Absurdo
FRINDTE, Wolfgang. Against Narrow-Mindedness and Chauvinism – Journeying Through Absurd Times with Paul K. Feyerabend. Wiesbaden: Springer Fachmedien Wiesbaden, 2026.
13.1 Feyerabend e o absurdo
1. Feyerabend emprega frequentemente as noções de absurdo e absurdidade para caracterizar ideias, observações, teorias, afirmações filosóficas, situações históricas e contradições, recorrendo também à reductio ad absurdum como procedimento argumentativo.
2. A reductio ad absurdum constitui uma forma de demonstração indireta, conhecida desde a Antiguidade grega, pela qual uma suposição é refutada mediante a exposição das contradições ou inconsistências decorrentes de seus próprios pressupostos.
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Hipócrates de Quios e Zenão figuram entre os primeiros pensadores associados ao emprego dessa forma de raciocínio.
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Como crítica imanente, o procedimento não confronta uma afirmação com uma doutrina exterior, mas evidencia suas contradições internas.
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Essa estratégia representa uma das formas de crítica mais frequentemente empregadas por Feyerabend.
3. A importância filosófica do absurdo em Feyerabend reside nas ideias aparentemente contrárias à racionalidade crítica ocidental, pois acontecimentos, sonhos e ações aparentemente sem sentido podem remeter a razões distintas daquelas manifestadas em sua aparência imediata.
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Astrologia, medicina hopi, acupuntura, feitiçaria medieval, práticas herbais, presságios associados a cometas e danças da chuva não são reduzidos a superstições definitivamente refutadas.
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Essas práticas constituem tradições dotadas de sentido próprio e de igual direito à existência.
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A ciência representa uma fonte importante de conhecimento, mas não esgota as formas pelas quais mitos, contos, tragédias, epopeias e outras tradições produzem saber.
4. A afirmação de que nenhuma teoria física contradiz necessariamente a ideia de que danças da chuva possam produzir chuva não equipara essas práticas à previsão meteorológica nem sustenta que a precipitação possa ser simplesmente evocada por um ritual.
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A eficácia de uma dança da chuva somente poderia ser avaliada considerando-se sua preparação, suas circunstâncias, a organização tribal e as disposições mentais associadas.
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A causalidade implicada nessa prática pertence a uma comunidade e a uma tradição específicas, embora pareça absurda segundo os critérios da racionalidade ocidental.
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Essa causalidade comunitária integra formas de conhecimento indígena produzidas por uma relação longa e criativa com a natureza.
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O conhecimento tradicional pode preservar identidades culturais e ampliar a compreensão das relações entre seres humanos e natureza.
5. A negação da importância identitária de danças da chuva, mitos, rituais e contos de determinadas culturas revela a estreiteza e o chauvinismo das culturas ocidentais dominantes diante da pluralidade de concepções de mundo.
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A intolerância perante filosofias, valores e tradições diversas constitui uma das dimensões do mundo absurdo.
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Ideias aparentemente absurdas podem resistir à dominação cultural e abrir caminhos para conhecimentos novos e transgressivos.
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O sentimento de absurdo surge quando uma ideia contraria hábitos linguísticos consolidados.
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O conflito com esses hábitos permite criticar teorias antigas ou favorecer o aparecimento de ideias revolucionárias.
6. Feyerabend recorre a ideias aparentemente absurdas para revelar a ignorância dos especialistas científicos, a marginalização de culturas desfavorecidas, as injustiças culturais e o chauvinismo de determinadas ideologias.
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O absurdo é combatido mediante outro absurdo, capaz de acrescentar novos sentidos a uma existência considerada desprovida de significado.
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A aproximação com o dadaísmo expressa a tentativa de responder à insensatez da vida por meio de novas narrativas, absurdidades e contos capazes de entreter provisoriamente os seres humanos.
7. Ideias absurdas produzem efeitos ao provocar dissonâncias cognitivas entre aquilo que proclamam e o que se encontra familiarizado ou legitimado pela autoridade.
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Assim como as boas piadas, elas deslocam inesperadamente o normal para contextos incomuns.
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Esse deslocamento evidencia a existência de possibilidades que excedem os padrões reconhecidos como normais.
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Novos esquemas interpretativos e novas construções sociais tornam-se concebíveis mediante esse estranhamento.
8. O mundo torna-se absurdo quando não se tolera a diversidade das concepções de mundo, podendo essa absurdidade ser enfrentada por ideias, jogos de linguagem e ações aparentemente absurdos.
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Tais procedimentos desafiam hábitos estabelecidos de interpretação, linguagem e ação.
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Eles indicam possibilidades situadas para além da realidade tomada como necessária.
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As dissonâncias cognitivas e os conflitos sociais decorrentes podem ser suportados mediante mudanças de perspectiva e formas de pensamento divergente.
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O pluralismo social e científico não deve eliminar a divergência por meio do consenso, mas possibilitar a existência do dissenso.
9. O pensamento divergente, introduzido na psicologia por Joy Paul Guilford, consiste em uma abordagem lateral, criativa, aberta e lúdica de múltiplas soluções possíveis para um problema, evitando bloqueios mentais e a exclusão prematura de alternativas.
10. A classificação de acontecimentos, ideias, afirmações ou ações como absurdos depende da perspectiva de indivíduos e comunidades que estabelecem sua própria racionalidade como único critério legítimo para compreender o mundo.
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Aquilo que pertence à realidade não absurda de uma comunidade pode ser recebido por outras com incompreensão, ignorância, chauvinismo científico, intolerância ou violência.
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Quando rejeição, desprezo e violência se tornam hábitos dominantes de interpretação, linguagem e ação, configura-se legitimamente um mundo absurdo.
13.2 Digressões — Camus e o absurdo
11. A aproximação entre Albert Camus e Paul Feyerabend não decorre de uma identificação direta de Feyerabend com o existencialismo ou o moralismo, mas de uma afinidade fundada na rebeldia, no anarquismo, na valorização da liberdade e na pluralidade das formas de conduzir a vida em um mundo percebido como absurdo.
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Feyerabend conheceu a obra de Søren Kierkegaard e recorreu a ela para ressaltar a riqueza da experiência humana.
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Também foram identificadas afinidades entre sua filosofia e o pensamento de Jean-Paul Sartre.
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Camus e Feyerabend compartilham a recusa de uma ordem única imposta à existência.
12. O conhecimento da própria mortalidade confronta o ser humano com a aparente contradição entre a inevitabilidade da morte e a busca de sentido para a vida.
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A consciência da morte não encontra uma justificação plenamente satisfatória em argumentos racionais.
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Em O mito de Sísifo, Camus parte do problema do suicídio para investigar se a vida merece ou não ser vivida.
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A busca pelo sentido ameaça naufragar diante do caos e da ausência de significado do mundo.
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O absurdo não pertence isoladamente ao mundo, mas à relação entre o espírito humano desejoso de sentido e um mundo que frustra esse desejo.
13. Embora a morte seja inevitável, a vida conserva seu valor na experiência cotidiana, nas rotinas, surpresas, adversidades, feridas e absurdidades, devendo ser vivida com dignidade e amor como forma de revolta.
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Sísifo representa o herói do absurdo por insurgir-se contra os deuses e receber como castigo a repetição aparentemente inútil de empurrar uma pedra montanha acima.
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A aceitação consciente de seu destino transforma a pedra e a repetição cotidiana em algo que lhe pertence.
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A apropriação do próprio destino permite desprezar a punição e afirmar a vida mesmo na ausência de uma finalidade transcendente.
14. A alegria silenciosa de Sísifo nasce da apropriação de seu destino e da compreensão de que a própria luta em direção às alturas basta para preencher o coração humano, tornando possível imaginá-lo feliz.
15. Da experiência do absurdo, Camus extrai a revolta, a liberdade e as paixões como consequências fundamentais, com as quais Feyerabend provavelmente manifestaria afinidade.
16. A afirmação de que a revolta individual funda uma existência comum amplia a liberdade e as paixões para uma solidariedade baseada no vínculo que iguala e associa os seres humanos.
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A revolta distingue-se das revoluções totalitárias do século XX, que destruíram os vínculos humanos por meio do terror, dos campos de concentração, da violência e da tortura.
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A absurdidade da relação entre a busca humana de sentido e um mundo aparentemente sem sentido não pode ser abolida, mas pode ser enfrentada no cotidiano.
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A liberdade reivindicada para si deve igualmente ser exigida para todos, enquanto aquilo que se rejeita para si deve ser recusado para todos.
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A revolta social renuncia à violência como princípio e não promete justiça eterna nem salvação historicamente necessária.
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A solidariedade fundada na igualdade humana exige uma forma singular de amor, sem a qual a revolta perde seu sentido.
17. No ápice da reflexão, o rebelde rejeita a divindade para participar das lutas e do destino comuns, escolhendo a fidelidade à terra, o pensamento sóbrio, a ação clara, a generosidade humana e o amor pelo mundo.
18. A comparação entre Camus e Feyerabend não implica equipará-los, mas permite reconhecer diferenças e semelhanças capazes de alterar perspectivas e romper o isolamento das próprias convicções.
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Ambos manifestam impulsos rebeldes, embora suas concepções do absurdo sejam distintas.
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Para Feyerabend, o mundo é absurdo quando a diversidade das concepções de mundo não é tolerada.
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Para Camus, o absurdo nasce do conflito entre o espírito desejoso de sentido e o mundo que o decepciona.
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Feyerabend enfrenta a destruição da diversidade por meio de ideias e recursos que também podem parecer absurdos.
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A duplicidade do absurdo em Feyerabend compreende simultaneamente a absurdidade da dominação e a força crítica das ideias que contrariam essa dominação.
19. Camus exige que se aceite a condição absurda da existência e, simultaneamente, que se revolte contra ela mediante uma vida digna, amorosa, situada no presente e comprometida com a renúncia à violência.
20. Feyerabend e Camus convergem em diversas consequências extraídas do enfrentamento do mundo absurdo.
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Ambos recusam necessidades históricas e defendem uma realidade marcada pela relatividade.
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A liberdade individual encontra seu limite na proibição de humilhar ou destruir os outros.
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A liberdade alheia constitui o limite ético da liberdade de cada indivíduo.
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O equilíbrio entre humanidade e natureza ocupa posição central em ambos os pensamentos.
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A falsa razão é rejeitada como instrumento de dominação.
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Tolerância, solidariedade, revolta contra a estreiteza, humanidade e amor ao gênero humano contrapõem-se ao ressentimento, ao totalitarismo, ao dogmatismo e ao niilismo.
21. Camus pertence à linhagem dos pensadores irônicos conscientes da relatividade das próprias convicções, e não à dos intelectuais que utilizam sua autoridade científica ou artística para legislar ideologicamente sobre a totalidade da sociedade.
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A defesa do diálogo opõe-se àqueles que se consideram absolutamente certos.
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A intervenção intelectual pode ocorrer sem a adoção da função moderna de legislador ideológico.
22. A caracterização de Camus como pensador irônico, dialógico e consciente da relatividade de suas convicções também pode ser aplicada a Paul Feyerabend, encerrando-se nesse ponto a identificação de suas afinidades.
13.3 Chauvinismo e estreiteza de espírito
23. Feyerabend combate o chauvinismo científico pelo qual cientistas e comunidades científicas consideram superiores suas próprias regras, normas, tradições e pretensas verdades, rejeitando ou perseguindo tradições alternativas.
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Sua crítica inicialmente parece concentrar-se na dominação exercida pelos especialistas científicos sobre o restante não científico da sociedade.
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Em Ciência em uma sociedade livre e Conquista da abundância, a crítica amplia-se para a intolerância de indivíduos e grupos diante da diversidade das formas de vida e das concepções de mundo.
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As decisões individuais podem contribuir para a formação de concepções de mundo comuns anteriormente separadas pelo chauvinismo de grupos especializados.
24. A adequação do conceito moderno de chauvinismo para identificar as absurdidades científicas e cotidianas combatidas por Feyerabend permanece problemática, pois seus termos e qualificações raramente recebem definições precisas.
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A própria ideia de precisão dependeria de um quadro de referência determinado.
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Os exemplos da destruição da diversidade aproximam-se tanto da estreiteza de espírito quanto do chauvinismo.
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Feyerabend emprega raramente a palavra estreiteza e utiliza apenas ocasionalmente o termo combativo chauvinismo de maneira explícita.
25. Uma compreensão provisória e deliberadamente ampla de estreiteza de espírito e chauvinismo é suficiente para identificar exemplos de negação da diversidade presentes na obra de Feyerabend.
26. A compreensão do chauvinismo não exige uma reconstrução etimológica detalhada de Nicolas Chauvin, do nacionalismo associado às guerras europeias, da crítica de Karl Marx ou da relação estabelecida por Hannah Arendt entre nacionalismo e imperialismo.
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O conceito contemporâneo pode ser compreendido como uma forma agressiva de sentimento nacional.
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As referências históricas apenas situam a persistência de atitudes que exaltam um grupo e hostilizam outros.
27. O chauvinismo nacionalista alimenta o ódio entre povos, nações e raças e não deve ser confundido com o patriotismo, pois este se funda no amor e na dedicação, enquanto aquele expressa fanatismo, glorificação da força bruta e legitimação da injustiça contra povos considerados atrasados.
28. As críticas de Feyerabend à marginalização epistêmica e política dos povos indígenas, aos custos humanos e ecológicos da ocidentalização, à ideologia dos conquistadores, à escravidão e às guerras permitem compreender como chauvinistas as tentativas de destruir a diversidade.
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Em termos psicossociais, o chauvinismo combina favorecimento do próprio grupo e discriminação dos grupos externos.
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A crença exagerada na superioridade da própria comunidade acompanha a desvalorização, a discriminação e o desprezo pelas comunidades consideradas estrangeiras.
29. A estreiteza de espírito designa uma disposição fechada e limitada, associada etimologicamente à ideia de estabelecer fronteiras rígidas para o pensamento.
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Goethe teria empregado a expressão para caracterizar uma massa limitada em suas perspectivas.
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Karl Marx e Friedrich Engels recorreram frequentemente ao termo para criticar a relação restrita dos seres humanos com a natureza, a limitação dos indivíduos e certos métodos de investigação.
30. A estreiteza de espírito representa uma atitude menos intensa que o chauvinismo e caracteriza aqueles que transformam sua própria filosofia, concepção de mundo e maneira de pensar, sentir e agir nos únicos critérios verdadeiros para relacionar-se com a realidade.
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As perspectivas, os mitos, as lendas e os rituais de outras comunidades são ignorados.
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O indivíduo estreito permanece encerrado em sua própria bolha de filtros.
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O chauvinista, além de permanecer encerrado em sua perspectiva, idealiza o próprio grupo e desvaloriza ou despreza os demais.
31. A investigação das tentativas estreitas e chauvinistas de negar a diversidade social, cultural e científica constitui o objeto da parte seguinte da obra.
