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OLHAR SOBRE A INFORMÁTICA

BEAUNE, Jean-Claude. Philosophie des milieux techniques. La matière, l’instrument, l’automate. Seyssel: Champ Vallon, 1998.

A informática dá acesso a um novo objeto. Trata-se de uma invenção, ao que parece. No entanto, esse objeto já estava em ação desde os autômatos antigos de Ctesíbio e Filão — sem falar nas diversas máquinas de escrever ou de calcular que foram concebidas, se não construídas, por Pascal e Leibniz, e sem esquecer as máquinas mais diretamente industriais de Babbage ou Turing. Mas será que a informática traz uma verdadeira novidade? Pouparemos a lista das obras que trataram, tratam e tratarão da inteligência artificial para destacar algumas proposições simples que parecem capazes de delimitar a questão:

  1. A assimilação das questões da linguagem às operações da mente. D. Parrochia aborda isso em Matemática e Existência — constatando que não conseguimos pensar de outra forma que não seja como os gregos, como Platão. Trata-se de uma restrição a ser superada ou de um privilégio que devemos valorizar?1) O pensamento é único e múltiplo ao mesmo tempo; mas, formalmente, é “irremediável”.
  2. Se há uma relação a ser estabelecida entre o natural e o artificial, não é porque as analogias entre os “suportes” (o cérebro, os computadores) permitiriam qualquer tipo de assimilação entre os dois registros, mas porque o método, o “como conseguimos realizar certas operações”, se refere ao fundo comum da inteligência, seja ela natural ou artificial( (Em Le Miroir automate, “Milieux”, Champ Vallon, 1995, G. Chazal cita a opinião de H.A. Simon: “Os computadores transformaram os sistemas de símbolos do paraíso platônico das ideias no mundo empírico dos processos reais realizados pelas máquinas » (H.A. Simon, Ciências dos sistemas, ciências do artificial, Dunod, 1991, p. 23). G. Chazal, Le Miroir automate, op. cit., p. 18 — e toda essa obra.)).
  3. A questão é ao mesmo tempo técnica e filosófica: técnica porque os objetos da informática provêm de máquinas dotadas essencialmente de uma unidade de cálculo e de uma memória (pouco diferentes, em sua essência, dos relógios que um dia adquiriram sua estrutura: o peso, o escape, o foliot, a mola). Da mesma forma, as peças principais do computador são bastante simples e podem ser representadas por uma imagem sintética: tudo se resume, na verdade, ao mecanismo de feedback que permite que a energia reacione o mecanismo; mas o problema é filosófico, pois é a mente (a inteligência) que, desta vez, é solicitada — o que permite expressar um novo desafio: “a redutibilidade científica da intencionalidade”2).
  4. Assim, não há nenhuma blasfêmia em considerar o jogo de imagens que o computador nos oferece para simular ou esclarecer nossa mente. A parábola do “espelho-autômato” utilizada por G. Chazal é bastante significativa: “a técnica”, diz ele, “como uso do que fazemos para explicar o que é — o mundo ou o homem —, é um procedimento cognitivo bastante constante, já que a encontramos nos mitos”3). J.-P. Vernant confirma isso, e o espelho é uma ferramenta cheia de recursos — cheia de perigos também, pois o risco da ilusão de ótica está inscrito no próprio espelho. Entre mito e utopia, o computador pode, sem dúvida melhor do que qualquer outra máquina, dar-se ao luxo de não escolher, de deixar o homem prisioneiro de seu próprio reflexo. Mas a prática técnica da IA não é simplesmente metafórica. Recordando as vocações universais das “máquinas” de Leibniz, da álgebra de Boole, do projeto de Babbage, “parece que se trata hoje de oferecer um duplo computacional de nossa mente”2. Toda intencionalidade é um ato que visa algo, no qual a mente se repercute, se “desdobra”. Vale lembrar que o computador — como Wiener e, sobretudo, von Neumann sabiam — é, em primeiro lugar, um calculador destinado a tarefas militares, cujo desenvolvimento durante o final da Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria não é independente desse contexto. Foi, de fato, quando se passou a realizar operações mecânicas sobre símbolos não numéricos (mas analógicos) que o computador se tornou outra máquina lógica, e que suas capacidades de simulação do pensamento também se expandiram para o campo da imagética do real, do símbolo e do corpo, este último também considerado como uma totalidade viva e funcional, e não como uma soma de partes. Os trabalhos de Dreyfus, Ganascia, Quéau, Lévy…4) testemunham essa nova atitude: A i.a. visa abranger outros setores do real, convencendo-nos, se é que ainda era necessário, de que, do mito à utopia, a tecnicidade então posta em jogo abrange de fato a totalidade do real, incluindo o espírito humano, que também deve “passar pelo corpo” para existir.
1)
D. Parrochia, Matemática e Existência, “Milieux”, Champ Vallon, 1991; La Raison systématique, Vrin, 1993.
2)
Ibid., em especial cap. 5: “Sobre os problemas da negação…”, pp. 90-114.
3)
Ibid., p. 33.
4)
H.-L. Dreyfus, LA. Mitos e limites, Flammarion, 1984; J.-G. Ganascia, A Alma-máquina: os desafios da IA, Seuil, 1990; P. Quéau, Elogio da simulação, “Milieux”, Champ Vallon, 1986. Na mesma coleção, Metaxu; Le Virtuel, do mesmo autor. P. Lévy, L’Idéographie dynamique, vers une imagination artificielle ?, La Découverte, 1991; D. Parrochia, “Le philosophe automate”, em Milieux, n.º 30, 1987.
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