Ser
BARRETT, William. The illusion of technique: a search for meaning in a technological civilization. 1st ed ed. Garden City, N.Y: Anchor Press, 1978.
O “Valor Monetário” do Ser
1. A maioria de nós já experimentou, ao menos brevemente, a ideia de Ser, sobrecolhidos pelo assombro de que algo exista em vez de nada, ainda que rapidamente afastemos esse pensamento para retornar às necessidades concretas da vida.
2. Essa é a tarefa dos filósofos, mas os filósofos modernos já não transmitem essa lição de modéstia, tendo eliminado a ideia do Ser de seu pensamento e erguido barreiras linguísticas ainda mais restritivas contra ela, tornando quase impossível falar do Ser.
3. Cabe perguntar, invertendo o tabuleiro, se não é a própria linguagem que se torna incompreensível fora do Ser, e se toda filosofia da linguagem permanece incompleta enquanto não o capturar.
4. William James introduziu na filosofia o termo valor monetário, resposta desafiadora ao desdém europeu diante do pragmatismo americano, medindo o significado de uma ideia pela diferença que ela estabelece na experiência.
5. Seguindo esse espírito, propõe-se defender a ideia de Ser demonstrando seu claro valor monetário, isto é, sua indispensabilidade para a compreensão da linguagem como fenômeno humano.
6. James não restringia esse valor monetário a mera utilidade mercantil, situando as ideias mais importantes, como a de Deus, no nível mais amplo do sentido que dão à própria experiência, nível em que também deve ser avaliada, em última instância, a ideia de Ser.
7. Mesmo restrita à compreensão da linguagem, a questão do valor monetário remete ao critério de satisfação racional discutido por James em “The Sentiment of Rationality”, segundo o qual não existe critério fixo e formal para julgar uma explicação satisfatória, apenas a cessação do mal-estar inicial.
8. O que se sustentará quanto ao Ser é que o quadro filosófico da linguagem permanece incompleto sem ele, deixando um vazio de fundo que faz soar as palavras do filósofo sem profundidade nem ressonância.
9. Para tornar concreta essa generalização, propõe-se estabelecer um diálogo entre Wittgenstein e Heidegger, invertendo a prioridade linguística habitual dos analíticos ao engastar a linguagem de Wittgenstein dentro da de Heidegger, tornando suas pressuposições mais inteligíveis, tal como o burguês de Molière falava em prosa sem sabê-lo.
I.
10. Wittgenstein reconhece o Ser explicitamente apenas uma vez, no célebre trecho final do Tractatus sobre o Místico ser que o mundo seja, após o qual passa ao silêncio diante do que não pode ser dito.
11. Esse Ser, porém, não desaparece por completo, tornando-se subterrâneo e persistindo sem se anunciar ao longo das Investigações Filosóficas, sendo esse o aspecto do Ser que Heidegger busca revelar em sua doutrina da verdade como Aletheia, a presença aberta e iluminada dentro da qual se pode falar.
12. Para Wittgenstein, a linguagem é o dado central da filosofia, e justamente por constituir o próprio meio das explicações revela seu peculiar parentesco com o Ser, que nunca é uma coisa determinada, cabendo perguntar se Wittgenstein captou plenamente esse caráter simultaneamente oculto e aberto da linguagem.
13. O salto para a linguagem corrente não nasceu de paixão filológica, nem constitui culto ingênuo ao lenguaje natural, mas decorre de reconhecer nele a região onde toda explicação deve, em última instância, tornar-se evidente, justificação de caráter fenomenológico que Wittgenstein deixa implícita.
14. Ao escolher a linguagem corrente, Wittgenstein evita os problemas cartesianos sobre a existência do mundo externo e de outras mentes, que se tornam artificiais e circulares dentro desse uso.
15. G. E. Moore, colega de Wittgenstein em Cambridge, apresentou em 1939 sua célebre prova do mundo externo mostrando suas próprias mãos, argumento curiosamente circular mas eficaz, contrastando com as oscilações cartesianas de Russell sobre essa mesma prova, como revela uma carta de 1912 na qual Russell relata ter improvisado o argumento oposto durante uma aula.
16. Heidegger, ao discutir o mesmo problema em Ser e Tempo, também cita Kant sobre o escândalo filosófico da ausência de prova, mas diverge radicalmente de Moore ao declarar que o verdadeiro escândalo é os filósofos exigirem tal prova, já que qualquer demonstração já ocorre dentro do mundo, sendo nosso Ser-no-mundo fenômeno unitário e não soma de objetos isolados.
17. Falta ainda considerar a copresença do próprio falante e dos ouvintes no argumento de Moore, e o papel da linguagem como testemunha dessa copresença, sem a qual até o gesto de levantar a mão perderia seu significado, como ilustra a hipótese de um observador que veja sem ouvir.
18. Nos últimos fragmentos, o próprio Wittgenstein reconheceu que a crença num mundo externo não é crença numa coisa particular, mas parte da própria arcabouço de nossa forma de vida, aproximando-se do Ser-no-mundo heideggeriano, ainda que permaneça preso a uma ontologia das coisas.
II.
19. A mudança do cálculo formal para a linguagem corrente implica mudança na situação típica de uso da linguagem, sendo a conversação humana, e não a manipulação de marcas num papel, a situação mais frequente de linguagem viva, refletida na própria estrutura conversacional das Investigações Filosóficas.
20. Cabe perguntar que compreensão do Ser deve estar presente para que uma conversa entre A e B seja possível, já que tanto o dualismo cartesiano quanto o conductismo tornam essa situação simples quase incompreensível ao fragmentá-la em mentes e corpos isolados.
21. Nem mesmo o conductismo escapa dessa dificuldade, pois observar o comportamento alheio já pressupõe algo de mente, e levada ao extremo essa lógica gera um interminável jogo de observadores mútuos que em nada se assemelha a uma conversa real.
22. Uma conversa autêntica ocorre entre A e B e dentro da linguagem, merecendo essas preposições toda a seriedade, pois sem elas não se unem os ingredientes isolados de mente e corpo, não ocorrendo a conversa nem dentro das cabeças nem na superfície dos corpos, mas na própria região compartilhada entre os interlocutores.
23. Pensamos dentro da linguagem, não fora dela para depois traduzir pensamentos já formados, tal como um compositor não pensa a música antes de escrevê-la em notas, buscando sempre a tentos o lenguaje apropriado dentro da própria linguagem.
III.
24. Considerando a linguagem como ferramenta, Wittgenstein convida a pensar nas palavras como instrumentos numa caixa de ferramentas, afastando-nos tanto da mente cartesiana quanto dos universais platônicos, ainda que uma ferramenta aponte sempre além de si mesma para um mundo de uso.
25. A linguagem se abre ao mundo de modo ainda mais abrupto que qualquer ferramenta, sendo cada palavra imediatamente transparente para além de si, como ilustra a comparação entre a notação de xadrez e a descrição literária de uma partida no romance A Defesa de Nabokov, ambas expressando o mesmo jogo através de referências múltiplas e sobredeterminadas.
26. Todo lenguaje é, nesse sentido, metafórico, conectando insistentemente uma coisa a outra, e mesmo os lenguajes mais rudimentares tendem a se expandir assim que postos em uso, como mostra o exemplo do capataz que grita Losa, cujo significado ultrapassa a mera obediência mecânica para abrir uma região do Ser entre o operário e seus companheiros.
27. Assim como a linguagem se abre ao mundo, também se fecha nele, caminhando sempre de mãos dadas com nosso Ser-no-mundo, tal como evidencia a estreita ligação wittgensteiniana entre significado e uso, cuja explicação deve necessariamente deter-se em algum ponto, deixando-nos sempre dentro de um contexto de significados, de um mundo onde algumas coisas estão à luz e outras na sombra.
28. Uma lembrança pessoal de comunicação improvisada com um jovem soldado iugoslavo durante a guerra ilustra como os significados residem primeiro no mundo, nas interconexões das coisas, e não na mente isolada, ecoando a frase de Hölderlin citada por Heidegger de que somos uma conversa.
IV.
29. Descendo do abstrato lenguaje corriente ao concreto idioma inglês, pergunta-se o que de fato é essa língua, questão que, como a pergunta agostiniana sobre o tempo, revela-se mais difícil do que parece e sem resposta nas atuais filosofias linguísticas.
30. A dificuldade reside em que a língua inglesa não se reduz nem a marcas físicas nem a ideias mentais, elidindo ambas as categorias tal como o próprio Ser, sendo impossível concebê-la coerentemente como mero agregado de todos os sons já pronunciados ao longo da história.
31. Mesmo a tentativa conductista de reduzir o inglês a uma classe selecionada de comportamentos verbais condicionados revela-se remota diante da experiência concreta de habitar essa língua, cujas possibilidades de expressão me impulsionam para adiante enquanto escrevo.
32. Diferentemente de uma máquina de escrever, que permanece externa à minha vida, o idioma inglês constitui uma região do Ser que habito, sendo até meus últimos pensamentos ao morrer prováveis de ocorrer nele.
33. A presença desse idioma ressoa através de seu passado sobretudo na voz dos poetas, que renovam a linguagem e nos abrem os ouvidos para o novo, sendo na poesia que o lenguaje comum se torna menos ocioso, adaptando a expressão de Wittgenstein.
34. Essa conexão entre linguagem e tempo decorre estritamente do nominalismo wittgensteiniano, para o qual apenas indivíduos existem, exigindo da memória humana o papel de sustentar o discurso, como ilustra sua resposta ao platônico sobre a cor vermelha: esquecida a cor, a palavra perderia o significado.
35. Lembrar não é reviver um conteúdo mental subjetivo, mas afirmar diretamente sobre o passado, preservando a linguagem a copresença entre passado e presente, enquanto sua dimensão pragmática de forma de vida a abre essencialmente para o futuro.
36. Reunindo os três tempos, a linguagem é assim a memória abrindo caminho pelo presente rumo ao futuro, questão que Wittgenstein não formula explicitamente, mas que remete a três pontos da doutrina heideggeriana:
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a temporalidade constitui o caráter único da existência humana, unindo passado, presente e futuro apenas porque já estamos situados numa região do Ser que antecipadamente engloba essa disjunção, coordenando assim linguagem e existência humana
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essa temporalidade transforma nossa compreensão de atualidade e possibilidade, penetrando o possível no atual e manifestando-se a atualidade da linguagem como as próprias possibilidades de expressão que ela abre
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esses dois pontos exigem pensar o Ser como um terceiro termo que ultrapassa a dicotomia entre coisas e pensamentos, dimensão que Wittgenstein, apesar de afastar-se do subjetivismo mentalista, carece de aparato ontológico para captar plenamente, ainda que suas Investigações já constituam, tomando o termo de Heidegger, uma dança no claro aberto da Aletheia
37. Tudo isso terá pouco valor monetário para o técnico da linguagem, que, por não poder utilizá-lo, ignora o Ser justamente por sua transparência, mas talvez seja exatamente nessa aparente inutilidade que resida o verdadeiro valor monetário da Ideia do Ser, apontando o caminho para compreender a tecnologia como um todo, esforço a que se dedicará o próximo capítulo.
