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Utopia

BARRETT, William. The illusion of technique: a search for meaning in a technological civilization. 1st ed ed. Garden City, N.Y: Anchor Press, 1978.

«Utopia ou Esquecimento»

1. Cabe perguntar se a história de nossa época é realmente a atualização de uma metafísica, impulso que nos leva a responder que não, preferindo situar os fatores decisivos em forças sociais e materiais, esquecendo que esse próprio conceito de ciência já decorre de uma posição metafísica, o que se torna ainda mais estranho quando o marxismo, metafísica dogmática, parece prestes a dominar o mundo.

2. Deve-se admirar a paixão de Heidegger pela história da filosofia, entendida não como coleção de opiniões curiosas mas como a própria vida humana alcançando sua mais plena expressão intelectual, sendo surpreendente que seja justamente a era moderna, apesar de suas inclinações positivistas, o período em que a filosofia desempenhou seu papel mais poderoso.

3. Enquanto a metafísica de Aristóteles influenciou apenas um pequeno grupo até ser retomada pela teologia medieval, a filosofia elaborada no século XVII codificou-se num corpo científico que ainda hoje move nossa civilização, fazendo de nossa época, num sentido claro, uma era da metafísica.

4. Parece haver, contudo, uma lacuna entre a generalidade filosófica do capítulo anterior e as realidades sociais concretas que a encarnariam, sendo necessário agora traduzir esse esquema heideggeriano, que anexa a vontade de poder ao pensamento cartesiano, em detalhes dos fatos sociais.

I.

5. Dificilmente reconheceríamos no homem de negócios americano, figura cautelosa e conservadora, a encarnação da vontade de poder nietzschiana, tão distinta da imagem napoleônica que Hegel adotou como encarnação do Weltgeist.

6. Esse executivo, provavelmente frequentador assíduo de igreja e alheio a qualquer filosofia pessoal além das crenças de sua classe, dificilmente se reconheceria como sujeito buscando conscientemente dominar a natureza como objeto.

7. Talvez essa vontade opere, porém, de forma mais oblíqua, visível ao observá-lo construir uma nova fábrica: seu cálculo estritamente prático dos homens e materiais como unidades a equilibrar representa, na verdade, um nível de abstração historicamente conquistado, sem que haja nele nada de maquiavélico.

8. Uma vez lançado, o momentum tecnológico não se detém, exigindo unidades habitacionais, centros comerciais e novas estradas, estendendo-se globalmente através dos mercados interconectados, sem que nosso pensamento consiga captar essa cadeia como um todo.

9. Não é propriamente o capitalismo que nos impõe sua vontade, já que somos nós que consumimos seus produtos e exigimos mais, sendo necessário reconhecer que a organização capitalista elevou, em menos de um século, metade da população a um padrão de vida antes restrito a apenas um por cento.

10. Essa mesma rede tecnológica capturou igualmente os planejadores marxistas, que podem impor sua vontade de modo ainda mais direto e brutal, ainda que o balanço dos direitos humanos favoreça incomparavelmente as sociedades capitalistas, aspectos que a visão heideggeriana simplesmente ignora por sua indiferença teórica.

11. Cabe perguntar quem realmente exerce a vontade de poder dentro desse arcabouço técnico, que Heidegger designa pela palavra alemã Gestell, unindo as associações do verbo stellen, estabelecer algo como real, à filosofia kantiana da vontade.

  • a associação com Gebirge, cadeia de montanhas, sugere que as vontades individuais se fundem indistintamente na armazón técnica
  • como numa cadeia montanhosa, torna-se difícil distinguir onde termina um servo e começa um senhor, como ilustra o poder paralisante de uma greve de garis

12. Esse aparato como um todo parece ter vontade própria justamente por pertencer ao âmbito ontológico das possibilidades, não dos fatos ônticos, sendo um projeto de domínio ao qual a humanidade se viu progressivamente arrastada por necessidade de sobrevivência, sem que ninguém estritamente o controle.

13. Seria tolice declarar-se contra a tecnologia, já que estaríamos contra nós mesmos em nossa existência histórica atual, tornando-se a tarefa filosófica não a negação nem o apoio simples da tecnologia, mas o esforço de ver aonde conduz o pensamento técnico e buscar outro modo de pensar que o contrabalance.

II.

14. Buckminster Fuller, tecnocrata otimista por excelência, parece a pessoa menos apropriada para essa visão de contrapeso, ainda que seu livro Utopia or Oblivion contenha momentos sombrios que merecem atenção.

15. Sua tese central sustenta que a tecnologia imperfeita cria problemas que exigem tecnologia ainda mais completa para corrigi-los, havendo assim tendência inerente rumo à totalidade, obrigando-nos a buscar a utopia sob pena de colapso civilizacional.

16. Diante desse dilema entre utopia e esquecimento, o esquecimento que tememos é mais que mera sobrevivência, sendo o próprio ideal utópico de vida sem atrito algo vazio e insípido, como ilustra a observação de Tolstói sobre a uniformidade das famílias felizes, condenando a utopia à monotonia vazia do esquecimento.

17. Em termos práticos, o que Fuller propõe talvez seja apenas o equilíbrio homeostático das fontes energéticas, mas resta a questão mais geral se o impulso à totalidade está inerentemente amarrado à tecnologia moderna, obrigando nosso pensamento a considerar sua possível totalidade futura.

18. Norbert Wiener já advertira que, tendo modificado radicalmente nosso ambiente, devemos agora modificar a nós mesmos para nele existir, mérito que cabe reconhecer a conductistas como Skinner, ainda que essa lógica conduza inevitavelmente à engenharia genética como passo final.

19. As controvérsias sobre experimentos em DNA recombinante já não são meramente especulativas, dividindo os próprios geneticistas entre cautela e ousadia, devendo-se reconhecer que a busca do conhecimento sempre implica risco, ainda que a verdadeira pergunta seja se saberemos intervir com inteligência.

20. A essência da tecnologia é o perigo, diz Heidegger, não no sentido de acidentes de laboratório, mas porque a tecnologia total conduz a humanidade a problemas que o próprio pensamento técnico é incapaz de resolver, já que possuir o poder da manipulação genética não nos dará automaticamente a sabedoria para usá-lo.

III.

21. Poderia objetar-se que esse quadro das tendências objetivantes mostra apenas metade do panorama cartesiano, restando perguntar onde estaria o subjetivismo compensatório correspondente ao sujeito que Descartes opôs ao objeto.

22. À primeira vista, a subjetividade parece ter quase desaparecido em nossos estilos de vida voltados à extroversão superficial dos meios de comunicação, mas na verdade permanece presente justamente em sua condição fugitiva e alienada.

23. Esse subjetivismo não é o do indivíduo kierkegaardiano lutando por sua interioridade apaixonada, mas o subjetivismo do nós, da multidão solitária, expressão de David Riesman que aqui se propõe apropriar filosoficamente para designar esse modo de ser que aflige tanto a massa quanto cada existência isolada.

24. Esse fantasma da multidão solitária, humanidade à deriva num cosmos sem amarras tradicionais, permeia toda a ficção científica, mesmo em suas versões supostamente otimistas, transformando o próprio espaço cósmico em praça urbana vazia.

25. Baudelaire, fundador da poesia urbana moderna, já sonhava em Rêve Parisien com uma Babel futurista de monotonia metálica, imagem que ecoa nos edifícios iluminados de hoje e nos versos finais de A Terra Devastada de Eliot sobre a chave que gira uma única vez na fechadura de cada prisão solitária.

26. Eliot, continuador de Baudelaire, cita sem comentário o filósofo Bradley sobre a privacidade absoluta da experiência de cada alma, elegante condensação cartesiana que os fantasmas metropolitanos do poema carregam consigo pelas ruas da cidade moderna.

27. Hegel já notara essa separação crescente entre o artista e a vida da sociedade como preço pago pela liberdade e variedade estilística da arte moderna, alienação que críticos políticos tendem a reduzir a mero protesto social, quando na verdade era antes aspiração espiritual insatisfeita, como em Baudelaire e Flaubert, que jamais se contentariam com um socialismo planejado igualmente técnico.

28. Os grandes romancistas russos contrastam com Flaubert justamente por virem de um país tecnicamente atrasado, ainda em contato vivo com a terra e a fé cristã primitiva, encontrando aí sustento espiritual negado ao Ocidente racionalista, revelando-se a alienação, no fundo, um fenômeno religioso.

29. Flaubert encarna essa tensão ao odiar sua própria obra-prima objetiva enquanto aspira secretamente à fé medieval, tensão que também define a história do romance como forma literária moderna, oscilando entre objetividade balzaquiana e interioridade proustiana até o retorno à objetividade americana nos anos quarenta.

30. Também a pintura moderna revela essa tensão entre a separação sistemática da representação objetiva e os contramovimentos realistas periódicos, sendo o próprio caráter programático desses movimentos sintoma da autoconsciência que passou a infectar nossa relação com a arte desde o século XVIII, quando surgiu a própria noção de experiência estética.

31. Esse caráter programático atingiu seu ápice nos Estados Unidos, onde a rápida sucessão de movimentos artísticos após o expressionismo abstrato revela, no título irônico do livro de Rosenberg, uma tradição do novo que na verdade assimila a arte à linha de produção técnica, tornando os estilos obsoletos como modelos de automóveis.

IV.

32. Em resumo, o sujeito humano permanece oculto mas presente no dualismo sujeito-objeto que moldou a era moderna, penando tanto nas formas difusas da multidão solitária quanto nas manifestações mais elevadas e alienadas da arte moderna.

33. Sem menosprezar a grandeza dessas obras, cabe notar que a suspeita de que o grande período da arte moderna está terminando se torna cada vez mais persistente, tornando o tema de arte e neurose insistentemente clínico, confirmando que a perda do Ser não é termo vazio para quem conhece essa literatura.

34. A civilização moderna elevou o nível material de milhões, mas a julgar pela literatura moderna dificilmente aumentou sua felicidade, havendo nela uma tristeza especial e penetrante que ultrapassa o universal conflito narrativo de qualquer história.

35. Não podemos ignorar essa tristeza ao construir utopias tecnológicas baseadas em simples extrapolações otimistas, tão questionáveis quanto extrapolações pessimistas equivalentes, restando a prosaica conclusão de que o avanço tecnológico por si só não basta para garantir a felicidade humana, cujas fontes parecem residir em outro lugar.

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