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Inteligência artificial

CHAZAL, Gérard. Le miroir automate. Introduction à une philosophie de l’informatique. Seyssel: Champ Vallon, 1995

1. A literatura técnica, ao distinguir a inteligência artificial dentro do vasto domínio da informática, incita a delimitar a reflexão a esse subconjunto de realizações informáticas, cujo termo surgiu em 1956 na conferência de Dartmouth reunindo John McCarthy, Marvin Minsky, Alan Newell e Herbert Simon, situando-se a inteligência artificial na confluência entre o desenvolvimento teórico e prático dos autômatos — de Babbage e Lady Ada Lovelace à cibernética de Wiener, passando pela máquina universal de Turing — e o desenvolvimento da lógica matemática inaugurado por Leibniz até Gödel e Church, correntes que se encontram na realização técnica dos primeiros computadores por von Neumann.

2. Recusa-se esse recorte disciplinar, pertinente para as especializações técnicas mas inadequado à presente preocupação, pois o termo “inteligência artificial”, ao designar essencialmente a simulação do raciocínio hipotético-dedutivo em sistemas especialistas, permanece impreciso diante da exigência filosófica de rigor conceitual, sobretudo porque a própria noção de “inteligência” carrega todas as incertezas das ciências humanas — sem definição consensual entre psicólogos, passível de graus entre as espécies e os indivíduos, e questionável quanto à sua vinculação exclusiva à Razão humana, a ponto de a tese cartesiana da animal-máquina tornar a expressão “inteligência artificial” uma verdadeira monstruosidade metafísica caso se admita a oposição radical entre inteligência e artifício.

3. O discurso dos próprios informatas revela um deslizamento da definição estrita para algo mais amplo, como testemunha a definição de Alice Recoque, que caracteriza a inteligência artificial como o conjunto de métodos voltados a estudar o comportamento humano tanto para compreendê-lo quanto para reproduzi-lo, definição que evidencia sua dupla finalidade pragmática e reflexiva e permite incluir toda a atividade informática no domínio da inteligência artificial, de modo que o termo continuará sendo empregado, conforme a tradição técnica, para designar os setores ligados à perícia, ao reconhecimento de formas e à compreensão da linguagem natural, sem que se lhe conceda qualquer privilégio filosófico ou interpretação mítica.

4. O objeto desta investigação é a informática em seu conjunto, ainda que o percurso conduza preferencialmente aos setores rotulados como inteligência artificial, sendo já nas obras fundadoras de von Neumann e Turing que se coloca o problema da máquina pensante capaz de reproduzir o comportamento humano; a questão decisiva não recai tanto sobre o termo “inteligência” quanto sobre o termo “artificial”, interrogando-se, contra a afirmação de Peirce sobre a vida do pensamento como inerente aos símbolos, em que medida o artefato manipulador de símbolos seria dotado de pensamento — questão dos poderes reflexivos do artifício que situa a informática, simulacro do homem, a meio caminho entre as ciências da natureza e as ciências humanas, constituindo, segundo expressão de Herbert Simon, uma ciência do artifício e conferindo a este trabalho o caráter de contribuição a uma antropologia pelo artifício.

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