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Relações

HARMAN, Graham. Prince of networks: Bruno Latour and metaphysics. Melbourne: Re.press, 2009.

Considerações Críticas

1. Este capítulo é escrito no espírito de um ano imaginário de 2050, com a estrela de Latour em seu zênite, e embora seja uma paisagem feliz que vale a pena explorar, não há paraíso, e há vários pontos onde os herdeiros de Latour em 2050 podem desejar ir um pouco mais longe, incluindo a necessidade de descrever fissuras no próprio ator, a sensação de que o materialismo ainda não foi enterrado pela crítica de Latour, a questão do meio em que a tradução ocorre e certos pontos de cosmologia que Latour não aborda.

2. A primeira questão a ser contestada é o “relacionismo” (relationism) de Latour, pois a definição de atores em termos de suas relações não deixa espaço para uma realidade independente das relações, e o filósofo Quentin Meillassoux, em seu livro “Après la Finitude”, critica o “correlacionismo” (correlationism), a doutrina de que não se pode pensar em humanos sem mundo, nem mundo sem humanos, mas apenas em uma correlação primal entre os dois, e Latour parece ter momentos correlacionistas, como quando afirma que “depois de 1864, os micróbios estavam lá o tempo todo”.

3. Latour não é um correlacionista no sentido pleno, porque seu primeiro passo na filosofia é descartar os próprios dois termos que o correlacionista quer combinar, e ele não defende uma correlação humano/mundo mais do que uma correlação sólido/líquido, mas ele tem momentos correlacionistas, como o exemplo dos micróbios em 1864, que parece exigir que os humanos tivessem que aprender sobre os micróbios antes que eles pudessem retroativamente começar a existir no passado.

4. O problema com a afirmação de Latour sobre os micróbios é que ela trata os dois lados da proposição de forma assimétrica, pois ele nega que os micróbios existissem antes de Pasteur, mas não nega que Pasteur existisse, e a afirmação de que “depois de 1864, os micróbios estavam lá o tempo todo” parece implicar que Pasteur criou objetos do nada ao descobri-los, e a assimetria é óbvia, e essa é uma ponte longe demais, pois algo estava realizando múltiplas ações antes de Pasteur.

5. A distinção entre “relacionismo” (relationism) e “correlacionismo” (correlationism) é crucial: o relacionismo afirma que um ator é definido por sua soma total de efeitos, enquanto o correlacionismo afirma que nenhuma realidade faz sentido se o ser humano for subtraído da imagem, e Latour é intrinsecamente um relacionista, mas apenas um correlacionista de vez em quando, e sua democracia de atores é o melhor meio conhecido de privar os seres humanos de seu monopólio ilegal sobre as relações.

6. O “atualismo” (actualism) de Latour, a doutrina de que um ator é completamente atualizado em qualquer momento, inscrito sem reservas em seu esquema atual de alianças, é reminiscente dos antigos Megarianos, criticados por Aristóteles, e Latour rejeita a “potencialidade” (potentiality) dos atores, bem como sua posse de qualidades primárias divorciadas de relações com outras coisas, e para Latour, uma pessoa não se levanta usando um reservatório interno de potência, mas através de uma série de mediações.

7. A rejeição de Latour da potência é consistente com o princípio da irredução, pois falar de algo existindo em potência implica que já está lá, mas simplesmente coberto ou suprimido, e para Latour, uma coisa só está aqui quando está aqui, não antes, e fazer algo se tornar atual não é desdobrar uma semente críptica, mas montar uma ampla gama de atores que começam em separação, e o verdadeiro problema não é que Latour defenda o atual sobre o potencial, mas que ele identifique o atual com o relacional.

8. A segunda questão a ser contestada é que mesmo o presente de um ator não é adequadamente definido por suas relações, e um simples experimento mental permite considerar que uma casa, quando vista de todos os ângulos possíveis, sob todas as condições concebíveis, ainda não são esses pontos de vista que estão fazendo o trabalho da casa, pois apenas a própria casa bloqueia os ventos e mantém os habitantes secos, o que implica que a casa contém realidades desconhecidas nunca tocadas por quaisquer de suas relações.

9. Latour parece reconhecer a necessidade de um “reservatório” (reserve) ou “plasma” (plasma) para explicar como atores completamente formatados poderiam mudar seu formato, e ele define o plasma como “o que ainda não está formatado, não medido, não socializado, não engajado em cadeias metrológicas”, e essa noção é uma admissão de que há algo além das alianças que permite a mudança, embora Latour ainda veja o plasma como não tendo formato, o que implicaria que todo o formato deve vir das relações.

10. A terceira questão a ser contestada é a identidade de uma coisa com suas qualidades, e mesmo que se permaneça em um mundo onde as coisas estão todas aliadas em um plano unificado de acessibilidade mútua, ainda pode ser questionado se uma coisa é um pacote feito de todas as suas qualidades, pois a experiência mostra que se pode circular um objeto de diferentes ângulos, mudando seus perfis visíveis específicos sem mudar a coisa, e ninguém jamais viu realmente “vermelho”, mas sim vermelho-maçã, vermelho-tinta ou vermelho-sangue.

11. O objeto agora está dividido de si mesmo em um segundo sentido, pois é diferente de suas relações, retirando-se em profundezas misteriosas, mas agora também é diferente de suas qualidades, e isso abre um drama na própria superfície do mundo, e o objeto se torna “quádruplo” (fourfold): uma sorte de trevo cujas folhas são ligadas por um plasma ainda desconhecido, e Heidegger, com seu “Geviert” (quádruplo), é o campeão inesperado de objetos independentes, em oposição àqueles aliados em redes.

12. Há duas fissuras básicas em um objeto que surgem de sua diferença de suas relações e de sua diferença de suas qualidades, e o objeto torna-se quádruplo, e Latour, em seu livro “Politics of Nature”, opõe-se ao mundo bicameral não com uma pluralidade vaga, mas com um mundo especificamente quadricameral, com a distinção entre fato e valor cruzada por uma nova distinção entre “levar em conta” (taking into account) e “colocar em ordem” (putting in order).

13. A quarta questão a ser contestada é o materialismo, que Latour ataca como uma forma de idealismo, mas que sobrevive ao ataque porque ainda tem um lugar para se esconder, pois o materialista pode conceder que se abstrai demais sempre que se pensa em matéria, enquanto ainda sustenta que há uma substância física inflexível que é a verdadeira realidade, mais profunda do que qualquer sistema relacional, mas o problema é que tudo o que é dito sobre a matéria, mesmo se imaginado em independência das mentes, ainda é modelado em termos puramente relacionais.

14. A “matéria” (matter) como definida por suas qualidades primárias (extensão, solidez, posição no espaço) é sempre relacional, pois ocupar um ponto no espaço nada mais é do que relacional, e a coisa pode se manifestar em uma posição espacial, mas isso não é mais idêntico à sua realidade do que sua cor ou cheiro, e a única opção é um modelo estranho onde as qualidades primárias existem fora da matéria: no coração da própria substância.

15. A quinta questão a ser contestada é o “meio” (medium) em que a tradução ocorre, e há três problemas: o problema dos mediadores infinitos entre quaisquer dois atores, que toca o problema central da causação ocasional, o problema da “causação com buffer” (buffered causation), onde os atores já estão contíguos em um meio antes de fazerem contato mais direto, e o problema da “causação assimétrica” (asymmetrical causation), onde um ator pode afetar outro sem ser afetado reciprocamente.

16. A solução proposta para o problema dos mediadores é que dois atores só podem se tocar no interior de um terceiro, onde eles se encontram vicariamente porque já foram traduzidos para a linguagem do terceiro, e isso é chamado de “causação vicária” (vicarious causation), e o problema da causação com buffer é que os atores estão presentes juntos no mesmo meio antes de serem unidos, impedindo que todas as relações causais ocorram em um flash, e o problema da causação assimétrica é que um ator pode afetar outro sem ser afetado reciprocamente.

17. A sexta questão a ser contestada é a “cosmologia” (cosmology), e há certos pontos de cosmologia que Latour não aborda, e a obsessão com a lacuna humano/mundo tornou a filosofia entediante, e a pergunta “Quem somos nós?” e “De onde viemos?” são questões reais que devem ser restauradas, e o próximo passo seria restaurar as questões especulativas que pareciam sem resposta enquanto a lacuna kantiana estava em vigor, e a metafísica pode ser reconstruída com melhor engenharia e materiais mais atualizados.

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