Tomada de Forma Técnica
SIMONDON, Gilbert. Individuation in Light of Notions of Form and Information.
1. Condições Físicas da Tomada de Forma Técnica
1. A permanência e universalidade do esquema hilemórfico exigem um fundamento físico anterior a qualquer elaboração humana, pois a matéria bruta já contém, antes da tomada de forma, formas implícitas ligadas a uma haecceidade própria que condiciona e orienta o trabalho técnico.
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A haecceidade do tronco de árvore manifesta-se tanto no conjunto (retidão, curvatura, seção) quanto nas fibras internas, orientando a escolha do artesão antes mesmo do trabalho da madeira.
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A serra mecânica corta as fibras de modo abstrato e geométrico, enquanto a cunha as separa respeitando sua continuidade, revelando a diferença entre forma explícita imposta e forma implícita respeitada.
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O conhecimento do ofício consiste em reconhecer, através dos sinais transmitidos pela ferramenta, a forma implícita da matéria no ponto exato em que ela é trabalhada, como ocorre com a plaina e a plaina de mão.
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O torno viola a orientação das fibras e reduz o número de madeiras utilizáveis, ao contrário de ferramentas não automáticas como a plaina de mão, que seguem a estrutura natural da matéria.
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Existe uma haecceidade elementar, ligada à célula ou a massas celulares diferenciadas, que impõe limites intransponíveis à operação técnica, como no caso dos poros da madeira usados para filtragem.
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A escolha de troncos na floresta ou de fragmentos porosos de madeira ou argila para filtros evidencia que a operação técnica adapta, mas não cria, as formas implícitas elementares.
2. A instrumentação científica recorre às formas implícitas da mesma maneira que a técnica, como demonstra a difração de raios X e raios gama pelos cristais, que revela redes moleculares imperceptíveis à intuição sensível e aproxima o físico do carpinteiro na escolha da matéria conforme sua estrutura interna.
2. Qualidades e Formas Físicas Implícitas
3. O esquema hilemórfico é insuficiente porque confunde formas implícitas com qualidades da matéria, quando na verdade as qualidades não possuem haecceidade, ao passo que as formas implícitas a possuem em grau máximo, como demonstra a porosidade enquanto aspecto funcional das formas implícitas elementares.
4. Enquanto conhecimento aproximado e estatístico, a qualidade que caracteriza um tipo de matéria designa formas implícitas previsíveis estatisticamente, o que se relaciona ao esforço cartesiano de reduzir as qualidades a estruturas elementares, situando a forma em todas as escalas de grandeza, dos vórtices da matéria sutil aos vórtices cósmicos.
5. A operação técnica revela, utiliza e integra formas implícitas já existentes em vez de impor uma forma inteiramente nova a uma matéria passiva, o que explica por que as primeiras matérias elaboradas pelo homem foram produtos vegetais e animais já estruturados por suas funções vitais.
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O odre romano, a carapaça de tartaruga da lira e o crânio de touro usado em instrumentos musicais conservam o aspecto do corpo animal original.
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A cama de Ulisses, talhada na oliveira ainda viva e conduzida em seu crescimento, exemplifica a acomodação técnica à forma viva, deixando à espontaneidade da vida completar o trabalho.
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A distinção entre forma e matéria origina-se de operações artesanais limitadas, como a cerâmica e a fabricação de tijolos, enquanto a metalurgia, com suas etapas sucessivas de forjamento e têmpera, dificulta essa distinção estrita entre tomada de forma e transformação qualitativa.
3. Ambivalência Hilemórfica
6. A atribuição do princípio de individuação à matéria ou à forma depende da posição de quem comanda ou de quem executa o trabalho: para quem apenas ordena e controla o resultado, como no exemplo platônico do tecelão que contempla a forma ideal da lançadeira, o princípio de individuação situa-se na matéria, fonte de quantidade e pluralidade.
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Para quem trabalha efetivamente, a matéria preparada é homogênea, e é a renovação do esforço em cada unidade fabricada que introduz a diferença entre os objetos, de modo que o tijolo carrega a marca de um instante singular da existência do trabalhador.
7. Tanto o ponto de vista do senhor quanto o do artesão captam apenas aspectos parciais da haecceidade do objeto: o exemplo da coroa de ouro examinada por Arquimedes a pedido do tirano mostra que, para quem manda sem laborar, a individuação reside na matéria específica e não na forma dada pelo artesão.
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O apego do proprietário florestal à conservação de sua própria madeira revela que a haecceidade da matéria tem valor de pertencimento e origem, ligado à história pessoal de quem a possuiu e viu crescer.
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Para o artesão, que ignora a origem da matéria e a trabalha até torná-la homogênea, a haecceidade do objeto começa a existir com o próprio esforço de formação, de modo que ele atribui a fundação da haecceidade à informação, e não à matéria.
8. Os casos tecnológicos de individuação, nos quais forma e matéria adquirem sentido, permanecem casos particulares cuja generalização não está garantida, o que aponta para a existência de uma zona intermediária de singularidades entre forma e matéria como traço essencial da operação de individuação, sugerindo que a individuação em geral poderia ser repensada a partir desse paradigma técnico reformulado.
