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Teses cognitivistas

LANCIANI, Albino. Phénoménologie et sciences cognitives. Paris: Association por la promotion de la phénoménologie, 2003.

** 3. As teses fundamentais do cognitivismo **

1. Embora o cognitivismo tenha modificado alguns dos objetivos próprios da cibernética, seus princípios fundamentais permaneceram estruturalmente preservados, multiplicando-se em numerosas subescolas que divergem sobretudo em aspectos secundários sem questionar as bases comuns da teoria e configurando uma filosofia cognitiva integrada a uma visão de mundo previamente estabelecida que ela tende mais a sistematizar e conservar do que propriamente a transformar.

  • O cognitivismo apresenta desde sua origem uma intensa fragmentação em correntes particulares, frequentemente caracterizadas por diferenças terminológicas ou conceituais que não atingem seus pressupostos fundamentais.
  • O ecletismo das diferentes escolas permanece compatível com uma concordância estrutural quanto aos princípios essenciais.
  • A filosofia cognitiva e a filosofia da mente anglo-saxônica reiteram, apesar das pretensões de radicalidade de suas diferentes correntes, um conjunto relativamente estável de ideias fundamentais.
  • A integração dessa filosofia a uma determinada visão de mundo contribui para conservar e aperfeiçoar uma situação histórica que ela própria não participou originalmente de constituir.

** 3.1 Primeira tese: a cognição é computação **

2. A tese fundamental herdada da cibernética identifica a vida mental, o cérebro e o pensamento com formas de cálculo lógico, fazendo da matematização do comportamento humano o pressuposto fundamental das ciências cognitivas e convertendo a capacidade de formalizar matematicamente os processos humanos em princípio de explicação de sua especificidade.

  • A teoria do homeostato de Ashby contribuiu simultaneamente para superar algumas pretensões da primeira cibernética e para estabelecer a ideia de que sistemas vivos podem alcançar estados de equilíbrio mediante regulações formalizáveis matematicamente.
  • Essa possibilidade tornou-se uma das condições conceituais para o nascimento das ciências cognitivas.
  • A especificidade tradicionalmente atribuída ao comportamento humano passa a ser procurada no interior de uma matematização geral de suas operações.

3. A intuição central do cognitivismo estabelece uma semelhança essencial entre inteligência e computação, permitindo definir a cognição como realização de operações computacionais sobre representações simbólicas.

4. A identificação entre cognição e computação funciona efetivamente como uma tese assumida e não como simples hipótese, pois suas dificuldades empíricas não conduzem à revisão do pressuposto fundamental, mas à reformulação dos algoritmos e dos dispositivos tecnológicos destinados a realizá-lo.

  • Os fracassos experimentais tendem a ser atribuídos à insuficiência dos métodos, algoritmos ou tecnologias disponíveis, e não à possível falsidade da própria identificação entre cognição e computação.
  • A questão passa a ser operacional: determinar quais estruturas algorítmicas e tecnológicas são adequadas para implementar a tese previamente aceita.
  • A filosofia cognitiva acompanha posteriormente os desenvolvimentos científicos, frequentemente procurando sistematizar seus resultados ou justificar os fracassos encontrados pela inteligência artificial.
  • Entre os pioneiros do cognitivismo predominavam cientistas, economistas e linguistas, enquanto a intervenção propriamente filosófica ocorreu sobretudo posteriormente.

5. A identificação prévia entre pensamento e computação conduz a uma equivalência fundamental entre cérebro inteligente e inteligência artificial, tornando necessária uma crítica da razão informática e dos pressupostos filosóficos que sustentam mesmo as variantes mais sofisticadas do cognitivismo.

6. A compreensão das consequências da tese computacional exige examinar primeiro seus fundamentos epistemológicos e depois o modo como ela se converte em prática informática mediante a programação efetiva de computadores.

** 3.2 A tese implícita: modelos e matemática **

7. A influência da física sobre o cognitivismo decorre principalmente do sucesso histórico da modelização matemática dos fenômenos, mas a concepção cognitivista radicaliza essa estratégia ao transformar o modelo em estrutura abstrata fundamentalmente pragmática, valorizada sobretudo por sua capacidade preditiva e progressivamente afastada da relação analógica concreta que os modelos físicos ainda mantinham com a realidade.

  • O desenvolvimento da física demonstrou a possibilidade de organizar matematicamente fenômenos muito diversos segundo modelos comuns.
  • Fenômenos perceptivamente distintos podem pertencer ao mesmo conjunto teórico quando são representáveis pela mesma estrutura matemática.
  • A teoria ondulatória permite, por exemplo, reunir fenômenos tão diferentes quanto processos elétricos e movimentos das águas.
  • A modelização cognitivista acrescenta sucessivas operações de abstração à estratégia física tradicional.
  • A teoria dos modelos da lógica matemática favorece uma concepção na qual o modelo pode ser quase completamente abstrato e julgado prioritariamente por sua eficácia preditiva.

8. A metáfora cognitivista da caixa-preta reduz a relevância do funcionamento interno de um sistema à correspondência entre entradas e saídas observáveis, de modo que um modelo é considerado satisfatório quando produz resultados equivalentes aos do objeto modelado, independentemente da semelhança entre seus mecanismos internos.

  • Dados ingressam no sistema como inputs e, após determinado processamento, produzem informações ou atividades como outputs.
  • O funcionamento interno pode ser desconsiderado se as entradas correspondem às condições reais e as saídas reproduzem os resultados esperados.
  • Reaparece assim a estrutura do jogo de Turing, no qual não é necessário definir previamente pensamento ou cérebro para atribuir inteligência a um sistema.
  • Se entradas e saídas reproduzem o comportamento de um ser inteligente, a própria caixa-preta pode ser qualificada como inteligente.
  • A inteligência artificial pode, desse modo, prescindir da reprodução fiel da estrutura cerebral ou das dinâmicas internas concretas do processo cognitivo.

9. O modelo adquire progressivamente primazia sobre a realidade modelada, pois deixa de nascer exclusivamente como representação de uma situação concreta e passa a funcionar como estrutura normativa à qual a própria realidade deverá conformar-se.

10. A explicação cognitivista do cérebro pode ser organizada, segundo Michel Imbert, mediante uma estrutura de quatro níveis sucessivos, cada qual submetido à sua própria operação de modelização.

11. O nível biológico procura explicar a cognição mediante a estrutura e o funcionamento dos mecanismos neurológicos que sustentam a atividade cognitiva.

12. O nível psicológico procura modelizar os processos pelos quais as informações são adquiridas, armazenadas e posteriormente recuperadas para utilização cotidiana ou para a realização de desempenhos cognitivos, incluindo problemas centrais como a memória.

13. O nível computacional procura reproduzir algoritmicamente as próprias faculdades cognitivas, pressupondo a concepção de McCulloch segundo a qual o cérebro constitui uma máquina calculadora e seus processos devem, consequentemente, possuir estrutura algorítmica.

14. O nível matemático restringe as variações admitidas pelos três níveis anteriores mediante uma formalização rigorosa, convertendo competências cognitivas em procedimentos logicamente transparentes e substituindo a obscuridade da capacidade de realizar determinada atividade por uma sequência formalmente determinável de operações.

15. A passagem da competência cognitiva para o procedimento cognitivo produz uma transformação estrutural na compreensão do conhecimento, pois uma atividade psicológica situada no mundo, constituída por múltiplas dimensões temporais e existenciais, é substituída por conjuntos de elementos formalmente identificáveis e conectados por funções.

  • Recordar ou realizar uma ação envolve originalmente uma estrutura psicológica complexa pertencente à existência integral de um sujeito no mundo.
  • A transformação dessa competência em procedimento elimina grande parte dessa complexidade em favor de fragmentos organizados funcionalmente.
  • Na aplicação informática, esses fragmentos podem ser precisamente localizados em dispositivos de armazenamento mediante endereços determinados.
  • A função cognitiva estabelece uma ordem entre dados previamente disponíveis e constrói um percurso de recuperação ou processamento.
  • O procedimento aparece assim menos como criação de uma nova possibilidade do que como execução de um caminho previamente inscrito na estrutura do sistema.

16. A completa formalização matemática da cognição elimina a apreensão concreta e a transformação projetiva do conhecimento diante das mudanças do mundo, convertendo conhecer em localizar percursos previamente disponíveis dentro de um conjunto enumerável de possibilidades.

  • A totalidade das possibilidades seria antecipadamente determinada e apenas aguardaria a descoberta da função apropriada.
  • O conhecimento deixaria de ser atividade que se modifica conjuntamente com o desenvolvimento de seu próprio projeto.
  • A riqueza e a novidade dos percursos cognitivos tornam-se aparentes, pois suas possibilidades já estariam previamente definidas.

17. No quarto nível, todas as possibilidades de conhecimento encontram-se previamente inscritas e simultaneamente disponíveis, como se a totalidade das perspectivas possíveis estivesse presente em um único espaço formal e computável.

18. A aplicação rigorosa do quarto nível matemático pode ser compreendida segundo duas perspectivas distintas, uma correspondente à situação humana no mundo e outra correspondente à estrutura interna do computador.

19. Considerado a partir da situação humana, o nível matemático realizaria o ideal leibniziano de tornar qualquer problema humano solucionável mediante procedimentos de cálculo, desde que a formalização matemática pudesse ser completamente traduzida em algoritmos.

20. Considerado a partir da perspectiva do computador, o conjunto das possibilidades de conhecimento estaria simultaneamente disponível em uma espécie de presente eterno, materialmente inscrito no armazenamento físico da máquina, aproximando-se metaforicamente da visão divina concebida pelo neoplatonismo renascentista.

  • As possibilidades não seriam apenas abstratamente possíveis, mas permaneceriam fisicamente registradas no dispositivo computacional.
  • Essa total disponibilidade constitui um aspecto fundamental do sonho da razão informática e possui afinidade estrutural com o ideal de conhecimento absoluto que acompanhou o desenvolvimento da ciência moderna.

21. A articulação dos quatro níveis apresenta dois problemas internos fundamentais: a ausência de uma mediação evidente entre eles e a possibilidade de que a ordem aparentemente progressiva do biológico ao matemático inverta a verdadeira estrutura lógica pressuposta pelo cognitivismo.

22. O primeiro problema consiste em determinar mediante quais operações ou relações se torna possível passar de um nível de modelização ao seguinte.

23. O segundo problema consiste em determinar se a apresentação que progride do nível mais concreto ao mais abstrato corresponde efetivamente à prática científica e, sobretudo, à estrutura lógica pressuposta pela investigação cognitivista.

24. A compreensão geral das ciências cognitivas depende da análise separada dessas duas questões, pois nelas se encontram os pressupostos fundamentais da articulação entre seus diferentes níveis.

** 3.3 As ligações entre os modelos e a ideia de simbolização **

25. A integração dos diferentes componentes das ciências cognitivas depende de uma hierarquia de modelos na qual toda modelização envolve simultaneamente uma simbolização, pois cada modelo constitui um universo formal composto por símbolos destinados a representar objetos e a reproduzir, mediante regras internas, relações correspondentes às relações encontradas no mundo.

  • Cada símbolo mantém uma relação mais ou menos estreita com algum objeto situado fora do próprio modelo.
  • O modelo procura representar um universo juntamente com suas leis de funcionamento.
  • Um símbolo submetido às funções internas do modelo deve comportar-se analogamente ao objeto exterior que representa.
  • Em um modelo de uma partida de bilhar, por exemplo, símbolos podem representar as bolas e a mesa, permitindo aplicar formalmente as leis do movimento e das colisões para prever determinadas evoluções do sistema.

26. A simbolização introduz problemas mais complexos que a simples construção formal do modelo, pois exige determinar tanto os critérios da abstração inicial quanto as condições pelas quais modelos sucessivos podem preservar relações significativas entre símbolos pertencentes a diferentes níveis.

  • A primeira dificuldade consiste em decidir como selecionar um modelo e quais aspectos do objeto podem legitimamente ser abstraídos.
  • A segunda consiste em determinar como construir modelos de modelos sem perder as relações estabelecidas nos níveis anteriores.
  • Aplicada aos quatro níveis de Imbert, a questão exige saber como simbolizar a atividade cerebral e como relacionar os símbolos empregados nos diferentes níveis.

27. As relações entre símbolos existentes em determinado modelo não são necessariamente preservadas quando se passa para outro nível interpretativo, a menos que se pressuponham condições de equivalência ou isomorfismo provenientes da teoria matemática dos modelos.

  • Uma simbolização de segunda ordem não conserva automaticamente a relação existente entre o primeiro símbolo e o objeto originalmente simbolizado.
  • A preservação dessas relações depende da adoção de condições formais específicas.
  • As noções de equivalência elementar e de isomorfismo permitem explicitar algumas dessas condições.
  • A análise revela assim uma pluralidade de significados tanto para a noção de modelo quanto para a simbolização enquanto operação associada à inteligência.

28. A análise dos modelos pode desenvolver-se em duas direções complementares: uma trajetória ascendente que parte do nível matemático em direção ao biológico e uma trajetória descendente que parte do biológico e alcança o matemático mediante sucessivas abstrações.

** 3.3.1 Os modelos “ascendentes”: a naturalização do matemático **

29. A passagem do nível matemático ao nível algorítmico apresenta poucas dificuldades internas porque a teoria matemática dos modelos e a tese de Church permitem identificar funções calculáveis com funções recursivas e, consequentemente, converter objetos matemáticos em procedimentos algorítmicos sem uma ruptura decisiva de simbolização.

  • Os objetos matemáticos podem ser simbolizados univocamente no interior de sistemas formais adequadamente delimitados.
  • Os problemas mais gerais da teoria dos modelos podem ser deixados de lado quando se trabalha com subconjuntos suficientemente restritos de sistemas lógicos de primeira ordem.
  • As funções recursivas interessam precisamente por corresponderem às funções calculáveis.
  • Se o objeto matemático pode ser definido mediante funções recursivas, torna-se em princípio realizável por um procedimento algorítmico.
  • As próprias funções podem ser interpretadas diretamente como algoritmos.
  • A tese de Church assegura a articulação entre os níveis matemático e algorítmico ao estabelecer a equivalência entre calculabilidade e recursividade.
  • Essa função de articulação torna a tese de Church decisiva para qualquer crítica da razão informática, apesar de seu caráter não demonstrável.

30. A passagem do nível algorítmico-matemático ao nível psicológico apresenta uma dificuldade qualitativamente distinta, porque exige relacionar símbolos puramente formais e modelos sintáticos com fenômenos dotados de significação e conteúdo psicológico.

31. Nos níveis matemático e algorítmico estabelece-se uma equivalência substancial entre sintaxe e semântica, pois os símbolos funcionam integralmente como suportes de operações determinadas pelas regras formais, sem que sua interpretação acrescente conhecimento efetivo às relações estabelecidas pelo sistema.

  • O símbolo é transparente às relações determinadas pela axiomática e pelas regras de inferência.
  • Sua função fundamental consiste em servir de suporte material às operações do sistema formal.
  • Dentro do universo lógico, os símbolos constituem os próprios indivíduos do sistema e não necessitam de interpretação externa para que as operações possam funcionar.
  • A sintaxe possui, nesse sentido, primazia fundacional sobre a semântica.
  • O momento semântico aparece como secundário em relação ao sistema formal e não participa de sua fundamentação.
  • Essa equivalência pode ser aceita entre matemática e algoritmo, mas torna-se problemática quando se pretende alcançar o domínio psicológico.

32. A passagem do terceiro ao segundo nível constitui a dificuldade central da modelização ascendente, pois exige relacionar o armazenamento formal de informações com a realização de performances cognitivas, apesar da heterogeneidade entre essas duas categorias.

  • É possível conceber sem dificuldade o armazenamento computacional de resultados, teoremas e algoritmos.
  • Também é intuitivamente possível compreender o significado de uma performance cognitiva.
  • A dificuldade consiste precisamente em explicar, mediante instrumentos puramente lógicos, como o armazenamento formal pode converter-se em atividade cognitiva significativa.

33. Nenhuma significação pode ser extraída exclusivamente da manipulação sintática de algoritmos, porque operações formais produzem apenas novas estruturas sintáticas e não permitem por si mesmas alcançar o nível qualitativamente distinto da performance cognitiva.

  • Uma sequência indefinida de algoritmos e resultados algorítmicos permanece situada no interior da sintaxe.
  • A significação não emerge automaticamente dos símbolos de uma lógica de primeira ordem.
  • Um modelo algorítmico da performance cognitiva exige pressupostos adicionais que não pertencem à própria lógica.
  • Torna-se necessário restringir a noção intuitiva de performance cognitiva de maneira que ela possa ser absorvida por uma prática sintática.
  • Essa operação reproduz, em escala mais ampla, a estratégia da tese de Church, que aproximou a noção intuitiva de calculabilidade da definição formal de recursividade.

34. A questão decisiva da modelização ascendente consiste, portanto, em determinar de que maneira o domínio psicológico poderia ser modelado a partir das estruturas algorítmico-matemáticas.

35. A única solução disponível dentro dessa perspectiva consiste em subsumir a atividade psicológica à estrutura algorítmica, convertendo a psicologia em interpretação de algoritmos e atribuindo aos níveis matemático e computacional uma função propriamente fundacional.

  • A atividade da mente em sentido amplo passa a ser compreendida a partir da estrutura algorítmica.
  • Essa redução é paradoxal porque a experiência psicológica parece constituir precisamente um dos fenômenos menos assimiláveis a operações estritamente algorítmicas.
  • A caracterização dessa redução será decisiva tanto para as pretensões operacionais da inteligência artificial quanto para as concepções psicológicas elaboradas pela filosofia cognitiva.

36. A passagem do algoritmo ao pensamento não pode resultar de uma simples abstração lógica, pois um sistema formal não contém elementos dos quais se possa abstrair a dimensão semântica própria do pensamento, que possui conteúdos e significações ausentes da estrutura puramente sintática.

37. A única possibilidade de estabelecer a passagem do nível algorítmico ao psicológico consiste na adoção de uma tese adicional segundo a qual uma psicologia pode ser expressa algoritmicamente, desempenhando essa afirmação uma função análoga à da tese de Church na passagem entre matemática e computação.

38. A tese de que a psicologia pode ser expressa por algoritmos não possui demonstração independente e permanece sustentada pela própria assunção, apesar da diferença qualitativa aparente entre processos algorítmicos e atividades psicológicas.

  • O modelo necessário para explicar a atividade psíquica parece ultrapassar significativamente o modelo baseado exclusivamente em funções recursivas.
  • Essa dificuldade possui simultaneamente consequências lógicas e epistemológicas.

39. Do ponto de vista lógico, a passagem entre sistema formal e algoritmo sustentada pela tese de Church conserva alguma plausibilidade devido à proximidade entre calculabilidade intuitiva e recursividade formal, enquanto a passagem entre algoritmo e psicologia é muito menos evidente e depende de uma concepção que transforma a lógica formal em fundamento de toda explicação científica possível.

40. Do ponto de vista epistemológico, a tese de que a psicologia pode ser algoritmicamente expressa revela que a hierarquia dos quatro níveis deve ser invertida para representar adequadamente a estrutura efetiva do cognitivismo, pois a investigação não parte propriamente da experiência biológica para alcançar a lógica, mas utiliza a transparência do sistema lógico como fundamento a partir do qual o mundo deverá ser reconstruído.

  • O cognitivismo não se organiza segundo um experimentalismo semelhante ao encontrado em determinadas práticas biológicas.
  • Sua orientação fundamental parte de operações constituídas no interior da lógica formal.
  • O mundo torna-se epistemologicamente interpretável a partir do universo lógico.
  • A própria realidade pode então ser concebida como interpretação de um sistema formal composto por elementos finitos e operações determináveis.

41. A inversão da estratégia científica conduz a um ideal essencialmente dedutivo no qual todo comportamento deveria ser exprimível a partir de estruturas matemáticas previamente estabelecidas, e as dificuldades dessa passagem motivaram doutrinas como a emergência e o conexionismo.

  • A teoria da emergência procura explicar a transição principalmente a partir de considerações biológicas, encontrando em Francisco J. Varela uma de suas formulações mais elaboradas.
  • O conexionismo procura enfrentar o mesmo problema mediante estruturas matemáticas e computacionais mais refinadas, especialmente no domínio da informática.
  • Ambas as doutrinas procuram responder ao ponto menos intuitivo da concepção cognitivista: a passagem entre processos formais e atividade cognitiva.

42. Quando a psicologia é reduzida a algoritmos, tanto o organismo biológico em geral quanto o cérebro em particular tornam-se contingentes, porque a única necessidade restante consiste em encontrar algum substrato capaz de implementar os procedimentos algorítmicos.

  • A estrutura algorítmica necessita de suporte material para funcionar, mas esse suporte não precisa ser necessariamente um cérebro biológico.
  • O cérebro converte-se assim em uma possível plataforma de implementação entre outras.
  • Essa contingência constitui uma condição fundamental para o projeto de construção de máquinas artificialmente inteligentes.

43. A consequência paradoxal dessa perspectiva é que o próprio cérebro, inicialmente objeto privilegiado da explicação, torna-se secundário em relação à inteligência, passando a ser concebido como hardware extremamente complexo que poderia, em princípio, ser superado por uma máquina capaz de executar algoritmos de maneira mais eficiente.

  • Se inteligência corresponde à execução de algoritmos, questões éticas, psicológicas e filosóficas deixam de ser centrais para a explicação de seu funcionamento.
  • O problema desloca-se para a procura do substrato mais adequado à implementação computacional.
  • Uma máquina capaz de superar o cérebro em capacidade operacional representaria, segundo esse critério, uma superação propriamente intelectual.

44. Nas condições tecnológicas disponíveis, a possível superação do cérebro é traduzida principalmente em aumento da velocidade dos processadores, emprego de força bruta computacional e aperfeiçoamento dos algoritmos para torná-los mais eficientes e menos dispendiosos.

** 3.3.2 Os modelos “descendentes”: a matematização da biologia **

45. A modelização descendente parte da confiança geral das ciências contemporâneas na matemática, mas o cognitivismo radicaliza essa orientação ao aplicar formalizações deterministas a domínios anteriormente resistentes à matematização e ao assumir desde o início que pensamento é computação, transformando essa tese em uma visão de mundo que condiciona tanto o objeto quanto a própria estrutura da investigação científica.

  • A passagem entre psicologia e algoritmo deixa de apresentar dificuldade interna quando se aceita previamente que pensar significa computar.
  • A tese computacional não constitui apenas um enunciado científico localizado, mas uma orientação global para a compreensão da realidade.
  • Seu sentido é também operacional, pois ela participa da configuração concreta de um mundo construído para corresponder às condições impostas pela própria interpretação computacional.
  • Aceita essa premissa, a tradução do nível psicológico para o algorítmico torna-se automática.

46. Na estrutura descendente, a transição mais significativa situa-se entre o nível biológico e o psicológico, correspondendo diretamente ao problema tradicional das relações entre corpo e espírito.

47. A passagem do cérebro para a atividade psicológica mobiliza diversos recursos das ciências contemporâneas mediante estratégias paralelas de abstração e idealização, produzindo uma interpretação simultaneamente excessiva e redutiva do cérebro.

48. A interpretação torna-se excessiva porque a decomposição do cérebro em matéria, neurônios e relações neuronais não explica como essas atividades podem transformar-se qualitativamente em pensamento e, ainda menos, em consciência.

  • A análise material pode decompor o cérebro em estruturas neuronais e descrever suas interações.
  • Permanece, entretanto, sem explicação suficiente a passagem da atividade neuronal para o pensamento.
  • A passagem da atividade cerebral para a consciência apresenta dificuldade ainda maior.
  • Entre atividade neuronal e consciência parece existir uma diferença qualitativa, e não simplesmente quantitativa.

49. A interpretação torna-se igualmente redutiva porque a modelização psicológica exclui dimensões fundamentais da existência humana, particularmente a intencionalidade e o inconsciente.

  • A intencionalidade caracteriza a relação mais elaborada do sujeito com o mundo e não se deixa facilmente representar no modelo formal.
  • O inconsciente corresponde à dimensão da existência que permanece fora da consciência imediata, embora continue informando e orientando a atividade humana.
  • A modelização tende assim a excluir simultaneamente dois limites fundamentais da vida psíquica: sua abertura intencional ao mundo e seus condicionamentos não conscientes.

50. A redução da atividade mental à modelização computacional permanece problemática porque abstrai o pensamento tanto de seu suporte físico concreto quanto de sua dimensão intencional, ao mesmo tempo que idealiza o cérebro como uma máquina de cálculo, deixando sem solução satisfatória a relação entre essas dimensões.

51. A dificuldade encontrada conduz necessariamente ao problema filosófico fundamental da relação entre matéria e espírito, cuja solução não apenas determina a interpretação da cognição, mas também condiciona a maneira pela qual o ser humano poderá compreender a si mesmo.

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