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Objeto

CHABOT, Pascal. La philosophie de Simondon. Paris: J. Vrin, 2003.

** O objeto **

** Gênese do objeto técnico: o processo de concretização **

** A roda **

1. Os primeiros vestígios da roda remontam à Mesopotâmia, onde um pictograma sumério de aproximadamente 3500 a.C. representa um trenó provido de rodas, permanecendo incerto se a invenção surgiu uma única vez e se difundiu posteriormente ou se apareceu independentemente em diferentes civilizações, hipótese considerada provável apesar de seu desconhecimento entre os povos pré-colombianos, que tampouco empregavam animais no transporte de cargas.

2. A roda constitui uma invenção propriamente técnica por não reproduzir nenhuma estrutura animal, diferentemente de dispositivos como a pinça ou o planador, cuja configuração encontra correspondências nos organismos, pois as exigências de continuidade dos sistemas nervoso e circulatório tornam biologicamente inviável uma estrutura giratória sem conexão permanente com seu eixo.

  • A ausência de equivalente animal para a roda decorre da incompatibilidade entre a rotação contínua e a necessidade orgânica de manter conexões permanentes.
  • Em um organismo dotado de rodas, vasos sanguíneos e nervos seriam destruídos pela torção contínua produzida pelo movimento rotativo.

3. Embora a roda não possua equivalente orgânico, fenômenos naturais de rolamento podem ter fornecido modelos para sistemas de roletes ou para mecanismos de rotação, mas a incerteza de sua gênese revela que a invenção envolve conjuntamente manipulação, percepção, imaginação, sonho, imitação e acaso, impossibilitando sua redução a uma fórmula universal.

  • A procura de uma arte geral de inventar ultrapassa a simples descoberta de procedimentos técnicos.
  • Encontrar uma fórmula da invenção equivaleria a formular simultaneamente uma concepção do humano e da história.

4. A análise da gênese da roda desenvolvida por Gilbert Simondon associa descrição técnica minuciosa e linguagem explicativa, conservando uma maneira de expor formada pela cultura técnico-científica de seu tempo.

5. A evolução da roda realiza-se por uma relação dialética entre mediação, entendida como adaptação aos termos externos, e autocorrelação, entendida como integração interna do próprio objeto técnico, passando dos roletes dependentes de intervenção humana à roda com eixo e cubo e, finalmente, ao sistema de rolamentos capaz de reincorporar as vantagens das etapas anteriores.

  • O primeiro sistema de roletes constitui uma mediação quase perfeita entre carga e superfície, pois evita o atrito de um eixo, mas exige que um operador recoloque continuamente os roletes diante da carga.
  • A roda com eixo e cubo estabelece uma autocorrelação entre o veículo e a carga, funcionando como um rolete permanentemente recolocado, mas introduz atrito, aquecimento, desgaste e necessidade de lubrificação.
  • A roda provida de rolamentos sintetiza os dois estágios anteriores ao instalar no cubo roletes dispostos circularmente, que se reciclam por si mesmos sem intervenção externa.
  • O progresso técnico ocorre quando a autocorrelação conquistada em uma etapa reintegra a qualidade de mediação presente na etapa precedente.

6. A autocorrelação designa a capacidade de o próprio objeto realizar internamente a correlação entre elementos anteriormente dependentes de operações externas, permitindo que uma mesma estrutura desempenhe simultaneamente várias funções e constituindo, nessa integração funcional, um aspecto essencial da invenção.

  • No sistema inicial de roletes, a correlação entre carga e superfície existe, mas o reaproveitamento dos roletes permanece a cargo de um operador.
  • Com a roda dotada de eixo e cubo, a própria estrutura passa a assegurar também a função de reciclagem.
  • Operações inicialmente exteriores ao dispositivo, como a reposição dos roletes e posteriormente a lubrificação do eixo, tendem a ser incorporadas ao funcionamento técnico.

7. A autocorrelação torna-se uma função estrutural reflexiva pela qual o dispositivo sustenta a própria dinâmica, de modo que a roda, mediante seus rolamentos internos, não apenas realiza uma mediação, mas perpetua tecnicamente seu próprio modo de existência.

** A locomotiva **

8. A gênese de um objeto técnico corresponde ao seu aperfeiçoamento interno por concretização, e não primariamente ao aumento de utilidade, rentabilidade ou desempenho, que constituem consequências exteriores de uma transformação ocorrida no interior de determinada linhagem técnica.

  • O objeto técnico individual deve ser compreendido a partir de sua gênese, e não apenas como uma coisa já constituída em determinado momento.
  • O aperfeiçoamento técnico decorre de transformações internas capazes de conferir maior coerência ao objeto.

9. A evolução técnica parte de uma forma primitiva e abstrata, caracterizada pela relativa independência dos elementos que posteriormente serão integrados em uma organização mais coerente.

10. Na forma abstrata do objeto técnico, cada unidade teórica e material é concebida como uma totalidade autônoma, aperfeiçoada separadamente e obrigada a constituir um sistema fechado para assegurar seu próprio funcionamento.

11. A locomotiva abstrata nasce da justaposição progressiva de subsistemas inicialmente independentes, no contexto das minas, onde a necessidade de organizar fluxos de pessoas, animais, água, gases e carvão em espaços estreitos favoreceu numerosas invenções e aproximou os sistemas ferroviário e de máquina a vapor.

  • Desde o século XVI, vagões de carvão puxados por homens e animais circulavam sobre trilhos de madeira, substituídos posteriormente por trilhos de ferro fundido em razão do desgaste provocado pelo atrito.
  • O estreito poço central das minas concentrava a descida e subida dos trabalhadores, a elevação do carvão, o bombeamento da água e a ventilação, exigindo simplificação e canalização desses fluxos.
  • A abundância de problemas técnicos transformou a mina em ambiente particularmente favorável à invenção.
  • Nesse contexto, a máquina a vapor foi aperfeiçoada inicialmente para acionar bombas de água e equipamentos de ventilação anteriormente movidos por rodas hidráulicas.

12. As primeiras locomotivas resultaram da reunião ainda abstrata de componentes concebidos separadamente, como a máquina a vapor, o vagão, o mecanismo biela-manivela e os trilhos, razão pela qual as incompatibilidades materiais entre esses elementos revelavam que sua integração permanecia mais intelectual do que propriamente técnica.

  • A máquina a vapor instalada sobre um vagão havia sido originalmente concebida como equipamento fixo, para o qual peso e dimensões tinham importância reduzida.
  • O peso excessivo das primeiras locomotivas provocava a ruptura dos trilhos de ferro fundido.
  • A caldeira original dependia de uma pesada estrutura de tijolos refratários destinada a conservar calor e compensar perdas térmicas.
  • A locomotiva exigia, portanto, uma reorganização estrutural incompatível com a simples transferência de uma máquina estacionária para um veículo.

13. A invenção técnica consiste em tornar coerente um conjunto inicialmente heterogêneo, como exemplifica a caldeira tubular de Marc Seguin, cuja reorganização da circulação dos gases quentes aumentou a superfície de troca térmica, reduziu a quantidade de água necessária, eliminou estruturas refratárias pesadas e permitiu diminuir as dimensões do próprio foyer.

  • A introdução de tubos atravessando a água deslocou a fonte térmica para o interior da caldeira e inverteu a disposição anterior do sistema.
  • A circulação dos gases quentes pelos tubos aumentou a convecção e permitiu reduzir simultaneamente peso, volume e massa de água a aquecer.
  • A combustão pôde prolongar-se no interior dos tubos, diminuindo a necessidade de um grande foyer.
  • Essa configuração foi incorporada às primeiras locomotivas produzidas em série por George e Robert Stephenson, demonstrando sua adequação à mobilidade ferroviária.

14. A caldeira tubular de Seguin constitui uma concretização porque transforma estruturas anteriormente monofuncionais em estruturas plurifuncionais, nas quais uma mesma parte desempenha simultaneamente várias funções e produz efeitos técnicos que ultrapassam o problema inicialmente formulado.

  • Os tubos simultaneamente aquecem a água, prolongam a combustão e funcionam como superfícies de troca térmica.
  • A parede externa rígida e retilínea da caldeira assume também funções estruturais anteriormente atribuídas ao chassi.
  • A invenção não apenas resolve dificuldades previamente reconhecidas, mas faz emergir propriedades novas mediante a integração das funções.

15. A concretização produz propriedades e funções complementares não previamente buscadas, de modo que a eficácia de uma invenção autenticamente realizada excede a finalidade que inicialmente motivou sua elaboração.

  • A invenção surge em resposta a um problema, mas seus efeitos não se esgotam na solução desse problema.
  • A eficácia excedente do objeto constitui uma surabundância funcional que impede compreender a invenção como simples realização antecipada de um efeito completamente previsível.

16. A concretização pode ser compreendida por um conjunto articulado de noções sistêmicas constituído por sinergia, surabundância funcional, coerência, ressonância interna e formalização.

** Modo de existência do objeto concreto **

17. Uma vez em funcionamento, o objeto técnico concreto adquire coerência interna e relativa autonomia diante de seu inventor, pois sua surabundância funcional o separa das intenções psíquicas e intelectuais que acompanharam sua concepção e lhe confere um modo próprio de existência, evolução e constrangimento irredutível tanto ao humano quanto à natureza.

18. A filosofia da técnica permanece atrasada em relação à própria evolução técnica quando continua pensando a partir de máquinas simples e da antiga oposição entre natureza e artifício, sendo necessária sua renovação mediante esquemas provenientes da história técnica recente.

  • O conceito tradicional de artifício permanece ligado à concepção grega segundo a qual artificial é aquilo produzido pelo homem em oposição ao que a natureza gera espontaneamente.
  • A desvalorização histórica da técnica como atividade inferior e meramente útil apoia-se em sua associação com a artificialidade.
  • A arte também precisou justificar seu caráter criador diante da suspeita de que imitar artificialmente a natureza pudesse constituir uma transgressão.
  • O barroco procurou responder ao problema mediante o estilo, enquanto a arte do século XX deixou de privilegiar a cópia da natureza para captar suas forças, intensidades e dimensões subjacentes.
  • A superação da imitação aproximou certas expressões modernas de formas artísticas de outras civilizações nas quais o artifício pode adquirir caráter animado.

19. A distinção entre natural e artificial deve ser deslocada da origem do objeto para seu modo de existência, pois, embora o objeto técnico abstrato permaneça artificial, o objeto técnico concreto, mediante sua crescente coerência interna, aproxima-se do modo de existência característico dos objetos naturais.

  • A diferença decisiva deixa de opor aquilo que surge espontaneamente na natureza àquilo que é produzido pelo trabalho humano.
  • O critério passa a residir na oposição entre um funcionamento abstrato, dependente de elementos isolados e intervenções exteriores, e um funcionamento concreto, internamente integrado.

20. A artificialidade pode atingir inclusive seres de origem natural quando a intervenção humana os priva de autonomia e os torna dependentes de condições externas, como ocorre com uma planta de estufa selecionada para produzir apenas flores, incapaz de gerar sementes e de conservar suas capacidades naturais de resistência.

  • A artificialização rompe o ritmo biológico próprio do organismo e aumenta sua dependência de um meio artificialmente regulado.
  • A planta perde capacidades de resistência ao frio, à seca e à insolação, tornando-se incapaz de sobreviver por seus próprios meios.
  • Artificialidade designa, assim, aquilo que resulta da ação artificializante humana, independentemente de essa ação incidir sobre algo natural ou inteiramente fabricado.

21. A aproximação entre objetos técnicos concretos e seres naturais não implica identidade entre seus modos de existência, pois a concretização permanece uma tendência das linhagens técnicas, cujos objetos conservam resíduos de abstração, dependem de finalidades humanas e apenas tornam menos rígida a fronteira entre o artificial e o vivente.

** O inventor **

22. O inventor caracteriza-se por uma relação histórica com o futuro, e a emergência da consciência histórica permite compreender por que as sociedades modernas passam a privilegiar a invenção em lugar da simples adaptação.

23. Nas sociedades arcaicas, a invenção tende a ser rejeitada por ameaçar uma ordem cósmica fundamentada na repetição de arquétipos míticos, de modo que ações e objetos adquirem realidade e valor quando reiteram gestos divinos ou ancestrais e participam de uma realidade transcendente.

  • A coragem do guerreiro reproduz a bravura do guerreiro sagrado realizada no tempo mítico das origens.
  • Alimentação, casamento e práticas coletivas não constituem apenas atos ordinários, mas renovam modelos e comunhões estabelecidos pelos mitos.
  • A repetição preserva ações consagradas originalmente pelos deuses, ancestrais ou heróis.
  • A própria configuração do mundo e das construções humanas é compreendida como reprodução de modelos superiores, como na correspondência mesopotâmica entre rios e astros.
  • Ao transmitir a Salomão o plano do templo, do tabernáculo e de seus utensílios, David não se apresenta como inventor, mas como executor de um modelo de origem divina.

24. Uma existência fundada na repetição e na adaptação aos arquétipos não constitui propriamente uma existência histórica, pois o decorrer temporal permanece subordinado ao retorno dos mesmos conteúdos sagrados e mantém as sociedades arcaicas em uma espécie de presente contínuo.

  • O tempo profano funciona apenas como pano de fundo sobre o qual os mitos restauram periodicamente a realidade originária.
  • A renovação ritual do mundo impede que a passagem dos anos seja vivida como transformação irreversível.

25. A consciência histórica rompe o tempo cíclico e inaugura uma concepção linear segundo a qual o futuro deixa de repetir modelos dados e passa a constituir algo por inventar, sendo associada por Mircea Eliade à experiência inaugurada por Abraão e à abertura da história como caminho, progresso e horizonte escatológico.

  • A ruptura com o eterno retorno elimina a certeza proporcionada pela repetição imutável.
  • O ser humano passa a conceber-se como capaz de avançar em direção a um futuro não previamente determinado.

26. A historicização da existência transforma também a técnica, pois o artesão deixa de compreender seu trabalho como repetição de arquétipos divinos e passa a operar livremente sobre a matéria, tornando possível uma atividade técnica propriamente inventiva.

27. A invenção corresponde à descoberta de um sistema de compatibilidade situado em nível superior, capaz de integrar elementos anteriormente incompatíveis e dispersos, enquanto o inventor recusa a adaptação como mera reprodução das condições dadas e procura criar novas dimensões de existência.

  • A adaptação aceita um objetivo previamente configurado pelo meio e procura alcançá-lo mediante desvios, estratégias ou acomodação ao campo de forças existente.
  • Inventar uma caldeira em vez de simplesmente adaptar-se à água fria exemplifica a passagem da acomodação às condições dadas para a transformação criadora dessas condições.
  • Uma concepção exclusivamente adaptativa da vida tende a pressupor um meio já estruturado, no qual o sujeito apenas encontra obstáculos entre si e seus objetivos.

28. O inventor não se define pelo conflito ou pela negação, mas pela capacidade de integrar mundos parcialmente incompatíveis em uma coerência de nível superior, respondendo à pluralidade da existência mediante a construção contínua de relações capazes de comunicar e incorporar elementos inicialmente dispersos.

  • A existência apresenta diferentes mundos relacionados à alimentação, à fuga dos predadores, à sexualidade e a outras orientações da ação, que se sobrepõem parcialmente sem coincidirem completamente.
  • A tensão produzida pela coexistência desses mundos constitui um problema que exige invenção, e não simples adaptação.
  • O indivíduo inventa porque o mundo plural não coincide imediatamente consigo mesmo e requer uma construção incessante de coerência.
  • Cada solução integra elementos antes isolados em uma rede mais ampla, instaurando um nível superior no qual os problemas podem ser resolvidos sem negação ou oposição.
  • A comunicação progressiva entre os elementos projeta no futuro a possibilidade de um universo mais completo e de uma pacificação sem guerra, na qual cada etapa do ser possa integrar e resolver tensões anteriores.

29. A invenção da coerência do mundo torna-se necessária para a consciência técnica porque nenhuma ordem mítica transcendente a garante antecipadamente, abrindo-se assim a questão de quais processos e qualidades próprios da técnica podem contribuir para o estabelecimento dessa coerência.

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