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Modo de existência dos objetos técnicos

Du mode d’existence des objets techniques, Aubier, 1958, 1969, 1989, préface de John Hart, postface d’Yves Deforge (MEOT) / Tradução Vera Ribeiro, Editora Contraponto

** Apresentação (1958) **

1. O conhecimento adequado dos objetos técnicos exige sua integração efetiva à cultura mediante a compreensão de seus modos próprios de existência nos níveis dos elementos, dos indivíduos e dos conjuntos, pois a distância entre sua natureza real e as atitudes humanas que suscitam produz valorizações e desvalorizações de caráter mitológico entre compradores, construtores e operadores.

  • A insuficiência cultural não decorre da ausência dos objetos técnicos, mas da incapacidade de compreendê-los segundo sua realidade própria.
  • A relação inadequada com a técnica favorece juízos imaginários de fascínio, temor, desprezo ou supervalorização.
  • A superação desse hiato depende de uma conscientização capaz de reconhecer como os objetos técnicos existem, funcionam e evoluem.

2. A conscientização do modo de existência dos objetos técnicos desenvolve-se segundo três etapas sucessivas e complementares.

3. A primeira etapa consiste em compreender geneticamente os objetos técnicos, recusando concebê-los simplesmente como seres artificiais e reconhecendo sua evolução como processo de concretização pelo qual sistemas inicialmente abstratos se transformam em indivíduos técnicos integrados.

  • O objeto técnico primitivo reúne funcionamentos parciais relativamente independentes, desprovidos de uma base comum de existência.
  • Suas diferentes estruturas não apresentam reciprocidade causal nem ressonância interna suficiente.
  • O aperfeiçoamento técnico não consiste apenas no acréscimo de peças ou funções, mas na integração crescente dessas funções em estruturas plurifuncionais.
  • No objeto concretizado, cada estrutura desempenha simultaneamente função própria e função relativa ao conjunto.
  • Cada elemento deixa de existir apenas como órgão isolado e passa também a servir de meio, suporte e condição de funcionamento para outros elementos.
  • A compatibilidade interna do objeto cresce como um sistema que progressivamente se satura e se organiza.
  • A concretização produz uma espécie de redundância informacional, pois cada estrutura participa de múltiplas relações funcionais no interior do indivíduo técnico.

4. A noção de informação permite compreender a evolução técnica segundo uma conservação da tecnicidade através da passagem entre elementos, indivíduos e conjuntos, de modo que o verdadeiro progresso não se realiza como continuidade linear, mas por ciclos sucessivos de relaxação nos quais a informação técnica é preservada e reorganizada.

  • A tecnicidade não desaparece quando uma forma técnica é superada.
  • Ela é conservada e transferida para novos níveis de organização.
  • O progresso técnico ocorre por reorganizações descontínuas em que potencialidades acumuladas encontram novas formas de individuação.
  • Elementos, indivíduos e conjuntos constituem fases sucessivas pelas quais a tecnicidade se transmite e se transforma.

5. A segunda etapa da conscientização examina a relação do homem com o objeto técnico tanto no nível dos indivíduos quanto no dos conjuntos, distinguindo um modo menor de relação, característico do uso de ferramentas e instrumentos, e um modo maior, fundado no conhecimento explícito dos esquemas de funcionamento.

  • O modo menor corresponde a uma relação concreta e prática com ferramentas e instrumentos.
  • Nesse regime, o homem atua como portador de ferramentas e adquire competência por aprendizagem direta e habitual.
  • Forma-se uma espécie de simbiose intuitiva entre homem, instrumento e meio de trabalho.
  • O saber permanece amplamente implícito, incorporado ao gesto e próximo de uma familiaridade quase instintiva.
  • O modo maior exige consciência dos esquemas funcionais e não apenas domínio empírico do uso.
  • Essa compreensão assume caráter politécnico porque ultrapassa a familiaridade com um instrumento particular e apreende relações mais gerais entre operações e estruturas técnicas.

6. A Encyclopédie de Diderot e d’Alembert representa historicamente a passagem de uma relação técnica fundada predominantemente no saber prático implícito para outra capaz de explicitar, organizar e transmitir racionalmente os esquemas de funcionamento.

7. No nível dos conjuntos técnicos, as diferentes concepções históricas de progresso exprimem o julgamento coletivo sobre a capacidade dos objetos técnicos de transformar a sociedade, passando do otimismo setecentista associado ao aperfeiçoamento dos elementos ao pessimismo oitocentista provocado pela substituição do trabalhador portador de ferramentas pela máquina individual e exigindo, na contemporaneidade, uma nova concepção fundada nos conjuntos, na informação e na comunicação.

  • O otimismo do século XVIII corresponde à percepção de melhorias produzidas no nível dos elementos técnicos.
  • O pessimismo do século XIX emerge quando a máquina individual passa a ocupar funções anteriormente desempenhadas pelo homem portador de ferramentas.
  • A substituição provoca uma experiência de perda, concorrência e frustração diante da máquina.
  • A etapa contemporânea exige abandonar a definição do homem como simples usuário ou concorrente da máquina.
  • A função propriamente humana consiste em inventar, organizar e compatibilizar objetos técnicos no interior de conjuntos.
  • O homem atua entre as máquinas como mediador, coordenador e tradutor de informações.
  • Sua intervenção torna-se especialmente importante nas margens de indeterminação das máquinas abertas, capazes de receber informação e modificar seu funcionamento.
  • A significação das trocas entre máquinas não se encontra simplesmente nelas, mas é construída pela atividade humana que organiza suas relações.
  • A relação adequada entre homem e objeto técnico deve ser compreendida como acoplamento entre o vivo e o não vivo, e não como competição.
  • O ideal de automatismo integral que excluiria completamente o homem constitui um mito, pois o mais alto grau de tecnicidade não corresponde à máquina absolutamente fechada e autossuficiente.
  • Não existe uma máquina total capaz de subsumir todas as demais máquinas e eliminar definitivamente a mediação humana.

8. A terceira etapa reinsere o objeto técnico na totalidade do real mediante uma investigação da gênese da tecnicidade, partindo da hipótese de uma relação originária mágica entre homem e mundo cuja defasagem produz simultaneamente as fases técnica e religiosa.

  • O modo mágico constitui uma relação primitiva na qual figura e fundo ainda não se encontram separados.
  • A tecnicidade emerge pela mobilização das funções figurais e pela extração de pontos-chave da relação entre homem e mundo.
  • A religiosidade conserva, em sentido complementar, as funções de fundo e o vínculo com a totalidade.
  • Técnica e religião surgem, portanto, como fases opostas e simultâneas de uma mesma ruptura da unidade originária.
  • A atividade estética procura mediar essa separação e conserva a nostalgia da relação primitiva não defasada.
  • O pensamento estético ocupa uma posição relativamente neutra entre técnica e religião.
  • Sua capacidade mediadora permanece, contudo, limitada porque o objeto estético, ao tornar-se demasiado funcional ou demasiado sagrado, perde justamente a neutralidade necessária à mediação.
  • Apenas o pensamento filosófico pode exercer uma mediação plenamente equilibrada por situar-se simultaneamente num nível originário e num nível máximo de elaboração reflexiva.
  • A filosofia torna-se responsável por conhecer, valorizar e completar a tecnicidade no conjunto dos modos humanos de existência.
  • Essa tarefa exige mediar as relações entre ciência e técnica, de um lado, e teologia e mística, de outro, reintegrando a técnica numa compreensão mais ampla do modo humano de ser no mundo.
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