III.2 Cibernética – Arqué da Informatização
Pensando a “questão da informática” com M. Heidegger
Murilo Cardoso de Castro. Tese de Doutorado, UFRJ 2005.
No olho do furacão da informatização que varre atualmente a cultura ocidental repousa uma Scienza Nuova, a cibernética. A exemplo da física-matemática que dominou a Modernidade esta nova ciência lança um novo Discurso do Método, como afirma Gilbert Simondon (1958, p. 104). Desde o final dos anos 1940 ela vem se afirmando como uma filosofia, uma epistemologia e uma metodologia para as demais ciências.
Não é necessário ser profeta para reconhecer que as modernas ciências que estão se instalando serão, em breve, determinadas e dirigidas pela nova ciência básica que se chama cibernética.
Esta ciência corresponde à determinação do homem como ser ligado à práxis na sociedade. Pois ela é a teoria que permite o controle de todo o planejamento possível e de toda organização do trabalho humano. A cibernética transforma a linguagem num meio de troca de mensagens. As artes tornam-se instrumentos controlados e controladores da informação.
O desdobramento da Filosofia cada vez mais decisivamente nas ciências autônomas e, no entanto, interligadas, é o acabamento legítimo da Filosofia. Na época presente a Filosofia chega a seu estágio terminal. Ela encontrou seu lugar no caráter científico com que a humanidade se realiza na práxis social. O caráter específico desta cientificidade é de natureza cibernética, quer dizer técnica. Provavelmente desaparecerá a necessidade de questionar a técnica moderna, na mesma medida em que mais decisivamente a técnica marcar e orientar todas as manifestações no Planeta e o posto que o homem nele ocupa.
As ciências interpretarão tudo o que em sua estrutura ainda lembra a sua origem na Filosofia, segundo as regras de ciência, isto é, sob o ponto de vista da técnica. As categorias das quais cada ciência depende para a articulação e delimitação da área de seu objeto, a compreendem de maneira instrumental, sob a forma de hipóteses de trabalho.
A verdade destas hipóteses de trabalho não será apenas medida nos efeitos que sua aplicação traz para o progresso da pesquisa. A verdade cientifica é identificada com a eficiência destes efeitos.
Aquilo que a Filosofia, no transcurso de sua história, tentou em etapas, e mesmo nestas de maneira insuficiente, isto é, expor as ontologias das diversas regiões do ente (natureza, história, direito, arte), as ciências o assumem como tarefa sua. Seu interesse dirige-se para a teoria dos, em cada caso necessários, conceitos estruturais do campo de objetividade aí integrado.
“Teoria” significa agora: suposição de categorias a que se reconhece apenas uma função cibernética, sendo-lhe negado todo sentido ontológico. Passa a imperar o elemento racional e os modelos próprios do pensamento que apenas representa e calcula. (HEIDEGGER, 2000b, p. 97)
Essa longa citação de uma das raras, mas profunda referência, feita por Heidegger, a emergente cibernética dos anos 50, é necessária para dar o tom desta breve análise de um dos fundamentos da informática. A própria noção de informação herdou da cibernética todas as conotações singulares que enfatiza através da tecnologia que a sustenta e dissemina, nos termos desta apropriação.
A cibernética não foi apenas uma mutação na história das técnicas, uma invenção. Trata-se de teoria aplicada “às máquinas e aos seres vivos”, conforme proposta por Wiener, que se dispõe a renovar a concepção geral da natureza, do animal, do ser humano e da tecnologia, a partir de modelos operatórios. A cibernética representa, filosoficamente um duplo movimento de tecnicização da natureza e de naturalização da técnica que constitui, de fato, um pensar experimental nutrido por modelos, simuladores suscetíveis de serem codificados e integrados a uma lógica tecnológica unitária (BEAUNE, 1980, p. 308).
Neste somatório de influências que governou o destino da informática coube ainda à cibernética uma contribuição ímpar: na concepção dos primeiros computadores, na fundação das bases da inteligência artificial, na introdução dos conceitos e do formalismo lógico-matemático nas neurociências, e mais que tudo, na disseminação de um complexo de ideias, conjugando as noções de sistemas, de informação, de comunicação e de cálculo (DUPUY, 1995).
O movimento fundador da Cibernética nasceu em 1943, com a publicação de dois artigos clássicos. Primeiro, o artigo Comportamento, meta e teleologia, do matemático Norbert Wiener, do fisiologista Arturo Rosenbluth e do engenheiro eletrônico Julian Bigelow, sobre uma possível base de analogia entre os seres vivos e as máquinas, a partir da qual seria possível explicar o comportamento animal pela causalidade circular que religa os organismos e seu ambiente (o famoso feed-back). O artigo foi consagrado pois se acreditava então, que finalmente o inextricável problema da teleologia do ser vivo começava a ter uma solução mecanicista.
A cibernética, tal como se vê antecipada no artigo de 1943, trata inegavelmente seus objetos de estudo como dispositivos que transformam mensagens de entrada (input) em mensagens de saída (output). Esta é uma definição que encontraremos ainda com todas as letras na obra tardia de Wiener, God and Golem, Inc. (1964). O que a impede, porém, de se reduzir a um mero behaviorismo que obedeça a um esquema estímulo-resposta é precisamente a noção de feedback. Graças a esse dispositivo, o objeto é capaz de mudar a relação que estabeleceu entre input e output, entre estímulo e resposta. Para o observador que optou por permanecer no exterior do objeto, tudo se passa como se este tivesse a capacidade de modificar a sua resposta a um estímulo dado, e isto a fim de alcançar determinado objetivo. Tudo se passa, pois, aparentemente, como se o objeto fosse capaz de perseguir uma finalidade dada, aprendendo a ajustar seu comportamento em vista dos erros que comete. (DUPUY, 1995, p. 47)
A tecnologia da informação é, portanto, uma máquina cibernética, um conjunto auto-regulado de instrumentos de representação, composto por uma “memória” (um órgão interno de armazenamento), um “cérebro” (um órgão interno de cálculo e decisão) e uma interface de periféricos de entrada e saída de informações. Esta é a forma que a tecnologia da informação adotou desde o primeiro computador, na trilha dos trabalhos de Turing, Wiener, Shannon, McCulloch e von Neumann.
A tecnologia da informação é uma máquina de “pensar à imagem do ser humano”, mas não “a sua semelhança”. Pois, segundo este texto fundador na sua constituição, segue o princípio de deixar de lado o conteúdo, a natureza humana, pela abstração da “forma racionalizante” desta natureza. Apreende-se esta forma racionalizante em um dis-positivo de representação, observando o ser humano em seu exercício mais elementar da razão, como uma “caixa preta” de entrada e saída de mensagens. Esta é a conclusão do artigo de “que uma análise comportamental uniforme é aplicável ao mesmo tempo às máquinas e aos organismos vivos”.
O segundo artigo foi Um cálculo das ideias imanente à atividade nervosa, do neuropsiquiatra Warren McCulloch e do matemático Walter Pitts. No qual se identifica o sistema nervoso a uma máquina lógica e se demonstra que uma rede de neurônios formais (simplificados) possui o mesmo poder de cálculo que uma “máquina universal”. Sua ambição filosófica é, portanto, considerável, já que orienta a busca de uma base neurológica para a razão e a memória humanas, fundamentando uma “neurologia da mente”. Acredita-se que estão aí fixados os primeiros critérios que doravante irão determinar o estudo do processo cognitivo.
Esse artigo de McCulloch e Pitts radicaliza o procedimento de Wiener e de seus colaboradores em dois planos. Enquanto estes últimos tratam a mente como uma caixa-preta da qual interessa a funcionalidade, McCulloch parte em busca dos mecanismos que encarnam a mente.
Sem dúvida, o “conteúdo” daquilo mesmo que é capaz de comportamento é agora considerado pertencendo à esfera de um procedimento científico, mas esse conteúdo se descreve a si próprio em termos de comportamentos de unidades menores, no “interior” das quais não se pode pensar em penetrar e que só são consideradas em suas relações com seu ambiente, ou seja, como operadores que transformam inputs em outputs: os neurônios. Portanto, não se deve falar de oposição, mas sim de radicalização, pois a abordagem comportamental e comunicacional é transposta para um nível lógico inferior. (DUPUY, 1995, p. 53)
“Quanto mais aprendemos sobre os organismos, mais somos levados a concluir que eles não são simplesmente análogos às máquinas, mas são máquinas”. Por esta citação de McCulloch pode-se sentir uma radicalização da proposta cibernética enunciada por Wiener. Uma radicalização que soou forte no impulso da cibernética enquanto princípio filosófico da “Era da Informação”.
Para Herbert Simon, um dos teóricos da informática moderna, somos máquinas de Turing, pois esta máquina formal pode alcançar os mesmo resultados que toda démarche intelectual rigorosa. A tecnologia da informação é assim, em seu berço teórico, uma maquina universal imitando o cérebro humano ao nível das operações formais e das funções de tratamento da informação, ou seja, simulando de modo isomórfico operações lógico-matemáticas de processamento de símbolos.
Em 1955, Allen Newell e Herbert Simon, trabalhando na Rand Corporation, acreditaram estar estabelecendo as provas definitivas de que os computadores poderiam fazer muito mais do que computar. Demonstraram que computadores são sistemas de processamento de símbolos, cujos símbolos tratados poderiam ser qualquer coisa, inclusive propriedades dos entes, dos atos e fatos humanos, enfim do mundo. E cujos programas seriam algoritmos para manipular estes mesmos símbolos, permitindo anima-los e relaciona-los entre si. Deste modo, poderiam ser usados como engenhos capazes de emular certos aspectos importantes da inteligência humana.
O movimento da Cibernética foi marcado pelo selo da lógica matemática desde sua origem. Seu principal pensador, Norbert Wiener, tendo estudado em Cambridge com Russell, afirmava categoricamente que o mesmo impulso intelectual que levou ao desenvolvimento da lógica matemática, conduzia ao mesmo tempo à mecanização ideal ou real dos processos do pensamento. Da mesma forma, é possível identificar nos demais fundadores do movimento, a primazia de uma visão do mundo centrada na lógica matemática, seja em suas formações ou em suas posições a partir da constituição do movimento.
Fundamentados na lógica-matemática, todos esses pioneiros teóricos da informática militavam dentro de um enfoque que buscava reconhecer no ser humano e nas coisas, uma espécie de “ente informacional”, como já denominado anteriormente. Ou seja, esperavam descobrir um ente de natureza informacional, transparente e racional, que se destacaria de um fundo de ruído (“diabólico”, segundo Wiener).
Este modelo informacional, sobressai particularmente no pensamento de Norbert Wiener, que se empenha em operar uma separação bem nítida entre a dimensão informacional, única essencial para ele, e os suportes materiais, secundários e sem importância. Wiener chega mesmo a imaginar e propor, já nesta época, que este modelo poderia se “materializar” em uma máquina computacional, e até mesmo ser transmitido como uma mensagem entre máquinas (BRETON, 1995).
Os caminhos da lógica e da teoria da informação se entrecruzam antes mesmo de suas formalizações modernas, quando então se interligam ainda mais, através dos conceitos de operação e de codificação. Com efeito, após Leibniz, e mais intensamente ainda após Frege, a lógica começa a se aprisionar dentro de uma visão que prima pela otimização da codificação, e que tende a produzir uma linguagem monossêmica, instrumento ideal para informatização.
Quanto ao conceito de “operação”, deve-se partir da assertiva de Shannon, de que informação é aquilo que permanece invariante sob todas as codificações ou traduções que podem ser aplicadas às mensagens produzidas por processos. Ou seja, dado um tradutor que opera sobre uma mensagem, se a tradução é reversível, sua saída contém a mesma informação que a sua entrada. A informação é, portanto, o que permanece invariante por uma série de operações reversíveis. Deste modo, a comunicação passa a ser um caso particular do cálculo: uma série de operações cujo sentido pode ser invertido de tal forma que os dados iniciais possam ser reencontrados.
Como foi dito, a lógica matemática foi revitalizada por uma associação à teoria dos autômatos, pela Cibernética e pela Teoria da Informação. Wiener afirmava que a ciência de hoje é operacional, ou seja que ela considera cada proposição como essencialmente referente às experiências possíveis ou aos processos observáveis. Desta maneira, o estudo da lógica deve reduzir-se ao estudo da máquina lógica.
A cibernética fixa três conceitos fundadores de sua aplicação: sistema, feedback (retro-alimentação) e informação codificada. O conceito de sistema como uma caixa-preta que admite entradas dando em resposta, saídas. Entradas e saídas como mensagens codificadas, em uma linguagem reduzida que a caixa–preta “entende”. A retro-alimentação, por sua vez, é que garante o controle do processamento das mensagens em saídas, introduzindo mais uma informação no sistema, o seu estado a cada instante.
O já citado artigo de Wiener de 1943, fundador da Cibernética, é exemplar a este respeito, ao adotar uma leitura dos fenômenos, como “caixas-pretas”, onde se privilegia a lógica do fenômeno, passível de se depreender a partir de uma análise da estrutura de comportamento expressa no próprio fenômeno; de sua funcionalidade, refletida nas relações entre entradas e saídas. A essência de um fenômeno qualquer seria, portanto, a organização dos cálculos entre informação aferente e informação eferente.
Seja como caixa-preta, da qual interessa representar a operação da razão e da memória que “sinalizam” as entradas e saídas de seu fazer, seja como um autômato natural, no qual neurônios cerebrais “comportam-se” como circuitos eletro-eletrônicos em uma máquina, está em jogo uma imagem de ser humano, animal racional.
Vale lembrar aqui o poeta Fernando Pessoa: “O homem não difere do animal senão em saber que o não é. É a primeira luz, que não é mais que treva visível. É o começo, porque ver a treva é ter a luz dela. É o fim, porque é o saber, pela vista, que se nasceu cego. Assim o animal se torna homem pela ignorância que nele nasce.” (Pessoa, 1988, p. 18)
Esta imagem do ser humano como animal racional é várias vezes criticada por Heidegger como uma visão moderna da razão, ligada ao triunfo de um fenômeno paradoxal, denominado por Zimmerman (1990, p. 192) “humanismo naturalista”. O paradoxo está justamente no reconhecimento do ser humano como um animal, idêntico a qualquer outro na Terra, e ao mesmo tempo distinto de qualquer outro, por ser dotado de razão. Uma racionalidade que lhe daria o direito de definir, julgar e usar coisas do modo que bem entender.
Este humanismo naturalista simboliza para Heidegger a auto-elevação do ser humano à situação de sujeito de uma empreitada para ser “mestre e senhor da Natureza”. No fundo, seria a resposta moderna e equivocada ao princípio aristotélico do “animal racional”, que atravessa o pensamento de gerações sucessivas, desde o início da metafísica ocidental até a total degeneração do logos grego, enquanto “ser capaz” de reunir e distinguir todas as coisas, em uma “racionalidade instrumental”, onde o logos é apenas um instrumento humano; e sendo assim, pode ter sua mímesis perfeita e mais rápida em uma “tecnologia da inteligência”, como Lévy (1990) denomina a tecnologia da informação.
A revolução cibernética, associada ao advento da informática, é um sinal de que o logos condicionou-se à:
“matematização da natureza”
Com as três referidas caracterizações da ciência moderna - ciência de factos, ser experimental e ciência que mede – não encontramos o traço fundamental da nova posição do saber. O traço fundamental deve residir naquilo que, fornecendo-lhe a medida, determina completamente, de um modo igualmente originário, o movimento-de-fundo da ciência enquanto tal: trata-se da relação-de-trabalho com as coisas e do projecto metafísico da coisalidade da coisa. De que modo devemos conceber este traço fundamental?
Atribuímos um nome ao carácter-de-fundo, que procuramos, da moderna atitude do saber, ao dizermos que a nova pretensão do saber é matemática. É de Kant a seguinte afirmação, muitas vezes citada, mas menos vezes compreendida: «Mas eu digo que, em cada teoria particular acerca da natureza, só se pode encontrar uma autêntica ciência, na medida em que se encontrar nela a matemática.» (Prefácio a Primeiros princípios metafísicos da ciência da natureza). (HEIDEGGER, 1987/1992, p. 74-75)
“logicização da razão” pela logística
O pensar sobre o pensar se desenvolve no ocidente como lógica. Esta recolheu conhecimentos particulares sobre uma maneira particular de pensar. Apenas recentemente que se fez frutificar cientificamente estes conhecimentos da lógica, e isto em uma ciência particular que se denomina “logística”. Ela é a mais especial de todas as ciências especiais. A logística é tomada atualmente em vários lugares, antes de mais nada nos países anglo-saxões, como única forma possível de filosofia estrita, porque seus resultados e seus métodos guardam uma relação segura e imediata com a construção do mundo técnico. (HEIDEGGER, 1954/1959, p. 33-34)
à “industrialização da memória”
O pensamento é um reconhecimento? Mas que quer dizer aqui “reconhecimento”? Ou bem o reconhecimento repousa no pensamento? Mas o que quer dizer aqui “pensamento”? A memória não é um reservatório para aquilo que pensou o pensamento, ou bem o pensamento repousa ele mesmo na memória? Qual a relação entre reconhecimento e memória? Colocando estas questões nós nos movemos no espaço daquilo que acede à linguagem no verbo “pensar” e que aflora nele. (…) O “Gedanc” equivale quase à alma (Gemüt). “muot” – o coração. Pensar, no sentido da palavra inicialmente falante, aquele do “Gedanc”, é quase ainda mais original que este pensar do coração que Pascal, séculos mais tarde, já como contragolpe ao pensar matemático, buscou reconquistar.
Prevaleceu o “princípio de razão”, que não visa o excesso do ser, sua simplicidade, mas a possibilidade de reduzi-lo a uma identidade conceitual, intercambiável, permitindo produzir uma antecipação do devir e exercer retro-especulação (feedback) como guia deste devir. Isto é a cibernética.
