Tirania da razão
FEENBERG, Andrew. Heidegger and Marcuse: the catastrophe and redemption of history. New York: Routledge, 2005.
1. Leitores modernos têm dificuldade em levar a sério a conclusão do diálogo platônico, parecendo a transição argumentativa da ética e da estética para o conflito entre bens hedonistas e funcionais situar a discussão num plano puramente racional mais facilmente aceitável, havendo ainda ampla tarefa para a techné mesmo sem orientação de padrões éticos e estéticos controversos.
2. Mesmo essa fase aparentemente moderna do argumento platônico revela-se menos moderna do que parece, permanecendo as tecnologias de fato subordinadas a propósitos que orientam recursos e procedimentos nas disciplinas técnicas, muitos deles derivados de considerações objetivas como saúde e segurança.
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o exemplo de um engenheiro de software da Rolls-Royce, que dedica a maior parte do tempo a testar a segurança do que produz, ilustra essa persistência do logos técnico
3. Ainda assim, os modernos não podem mais generalizar a partir desses exemplos como fazia Platão, pois para cada projetista benevolente de aeronaves existe em algum lugar um fabricante de bombas, mantendo-se a exigência platônica de um logos racional sem que se aceite necessariamente sua vinculação a uma ideia de bem, concebendo-se antes a tecnologia como desprovida de norma e a serviço de propósitos subjetivos.
4. Os fundadores do pensamento moderno, Descartes e Bacon, escreveram numa época em que a tecnologia ainda se assemelhava mais aos arados e lanças da Atenas platônica do que aos automóveis contemporâneos, prometendo ainda assim tornar-nos senhores e possuidores da natureza através do cultivo das ciências.
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embora compartilhem com os gregos as distinções fundamentais entre natureza e artefato, essência e existência, compreendem essas distinções de modo distinto, sendo para eles a essência convencional e não real, ampliando-se assim a distância entre o homem e o mundo, que passamos a conquistar em vez de habitar
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a pergunta dirigida ao ser deixa de indagar o que ele é para perguntar como funciona, respondendo a ciência a essa questão em lugar de revelar essências no sentido grego do termo
5. A tecnologia permanece ainda modelo do ser nessa concepção moderna, evidenciado particularmente no Iluminismo do século dezoito, quando filósofos e cientistas identificaram o funcionamento do universo a um mecanismo de relojoaria, sobrevivendo a estrutura subjacente da ontologia grega à derrota de um de seus princípios centrais, o conceito de essência.
6. No contexto moderno, a tecnologia deixa de realizar essências objetivas inscritas na natureza do universo, tornando-se puramente instrumental e isenta de valores, meio a serviço de fins subjetivos independentes dos meios, constituindo essa neutralidade a filosofia instrumentalista espontaneamente assumida pela civilização ocidental.
7. Nesse esquema, a tecnologia trata a natureza como matéria-prima disponível para transformação segundo o desejo humano, compreendida mecanicamente e não teleologicamente, tendo o Ocidente realizado enormes avanços técnicos com base nessa compreensão da realidade, tornando-se comum no século dezenove conceber a modernidade como progresso ininterrupto.
8. Sem uma essência que oriente os fins da sociedade, permanecendo estes escolhas puramente subjetivas e arbitrárias, instala-se uma crise civilizacional da qual não parece haver escape, sabendo-se como chegar a algum lugar sem saber por quê ou para onde, alienação que só se tornou inegável diante das catástrofes do século vinte.
9. O precursor mais importante dessa crítica é Max Weber, que distingue racionalidade substantiva e formal de modo correspondente, em aspecto significativo, à distinção platônica entre techné e mera habilidade.
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a racionalidade substantiva parte de um bem posto e seleciona meios para alcançá-lo, sendo a racionalidade formal preocupada unicamente com a eficiência dos meios, sem referência intrínseca a um bem, constituindo a modernização o triunfo da racionalidade formal sobre a ordem substantivamente racional herdada do passado
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Weber previu pessimistamente uma jaula de ferro burocrática fechando-se sobre a civilização ocidental, prevalecendo a lógica dos meios técnicos sobre os valores iluministas de liberdade e individualidade, emergindo uma ordem desprovida de propósito superior, mas ainda assim uma ordem
10. Nos tempos modernos, os termos da distinção platônica entre techné e empeiria recombinam-se de outro modo, passando a busca de poder e prazer a possuir lógica própria institucionalizada em mercados e burocracias que se impõe independentemente da vontade humana e de qualquer concepção do bem, diferindo essa tirania dos meios racionais que atormentava Weber daquela tirania individual temida por Platão.
11. O pessimismo weberiano quanto à modernidade atinge seu paroxismo na Escola de Frankfurt e em Heidegger, que substituem mercados e burocracias pela tecnologia como principal instrumento de racionalização, tendo a Dialética do Esclarecimento de Adorno e Horkheimer influenciado profundamente a abordagem tecnológica de Marcuse.
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segundo essa obra, o controle da natureza externa exige o sacrifício e a supressão da natureza interna, emergindo do processo civilizatório seres humanos deformados, plenos de agressão descarregada em racismo e guerras
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a redução da razão a mero instrumento fundamenta esse desfecho desastroso, substituindo-se a razão objetiva por uma razão meramente subjetiva, vestígio truncado da antiga metafísica útil apenas para controle e dominação, triunfando finalmente Cálicles sobre Sócrates
12. Heidegger propõe argumento paralelo baseado no contraste entre a techné antiga, prática valorativa tradicional de todas as sociedades pré-modernas, e a tecnologia moderna, que se libertou em grande medida dos compromissos valorativos de sua sociedade.
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na Grécia antiga, o ofício obedecia ao logos ao revelar os sentidos objetivos, ou formas, de seus produtos e materiais, vivendo os gregos num mundo de coisas autossustentadas repletas de potencialidades úteis à espera de realização através da manipulação hábil
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a versão heideggeriana da jaula de ferro consiste num sistema de pesquisa e desenvolvimento, a tecnociência, que reestrutura fundamentalmente a realidade despojando-a de suas potencialidades intrínsecas e expondo-a à dominação, sendo o perigo não apenas as armas nucleares, mas a obliteração da dignidade humana como ser através do qual o mundo adquire sentido
13. Platão não estranharia inteiramente esses diagnósticos, embora o deslocamento de ênfase do abuso da empeiria por seus usuários para a destrutividade inerente da própria tecnologia seja peculiarmente moderno, resultando esse deslocamento do fato de que a tecnologia não apenas manipula aparências, mas sistematiza a própria realidade.
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a questão contemporânea não é mais a justificação do poder, mas o próprio desafio de sua presença sublime como tecnologia, substituindo-se o problema ético entre direito e força pelo problema ontológico da transformação destrutiva que a tecnologia opera tanto sobre seus usuários quanto sobre seus objetos
14. Chega-se assim a uma espécie de círculo completo, pois a tecnologia supostamente neutra revela conter, afinal, um valor em si mesma, tal como expressa Heidegger ao afirmar que a característica marcante da tecnologia moderna reside em não ser mais mero meio a serviço de outros, mas em desdobrar um caráter próprio de dominação.
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esse paradoxo já está implícito na descrição platônica da empeiria, pois embora as meras habilidades se apresentem como neutras em si mesmas, revelam-se essencialmente vinculadas à aparência e, portanto, a formas de sedução e manipulação, servindo a habilidade retórica à dominação tal como a tecnologia em Adorno, Horkheimer e Heidegger
15. Enquanto Platão fundava sua esperança na techné, os pensadores modernos desesperam, não depositando fé nessa noção porque a tecnologia moderna incorporou tanto o logos quanto a utilidade num sistema desprovido de norma que prevalece sobre todas as práticas concorrentes, restando a esses pensadores, sejam conservadores como Heidegger ou radicais como Adorno e Horkheimer, apenas o apelo a um futuro vago no qual o domínio do Cálicles moderno possa de algum modo terminar.
