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Método III

MORIN, Edgar. La méthode. 3: La connaisance de la connaissance: anthropologie de la connaissance. Paris: Éd. du Seuil, 1986.

É possível comer sem conhecer as leis da digestão, respirar sem conhecer as leis da respiração, pensar sem conhecer as leis nem a natureza do pensamento, conhecer sem conhecer o conhecimento. Mas, enquanto a asfixia e a intoxicação se fazem sentir imediatamente como tais na respiração e na digestão, a característica do erro e da ilusão é não se manifestarem como erro ou ilusão. “O erro consiste apenas no fato de não parecer ser tal” (Descartes). Como disseram Marx e Engels no início da Ideologia Alemã, os homens sempre elaboraram concepções falsas sobre si mesmos, sobre o que fazem, sobre o que devem fazer e sobre o mundo em que vivem. E Marx e Engels fizeram o mesmo. Quando o pensamento descobre o gigantesco problema dos erros e ilusões que não cessaram (e não cessam) de se impor como verdades ao longo da história humana, quando descobre, consequentemente, que carrega em si mesmo o risco permanente de erro e ilusão, então deve procurar conhecer a si mesmo.

Ela deve fazê-lo ainda mais porque hoje não podemos mais atribuir as ilusões e os erros apenas aos mitos, crenças, religiões e tradições herdadas do passado, nem apenas ao subdesenvolvimento das ciências, da razão e da educação. Foi na esfera superinstruída da intelectualidade que, neste mesmo século, o Mito assumiu a forma da Razão, a ideologia se disfarçou de Ciência, e a Salvação assumiu forma política, alegando ser comprovada pelas Leis da História. É precisamente em nosso século que o messianismo e o niilismo lutam entre si, colidem e se geram mutuamente, sendo que a crise de um provoca a ressurreição do outro.

Nossa ciência alcançou avanços gigantescos no conhecimento, mas os próprios avanços da ciência mais avançada, a física, nos aproximam de um desconhecido que desafia nossos conceitos, nossa lógica, nossa inteligência, e nos colocam diante do problema do incognoscível. Nossa razão, que nos parecia o meio de conhecimento mais seguro, descobre em si mesma um ponto cego. O que é nossa razão? É universal? Racional? Não pode ela se transformar em seu oposto sem que percebamos? Não estamos começando a compreender que a crença na universalidade de nossa razão escondia uma racionalização ocidentalocêntrica mutilante? Não estamos começando a descobrir que ignoramos, desprezamos e destruímos tesouros de conhecimento em nome da luta contra a ignorância? Não devemos compreender que nossa Era do Iluminismo está mergulhada na Noite e na Nevoeira? Não devemos questionar tudo o que nos parecia óbvio e reconsiderar tudo o que fundamentava nossas verdades? Temos uma necessidade vital de situar, refletir e reexaminar nosso conhecimento, ou seja, de conhecer as condições, possibilidades e limites de sua capacidade de alcançar a verdade a que se destina. Como sempre, a questão preliminar surge historicamente por último, e é no momento decisivo do pensamento ocidental que a resposta – a verdade – se transforma finalmente em indagação.

A busca pela verdade está, a partir de agora, ligada a uma investigação sobre a possibilidade da verdade. Ela traz, portanto, em si a necessidade de questionar a natureza do conhecimento para examinar sua validade. Não sabemos se teremos de abandonar a ideia de verdade, ou seja, reconhecer como verdade a ausência de verdade. Não buscaremos salvar a verdade a qualquer preço, ou seja, à custa da própria verdade. Tentaremos situar a luta pela verdade no ponto estratégico central do conhecimento sobre o conhecimento.

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