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Lefebvre

Prefácio do autor a edição francesa de La production de l'espace de 1985.

1. Há dez ou quinze anos, quando este livro foi escrito, as concepções de espaço eram confusas, paradoxais e mutuamente incompatíveis, estando o espaço em voga graças à tecnologia dos foguetes interplanetários, embora a palavra, tradicionalmente associada à matemática e à geometria euclidiana, permanecesse uma abstração, um continente sem conteúdo.

  • Na filosofia, o espaço era em geral tratado com desdém, como mera categoria kantiana a priori, ou carregado de ilusões que desviavam o desejo e a interioridade do eu rumo ao exterior inerte.
  • As disciplinas que o estudavam fragmentavam-no segundo premissas metodológicas simplificadas, geográficas, sociológicas, históricas, sendo o espaço, na melhor das hipóteses, tomado como zona vazia, definida por critérios absolutos, opticogeométricos, euclidiano-cartesiano-newtonianos, à margem dos quais a ideia mal assimilada de relatividade se estabelecia.

2. Paradoxalmente, a prática, no interior da sociedade existente e de seu modo de produção, seguia direção distinta das representações fragmentárias e dos saberes constituídos, tendo alguém, mais os colaboradores tecnocratas do que os próprios políticos, inventado o planejamento espacial, na França sobretudo, com o projeto de modelar racionalmente o espaço francês.

  • O eixo espontâneo que vai do Mediterrâneo ao litoral norte pelos vales do Ródano, do Saône e do Sena já colocava problemas, havendo um projeto de criação de metrópoles de equilíbrio em torno de Paris e em diversas regiões, sustentado por um organismo oficial de ordenamento territorial poderoso e centralizado.

3. Hoje ninguém ignora que essa iniciativa inovadora de planejamento, incompatível tanto com a análise input-output quanto com o controle estatal dos gastos de capital, foi arruinada pelo neoliberalismo e desde então reconstruída de modo desajeitado.

4. Manifesta-se assim uma contradição notável, ainda que pouco percebida, entre as teorias do espaço e a prática espacial, contradição dissimulada pelas ideologias que confundiam os debates sobre o espaço, saltando do cosmológico ao humano, do macro ao micro, sem pensamento conceitual ou metodológico próprio.

5. Surge daí o esforço de escapar a essa confusão deixando de considerar o espaço e o tempo sociais como fatos de natureza ou de cultura para concebê-los como produtos, mudança que altera o uso e o sentido dessa palavra, entendendo-se a produção do espaço não como criação de um objeto, mas como efeito da ação das sociedades sobre a primeira natureza.

  • Tais produtos possuem, num sentido específico, um caráter de globalidade, e não de totalidade, ainda que o próprio espaço e tempo produzidos, uma vez parcelados, sejam trocados e vendidos como coisas.

6. Convém notar que, já por volta de 1970, as questões urbanas se colocavam com grande clareza, clareza excessiva para muitos que preferiam desviar o olhar, não podendo os documentos oficiais nem regular nem mascarar a nova barbárie de uma construção e urbanização massivas e descontroladas, desprovidas de racionalidade ou originalidade criativa, cujos efeitos desastrosos já então eram visíveis sob as cores da modernidade.

7. Sem novos argumentos, torna-se difícil sustentar a tese greco-latina segundo a qual a Cidade seria o centro privilegiado do pensamento e da invenção, alterando-se em escala mundial a relação campo-cidade, e sendo impossível pensar o fenômeno urbano moderno como obra sem antes concebê-lo como produto de um modo de produção específico.

  • Os ambientalistas já haviam despertado a opinião pública para a devastação do território e da natureza, faltando, contudo, a esse movimento uma teoria geral da relação entre espaço e sociedade, entre o territorial, o urbanístico e o arquitetônico.

8. A concepção do espaço como produto social não se desenvolveu sem dificuldades, exigindo uma problemática em parte nova e imprevista, e uma ampliação das noções de produção e de produto.

9. Como dizia Hegel, um conceito só emerge quando aquilo a que se refere está ameaçado e próximo do fim, não podendo mais o espaço ser concebido como passivo ou vazio, mas intervindo, como produto, na própria produção, tornando-se parte das relações e forças produtivas, o que confere ao conceito caráter dialético de produto-produtor, com papel também na reprodução das relações que ele realiza na prática.

10. Essa ideia, uma vez formulada, esclarece muitas coisas ao evidenciar a realização, no terreno e num espaço social produzido, das relações sociais de produção e reprodução, permitindo ainda compreender, modificar e completar a originalidade do projeto que é o planejamento espacial, levando em conta sua natureza ligada à urbanização.

11. Uma segunda dificuldade reside no fato de que, na tradição marxiana estrita, o espaço social poderia ser visto como superestrutura, quando na verdade ele entra nas forças produtivas, na divisão do trabalho e na propriedade, escapando assim à classificação base-estrutura-superestrutura, tal como talvez o tempo e a linguagem.

  • Em vez de abandonar a análise marxista, este trabalho procura aprofundá-la introduzindo novos conceitos, partindo do pressuposto de que o espaço atua de modo desigual, ora no âmbito do trabalho e da dominação, ora no funcionamento das superestruturas, sem que a produção do espaço seja dominante, mas antes coordenadora de aspectos da prática.

12. O espaço social pode agir no mundo da produção como efeito, causa e razão ao mesmo tempo, mas muda com o próprio modo de produção e com as sociedades, existindo assim uma história do espaço, como do tempo, do corpo e da sexualidade, história ainda por escrever.

13. O conceito de espaço articula o mental e o cultural, o social e o histórico, reconstituindo um processo de descoberta, produção e criação de obras, processo gradual e genético que segue a lógica geral da simultaneidade, já que todo mecanismo espacial repousa na justaposição de elementos dos quais se produz a simultaneidade.

14. A questão se complica ao se perguntar se existe uma conexão direta e transparente entre o modo de produção e seu espaço, não havendo tal simplicidade, pois ideologias e ilusões se interpõem, como demonstra a invenção da perspectiva na Toscana dos séculos XIII e XIV.

  • Essa nova produção espacial não se separa de uma transformação econômica ligada ao crescimento da produção e das trocas, à ascensão de uma nova classe e à importância das cidades, permanecendo incerto se esse novo espaço foi engendrado pelos príncipes, pelos ricos mercadores, por um compromisso entre ambos ou pela própria cidade.

15. Outro caso, ainda mais surpreendente e mal explicado neste trabalho, é o da Bauhaus e de Le Corbusier, cujos membros, tomados por bolcheviques e perseguidos na Alemanha entre 1920 e 1930, emigraram para os Estados Unidos, onde se tornaram praticantes e teóricos do espaço moderno próprio ao capitalismo avançado.

  • O espaço produzido pela modernidade apresenta características específicas de homogeneidade, fragmentação e hierarquia, tendendo à homogeneidade por razões de fabricação, gestão e controle, mas fragmentando-se paradoxalmente em lotes e parcelas que produziram guetos e conjuntos mal ligados a seus arredores, segundo uma hierarquia rígida de zonas residenciais, comerciais e de lazer.

16. Este trabalho procurou não apenas descrever o espaço em que vivemos e suas origens, mas remontar, através do espaço produzido, às origens da sociedade atual, retomando o plano de um estudo retrospectivo do espaço social que, partindo do presente rumo à sua gênese, retorna ao presente para vislumbrar o futuro possível.

  • Essa abordagem conduz a estudos locais em diferentes escalas, inseridos na análise global, sabendo-se que essa compreensão não exclui conflitos e contradições, tal como não exclui acordos e alianças, entrelaçando-se o local, o regional, o nacional e o mundial sem que os conflitos sejam eliminados.

17. Existem relações análogas entre o territorial, o planejamento e o arquitetônico, implicações e conflitos que só podem ser apreendidos a partir das relações entre lógica e dialética, estrutura e conjuntura, relações abstratas e concretas que surpreendem numa cultura filosófica e política que costuma deixar de lado essa complexidade.

18. A pesquisa sobre o espaço social remete a uma globalidade que não exclui projetos de pesquisa específicos e localizados, embora o perigo dos estudos pontuais, valorizados por serem controláveis e mensuráveis, esteja em separar o que está conectado, aceitando ou endossando a fragmentação e favorecendo práticas excessivas de desconcentração que rompem as redes e relações do espaço social.

19. Uma ideia central a que se deve retornar é que o modo de produção organiza, ao mesmo tempo que certas relações sociais, seu próprio espaço e tempo, de modo que perguntar se o socialismo criou seu espaço equivale a constatar que o modo de produção socialista ainda não existe de forma concreta.

  • Não há correspondência exata e previamente estabelecida entre relações sociais e relações espaciais, tendo o modo de produção capitalista se apropriado primeiro do espaço já existente, as vias fluviais, depois as estradas, as ferrovias, as rodovias e os aeródromos, sem que nenhum meio anterior de transporte tenha inteiramente desaparecido.

20. As ferrovias tiveram papel fundamental no capitalismo industrial e na organização de seu espaço nacional e internacional, ao mesmo tempo em que, na escala urbana, os bondes, o metrô e os ônibus, e depois, em escala mundial, o transporte aéreo, desagregavam a organização anterior, absorvida pelo modo de produção num duplo processo visível há décadas nas cidades e no campo.

21. A organização de um espaço centralizado e concentrado serve simultaneamente ao poder político e à produção material, otimizando o lucro, disputado e disfarçado pelas classes sociais na hierarquia dos espaços ocupados.

22. Tende, contudo, a se desenvolver um novo espaço em escala mundial, que integra e desintegra o nacional e o local, processo pleno de contradições ligado ao conflito entre a divisão planetária do trabalho no modo de produção capitalista e o esforço de criar uma ordem mundial mais racional, penetração espacial tão importante historicamente quanto a hegemonia obtida pela penetração das instituições, cujo ponto crucial, a militarização do espaço, não é tratado aqui mas completa a demonstração em escala planetária e cósmica.

23. Essa tese de um espaço ao mesmo tempo homogêneo e fragmentado, como o tempo, suscitou muitas objeções há dez ou doze anos, questionando-se como um espaço poderia obedecer a regras comuns, constituir um objeto e desintegrar-se simultaneamente.

24. Não se trata de afirmar uma ligação direta entre a já célebre teoria do objeto fractal de Mandelbrot e a ideia de espaço fragmentado aqui defendida, mas de assinalar a quase simultaneidade das duas teorias e o fato de que a teoria físico-matemática torna mais acessível e aceitável a teoria socioeconômica, sendo ambos os empreendimentos teóricos análogos.

25. A relação entre esse espaço fragmentado e as múltiplas redes que atuam contra a fragmentação, restabelecendo ao menos a homogeneidade, permanece por elaborar, permanecendo em aberto se algo poderia emergir, através e contra a hierarquização, das próprias contradições do modo de produção existente, expondo-as em vez de encobri-las.

26. Como autocrítica, reconhece-se que este livro não descreveu de modo direto e contundente a produção de conjuntos habitacionais, guetos e falsos conjuntos, permanecendo incerto o projeto de criação de um novo espaço e nem sempre clara a função da arquitetura como uso do espaço.

27. Ainda assim, este livro conserva diversos pontos focais e pode ser relido hoje segundo uma abordagem proveitosa organizada em três fases: a dos elementos e da análise que os isola, os atores da produção e os lucros obtidos; a das oposições paradigmáticas entre público e privado, troca e uso, oficial e pessoal, frontal e espontâneo, espaço e tempo; e a da dialetização desse quadro estático, relações de poder, alianças, conflitos e ritmos sociais produzidos nesse espaço.

  • Tal leitura deveria poupar este trabalho da dupla acusação de u-topia, construção falsa no vazio verbal, e de a-topia, eliminação do espaço concreto restando apenas o vazio social.
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