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Condição pós-moderna

HARVEY, D. A Condição Pós-Moderna. São Paulo: Loyola, 1994.

1. Desde cerca de 1972, ocorreu uma mudança significativa nas práticas culturais e político-económicas, ligada ao surgimento de novas formas dominantes de experienciar o espaço e o tempo, existindo fortes razões para acreditar numa relação necessária entre a ascensão de formas culturais pós-modernistas, modos mais flexíveis de acumulação de capital e um novo ciclo de 'compressão tempo-espaço', embora estas mudanças pareçam mais como alterações na superfície do que como sinais de uma sociedade pós-capitalista.

2. A investigação sobre o pós-modernismo, que se tornou um campo de batalha de opiniões conflituantes, partiu da necessidade de inquirir sobre a sua natureza como uma condição histórica, examinando o contexto político-económico e a experiência do espaço e do tempo como um elo mediador entre o dinamismo do desenvolvimento histórico-geográfico do capitalismo e os processos de produção cultural e transformação ideológica.

3. Jonathan Raban, em “Soft City” (1974), descreve a cidade como um teatro, um labirinto e um emporium de estilos, onde a identidade pessoal é maleável e fluida, em contraste com a visão da cidade como vítima de um sistema racionalizado de produção e consumo em massa, antecipando o momento pós-modernista com a sua ênfase na produção de signos e imagens, na plasticidade da personalidade e na dependência de superfícies e aparências.

4. O pós-modernismo é geralmente entendido como uma reação ou afastamento do modernismo, caracterizado por artefactos lúdicos, auto-irónicos e esquizoides, que abraçam a linguagem do comércio e da mercadoria, recorrendo a uma pastiche irreverente e a uma superficialidade calculada, opondo-se à monotonia do modernismo universalista ao privilegiar a heterogeneidade e a diferença como forças libertadoras, rejeitando as metanarrativas totalizantes.

5. O projeto da modernidade, que emergiu no século XVIII, visava desenvolver a ciência, a moralidade universal e a arte autónoma, usando o conhecimento acumulado para a emancipação humana, mas o século XX, com as suas guerras e campos de extermínio, abalou este otimismo, levando à suspeita de que a racionalidade do Iluminismo se transformou num sistema de dominação e opressão, um dilema que divide os que apoiam o projeto (como Habermas) e os que o abandonam (como os pós-modernistas).

6. O conceito de 'destruição criativa', presente em Goethe, Marx e Schumpeter, é fundamental para compreender a modernidade, pois a criação de um novo mundo implica a destruição do passado, e a figura trágica de Fausto, que destrói para construir um novo paisagem, exemplifica a oposição entre o efémero e o eterno, onde o artista moderno tem um papel heróico na definição da essência da humanidade, mas onde a estetização da política pode levar tanto à esquerda como à direita.

7. O modernismo, especialmente após 1848, foi um fenómeno urbano, uma resposta à experiência de crescimento urbano explosivo, industrialização e mudanças no ambiente construído, e a sua história complexa e geograficamente diversificada, com centros como Paris, Viena e Berlim, demonstra uma tensão entre internacionalismo e nacionalismo, entre globalismo e etnocentrismo.

8. A crise do fordismo, que se tornou evidente em meados da década de 1960, desencadeou uma transição para a acumulação flexível, caracterizada pela flexibilidade nos processos de trabalho, mercados de trabalho, produtos e padrões de consumo, com o surgimento de novos setores, inovação acelerada e uma compressão tempo-espaço que permitiu uma maior mobilidade geográfica e controlo sobre o trabalho.

9. As mudanças no sistema financeiro global, com a desregulamentação e inovação financeira, criaram um mercado mundial único para o dinheiro e o crédito, que, embora tenha permitido uma coordenação financeira poderosa, também gerou instabilidade e crises, e um “empreendedorismo de papel” que priorizou ganhos financeiros especulativos sobre a produção real.

10. A teoria da regulação, que descreve um regime de acumulação e o seu modo de regulação associado, é usada como um dispositivo heurístico para compreender a transição do fordismo-keynesianismo para uma acumulação flexível, embora a profundidade e permanência desta transição ainda seja incerta, podendo ser uma solução temporária para a crise de sobreacumulação.

11. A acumulação flexível, embora apresente novas configurações, não representa uma ruptura fundamental com a lógica do capitalismo, pois as leis invariantes do modo de produção capitalista, como a orientação para o crescimento, a exploração do trabalho vivo e o dinamismo tecnológico e organizacional, continuam a operar, e a crise de sobreacumulação é gerida através de desvalorização, controlo macroeconómico e deslocamento temporal e espacial.

12. As mudanças na experiência do espaço e do tempo são centrais para compreender a transição do modernismo para o pós-modernismo, e a compressão tempo-espaço, que acelera o ritmo de vida e colapsa as barreiras espaciais, tem um impacto disruptivo nas práticas político-económicas, no equilíbrio do poder de classe e na vida cultural e social, gerando um senso de volatilidade e efemeridade.

13. O conceito de 'destruição criativa' é fundamental para compreender a modernidade, e a sua aplicação à produção do espaço e do tempo revela uma contradição central no capitalismo, pois a necessidade de acelerar o tempo de rotação do capital e de aniquilar o espaço através do tempo exige investimentos fixos e imóveis de longo prazo, gerando ciclos de crise e de compressão tempo-espaço.

14. A transição para a acumulação flexível envolveu uma aceleração do tempo de rotação do capital, tanto na produção como no consumo, através de novas tecnologias e formas organizacionais, o que levou a uma maior volatilidade, efemeridade e sensibilidade às diferenciações espaciais, e a um papel mais importante das imagens, dos signos e dos sistemas de comunicação na economia e na cultura.

15. As mudanças na experiência do espaço e do tempo estão ligadas a uma crise de representação, manifestada na arte, na arquitetura, na literatura e na filosofia, e o pós-modernismo, com a sua ênfase na fragmentação, no colapso das hierarquias e na pastiche, pode ser visto como uma resposta a esta crise, que também está ligada à desmaterialização do dinheiro e à instabilidade do sistema financeiro.

16. O filme “Blade Runner” (1982) é uma parábola de ficção científica que explora temas pós-modernistas num contexto de acumulação flexível e compressão tempo-espaço, retratando uma paisagem urbana decadente e fragmentada onde os “replicantes”, simulacros criados para o trabalho, lutam pela sua identidade e história num mundo dominado por imagens e por um poder corporativo opaco.

17. O filme “Asas do Desejo” (1987) de Wim Wenders explora a experiência do espaço e do tempo em Berlim, através da perspectiva de anjos que vivem no tempo eterno e de humanos que vivem no tempo social, e a sua narrativa aborda a fragmentação, a efemeridade e a busca de identidade num mundo de imagens, propondo um projeto de redenção romântica que, no entanto, não consegue escapar à circularidade das suas próprias imagens.

18. Os filmes analisados sugerem que a crise de representação gerada pela compressão tempo-espaço é um tema central da produção cultural pós-moderna, e a incapacidade dos cineastas de ir além do romantismo ou do individualismo, para uma crítica social ou política, indica a dificuldade de transcender as condições do pós-modernismo, onde a estética triunfa sobre a ética e as imagens dominam as narrativas.

19. A condição pós-moderna, que emergiu da crise de sobreacumulação no final dos anos 1960, é caracterizada por uma mudança na experiência do espaço e do tempo, pelo colapso da confiança na associação entre juízos científicos e morais, pela vitória da estética sobre a ética e pela fragmentação, onde as imagens dominam as narrativas e as explicações se deslocam das bases materiais para considerações culturais e políticas autónomas.

20. O programa económico de Reagan, descrito como “economia da voodoo” e “economia com espelhos”, baseou-se em cortes de impostos que, embora tenham estimulado o crescimento, aumentaram a desigualdade social e o défice, e a sua popularidade, apesar dos seus efeitos negativos, demonstrou o triunfo da imagem e da estética sobre a ética e a narrativa crítica na política.

21. A política de Reagan, que combinou um programa de agressão anticomunista com cortes nos programas sociais, enfraqueceu as instituições da classe trabalhadora, aumentou a desigualdade e a pobreza, enquanto beneficiava os ricos e os privilegiados, e a “cultura yuppie” e a produção de imagens tornaram-se centrais para a economia e a política, com a pobreza e a falta de abrigo a serem estetizadas e servidas como prazer estético.

22. O pós-modernismo, como um espelho de espelhos, reflete a economia de cassino e a produção de imagens políticas, e a sua retórica, que justifica a desigualdade e a despossessão apelando a valores tradicionais, e que louva a mudança da ética para a estética, é sintomática de uma condição histórica onde a produção cultural está profundamente entrelaçada com a busca de lucro e a construção de imagens.

23. A oposição entre modernismo fordista e pós-modernismo flexível, embora útil para fins didáticos, não capta a interpenetração de tendências opostas no capitalismo, e as categorias de modernismo e pós-modernismo são reificações estáticas impostas sobre um fluxo fluido de oposições dinâmicas, onde a tensão entre centralização e descentralização, autoridade e desconstrução, permanência e flexibilidade está sempre presente.

24. O capital é um processo de reprodução social através da produção de mercadorias, que, pelas suas regras internas, é uma força revolucionária que transforma continuamente a sociedade, cria novas necessidades e desejos, destrói e cria espaços, e acelera o ritmo de vida, e a sua lógica especulativa e transformadora gera uma infinidade de resultados, mas também perpetua os seus próprios fetichismos e sistemas de espelhos.

25. A obra de arte na era da reprodução eletrônica e dos bancos de imagens é dominada pela circulação de capital, e a produção cultural, embora apresente peculiaridades, está sujeita às leis da acumulação capitalista, e a “massa cultural”, que produz e consome imagens, é um estrato social que molda a ordem simbólica e que, após o declínio do movimento operário, definiu a sua identidade em torno do poder do dinheiro, do individualismo e do empreendedorismo.

26. As respostas à compressão tempo-espaço variam desde o silêncio entorpecido e o niilismo da desconstrução, até à negação simplista e à busca de nichos intermédios para a ação política, passando pela tentativa de montar o tigre da compressão através de uma retórica frenética, mas o perigo de uma política carismática e de um fascismo que estetiza a política é sempre presente, e a obra de arte na era da reprodução eletrônica é um agente primário da compressão tempo-espaço.

27. A crise do materialismo histórico, que levou a Nova Esquerda a abandonar a sua fé no proletariado e no materialismo histórico, foi uma resposta necessária ao dogmatismo e às limitações da política da velha esquerda, mas também a impediu de ter uma perspectiva crítica sobre si mesma e sobre as transformações sociais que estavam por trás do pós-modernismo, abrindo caminho para o neo-conservadorismo.

28. Para lidar com a condição pós-moderna, o materialismo histórico-geográfico precisa de ser renovado, integrando o tratamento da diferença e da alteridade, reconhecendo a importância da produção de imagens e discursos, e compreendendo as dimensões do espaço e do tempo como forças organizadoras vitais, adotando uma abordagem dialética e aberta, em vez de um corpo fechado de entendimentos.

29. Os sinais de ruptura no sistema de espelhos do pós-modernismo incluem o cansaço dos promotores imobiliários com o estilo pós-moderno, o crash da bolsa de 1987 que expôs a fragilidade da economia financeira, e as controvérsias em torno do passado nazi de Heidegger e Paul de Man, que forçaram os desconstrucionistas a recorrer a argumentos positivistas e universalistas, sugerindo uma possível autodissolução da condição pós-moderna.

30. A renovação do materialismo histórico, que permite compreender a pós-modernidade como uma condição histórico-geográfica, oferece uma base crítica para lançar um contra-ataque da narrativa contra a imagem, da ética contra a estética, e para buscar a unidade dentro da diferença, aderindo a uma nova versão do projeto do Iluminismo, onde o presente é visto como a matriz do futuro e a história como uma revolução espiritual permanente.

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