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Técnica

BARRETT, William. The illusion of technique: a search for meaning in a technological civilization. 1st ed ed. Garden City, N.Y: Anchor Press, 1978.

Técnica, Técnicos e Filosofia

O QUE É UMA TÉCNICA?

1. Os índios yurok, cuja subsistência depende do salmão que sobe os rios, constroem uma represa de pesca precedida e acompanhada de numerosas cerimônias e rituais, seguidos por um período de distensão após o armazenamento do pescado.

2. Para os yurok, os rituais constituem parte integral da técnica de pesca tanto quanto a fabricação das redes, pois sua cosmovisão não separa o homem da natureza, sendo a pesca antes um dom recebido do que uma agressão da vontade humana, o que impede à mentalidade civilizada, mesmo reconhecendo tardiamente a eficácia psicológica desses ritos, qualquer retorno ao estado primitivo.

3. No sentido antropológico amplio, todos os rituais podem ser considerados técnicas, e mesmo a tecnologia moderna conserva vestígios rituais, como as cerimônias de inauguração de uma represa hidrelétrica, ainda que de pompa mais mecânica e externa que a dos yurok.

4. A estrutura dominante da tecnologia na sociedade moderna tende a fundir-se com o sentido de técnica, fusão mais evidente em outros idiomas do que no inglês, constituindo esse amálgama entre técnica e tecnologia o grande acontecimento da história moderna.

5. Embora a maioria possua mínimas técnicas em relação às máquinas que usa, a perda coletiva dessas técnicas reduziria toda a civilização a um amontoado de sucata, pois a tecnologia é apenas a técnica materializada, e sua persistência depende inteiramente do domínio do método.

6. Ainda usamos a palavra técnica em áreas como a arte, e embora um mestre possa ensinar regras mecânicas iniciais, chega um ponto em que o aluno deve seguir sua própria inspiração, pois não existe técnica regulamentar capaz de produzir uma obra, sendo essa a intuição que levou Kant a definir o gênio como a capacidade de produzir algo além de qualquer regra.

7. É justamente nesse limite da arte que se vislumbra o sentido central da técnica-tecnologia: um método padrão, ensinável, uma receita cujos passos seguidos à risca conduzem invariavelmente ao fim desejado, o que os lógicos chamam de procedimento de decisão.

8. Desde a infância familiarizamo-nos com esses procedimentos automáticos da aritmética elementar, mas problemas como certos teoremas geométricos exigem invenção e construção livre, sendo esses dois procedimentos, regra rígida e construção livre, antitéticos e complementares, definindo juntos a substância das matemáticas.

9. Chega-se assim, mesmo sem formulá-lo, à essência lógica da máquina: em termos lógicos, uma máquina é um procedimento de decisão materializado, que segue um número finito de passos até um resultado definido, sem que se deseje dela qualquer criatividade.

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10. Reduzida à sua essência lógica, a máquina não parece ameaçadora, pois apenas executa rotinas a nosso serviço, sendo o temor despertado apenas quando ela se torna mais inteligente e potencialmente incontrolável, tal como pessoas inteligentes também podem agir de modo insensato.

11. A desconfiança generalizada em relação à tecnologia fez do monstro de Frankenstein o mito dominante da época, presente tanto no cinema de terror quanto na ficção científica, numa curiosa ironia pela qual a tecnologia, voltada essencialmente para o futuro, desperta terrores primitivos ligados a lendas e contos de fadas.

12. Filosoficamente importa reconhecer a natureza complexa e intrincada da tecnologia, cuja dificuldade em separar efeitos benéficos e nocivos se observa nos fertilizantes químicos, que alimentam milhões mas contaminam águas, e na tecnologia médica, que reduziu pestes ancestrais ao custo da ameaça da superpopulação, revelando a tecnologia como projeção ampliada da própria condição humana ambígua entre bem e mal.

13. Paradoxalmente, parecemos possuir ao mesmo tempo tecnologia demais e de menos, pois ainda não conseguimos alimentar toda a humanidade.

14. Nossa ambivalência se aprofunda pela fascinação secreta pela técnica em si, evidenciada pela inundação de manuais de autoajuda que transformam até o amor e a saúde mental em procedimentos técnicos, numa adoração da técnica mais infantil ainda que a das próprias máquinas.

15. A filosofia constitui a fonte histórica da tecnologia moderna, pois esta implica a separação precisa entre sujeito e objeto, estabelecida por Descartes, e um procedimento lógico de resolução finita, criado pelos gregos antigos, sendo toda a tecnologia atual fruto tardio da filosofia.

16. Essa paternidade não privilegia o filósofo, que permanece tão submetido quanto qualquer outro ao esquema técnico da especialização social decorrente da natureza lógica da técnica, que fragmenta o trabalho em partes componentes atribuídas a cada indivíduo.

17. Perseguido pela ironia voltairiana do Dr. Pangloss, professor de coisas gerais, o filósofo moderno sente-se inseguro diante da especialização científica, mas permanece condenado por sua vocação a continuar desenvolvendo esquemas gerais de ideias.

18. Como escape social, o filósofo tende a justificar-se como um tipo especial de técnico, adotando revistas técnicas próprias da disciplina, até que essa coloração protetora acaba por devorá-lo, numa ironia histórica em que a filosofia, criadora da técnica, é engolida por sua própria descendência.

19. Dividido entre a especialização técnica e a fidelidade às questões históricas de sua disciplina, o filósofo sentiu grande alívio ao surgir Principia Mathematica, técnica intrincada o bastante para conferir credenciais de competência e, ao mesmo tempo, de implicações universais, permitindo ser professor de coisas gerais sem vergonha.

20. Toda técnica tende a produzir sua própria obsolescência, o que em filosofia geralmente significa mudança completa de estilo e linguagem, sucessão que neste século se acelerou em consonância com o ritmo de uma civilização técnica.

21. Ainda que essa rápida sucessão de ortodoxias não pareça servir a uma disciplina que aspira à verdade perene, ela permite ao menos a esperança de que cada técnica limitada corrija os erros da anterior, iluminação ocasionalmente vivida em episódios como o relatado a seguir.

22. Numa reunião para organizar o currículo de pós-graduação em filosofia, um jovem colega opôs-se com convicção à exigência de um curso de lógica matemática, por estar então inteiramente entregue à lingüística como suposta chave definitiva da filosofia.

23. Esse episódio revelou, com brutal clareza, que esse jovem filósofo e seu interlocutor mais velho poderiam ter sido intercambiáveis através de uma geração, pois a técnica específica muda, mas persiste incólume a convicção da época de que algum tipo de técnica é indispensável à filosofia.

24. Vale por isso retomar o caso de Russell, Whitehead e Wittgenstein, cuja lição ainda não foi plenamente aprendida e que pode ajudar a libertar a geração atual de suas ilusões quanto à onipotência das técnicas vigentes.

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