Criaturas virtuais
BRETON, Philippe. À l’image de l’homme. Du Golem aux créatures virtuelles. Paris: Seuil, 1995.
1. As criaturas artificiais ocupam uma região singular do imaginário humano, alimentada por lendas antigas, esperanças e temores ancestrais, ao mesmo tempo que se tornam cada vez mais presentes na vida cotidiana por meio dos projetos de inteligência artificial e das promessas de criaturas virtuais capazes de assumir papéis humanos simulados.
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A inteligência artificial apresenta-se como tentativa de simular capacidades tradicionalmente atribuídas à inteligência humana.
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As futuras redes de informação são associadas à possibilidade de encontros controlados e sem risco com substitutos virtuais de seres humanos.
2. Apesar de sua aparência moderna, as criaturas artificiais pertencem a uma tradição muito antiga, atravessando mitologia, religião, magia, literatura, cinema, ciência e técnica, de modo que figuras como Galateia, o golem, a criatura de Frankenstein, os robôs e os computadores inteligentes podem ser compreendidas como manifestações historicamente diferenciadas de uma mesma estrutura cultural.
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A continuidade entre essas figuras não se reduz a uma semelhança exterior, mas pode possuir significado essencial para a história das culturas humanas.
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A diversidade dos suportes históricos e simbólicos não elimina a permanência do motivo fundamental da criação artificial de um ser semelhante ao humano.
3. Em 1968, John Cohen reuniu pela primeira vez, em uma mesma investigação histórica das ideias, mitos antigos, crenças religiosas, realizações técnicas e o computador emergente, tratando todos esses fenômenos como variantes do problema do autômato humano.
4. No final da década de 1960, os robôs literários começavam a adquirir correspondentes técnicos e a inteligência artificial surgia como possibilidade científica concreta, enquanto Herbert Simon chegava a conceber seres humanos e máquinas como subconjuntos de uma mesma classe geral de dispositivos de processamento de informação.
5. A recorrência histórica de narrativas sobre homens tentando criar artificialmente seres à imagem humana permitiu reconhecer um tema de tal extensão e complexidade que sua investigação parecia exigir uma verdadeira enciclopédia.
6. A continuidade histórica das criaturas artificiais permite compreendê-las não apenas como uma coleção de figuras curiosas, mas como representações sucessivas do próprio humano, nas quais diferentes culturas projetam aquilo que consideram constitutivo da humanidade.
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A compreensão antropológica das criaturas exige abandonar a tendência de tratá-las prioritariamente como objetos estranhos, exóticos ou periféricos da imaginação.
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Estátuas animadas, golems e autômatos não constituem apenas ficções situadas nos limites do imaginário, pois condensam concepções historicamente determinadas do que significa ser humano.
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O interesse deixa assim de recair exclusivamente sobre a diversidade fantástica das criaturas e passa a concentrar-se nas imagens do humano que nelas se tornam visíveis.
7. A criatura artificial funciona como um espelho no qual a humanidade se confronta com a imagem que constrói de si própria, de modo que cada época procura reproduzir artificialmente a qualidade humana que considera mais essencial.
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A Galateia da Antiguidade concentra-se na beleza, concebida como atributo humano decisivo naquele contexto cultural.
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Os computadores contemporâneos procuram reproduzir inteligência, raciocínio e decisão, refletindo valores centrais da modernidade tecnológica.
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A permanência histórica reside no esforço de capturar e representar o humano por meio de um artefato produzido sucessivamente pelo mito, pela arte, pela técnica, pela literatura e pela ciência.
8. A hipótese de que a criação de seres artificiais expressaria o desejo humano de igualar-se a Deus apreende apenas parcialmente o problema, pois a criatura artificial coloca sobretudo em questão a própria definição do homem e mantém, ao mesmo tempo, a estrutura segundo a qual todo ser criado recebe vida e autonomia de uma instância exterior e superior.
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Criar um ser à própria imagem pressupõe tornar conhecidos e reproduzíveis os princípios da vida, da beleza ou da inteligência.
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A criatura constitui antes uma réplica interrogativa do humano do que uma simples afirmação de orgulho diante da divindade.
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Mesmo quando Deus desaparece explicitamente das narrativas modernas, permanece a estrutura de uma criação dependente de um nível superior de organização.
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A inteligência artificial conserva esse paradigma e se insere, portanto, em continuidade com antigas concepções de criação.
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A transcendência reaparece no interior das próprias ciências modernas, apesar de sua pretensão de autonomia diante das crenças religiosas.
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A concepção muito antiga do ser humano como criatura continua, sob novas formas, a estruturar as representações científicas e técnicas.
9. O primeiro capítulo reconstrói cronologicamente a história das criaturas artificiais mediante diferentes variantes narrativas que atravessam os séculos, reunindo personagens conhecidos, como a criatura de Frankenstein, em um relato unificado capaz de delimitar historicamente o tema.
10. O segundo capítulo procura eliminar a aparência de exotismo das criaturas artificiais ao mostrar que elas compartilham história e estrutura comuns, enquanto o terceiro identifica em suas narrativas recorrentes uma concepção do humano como ser criado, culminando no problema de uma criatura capaz de organizar-se autonomamente e escapar ao controle de seu criador.
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A repetição estrutural das narrativas substitui a aparência inicial de mistério por uma regularidade histórica identificável.
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A definição do humano como criatura constitui o núcleo antropológico compartilhado pelas diferentes versões do tema.
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O verdadeiro enigma emerge quando o homem procura compreender a si mesmo projetando uma criatura que possa adquirir autonomia própria.
11. O quarto e o quinto capítulos interpretam o surgimento do computador como criatura pensante dentro de uma genealogia de aproximadamente dois milênios, situando a inteligência artificial menos como ruptura tecnológica absoluta do que como continuidade de um antigo projeto cultural de reconhecer o humano no artifício.
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O interesse principal pelas tecnologias informáticas contemporâneas recai menos sobre sua condição instrumental do que sobre o projeto antropológico que lhes deu origem.
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O computador passa a integrar uma narrativa mais ampla em que qualidades humanas são progressivamente transferidas para dispositivos artificiais.
12. Os projetos de Alan Turing, John von Neumann e Norbert Wiener podem ser compreendidos tanto em relação às imagens de criação presentes no Gênesis quanto pelas decisões tecnológicas envolvidas na construção dos primeiros computadores, pois seu problema fundamental concerne sobretudo ao homem e ao funcionamento de seu cérebro, e não simplesmente à fabricação de máquinas.
13. O último capítulo amplia a investigação para as consequências psicológicas e antropológicas da concepção contemporânea do homem como ser informacional, relacionando as criaturas artificiais aos conflitos atuais sobre os próprios limites da humanidade.
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As criaturas artificiais historicamente correspondem aos problemas mais agudos de cada época.
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A concepção informacional do homem pretende transformar propriedades humanas em estruturas universais suscetíveis de descrição e reprodução.
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O racismo estabelece uma definição restritiva da humanidade ao excluir determinados homens do reconhecimento pleno como humanos.
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As criaturas artificiais operam em direção inversa ao sugerirem que as fronteiras da humanidade podem ser ampliadas para além dos organismos humanos tradicionais.
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As criaturas virtuais projetadas para as futuras redes de informação constituem a forma contemporânea dessa expansão do domínio do humano.
14. Situada entre ciência e cultura, política e teologia, a investigação das criaturas artificiais resiste a uma classificação disciplinar rígida e aproxima-se de uma antropologia fundamental voltada para a compreensão do humano justamente em suas fronteiras mais extremas com o artificial.
15. A elaboração da obra resultou de um trabalho coletivo de discussão, exposição, pesquisa e revisão, envolvendo Daniel Lemoine, Annie Bousquet, Bernard Maitte, estudantes de programas de antropologia, ciência e técnica, além de Jean-Marc Lévy-Leblond, cujas contribuições participaram diretamente da formação e do aprimoramento das teses apresentadas.
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Daniel Lemoine e Annie Bousquet participaram também da concepção de uma exposição e de um catálogo dedicados às criaturas artificiais.
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Bernard Maitte desempenhou papel central na realização do projeto expositivo no âmbito do Centro de Cultura Científica e Técnica de Lille.
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Os estudantes dos programas de pós-graduação de Paris-I e Estrasburgo contribuíram para a discussão das principais teses.
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Annie Bousquet realizou uma revisão integral do manuscrito.
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Jean-Marc Lévy-Leblond contribuiu para a transformação do conjunto das ideias em livro.
