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Dominique Scheffel-Dunand

MCLUHAN, Marshall. The Gutenberg Galaxy: The Making of Typographic Man. Toronto: University of Toronto Press, 2011.

O invisível e o visível: o entrelaçamento de figura e fundo em A galáxia de Gutenberg

1. A galáxia de Gutenberg tornou-se um marco editorial e intelectual ao ultrapassar as fronteiras da publicação acadêmica, introduzir expressões como “era da informação” e “aldeia global” no vocabulário corrente e propor uma forma pós-Gutenberg de conhecimento que transforma o passado sem suprimi-lo.

  • A edição em capa dura e a edição canadense em brochura universitária venderam aproximadamente 55 mil exemplares, enquanto a edição popular alcançou cerca de 135 mil cópias.
  • A obra recebeu, na primavera de 1963, o Prêmio do Governador-Geral na categoria de prosa crítica e expositiva.
  • A escrita, a fala e as respostas de McLuhan à recepção popular ultrapassaram continuamente as convenções da produção acadêmica.
  • Embora posteriormente transformado em profeta da era da internet, McLuhan já figurava, em 1962, entre os pensadores mais influentes de seu tempo.
  • A leitura da obra como ensaio permite acompanhar suas analogias reveladoras com o olhar móvel e distanciado do flâneur, sem separá-las da cultura renascentista que as orienta.
  • A passagem contemporânea da tipografia monocromática para gráficos interativos, multidimensionais e sonoros não exige o apagamento dos suportes e das tradições anteriores.

2. A principal lição oferecida por A galáxia de Gutenberg aos escritores reside na compreensão estratégica e tátil da impressão como meio capaz de delimitar pensamentos e tornar perceptíveis os intervalos entre ideias, por meio de uma estrutura ensaística que apresenta o processo vivo da reflexão em vez de apenas seus resultados.

  • McLuhan rejeita o argumento linear e consecutivo em favor do mosaico ou abordagem de campo.
  • A combinação de prosa crítica e citações permite revelar operações causais na história.
  • O corpo do livro compõe-se de 261 seções relativamente autônomas, introduzidas por enunciados epigramáticos, jocosos ou sintéticos.
  • As seções poderiam, em princípio, ser lidas em ordens diferentes, pois não dependem de uma progressão argumentativa rígida.
  • O mosaico não constitui mero ornamento editorial, mas realiza a forma clássica do ensaio como experimentação do pensamento.
  • A origem latina de ensaio associa a forma aos atos de testar, tentar e sondar.
  • Assim como Montaigne, McLuhan submete ao teste o juízo, a mente, os sentidos e a totalidade da existência.
  • As associações livres e as justaposições visualmente controladas substituem a subordinação lógica convencional.
  • A riqueza de materiais sobre aproximadamente 2.500 anos de cultura ocidental confirma a existência histórica da galáxia tipográfica descrita.
  • O caráter indisciplinado da obra torna-a singular entre os estudos acadêmicos de seu período sobre os efeitos culturais da impressão.
  • A compreensão de sua forma explica sua permanência como referência para estudiosos e editoras universitárias.

3. A era de Gutenberg somente pode ser reconhecida com clareza a partir do ambiente eletrônico que a sucede, pois a passagem para uma nova configuração histórica torna visíveis os contornos anteriormente imperceptíveis da ordem mecânica.

  • A intensificação dos traços da era eletrônica e orgânica oferece uma posição exterior relativa a partir da qual se contempla a situação precedente.
  • A inteligibilidade de um ambiente depende, assim, de sua transformação em figura diante de um novo fundo.

4. A interpretação tecnológica da experiência não foi inventada por McLuhan, mas recebeu em A galáxia de Gutenberg uma configuração original que reúne estudos históricos, antropológicos e comunicacionais para descobrir significações onde abordagens anteriores identificavam apenas informações.

  • Lewis Mumford e Abbott Payson Usher já examinavam as relações entre técnica, invenção e civilização.
  • H. J. Chaytor, Eric Havelock, Harold Innis e André Malraux investigavam as transformações revolucionárias produzidas pelos meios de comunicação.
  • Dorothy Lee, Edmund Carpenter e Edward T. Hall analisavam as variações culturais da percepção e os efeitos ocultos da tecnologia.
  • Essas contribuições eram relativamente recentes quando A galáxia de Gutenberg foi publicada.
  • McLuhan interpreta numerosos aspectos da experiência humana como formações produzidas por tecnologias comunicacionais.
  • Observações provenientes de diferentes autores são extensamente citadas, reconhecidas e entrelaçadas.
  • A sonda converte o acúmulo documental em investigação das relações e dos efeitos não imediatamente visíveis.

5. A forma do ensaio deriva das antigas coleções de citações e aforismos que difundiram o saber humanístico desde o século XVI, permitindo que a escrita se tornasse simultaneamente exame de ideias, reflexão sobre a própria composição e performance retórica.

  • Os primeiros ensaios de Montaigne eram breves e densamente compostos por citações clássicas e modernas.
  • O ensaísta testa suas ideias enquanto examina a própria arte de escrever.
  • Thomas Nashe, Stéphane Mallarmé e Ezra Pound exploraram a capacidade do ensaio de abordar uma variedade praticamente ilimitada de assuntos.
  • Imagens intensas, jogos epigramáticos e desprezo pelos conectivos lógicos conferiram a seus textos caráter familiar e poético.
  • A investigação doutoral da prosa crítica de Nashe mostrou a McLuhan que o ensaísta não encerra uma demonstração, mas ensaia um argumento.
  • A forma ensaística torna-se inseparável do compromisso humanístico com a retórica como atuação.
  • Os enunciados condensados utilizados como cabeçalhos em A galáxia de Gutenberg reproduzem a energia verbal e comercial encontrada em Nashe.
  • Fórmulas sobre a substituição do ouvido pelo olho ou sobre a divisão do herói homérico funcionam como argumentos comprimidos que precisam ser desenvolvidos pelo leitor.

6. Mallarmé, Pound e McLuhan empregam a visualidade e a sonoridade da página para estimular uma leitura criadora, na qual formulações fragmentárias e justaposições ideográficas desencadeiam reflexões mais amplas sobre arte, percepção, tecnologia e cultura.

  • A afirmação da supremacia da poesia não conduz à inferiorização das formas visuais e auditivas.
  • Palavras e letras convidam o leitor a participar de um debate intelectual e sensorial.
  • As formulações fragmentárias permanecem espirituosas e sugestivas, em vez de explícitas e didáticas.
  • Os estímulos visuais e acústicos iniciais convertem-se em pontos de partida para meditações mais abrangentes.
  • Pound fez do ensaio um componente central de sua prática poética modernista.
  • O método ideográfico aproxima elementos por justaposição, sem submetê-los previamente a uma explicação linear.
  • McLuhan compartilha com Montaigne, Mallarmé e Pound o uso metafórico da linguagem visual e acústica.
  • O equilíbrio entre modalidades visuais, acústicas e comunicacionais permite reconsiderar os objetos materiais investigados.
  • A compreensão dos efeitos tecnológicos como processamento disciplinado da informação confere alcance universal ao estudo.
  • Esse procedimento pode ser reativado para interpretar os efeitos da digitalização sobre o livro eletrônico e a circulação acadêmica do conhecimento.

7. Os recursos gráficos desenvolvidos por McLuhan e Harold Kurschenska, posteriormente ampliados na colaboração com Quentin Fiore, funcionam como mensagens lúdicas e cifradas que integram texto, imagem e diagramação num contexto editorial ainda marcado pela separação entre palavras e figuras, universidade e comunicação de massa.

  • O desenho editorial passa a exigir decifração e participação perceptiva.
  • A galáxia de Gutenberg, O meio é a massagem e Guerra e paz na aldeia global constituem marcos da integração multimodal no mercado editorial dos anos 1960.
  • Kurschenska compreendeu que o projeto gráfico não se limitava à capa e à folha de rosto, mas atravessava cada página, letra e linha.
  • A atenção artesanal aos detalhes materiais exigia equilibrar inovação e convenções de legibilidade.
  • A galáxia de Gutenberg ainda preserva a ordem tradicional das páginas preliminares, a relação entre margens e mancha textual e os limites impostos pela leitura contínua.
  • O meio é a massagem, publicado cinco anos depois, rompe de maneira mais radical com a disciplina tradicional do livro.
  • Comparado às experiências visuais mais ostensivas do modernismo norte-americano, o trabalho de Kurschenska pode parecer atualmente pouco inovador.
  • Sua força encontra-se na compreensão tátil do impresso, na clareza dirigida à comunidade de leitores e na preferência pela inovação mínima necessária.

8. Em A galáxia de Gutenberg, palavras, sons, espaços, linhas, sinais de pontuação e disposição tipográfica constituem um fundo material que exige decodificação contínua, enquanto a interação entre figura e fundo revela dimensões invisíveis da percepção e dissolve formas hierárquicas de organização do pensamento.

  • Quentin Fiore popularizou posteriormente as ideias de McLuhan, mas a escrita anterior já possuía acessibilidade e inteligência multimidiática.
  • As glosas dos capítulos aproximam-se formalmente das manchetes publicitárias.
  • A técnica de figura e fundo conserva vínculos com procedimentos intelectuais do Renascimento e do Iluminismo.
  • Inscrições, gestos e silêncios tornam-se unidades comunicacionais capazes de desestabilizar hábitos perceptivos.
  • O pensamento deixa de ser organizado como sucessão de elementos discretos e hierarquizados.
  • A forma textual funciona como máquina linguística joyciana aberta a leituras multissensoriais.
  • A apresentação do ser humano tribal e do ser humano alfabético evidencia simultaneamente dimensões estéticas, históricas e humanísticas da percepção.

9. A relação estabelecida entre impressão, rádio, televisão, arte e ciência demonstra que a história das formas artísticas coincide com a história da percepção, pois o sujeito observador é simultaneamente produto e lugar de práticas, técnicas e processos de formação.

  • A visão nunca atua independentemente das condições históricas que constituem o observador.
  • A experimentação com o impresso acompanha as mudanças técnicas ocorridas entre A galáxia de Gutenberg, O meio é a massagem e Guerra e paz na aldeia global.
  • A inscrição tátil da página relaciona-se tanto às tecnologias e práticas mecânicas quanto às transformações das obras e das representações artísticas.
  • A justaposição visual impede a recepção passiva das imagens.
  • Olhos e mente são convocados a desmontar e recompor aquilo que veem.
  • A tipografia torna-se um instrumento para entrelaçar de maneira inteligente figura e fundo.

10. A passagem da letra manuscrita à forma tipográfica geometricamente construída transformou a escrita num ideal conceitual relativamente independente de tecnologias particulares, enquanto McLuhan orientou a atenção para a sensação, a visão e a presença física da página como meios de perceber os efeitos culturais das técnicas de reprodução.

  • Os tipos de Gutenberg imitavam inicialmente a variedade da caligrafia manuscrita.
  • Os humanistas do início do século XVI afastaram a letra dos gestos da mão e construíram alfabetos romanos com instrumentos geométricos.
  • A letra deixou de ser concebida como sequência de traços e tornou-se uma forma abstrata e ideal.
  • A ênfase na percepção privilegia a sensação sobre a interpretação, o ver sobre o ler e a imediaticidade física sobre a mediação social.
  • Jean Baudrillard reconheceu a proximidade entre a concepção tipográfica de McLuhan e a análise de Walter Benjamin sobre a reprodução mecânica.
  • A repetição técnica de uma obra possibilita sucessivos acessos e o aparecimento de novos significados.
  • Benjamin e McLuhan compreenderam a técnica não apenas como veículo, mas como princípio gerador de sentido.
  • A reprodução constitui uma dimensão determinante da cultura moderna.
  • A análise dos meios anteriores fornece recursos para interpretar os efeitos ainda invisíveis das tecnologias digitais.
  • A criação de imagens intelectualmente organizadas torna possível testar objetos cujo conhecimento permanece em construção.
  • Linguagens plurimodais podem traduzir as mudanças produzidas pela digitalização da publicação acadêmica e explicar publicamente a relevância da pesquisa.
  • Essa integração permanece controversa no meio universitário, assim como ocorria no início da década de 1960.

11. O projeto gráfico de A galáxia de Gutenberg rompeu com as convenções universitárias de 1962 por meio de cabeçalhos destacados e margens inferiores irregulares, embora suas inovações moderadas tenham sido rapidamente ultrapassadas pelo desenvolvimento modernista do design editorial.

  • As escolhas gráficas correspondiam à rapidez, à agressividade e à condensação epigramática da escrita.
  • Carl Dair reconheceu no trabalho de Kurschenska uma ruptura importante com o padrão convencional do livro.
  • A expectativa de reconhecimento histórico confirmou-se em poucos anos.
  • Cinco anos foram suficientes para que inovações mais radicais tornassem discretas as experiências anteriormente ousadas.
  • A trajetória da obra questiona uma história do design concentrada apenas nos graus máximos de novidade.
  • A inovação mínima, quando ajustada à função e ao contexto, também pode produzir transformações historicamente decisivas.

12. O modernismo renegociou as tradições visuais em resposta às novas tecnologias, exigindo dos profissionais da composição tipográfica competências especializadas para resolver disposições complexas e permitindo que McLuhan introduzisse novas formas de significação no domínio das publicações acadêmicas.

  • Os novos ambientes técnicos criaram experiências visuais que os modelos tradicionais já não podiam organizar adequadamente.
  • Compositores e diagramadores precisavam dominar problemas formais cada vez mais sofisticados.
  • Projetos complexos eram confiados a profissionais como Kurschenska, ligados diretamente à composição e à operação da imprensa.
  • Em A noiva mecânica, McLuhan já examinava de maneira não convencional a comunicação pública e a publicidade impressa.
  • As perspectivas adotadas eram consideradas imaginativas e novas, embora por vezes pouco convincentes.
  • A entrega do manuscrito de A galáxia de Gutenberg à Editora da Universidade de Toronto confirmou imediatamente sua singularidade editorial.
  • A obra foi reconhecida como um objeto cuja forma exigiria decisões excepcionais de edição e composição.

13. A avaliação editorial inicial reconheceu A galáxia de Gutenberg como obra simultaneamente excitante, indisciplinada, controversa, irregular e brilhante, cuja organização caleidoscópica, abundância de citações e criação verbal exigiam intenso acabamento sem que sua singularidade fosse domesticada.

  • O manuscrito reunia passagens convincentes e outras frágeis, sem perder seu potencial intelectual e editorial.
  • Antecipava-se que a obra se tornaria uma das publicações mais discutidas e relevantes da editora.
  • Erros tipográficos, citações e referências tornavam a preparação editorial particularmente difícil.
  • A organização dos capítulos permanecia enigmática até mesmo para os responsáveis pela edição.
  • McLuhan aceitava a continuidade do texto interrompida apenas por cabeçalhos formados por frases completas.
  • Variantes lexicais inventadas e uma estrutura caleidoscópica ampliavam os desafios da revisão.
  • A necessidade de acabamento não deveria converter-se numa redução do alcance formal da obra.
  • A editora deveria evitar subestimar um livro que poderia transformar-se num marco de seu programa de publicações.

14. O reconhecimento de A galáxia de Gutenberg como marco editorial confirmou-se internacionalmente, e sua ousadia continua a desafiar estudiosos contemporâneos a conceber modelos pós-Gutenberg de comunicação acadêmica que transformem o livro em ambiente interconectado sem eliminar sua continuidade histórica.

  • O ensaio filosófico do século XX afastou-se da exploração direta do eu e tornou-se mais consciente da linguagem, do discurso e do método.
  • McLuhan e Montaigne não separavam o sujeito vivo do objeto experimentado nem o escritor do método empregado.
  • O ensaio moderno modificou essa unidade entre existência, objeto e forma.
  • O livro encadernado demonstrou extraordinária permanência desde o desenvolvimento da tipografia no século XV, em Mainz.
  • Sua longevidade sustenta a possibilidade de continuidade evolutiva no imaginário e nas práticas perceptivas.
  • A transformação em espaço virtual de informação não precisa significar o desaparecimento do volume tradicional.
  • O livro pode adquirir novas representações como ambiente interconectado de dados textuais, sonoros e visuais.
  • Formas espetaculares do Renascimento e do século XVIII podem iluminar debates contemporâneos sobre produção acadêmica digital.
  • Dados reunidos por meios sociais, inclusive seleções organizadas de mensagens, podem integrar novas configurações ensaísticas sem romper inteiramente com a tradição.

15. A disposição estratificada e simultânea de artefatos visuais remonta às experiências de Giovanni Battista Piranesi, cuja colagem de acontecimentos espaciais e temporais ofereceu a McLuhan um modelo para representar tecnologias e sistemas ainda insuficientemente compreendidos.

  • As gravuras de Piranesi recuperavam visualmente paredes, templos, termas e anfiteatros de uma Roma já desaparecida.
  • Sua inovação gráfica resultava da reunião de camadas históricas e espaciais complexas.
  • O conhecimento visual evita classificações baseadas somente em semelhança e sequência linear.
  • McLuhan solicita ao observador que atribua sentido a meios como rádio e televisão quando seus efeitos ainda não eram inteiramente visíveis.
  • A justaposição barroca reaparece na encenação de textos, palavras e espaços vazios.
  • As páginas funcionam como mosaicos cujas tesselas e significados se oferecem simultaneamente à visão.
  • Blocos textuais são diferenciados muitas vezes apenas pela posição tipográfica, que indica a mudança de autoria.
  • A composição demonstra uma compreensão antecipada das leis dos meios e uma capacidade treinada para interpretar sistemas complexos.

16. O Iluminismo valorizou o discernimento e a observação investigativa como capacidades necessárias para compreender montagens tridimensionais complexas, nas quais o conhecimento é produzido e transmitido pela reunião, ordenação e justaposição de fragmentos.

  • A colagem de pequenas vinhetas representa um modelo de aprendizagem por composição.
  • A convergência contemporânea entre imagem, fala, impressão e performance renova esse problema no ambiente digital.
  • Os instrumentos ópticos atuais ampliam a possibilidade de construir campos plurimodais de conhecimento.
  • A herança iluminista oferece critérios para examinar como fragmentos heterogêneos se transformam em configurações inteligíveis.

17. A reversão da alfabetização linear em quadros informacionais complexos e plurimodais amplia o público da comunicação, substitui progressivamente as narrativas direcionais por imagens manipuláveis e atualiza experiências de colagem entre palavra, figura e som já desenvolvidas no século XVIII.

  • As campanhas de alfabetização de massa iniciadas no final do século XVIII perderam sua centralidade cultural.
  • Os pixels desempenham no ambiente digital uma função comparável à dos tipos móveis.
  • Imagens manipuláveis ocupam o lugar antes dominado pelas narrativas sequenciais.
  • A apresentação visual e acústica da informação permanece uma tendência generalizada.
  • Telas eletrônicas projetam mosaicos artificiais e lúdicos compostos por imagem, palavra e som.
  • O século XVIII já havia desfeito a separação rígida dos gêneros e combinado meios heterogêneos.
  • A interação universal entre elementos culturais não constitui, portanto, invenção exclusiva da era digital.
  • O computador funciona simultaneamente como instrumento e metáfora da abordagem holística contemporânea.
  • A conquista da ubiquidade, os dispositivos ópticos e as demonstrações sensoriais diretas desempenharam papel semelhante na investigação da complexidade moderna inicial.

18. A investigação da página digital exige modelos múltiplos, suspensão do julgamento e decomposição crítica das colagens midiáticas, pois a mutabilidade das imagens e o ocultamento de seus processos de produção dificultam distinguir formas, informação legítima e desinformação.

  • A disparidade entre os meios reunidos deve ser interpretada, e não simplesmente celebrada.
  • O julgamento, os sentidos, a mente e a totalidade do sujeito são postos à prova pelos efeitos da digitalização.
  • Imagens produzidas por máquinas podem ser manipuladas, mas a possibilidade de abuso não define por si mesma a finalidade do meio.
  • A ocultação dos procedimentos materiais e da identidade do produtor agrava a dificuldade de avaliar o que é apresentado.
  • O ambiente fantasmagórico requer que as imagens sejam mostradas em funcionamento.
  • A relação entre entradas complexas e resultados convergentes precisa ser visualmente exposta.
  • A participação midiática generalizada permite que indivíduos interfiram em decisões políticas, sociais, culturais e científicas.
  • Dados e informações brutos precisam ser transformados em significação.
  • A mediação deve adquirir formas concretas e perceptíveis.
  • A reconexão entre causas invisíveis e efeitos visíveis das tecnologias digitais exige imagens inteligentes e conhecimento dos sistemas complexos.

19. A compreensão iluminista dos processos complexos recorreu a representações ampliadas e dinâmicas de sistemas minúsculos, demonstrando que analogias, incongruências e metáforas podem tornar acessíveis aspectos da realidade habitualmente ignorados.

  • A representação de entidades invisíveis e contraditórias exigia metáforas retiradas de campos aparentemente mais delimitados.
  • Microrganismos eram figurados como seres grotescos e vivos.
  • A incongruência visual interrompia a familiaridade e obrigava o observador a prestar atenção.
  • O método analógico utilizado por McLuhan cumpre função semelhante num mundo marcado pela diferenciação.
  • Movimentos, formas e padrões devem ser examinados à procura de coincidências entre opostos.
  • A analogia permite entrar em realidades antes inacessíveis.
  • Como o pensamento envolve encenação, também devem ser estudados os modos de apresentar o fluxo perceptivo.
  • O armazenamento das memórias no espetáculo das ideias possui uma dimensão estética que precisa ser explicitamente trabalhada.

20. As páginas 72 e 73 da edição original de 1962 de A galáxia de Gutenberg exemplificam materialmente a organização tipográfica pela qual blocos textuais, intervalos e mudanças de posição participam da produção do sentido.

21. O pensamento analógico reconhece a coexistência de domínios incomensuráveis e estabelece entre eles relações proporcionais sem eliminar ambiguidades, diferenças e desajustes inevitáveis entre os seres vivos e suas representações.

  • Platão, Tomás de Aquino e Ludwig Wittgenstein reconheceram a possibilidade de relacionar campos que não podem ser reduzidos a uma medida comum.
  • Esses campos não precisam ser fragmentados em unidades cibernéticas infinitamente reproduzidas e privadas de correlação.
  • Toda representação mantém uma distância incontornável em relação ao ser representado.
  • A passagem de um referente conhecido para outro desconhecido conduz a paisagens mentais ambíguas.
  • A analogia precisa encontrar semelhança suficiente para aproximar objetos diferentes sem apagar suas variações significativas.
  • O equilíbrio dinâmico entre figura e fundo cria relações proporcionais entre objetos singulares ou conjuntos de propriedades encarnadas.
  • As mesmas propriedades podem existir sob condições diversas e adaptar-se a múltiplas finalidades.
  • A visão realiza um salto imaginativo para perceber afinidades dificilmente exprimíveis por palavras.
  • Esse processo dialético constitui um dos principais desafios para a autoria no século XXI.

22. A escrita, concebida como extensão corporal e complemento permanente da fala, exige que a dimensão tátil do design seja reinventada na publicação acadêmica por meio de parcerias entre estudiosos, artistas, projetistas e instituições capazes de traduzir visualmente ambiguidades e conhecimentos que as palavras isoladas não comunicam adequadamente.

  • A escrita atravessa distâncias espaciais e temporais e permanece legível na ausência de quem a produziu.
  • A valorização de todos os componentes da comunicação visual pode constituir a verdadeira origem histórica do design.
  • Os computadores não criam sozinhos a inovação gráfica, mas popularizam e operacionalizam concepções anteriormente desenvolvidas por projetistas.
  • Profissionais como Kurschenska lutavam contra as limitações técnicas em defesa da autonomia e do prazer do desenho editorial.
  • A redução dos recursos destinados aos livros torna necessária a reconstrução de colaborações significativas entre pesquisadores, artistas e designers.
  • McLuhan oferece um modelo de parceria em que a forma do ensaio comunica os próprios resultados da exploração.
  • Programas pedagógicos de museus e estudos arquitetônicos podem auxiliar na investigação de linguagens visuais.
  • Espaços multimodais permitem representar a ambiguidade de uma época saturada por estímulos luminosos.
  • As universidades precisam redefinir o que podem oferecer aos estudiosos como editoras.
  • Impacto intelectual e lucro financeiro constituem objetivos distintos que precisam ser equilibrados.
  • Rádio e televisão enfrentam igualmente a necessidade de criar modelos econômicos e formais para novos ambientes de distribuição.
  • O rádio transmitido por telefone móvel pode apresentar custos e configurações diferentes das formas tradicionais.
  • Os meios antigos podem persistir sob formas que já não correspondem às definições historicamente estabilizadas.
  • A permanência do podcast como rádio conduz à questão de qual seria a forma visual do meio radiofônico.
  • O jogo com palavras, disposições tipográficas e formas visuais mantém a relevância de McLuhan para a compreensão das tecnologias digitais e das redes sociais.
  • O desenvolvimento de novos modos de ver exige a incorporação de mecanismos lúdicos e a interação conjunta do corpo e da mente com inscrições e gestos digitais.

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