essa é apenas uma categoria, enquanto filósofos, por exemplo, produzem muitos modelos sem usar desenhos.

7. Os modelos icônicos são de todos os tipos, variando entre a curva matemática, o hexágono como polígono de Thiessen ideal, o plano em damier ou certas representações exuberantes da metrópole moderna com legendas extensas, e a geomorfologia faz grande uso de modelos, identificando formas e supondo sua origem, classificando-as segundo definições precisas com tipos e modelos, enquanto a geografia dita humana esteve muito menos avançada, limitando-se a algumas tipologias mais formais do que estruturais e mais descritivas do que explicativas.

8. A avalanche de modelos dos anos 1960 foi fruto de uma real mudança de atitude, com uma ambição matemática fundamental em seus dois aspectos de medida e previsão, levando ao transporte ou redescoberta de modelos já antigos, muitas vezes oriundos da economia, e o triunfo das quatro grandes famílias de modelos (von Thünen, Christaller revisado por Lösch, Reilly e Thiessen, e Zipf) foi acompanhado por modelos de difusão associados ao cálculo de probabilidades, modelos de simulação de sistemas dinâmicos e modelos de configurações espaciais, como redes e grafos sagitais.

9. Compreender e fazer compreender exige comparar com algo conhecido e já compreendido, e à escala mundial, o que é conhecido e compreendido cresce a cada instante, podendo-se assim detectar em uma configuração geográfica as manifestações de modelos estabelecidos, e se nada “funciona”, será necessário imaginar outro modelo, provar sua legitimidade e buscar outras manifestações, trabalhando com comparações interpretativas em vez de se limitar a comparações estritamente formais das antigas tipologias.

NEGAÇÕES

10. O emprego consciente dos modelos trouxe muito à pesquisa geográfica e a transformou profundamente, mas também suscitou críticas aparentemente de todos os tipos, entre as quais é possível identificar alguns modelos, como a acusação de que modelar é simplificar e que a simplificação é uma perda de informação, o que confunde o objetivo e as escalas, e é necessário distinguir entre a informação e o ruído, compreendendo e fazendo compreender a geografia de uma região implica distinguir o fundamental do acessório.

11. A crítica de que alguns modelos são tão complicados que se tornam ilegíveis é exata, mas isso não pode condenar a modelagem, pois quando um modelo expressa o essencial de forma legível, é sempre possível mudar de escala e abordar o detalhe e as caixas-pretas uma após a outra, e a afirmação de que a singularidade de cada objeto geográfico interdita qualquer generalização é uma tolice, pois pode ser enunciada para toda ciência, e nenhum conhecimento teria sido possível se tivesse sido seguida, sendo que toda descrição precisa de modelos, e a descrição comum abusa de clichês que nada mais são do que modelos banalizados.

12. A crítica de que os modelos empregados em geografia vêm de outras disciplinas é em parte verdadeira, mas outros trabalharam melhor e mais cedo, e é inteligente e fecundo inspirar-se neles, desde que tragam algo à compreensão da produção dos espaços geográficos, e os geógrafos produziram abundantemente seus próprios modelos, como o piemonte, a huerta, a região de estuário, o espaço pioneiro, a marcha, o ângulo morto, e modelos de distribuição de zonas francas e paraísos fiscais, além de que algumas importações mereceriam ser invertidas, como o modelo de gravitação.

13. A acusação de que os modeladores são perigosos porque têm ambições de predição e aplicação e querem forçar a realidade a obedecer ao modelo, como no suposto caso de Christaller, ignora que muitos planejadores não científicos tentaram reorganizar o espaço e não se relaciona com a ideia de modelo, sendo um simples processo de intenção que atribui aos geógrafos poderes que nunca tiveram.

14. A única crítica um pouco séria que se pode fazer a uma parte das formas de modelagem desse período é o caráter estritamente formal de alguns modelos e um eventual esquecimento dos processos sociais, com uma ambição de medir e calcular a todo custo que levou a derivas economicistas ou de simples técnica de cálculo, buscando ajustes puramente matemáticos sem questionar os processos em jogo, e a modelagem em si não é a causa, mas uma certa maneira de praticá-la de forma puramente técnica, usando a ferramenta por ela mesma.

15. Dessa crítica surgem três conclusões provisórias: a primeira é que quase todos esses esforços e alguns desses debates trouxeram muito aprendizado; a segunda é um apelo à integração e à memória, pois a ciência progride por acreção, incorporando o melhor das novas aquisições, e não se deve perder a memória desses esforços e debates, mas integrar o que parece poder resistir; e a terceira é que esses aportes sucessivos devem levar a melhor fundamentar a modelagem geográfica sobre as lógicas de produção do espaço, trabalhando com modelos que expressem melhor a organização e a diferenciação do espaço geográfico.

DE UMA PRÁTICA TEÓRICA ÀS HIPÓTESES NECESSÁRIAS

16. O essencial das pesquisas do autor foi inspirado pela preocupação com a prática teórica e as hipóteses necessárias, tendo em 1965 proposto, em sua tese sobre os campos de Toulouse, substituir o modelo determinista convencional por um modelo fundado na elaboração do sistema social de produção e repartição das riquezas, e a tese complementar sobre as descontinuidades em geografia baseou-se no exame de uma série de modelos de limiares na dinâmica dos sistemas.

17. O autor trabalhou sobre as práticas das ciências sociais, o sistema soviético e os modelos de alienação espacial, e sobre os processos de modelagem de objetos geográficos particulares, como cidades do Maciço Central francês e o espaço da Champanhe, e posteriormente tentou elaborar uma representação coerente da geografia como lugar e sistema de conhecimento, o que forneceu a abertura da Geografia Universal em 1990, com a difusão da ideia de corema e das representações associadas.

18. Uma parte do “sentido” dessa pesquisa encontra-se em uma dezena de hipóteses ligadas, que formam um “modelo” de representação do conhecimento geográfico, sendo que a primeira hipótese afirma que toda sociedade, pelo simples fato de sua existência, produz espaço e, em geral, territórios, e a segunda que a produção do espaço traduz uma parte das atividades sociais, respondendo a algumas necessidades simples das sociedades e seguindo alguns princípios comprovados pela experiência.

19. A terceira hipótese estabelece que essas ações são desigualmente desenvolvidas por atores com interesses, meios e representações distintos e opostos, levando ao conhecimento das relações de força e das divisões sociais, e a quarta que ações e tensões se traduzem no território por formas espaciais que são reveladoras dessas escolhas, ações, tensões e diferenças.

20. A quinta hipótese propõe que essas figuras geográficas resultam do jogo de algumas leis, ora compostas, ora opostas, cuja expressão é oriunda da prática social e só tem sentido pela relação entre espaço e sociedade, como as leis da apropriação, da divisão espacial do trabalho, do confinamento, do entrincheiramento, da troca e das duas gravitações, e a sexta que, pela prática social, essas leis se manifestam e essas figuras se compõem em um meio já existente onde se encontram obras anteriores, legados da natureza e dispositivos de vizinhança, com memórias que têm suas próprias inércias, lógicas e processos.

21. A sétima hipótese afirma que, se existem leis da produção do espaço, não há “leis do espaço” em si, independentes da ação humana e de seus projetos, pois a “fricção da distância” só se exerce relativamente a uma ação ou projeto e aos meios que se lhe consagram, sendo que fora de algumas evidências da natureza, é sempre através da atividade humana que elas são percebidas no espaço geográfico.

22. A oitava hipótese estabelece que a composição local dessas ações, leis e figuras é singular e dá toda a diversidade do mundo e a singularidade de seus lugares, que se compreende e aprecia tanto melhor quanto mais se identificaram suas componentes e sua trajetória, e a nona que se deve poder encontrar nas interpretações da estrutura e da dinâmica de um objeto geográfico o jogo das ações, leis e figuras determinantes hoje, prováveis ontem e possíveis amanhã.

23. A décima hipótese conclui que toda estrutura e dinâmica de um objeto geográfico pode ser analisada com a ajuda da composição de modelos gerais, podendo-se estabelecer o modelo da estrutura e da dinâmica de um objeto geográfico singular, o que em retorno permite enriquecer e reavaliar o estoque de modelos conhecidos.

EXIGÊNCIAS DA MODELAGEM

24. A partir desses fundamentos, a modelagem pode ser reconsiderada como um instrumento heurístico em geografia, manifestando-se várias condições, sendo a primeira que definir um objeto geográfico é descrever sua singularidade ou identidade, e a identidade se define por uma similitude, ou seja, por referência a modelos conhecidos, e o singular se descreve pelo universal, pois é a lista de modelos mobilizados que é única, de modo que opor o singular e o universal não tem sentido.

25. A segunda condição é que os modelos precisam ter sentido, o que implica ter compreendido de onde vêm as formas reconhecidas e o que as produz, sendo que o geógrafo deve realizar um trabalho de reconhecimento e interpretação das formas espaciais, o que o distingue do esoterismo, e se observa uma concentração excepcional ao longo de um eixo curvo, como a megalópole europeia, cada um pode verificar e tentar compreender, bastando reunir o que se sabe sobre istmos, megalópoles e a história do comércio europeu.

26. A terceira condição estabelece que a modelagem não consiste apenas em inferir modelos generalistas, mas é necessário ousar usar modelos para interpretar um objeto único, e a compreensão das estruturas e dinâmicas de um objeto único é um objetivo legítimo e excitante, e hoje não se deve estar satisfeito em constatar que “funciona”, mas buscar o que escapa aos modelos ou como eles se contradizem, cultivando o resíduo em dois sentidos opostos e complementares: como essência (o que resta após a redução do acessório) e como o que o modelo não explica (o desvio da curva de ajustamento).

27. A quarta condição trata da forma dos modelos, existindo três grandes categorias: os retóricos (expressos por texto), os matemáticos (expressos por fórmulas) e os icônicos (expressos por desenhos, curvas, perfis ou configurações espaciais), que se sustentam mutuamente e são expressões diferentes de um mesmo fenômeno, como o modelo de gravitação, sendo todas igualmente válidas e férteis, e igualmente indispensáveis, com o mesmo objetivo de compreender e explicar ao identificar os processos e formas determinantes.

28. A quinta condição ressalta que, em razão da natureza do objeto de conhecimento dos geógrafos, o desenho das formas no espaço tem um interesse particular, pois o modelo icônico oferece uma visão panóptica e mostra de uma só vez as relações recíprocas dos lugares, permitindo compreender os efeitos de interferência das formas e a deformação recíproca dos modelos, como no caso da megalópole europeia, e o desenho, embora facultativo, é cômodo e fecundo, não excluindo a quantificação, mas tendo como exigências ser fiel e ser legível.

29. A sexta condição afirma que modelar não é simplificar, sendo um erro profundo confundir as duas coisas, pois a simplificação redesenha e elimina “acidentes” que podem ser fundamentais, enquanto a modelagem toma hipóteses em função da natureza e da situação do objeto estudado, constrói, desconstrói e reconstrói por iterações entre dedução e indução, e os primeiros desenhos são abstratos, aproximando-se gradualmente da complexidade do real, que nunca é simplificado, e a única decisão estratégica é escolher o momento de parar o processo.

30. A sétima condição identifica quatro domínios de aplicação da modelagem em geografia: o estudo de redes e fluxos, privilegiado e auxiliado pelas teorias dos grafos; o estudo de objetos geográficos delimitados e nomeados, como cidades, regiões e Estados; o estudo de campos, explorando margens, fronteiras, flutuações, focos e eixos; e o estudo de distribuições espaciais de fenômenos particulares, como mapas temáticos de dados epidemiológicos, criminológicos, eleitorais ou demográficos.

31. A oitava condição define a modelagem como um processo de pesquisa que consiste em buscar qual composição de modelos melhor explica uma organização regional ou local, uma configuração de campo ou rede, ou uma distribuição espacial, propondo novos modelos se necessário, e os modelos, tendo um sentido definido e conhecido que representa um processo ou uma resposta social a problemas espaciais, iluminam o que está ou esteve em jogo, sendo um processo iterativo que segue a lei logística, e a cada tentativa deve ser associada uma interpretação clara do processo em causa.

32. A nona condição destaca as vantagens da modelagem para a comunicação dos resultados, pois quando corretamente conduzida, ela parece fácil e feita principalmente para comunicar, mas o emprego de modelos para compreender é antes um “para si”, e os procedimentos da modelagem encontraram um real sucesso junto aos consumidores de geografia, sejam professores ou planejadores, sendo que a ausência de qualquer um dos termos (qualidade do fundo teórico, novidade das conclusões, habilidade da demonstração e sedução da imagem) compromete o conjunto.

CONCLUSÃO

33. O autor define modelo como uma representação formal e depurada do real ou de um sistema de relações, sem finalidade particular, e mais concisamente como uma representação formalizada de um fenômeno, com a finalidade de interpretação, sendo que essa representação passa por vários filtros que tendem armadilhas: a percepção do fenômeno, sua representação, a construção de um modelo, a interpretação do sentido desse modelo e a capacidade do modelo de dar conta do fenômeno.

34. A construção apresentada pelo autor é ela mesma uma forma de modelo, não um modelo único, mas um modelo que expressa uma representação formalizada de uma teoria e de uma prática pessoal de pesquisa geográfica, na qual se encontram traços de vários modelos testados, mais ou menos amplamente compartilhados e praticados, e resta saber se o arranjo resultante tem um valor interpessoal, sendo que a modelagem não consiste apenas em inferir modelos generalistas, mas também em interpretar objetos singulares, cultivando o resíduo como essência e como desvio, e a comunicação dos resultados é uma vantagem, mas não o objetivo principal.

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