Graham Harman
HARMAN, Graham. Prince of networks: Bruno Latour and metaphysics. Melbourne: Re.press, 2009.
Irredutíveis
1. Bruno Latour, filósofo francês nascido em 1947 em Beaune, na Borgonha, com formação jesuítica e influência nietzschiana, emergiu de uma origem provinciana (Dijon) para tornar-se uma figura intelectual influente no mundo anglófono, ocupando posições de destaque no Centre de Sociologie de l'Innovation e no Institut d'études politiques de Paris, e sua obra busca um meio-termo entre o construtivismo social e o realismo científico, sendo incompreendida tanto por relativistas quanto por realistas.
2. O pequeno tratado “Irreductions” (Irreductions), escrito como apêndice de “The Pasteurization of France” e considerado por Latour um “livro órfão”, contém a chave para sua filosofia, baseada no princípio de que “nada é, por si mesmo, redutível ou irredutível a qualquer outra coisa”, e este princípio coloca sua obra em um estágio filosófico mais avançado do que o de Foucault e Derrida, embora não se enquadre nem na filosofia analítica nem na continental.
3. A filosofia de Latour nasceu de uma epifania em 1972, quando, dirigindo pela Borgonha, foi forçado a parar após uma “overdose de reducionismo” e teve a visão de que “nada pode ser reduzido a qualquer outra coisa, nada pode ser deduzido de qualquer outra coisa, tudo pode ser aliado a qualquer outra coisa”, e desta experiência surgiu um cosmos onde cada objeto humano e não humano se mantém por si mesmo como uma força a ser considerada.
4. O princípio fundamental de Latour é que o mundo é feito de “atores” ou “actantes” (actors/actants), que incluem átomos, crianças, políticos, gotas de chuva e trens-bala, e todos estão exatamente no mesmo pé ontológico, o que elimina a distinção clássica entre substância natural e agregado artificial, bem como a ruptura moderna entre sujeito humano pensante e o mundo exterior incognoscível.
5. O princípio da “irredução” (irreduction) afirma que nenhum objeto é inerentemente redutível ou irredutível a qualquer outro, e embora se possa sempre tentar explicar qualquer coisa em termos de qualquer outra coisa, tal explicação exige um trabalho de mostrar como uma coisa pode ser transformada na outra através de uma cadeia de equivalências que sempre tem um preço e sempre corre o risco de falhar.
6. O meio de ligar uma coisa a outra é a “tradução” (translation), onde nenhuma camada do mundo é um intermediário transparente, mas cada uma é um “mediador” (mediator) que faz um trabalho novo para moldar a tradução de forças de um ponto da realidade para o próximo, e mesmo as deduções lógicas são transformadas passo a passo através de diferentes camadas de conceitos, ajustando-se às condições locais em cada etapa.
7. Os actantes ganham força não por alguma força ou fraqueza inerente à sua essência privada, mas apenas através de suas “alianças” (alliances), e um objeto não é nem uma substância nem uma essência, mas um ator tentando ajustar ou infligir suas forças, não diferentemente da visão cósmica de Nietzsche da vontade de poder, e um ator se torna mais real tornando maiores porções do cosmos vibrantes em harmonia com seus objetivos.
8. Da “concreção absoluta” (absolute concreteness), que é o princípio mais profundo de Latour, segue-se que todos os actantes estão no mesmo pé, que nada é mero alimento para outros, que cada actante aprimora e resiste aos outros de maneiras altamente específicas, e que tudo é imanente ao mundo, nada transcende a atualidade, o que torna Latour um “atualista” (actualist), pois o mundo é um campo de objetos ou actantes travados em provas de força.
9. O “actante” (actant) de Latour é um indivíduo concreto, mas não um núcleo de realidade cercado por vapores cambiantes de propriedades acidentais e relacionais, e, ao contrário da substância tradicional, o actante não é distinto de suas qualidades, acidentes ou relações; de fato, a tese central de Latour é que um ator é suas relações, e um actante é sempre um evento completamente específico, onde “tudo acontece apenas uma vez, e em um lugar”.
10. O princípio da irredução é dupla-face: nada pode ser reduzido a um núcleo interior privilegiado, mas qualquer coisa pode ser reduzida a qualquer outra coisa, desde que o trabalho adequado seja feito, e reduzir uma coisa a outra é vê-la como um efeito explicável em termos de uma camada mais fundamental da realidade, mas essa conexão envolve trabalho teórico, modificação da abordagem se a realidade resistir e pagamento de um preço que suprime características adicionais, levando a distorção.
11. A verdade para Latour nunca é uma simples correspondência entre o mundo e as afirmações que se assemelham a ele, pois só se pode ligar uma afirmação ao mundo através do conjunto mais difícil de deslocamentos, mas também não é um tipo de “desvelamento” (unveiling) no modelo de Heidegger, pois uma coisa nunca se assemelha minimamente a outra; a verdade é antes uma série de traduções entre atores, e uma sentença não se mantém porque é verdadeira, mas porque se mantém, diz-se que é “verdadeira”.
12. A “realidade” (reality) para Latour é definida como “resistência” (resistance), e como todo actante está totalmente implantado nas redes do mundo, sem nada escondido sob as superfícies das alianças, dois átomos em colisão são iminentes mesmo se nenhum humano os vir, e o real não é uma coisa entre outras, mas sim “gradientes de resistência” (gradients of resistance).
13. Latour rejeita a “potência” (potency) ou potencialidade, central para a história da metafísica, pois um actante totalmente implantado em alianças não pode ter nada em reserva, e falar em possibilidades é a ilusão de atores que se movem enquanto esquecem o custo do transporte, e a potência é uma farsa que começa com a injustiça, pois alguns poucos se tornam “princípios, origens, banqueiros” enquanto todos os outros se tornam “detalhes, consequências, aplicações”.
14. Não há atividade especial que mereça ser chamada de “pensamento” (thinking), como se houvesse uma espécie de crítica transcendente privilegiada que apenas intelectuais pudessem realizar, nem existe algo como “ciência” (science) como uma atividade especial, pois o poder da ciência vem de uma armada heterogênea dos mais variados actantes, mas os resultados da ciência são atribuídos a uma forma especial de crítica transcendente que é estranhamente negada a padeiros e músicos.
15. A modernidade é a tentativa impossível de criar uma divisão radical entre fato natural objetivo e perspectiva humana arbitrária, e o moderno tenta purificar objetos atribuindo-os unicamente a um lado ou outro dessa divisão artificial, negando a existência de qualquer coisa no meio, mas na verdade “nunca fomos modernos” (we have never been modern), e Latour pode ser descrito como o filósofo que concede uma dose plena de ser até mesmo a latas de metal.
16. O universo de Latour é feito apenas de atores individuais, eventos totalmente implantados a cada instante, livres de potência ou outras dimensões ocultas fora da soma de suas alianças em qualquer momento, e por esta razão não pode haver uma realidade independente chamada “tempo” (time), como se os actantes fossem impulsionados por algum fluxo de devir distinto de sua realidade total aqui e agora, e o tempo é meramente o resultado de negociações entre entidades, não o que torna essas negociações possíveis.
17. O mundo não é feito de formas estáveis e sólidas como rochas, mas apenas de linhas de frente em uma batalha ou história de amor entre actantes, e estados estáveis são o resultado de numerosas forças, e não há tipos naturais (natural kinds), mas apenas objetos mutantes que fizeram um acordo duro com a realidade para se tornarem e permanecerem como são.
18. Os “actantes” (actants) não são mais fortes por natureza, mas por alianças, e o perdedor é aquele que falhou em reunir aliados humanos, naturais, artificiais, lógicos e inanimados para reivindicar a vitória, e a força de um actante permanece em dúvida, dependendo de uma decisão de estender-se ainda mais, arriscando dissidência, ou reforçar consistência e durabilidade, sem ir longe demais.
19. A “interpretação” (interpretation) do real não pode ser distinguida do real em si, porque a interpretação não é o ato solitário de uma entidade humana privilegiada, mas sim uma relação entre um texto e outro, entre textos e objetos, e mesmo entre objetos propriamente ditos, e isso não significa que os objetos são socialmente construídos, mas apenas que são construídos por todos os tipos de redes e alianças, incluindo as inanimadas.
20. A “lógica” (logic) é um ramo das obras públicas ou da engenharia civil, onde algumas traduções são melhor supridas com comida e munição do que outras e, portanto, prevalecem por um tempo, e os argumentos não estão ligados como dominós ou um castelo de cartas, pois toda coleção de actantes inclui os preguiçosos, os covardes, os agentes duplos, os indiferentes e os dissidentes.
