Zumthor
ZUMTHOR, Paul. La Mesure du monde. Paris: Seuil, 1993.
Desde que me lembro, sempre fui fascinado tanto por livros de história quanto por planos de viagem. Um duplo aspecto do mesmo desejo, cujas impulsões a vida se divertiu por muito tempo em dissociar para mim. Aos dez anos, li apaixonadamente (segundo uma antiga Relação dos Jesuítas, perdida na biblioteca do meu pai) a crônica do arcaico imperador chinês Qin Shi Huang Di; mas tive de esperar até completar 72 anos para poder, finalmente, curvar-me fisicamente diante do túmulo desse grande homem implacável, que concebeu a famosa Muralha e aboliu por decreto tudo o que o mundo havia produzido antes de seu reinado: assim, ele fechava o Espaço e bloqueava o curso do Tempo — à semelhança do que muitos historiadores, de forma mais ou menos velada, gostariam de fazer.
Nesse intervalo, dediquei-me aos estudos medievais, ligado a esse fragmento do nosso passado por um laço muito forte, sobre a natureza do qual me expressei em meu livrinho *Parler du Moyen Age*, publicado há treze anos. Além disso, minhas funções me levaram, desde cerca de 1960, a viajar muito: fora da América do Norte e da Europa, restam poucas regiões — do Brasil à África e à Índia, do Japão à Austrália, do Ártico à Ásia Central e ao Pacífico — que hoje me sejam realmente desconhecidas. Tive a oportunidade de percorrer a Rota da Seda com Marco Polo, de atravessar o Atlântico de navio com Cristóvão Colombo… Quando um grupo de amigos e alunos teve, na década de 1980, a gentileza de reunir, em minha homenagem, um volume de artigos, pediram-me que sugerisse o tema geral e o título. Espontaneamente, propus *O Número do Tempo*. Parecia-me, de fato (e ainda mais hoje), que, para além ou por baixo da obsessão temporal própria de quem se dedica à história, ressoa o batimento de algum ritmo muito profundo, alheio às durações, uma presença pura — como o impacto de uma enxada invisível sobre o solo seco e duro. A escuta manifesta, certamente, o sopro do tempo, mas, da mesma forma, gera a extensão.
O que isso significa, senão — banalmente — que ninguém poderia “fazer história” sem inscrevê-la no solo que sustenta a humanidade, sob o céu que a cobre; sem enraizá-la em seu próprio lugar; sem, assim, demoradamente e com carinho, avaliar a dimensão do mundo? Pois nenhum de nós poderia sentir (nem, muito menos, compreender em toda a sua crueldade patética) a incessante mutabilidade dos seres e das coisas sem, por esse mesmo fato, renovar sua adesão à nossa Terra material — a esse corpo de Mãe do qual nunca estamos totalmente separados.
