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Esquema hilomórfico

SIMONDON, Gilbert. Individuation in Light of Notions of Form and Information.

1. As noções de forma e matéria não resolvem o problema da individuação a menos que sejam logicamente primeiras em relação a ele, sendo necessário, caso o sistema hilomórfico contenha tal problema, considerar a busca por seu princípio como logicamente anterior à definição de seus próprios termos.

2. É difícil atribuir às noções de matéria e forma uma origem inata, e, ao se considerar uma origem tecnológica para elas, surpreende sua grande capacidade de generalização, que permite aplicá-las a eventos de formação, gênese e composição no mundo vivo e no domínio psíquico, além de sustentar, como em Aristóteles, um sistema universal de classificação que garante a harmonia entre as ordens lógica e física e torna possível o conhecimento indutivo, incluindo a relação entre alma e corpo.

3. Uma base tão restrita quanto a da operação tecnológica parece sustentar tal universalidade com grande dificuldade, sendo necessário, portanto, examinar o real significado e a extensão do papel da experiência técnica na gênese do esquema hilomórfico.

4. A natureza tecnológica da origem de um esquema não o invalida, desde que a operação que lhe serve de base seja integralmente expressa no esquema abstrato; inversamente, se a abstração for superficial e mascarar um dinamismo fundamental da operação técnica, o esquema se torna falso, reduzindo-se a uma mera comparação aproximativa.

5. Na operação técnica que produz um objeto com forma e matéria, como um tijolo de argila, o dinamismo real está longe de ser representado pelo par matéria-forma, pois estes são abstratos; o ser definido que resulta não vem da combinação de uma matéria e uma forma quaisquer, exigindo, para sua existência concreta, uma mediação instituída por uma operação técnica efetiva entre uma massa determinada de argila e a noção de paralelepípedo, mediação esta preparada por duas cadeias de operações preliminares que fazem convergir matéria e forma para uma operação comum.

  • A impressão de realizar um encontro entre realidades heterogêneas e instituir uma mediação entre uma ordem interelementar macrofísica e uma ordem intraelementar microfísica surge quando se parte das duas extremidades da cadeia tecnológica.
  • A operação técnica de moldagem não é suficiente por si só, sendo necessário considerar a própria mediação, que consiste em fazer um bloco de argila preparado preencher completamente um molde e secá-lo sem rachaduras.

6. O que se deve considerar na operação técnica é a própria mediação, que, no exemplo citado, consiste em fazer um bloco de argila preparado preencher completamente um molde e secá-lo sem rachaduras, sendo que a preparação da argila e a construção do molde já constituem uma mediação ativa entre a matéria bruta e a forma geométrica.

  • A construção do molde é uma arte delicada, envolvendo a criação de dispositivos complexos e a preparação de sua superfície para evitar que a argila grude.
  • A preparação da argila envolve purificação, homogeneização e obtenção do grau ideal de umidade para conciliar plasticidade e consistência, explorando suas propriedades coloidais para que cada molécula se comporte como uma totalidade homogênea no nível do tijolo.
  • A forma não é apenas a geometria, mas também a perfeição do objeto, e a qualidade da matéria é a fonte da forma, cuja escala é modificada pela operação técnica que faz convergir duas meias-cadeias de transformação.

7. A operação técnica é uma mediação entre um conjunto interelementar e um conjunto intraelementar, na qual a forma pura contém ações e a matéria bruta é a capacidade de devir; para que a matéria seja modulada em seu devir, ela deve ter uma realidade deformável, capaz de transmitir força e ser um centro de forças, enquanto a forma, representada pelo molde, atua como limite que exerce forças sem trabalho, limitando a atualização da energia potencial que a matéria carrega.

  • A relação entre matéria e forma não se dá entre uma matéria inerte e uma forma externa, mas sim entre duas forças homogêneas que pertencem a um mesmo sistema físico instantâneo, porém a regimes temporais distintos.
  • A matéria é a portadora de uma energia que se atualiza, enquanto a forma exerce forças que produzem pouco trabalho e intervêm como limites, não evoluindo por não conter potencialidade.
  • A homogeneidade da matéria é a homogeneidade de seu devir possível, um estado de ressonância interna que é provocado pelo molde, mas realizado pela própria argila ao tomar forma.

8. A operação técnica de tomada de forma pode servir como paradigma se indicar as relações que institui, as quais não se dão entre a matéria bruta e a forma pura, mas entre a matéria preparada e a forma materializada, exigindo também energia; a tomada de forma é a operação mútua da forma e da matéria em um sistema onde a condição energética é essencial e a distribuição de energia é determinante.

  • O esquema hilomórfico retém apenas os extremos das duas meias-cadeias, obscurecendo a verdadeira mediação e a operação que institui o sistema energético, correspondendo ao conhecimento de quem fica fora da oficina.
  • Para conhecer a verdadeira relação hilomórfica, seria necessário penetrar no próprio molde para acompanhar a operação em diferentes escalas de grandeza.

9. A operação de tomada de forma, apreendida em si mesma, pode ser realizada de várias maneiras, sendo possível aproximar a moldagem de um tijolo ao funcionamento de um relé eletrônico, pois em ambos há um suporte de energia e um limite para sua atualização, sendo a moldagem uma modulação definitiva e a modulação uma moldagem contínua e variável.

  • No tubo eletrônico, a “matéria” é a nuvem de elétrons e a “forma” é o campo elétrico que limita a atualização da energia, funcionando como um molde variável para diferenciar no tempo a atualização de uma energia.
  • A moldagem e a modulação são os casos extremos, sendo a modelagem um caso intermediário.

10. O paradigma tecnológico tem valor para pensar a gênese do ser individuado, desde que se retenha a relação matéria-forma por meio do sistema energético de tomada de forma, onde o essencial é a operação energética que combina em mediação ativa duas realidades de ordens de grandeza diferentes; a iniciativa da gênese não se reduz à matéria ou à forma, mas ao sistema completo, cujo devir é o verdadeiro princípio de individuação.

  • A individuação não tem seu princípio na matéria ou na forma isoladamente, mas na gênese em curso, no sistema em devir enquanto a energia se atualiza, realizando a ressonância interna da matéria e a mediação entre ordens de grandeza.
  • O princípio de individuação é a operação alagmática comum à matéria e à forma, que depende da singularidade do aqui e agora e a envolve e amplifica.

11. O paradigma tecnológico não pode ser estendido analogicamente à gênese de todos os seres, pois na operação técnica a individuação é completada em um único golpe e o ser individuado nunca é mais perfeito do que ao sair das mãos do artesão, havendo uma exterioridade da operação em relação ao seu resultado; no ser vivo, ao contrário, a individuação não se produz por uma operação única e limitada no tempo, pois ele é para si mesmo seu próprio princípio de individuação, continuando sua individuação e estabelecendo uma relação alagmática prolongada.

  • No ser vivo, um novo regime de ressonância interna se estabelece, uma ressonância através do tempo criada pela recorrência do resultado que retorna ao princípio e se torna princípio por sua vez, sobrepondo-se à ressonância do simultâneo.
  • O princípio de individuação do ser vivo é sempre uma operação, como a tomada de forma, mas com duas dimensões: a da simultaneidade e a da sucessão através da ontogênese mantida pela memória e pelo instinto.

12. Pode-se perguntar se o verdadeiro princípio de individuação não é melhor indicado pelo ser vivo do que pela operação técnica, e se esta pode ser conhecida como individuante sem o paradigma implícito da vida que existe em nós, o que leva à questão de saber se uma verdadeira individuação pode existir fora da vida; para conhecê-la, deve-se estudar os processos de formação natural das unidades elementares da natureza fora do domínio do vivo.

13. O esquema hilomórfico é insuficiente fora da tecnologia em seus tipos comuns por ignorar o centro da operação técnica de tomada de forma e o papel das condições energéticas; mesmo reestabelecido como tríade matéria-forma-energia, corre o risco de objetivar impropriamente uma contribuição do vivo, pois a intenção do fabricante constitui o sistema energético, mas não faz parte do objeto individuado, cuja hecceidade como objeto fabricado traz uma referência à intenção de uso e à atividade humana.

  • O esquema hilomórfico é talvez apenas aparentemente tecnológico, sendo o reflexo de processos vitais em uma operação conhecida abstratamente, derivando sua consistência do que é feito por um ser vivo para outros seres vivos.
  • Sua grande capacidade paradigmática explica-se por vir da vida, retornar a ela e aplicar-se a ela, mas tem a deficiência de apreender tipos e exemplos de um modelo, deixando na obscuridade a operação alagmática que se desdobra com base em uma singularidade.

14. Não basta criticar o esquema hilomórfico para descobrir o princípio de individuação, nem supor um paradigma biológico primário no conhecimento da operação técnica, pois, embora a experiência do vital seja condição para a representação do técnico, a representação do técnico torna-se condição para o conhecimento do vital, estabelecendo-se uma reciprocidade à qual o esquema hilomórfico deve sua universalidade; além disso, o esquema não indica o princípio de individuação do ser vivo, pois concede aos dois termos uma existência anterior à relação, não podendo pensar claramente esta relação, o que resulta no dualismo de substâncias.

  • O esquema hilomórfico reflete primariamente uma representação socializada do trabalho e do indivíduo vivo, e a coincidência entre essas representações é o fundamento mútuo de sua extensão de um domínio ao outro.
  • A operação técnica que impõe forma a uma matéria passiva e indeterminada é essencialmente a operação controlada pelo homem livre e executada pelo escravo, onde a passividade da matéria é a disponibilidade abstrata por trás da ordem que outros executarão, e a forma é o conteúdo da ordem, expressável e ativo.
  • A distinção entre matéria e forma, alma e corpo, reflete uma cidade que contém cidadãos em oposição a escravos, ainda que os dois esquemas, o tecnológico e o cívico, não atribuam o mesmo papel aos termos em cada par.
  • As vicissitudes do esquema hilomórfico originam-se do fato de ele não ser diretamente tecnológico nem vital, mas sim da operação tecnológica e da realidade vital mediadas pelo social, o que obscurece a informação e a singularidade do “aqui e agora” da operação.
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