Tirania do método
FRINDTE, Wolfgang. Against Narrow-Mindedness and Chauvinism – Journeying Through Absurd Times with Paul K. Feyerabend. Wiesbaden: Springer Fachmedien Wiesbaden, 2026.
1. Em 1975, Feyerabend publicou Contra o método, obra composta como uma colagem de descrições, análises e argumentos anteriores, pela qual se consolidou como crítico impetuoso do racionalismo, conhecedor da história da ciência e opositor da glorificação da atividade científica.
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A expressão “Tudo vale” tornou-se inseparável de sua filosofia e recebeu traduções e interpretações variadas, como “Faze o que quiseres”, “Tudo é permitido” ou “Sempre há algo que funciona”.
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Muitos críticos interpretaram a expressão como um princípio anarquista destinado a orientar toda atividade científica e a constituição democrática da sociedade.
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A concentração exclusiva nessa fórmula ignorou os estudos históricos detalhados que sustentam a argumentação da obra.
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Entre esses estudos destaca-se o esforço de Galileu Galilei para defender a concepção copernicana do mundo contra a concepção ptolomaica.
2. A concepção geocêntrica elaborada por Cláudio Ptolomeu situava a Terra imóvel no centro do mundo, ao redor da qual se moveriam os planetas conhecidos, o Sol e a Lua, enquanto Nicolau Copérnico inaugurou a concepção heliocêntrica segundo a qual a Terra gira sobre o próprio eixo e orbita o Sol.
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Os defensores da concepção ptolomaica, denominados aristotélicos por Feyerabend, opuseram-se vigorosamente ao movimento terrestre.
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O argumento da torre sustentava que, caso a Terra girasse, uma pedra lançada do alto de uma torre deveria cair a centenas de metros de sua base, pois a torre seria transportada pela rotação terrestre durante a queda.
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Como a pedra é observada caindo verticalmente, parecia demonstrado que a Terra permanecia imóvel.
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Galileu admitiu a correção do conteúdo sensorial da observação, mas procurou refutar a conclusão extraída pelos aristotélicos.
3. Galileu combinou argumentos racionais e um recurso psicológico para reinterpretar a queda vertical da pedra segundo uma nova linguagem fundada nos princípios da inércia e da relatividade.
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A Terra, a torre e a pedra participam conjuntamente do movimento para o leste.
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Como o ponto de observação acompanha o mesmo movimento da pedra, a queda é percebida como uma linha vertical.
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Os sentidos percebem apenas movimentos relativos e permanecem insensíveis aos movimentos dos quais os objetos observados e o observador participam na mesma medida.
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O observador situado na torre percebe a queda da pedra, mas não percebe imediatamente o movimento terrestre compartilhado por ambos.
4. As hipóteses introduzidas por Galileu possuem caráter especulativo e ad hoc, correspondem pouco à percepção sensorial e são apresentadas mediante grande força persuasiva.
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A introdução dessas hipóteses não se apoia em argumentos independentes, mas na referência ao que todos supostamente já saberiam.
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Esse recurso psicológico dificilmente pode ser explicado pelos princípios do racionalismo crítico.
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Galileu alcançou êxito porque infringiu regras metodológicas formuladas desde Aristóteles e posteriormente canonizadas pelo positivismo lógico e pelo racionalismo crítico.
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Clareza, precisão, objetividade, coerência e verdade não constituem regras suficientes para abordar a riqueza do material histórico sem submetê-lo à busca de segurança intelectual.
5. O procedimento de Galileu, também exemplificado por suas observações lunares, representa para Feyerabend um paradigma da produção do conhecimento, pois suas descobertas não decorreram nem poderiam decorrer de uma prática estritamente científica definida por regras metodológicas fixas.
6. A história da ciência revela que a ideia de um método fixo ou de uma teoria invariável da racionalidade repousa sobre uma concepção excessivamente ingênua dos seres humanos e de suas relações sociais.
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A riqueza do material histórico não pode ser preservada quando é reduzida à exigência de clareza, precisão, objetividade e verdade.
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Nenhuma regra metodológica determinada pode ser defendida em todas as circunstâncias e etapas do desenvolvimento humano.
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“Tudo vale” permanece como o único princípio capaz de expressar a diversidade histórica dos procedimentos de conhecimento.
7. A fórmula “Tudo vale” não introduz um novo princípio metodológico, mas descreve humoristicamente a situação do racionalista que exige princípios universais e precisa esvaziá-los progressivamente de conteúdo diante da diversidade dos casos históricos.
8. Permanece inicialmente em aberto se Feyerabend pretendia formular uma epistemologia propriamente anarquista ou dadaísta, ou se essas expressões constituíam denominações humorísticas da prática efetiva da atividade científica.
9. O encontro de Feyerabend com Carl Friedrich von Weizsäcker, ocorrido provavelmente em Hamburgo em 1965, levou à compreensão de que razões metodológicas gerais tendem a impedir a pesquisa concreta, em vez de favorecê-la.
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A conversa contribuiu decisivamente para a transição de Feyerabend ao anarquismo epistemológico.
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Weizsäcker, contudo, não recebeu com satisfação a atribuição dessa responsabilidade quando foi informado por Feyerabend em 1977.
10. Em carta dirigida a Hans Albert em 5 de agosto de 1969, Feyerabend manifestou interesse crescente pelo dadaísmo, distinguindo-o do anarquismo pela presença mais intensa do humor, pela recusa do homicídio e pela apresentação pública das obras com intenção crítica e humorística.
11. Feyerabend simpatiza com um anarquismo epistemológico que deve ser distinguido das formas políticas e religiosas de anarquismo.
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O anarquista epistemológico não é necessariamente um cético e pode defender tanto uma afirmação trivial quanto uma tese considerada escandalosa.
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Nenhuma instituição ou ideologia merece fidelidade ou aversão eternas.
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Nenhuma concepção é tão absurda ou imoral que não possa ser examinada ou eventualmente adotada.
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Nenhum método possui caráter indispensável.
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A oposição incondicional dirige-se aos princípios, leis e ideias gerais, como verdade, justiça e amor, embora possa ser taticamente conveniente agir como se tais princípios existissem.
12. O anarquista epistemológico assume uma postura oportunista e pragmática, reconhecendo a existência de muitas maneiras de abordar a natureza e a sociedade e de avaliar essas abordagens, sem admitir critérios objetivos e universais para julgá-las.
13. As críticas provocadas por essa posição não eliminam os indícios de que algumas manifestações do anarquismo político também despertavam a simpatia de Feyerabend.
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Contra o método foi elaborado durante as revoltas estudantis ocorridas nos Estados Unidos e na Europa.
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Daniel Cohn-Bendit, porta-voz das manifestações francesas de 1968, definia-se como marxista anarquista.
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Cohn-Bendit aceitava a análise marxiana da sociedade capitalista, mas rejeitava as formas organizacionais autoritárias assumidas pelo movimento comunista.
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A crítica à substituição da sociedade existente por uma nova dominação autoritária aproxima-se das posições de Feyerabend.
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Feyerabend conhecia Cohn-Bendit e havia lido e citado Marx, Lenin, Trotsky e Mao Tsé-Tung.
14. Ao examinar a defasagem entre ideias progressistas e meios regressivos de observação, Feyerabend recorre à reflexão de Marx sobre a relação desigual entre o desenvolvimento da produção material e o desenvolvimento da produção artística.
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A dialética entre base social e superestrutura cultural permite pensar uma arte relativamente autônoma, que não constitui mero reflexo da produção material.
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Processos históricos contraditórios desenvolvem formas próprias de movimento e não podem ser adequadamente compreendidos por uma análise exclusivamente lógica.
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A atenção de Feyerabend dirige-se precisamente a esses processos históricos contraditórios.
15. A referência a Marx não se ajusta inteiramente à defasagem entre teorias novas e ideias antigas, assim como também parecem pouco adequadas as referências a Trotsky sobre a não simultaneidade dos processos históricos e a Lenin sobre o desenvolvimento desigual do capitalismo.
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Essas citações podem ter sido influenciadas pelas tendências revolucionárias do período.
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As manifestações estudantis contra a Guerra do Vietnã mobilizavam imagens e ideias de Che Guevara, Lenin, Rosa Luxemburgo e Hồ Chí Minh.
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Em carta a Hans Albert, Feyerabend considerou a leitura de Lenin um antídoto contra certos críticos verbosos da razão encontrados em Yale.
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Os movimentos esquerdistas contemporâneos eram avaliados como intelectualmente muito inferiores a Lenin, Marx e Trotsky.
16. A simpatia de Feyerabend por Daniel Cohn-Bendit mostra-se mais compreensível do que suas referências a Marx, Lenin ou Trotsky, embora permaneça incerto se ambos se encontraram pessoalmente em Berlim durante os períodos em que estiveram simultaneamente na cidade em 1968.
17. Em carta a Imre Lakatos, datada de 18 de novembro de 1968, Feyerabend declarou plena concordância com Cohn-Bendit em sua oposição às teorias, organizações e lideranças, bem como em sua defesa da alegria contra o sacrifício.
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Professores que pretendem possuir o saber e generais que exercem o comando representam formas semelhantes de liderança rejeitadas.
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Contra o método passou a ser considerado um prólogo fraco e hesitante diante da realização mais consequente dessas ideias por Cohn-Bendit.
18. O anarquismo epistemológico de Feyerabend, associado à defesa da separação entre Igreja e Estado e também entre ciência e Estado, manteve certa proximidade com o anarquismo político, mas rejeitou qualquer interpretação que o vinculasse à defesa da violência.
19. Contra o método provocou forte reação entre cientistas que se consideravam guardiões da verdade única, especialistas exclusivos do conhecimento e defensores de um método puro.
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Os cientistas não deixam de ser seres humanos marcados por arrogância, engano, desejo de poder, amor, sofrimento, insegurança, coragem e alegria.
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Alguns rejeitaram o espelho crítico que Feyerabend lhes apresentou.
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Outros reconheceram, nas análises da história da ciência, que as regras científicas precisam ser ocasionalmente infringidas para que novos conhecimentos sejam produzidos.
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A defesa de um método fixo e de uma teoria rígida não é apenas ingênua, mas ideológica.
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O desprezo por outras fontes de conhecimento constitui manifestação de estreiteza de espírito e chauvinismo.
** Críticas **
1. Feyerabend redigiu Contra o método em aproximadamente um ano e posteriormente considerou ter expresso nessa obra tudo o que desejava dizer, embora as críticas severas recebidas após a publicação lhe tenham causado profundo sofrimento.
2. A indignação provocada pela obra contribuiu para uma depressão prolongada, vivenciada como uma presença quase corporal que podia desaparecer momentaneamente ao despertar e retornar de modo repentino durante as atividades cotidianas.
3. As objeções dirigidas a Feyerabend foram numerosas e, por vezes, extremamente duras.
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David R. Topper reconheceu o brilho e a perspicácia da obra, mas considerou que suas conclusões aproximavam Feyerabend de líderes anticientíficos.
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Ernest Nagel julgou pouco proveitosas as discussões sobre a incomensurabilidade das teorias e afirmou que a concepção feyerabendiana do conhecimento conduzia a conclusões absurdas.
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Klaus Fischer recusou a interpretação de Galileu como anarquista metodológico, sustentando que o cientista possuía concepções claras sobre o trabalho e a argumentação científicos.
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Críticos marxistas acusaram Feyerabend de defender o ensino da magia e de conhecimentos antirrevolucionários, além de classificarem sua epistemologia anarquista como positivismo extremo convertido em apologia do mito e filosofia da vida.
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Herrmann Ley interpretou equivocadamente a defesa feyerabendiana do estudo de mitos e contos, pois não se exigia o ensino da magia, mas uma formação ampla que permitisse ao cidadão adquirir conhecimentos suficientes para decidir livremente.
4. Ernest Gellner formulou uma crítica abrangente e pessoal a Contra o método, atacando não apenas os argumentos, mas o próprio caráter de Feyerabend.
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Imre Lakatos foi apresentado como exemplo de rigor científico, em contraste com Feyerabend.
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Feyerabend foi descrito como um palhaço grosseiro, arrogante, agressivo, egocêntrico e inclinado a intimidar os racionalistas.
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Em resposta, Feyerabend reconheceu a habilidade literária de Gellner, mas contestou sua correção, atribuindo-lhe cegueira diante das ideias e motivações alheias, além de erros de leitura e compreensão.
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A crítica de Gellner foi caracterizada como uma tentativa fracassada de crítica racional.
5. Helmut Spinner chegou a comparar Feyerabend a Adolf Hitler, aproximando o oportunismo metodológico de Contra o método da ausência de princípios atribuída à política nazista.
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Feyerabend respondeu que a simples presença de oportunismo não bastava para estabelecer uma ligação com o nacional-socialismo.
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Einstein e Niels Bohr também teriam agido como oportunistas rigorosos em sua prática científica.
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A gravidade histórica do problema representado por Hitler não poderia ser reduzida à analogia superficial formulada por Spinner.
6. Joseph Agassi reconheceu a existência de elementos interessantes em Contra o método, mas considerou difícil separar o material valioso daquilo que julgava absurdo.
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Feyerabend teria comentado acontecimentos sociais, artísticos e históricos sem tratar do nacional-socialismo, do fascismo ou do racismo.
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A violência e a vulgaridade percebidas na obra não impediram Agassi de resenhá-la.
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A crítica foi motivada também pela esperança de que Feyerabend abandonasse os excessos e se tornasse o cientista afável e estimulante que Agassi desejava encontrar.
7. Até a publicação de Contra o método, Feyerabend pode ter demonstrado pouco interesse por uma confrontação politicamente engajada com os acontecimentos mundiais e sua história.
8. As reações críticas afetaram profundamente Feyerabend e talvez já fossem pressentidas durante a elaboração de Contra o método, circunstância que pode ter contribuído para o desenvolvimento paralelo de um manuscrito destinado a corrigir a imagem autoconstruída de pensador frívolo.
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Em 2004, Helmut Heit e Eric Oberheim descobriram no espólio de Feyerabend um manuscrito sobre filosofia da natureza.
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A elaboração havia começado no início da década de 1970 e posteriormente foi revista com vistas à publicação em 1976.
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Planejavam-se três volumes, mas o projeto não foi concluído, possivelmente devido às revisões de Contra o método.
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O manuscrito somente foi publicado em 2009, sob a organização de Heit e Oberheim.
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A obra investiga a ascensão do racionalismo desde as primeiras culturas, passando pela Antiguidade, até a era moderna.
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A análise mobiliza estudos pré-históricos, a arte e a ciência egípcias e babilônicas, interpretações das epopeias homéricas, pesquisas antropológicas sobre povos indígenas e a tradição ocidental da filosofia da natureza.
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São examinados pensadores como Parmênides, Xenófanes, Aristóteles, Bacon, Galileu, Newton, Descartes, Leibniz, Hegel, Mach e Niels Bohr.
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Konrad Lorenz, Jean Piaget e Noam Chomsky são utilizados para indicar a existência de esquemas internos parcialmente inatos que orientam a relação humana com o mundo.
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Os testemunhos das culturas antigas constituem concepções da realidade dependentes de teorias e parcialmente bem-sucedidas, assim como as concepções modernas.
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Os mitos não representam simples invenções, mas formas de registrar e explicar causalmente acontecimentos relevantes.
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Teorias científicas e mitos resultam de atividades humanas e podem orientar ações no interior das comunidades.
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Sua funcionalidade não depende exclusivamente do valor de verdade, mas de sua capacidade de favorecer o progresso social.
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Teorias, mitos e outros produtos humanos refletem características humanas.
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Os fatos do mundo não são apenas reproduzidos pelas ideologias, mas parcialmente construídos por elas.
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Essa concepção sugere a presença de elementos construtivistas no pensamento de Feyerabend.
9. Filosofia da natureza encerra-se com a perspectiva otimista de uma nova ciência filosófico-mitológica, na qual a simpatia pela natureza, a compreensão intuitiva das múltiplas formas de vida e o pleno desenvolvimento da personalidade constituiriam componentes essenciais.
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Essa perspectiva deveria ser desenvolvida nos volumes posteriores.
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Os volumes projetados, contudo, jamais foram realizados.
10. Feyerabend passou muitos anos esclarecendo os argumentos de Contra o método, mas Filosofia da natureza talvez tivesse oferecido aos críticos uma resposta mais adequada do que Ciência em uma sociedade livre.
