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Vocabulário

CHATEAU, Jean-Yves. Le vocabulaire de Simondon. Paris: Ellipses, 2008.

1. A obra de Gilbert Simondon apresenta três grandes vertentes reconhecíveis de um ponto de vista exterior — a teoria da individuação e do ser, a técnica, e a psicologia e as ciências humanas —, mas sua unidade profunda ultrapassa essa divisão aparente, revelando-se sobretudo na imbricação entre a ontologia da individuação e a filosofia da técnica, elaboradas em um mesmo movimento de pensamento, unidade essa que pode ser apreendida pela atenção ao vocabulário constante em toda a obra.

  • Três voletos reconhecíveis externamente: a individuação e o ser (ILFI), a técnica (MEOT) e a psicologia e ciências humanas (cursos e IPC).
  • A unidade entre filosofia da técnica e estudos de psicologia não é imediatamente visível, tendo sido buscada na apresentação dos cursos sobre a invenção nas técnicas (IT).
  • A unidade entre o estudo do ser e da individuação e o estudo do modo de existência dos objetos técnicos, embora evidente no próprio título do MEOT, ainda suscita em certos comentadores a busca de uma ponte entre os dois domínios.
  • Essa unidade, em termos de problemas, teses e esquemas de análise, estaria antes escondida na densidade da própria expressão do que em ideias suplementares a inventar.
  • A questão de saber se a filosofia tecnológica é aplicação da ontologia da individuação, ou se esta é generalização daquela, dissolve-se numa leitura atenta que revela imbricação plena, elaboração simultânea e solidária, confirmada biograficamente pelas duas teses de Simondon, escritas ao mesmo tempo e defendidas no mesmo dia.
  • A atenção constante ao vocabulário usado ao longo da obra constitui via possível para orientar a descoberta progressiva dessa unidade fundamental, por meio do estudo de noções principais como allagmatique, cultura, ser, gênese, indivíduo, informação, intuição, meio, operação, fase.

2. Apesar de ter elaborado um glossário de termos técnicos em anexo ao MEOT, Simondon mantém desconfiança quanto à cultura tradicional escolar e livresca, privilegiando a presença efetiva das coisas e a definição por casos exemplares em detrimento da definição conceitual e verbal, de modo que a rigidez das palavras jamais deve substituir a atenção às coisas mesmas nem à gênese das significações, que antecede e torna possível a linguagem.

  • A desconfiança de Simondon em relação à cultura escolar e livresca associa-se ao risco de afastamento das coisas e de sua presença complexa e efetiva, única fonte instrutiva do essencial, ligada à adesão luminosa ao presente que constitui a verdadeira espiritualidade.
  • A definição conceitual e verbal não recebe importância excessiva, sendo privilegiada, ainda que se deva partir dela, uma definição por casos exemplares, como no caso da noção de invenção, cujo valor está na análise que permite realizar sobre a realidade.
  • É preciso vigilância constante contra a tendência de se apoiar nas palavras e naquilo que se supõe compreendido a partir delas, mesmo quando essa compreensão é justificada.
  • A leitura da introdução do ILFI pode sugerir que a ideia de um princípio de individuação nada corresponda, ou que a individuação seja o único princípio de tudo, levando à conclusão de que não haveria propriamente princípio de individuação, sendo isso uma ilusão.
  • Contudo é possível falar positivamente do princípio de individuação, compreendendo-o não como realidade isolada e preexistente ao indivíduo como germe já individualizado, mas como o sistema completo no qual se opera a gênese do indivíduo, exemplificando uma ideia coerente que admite formulações aparentemente exclusivas entre si.
  • Deve-se evitar a impressão de que as palavras e suas definições possam substituir as coisas e, por si mesmas, autorizar ou proibir certos pensamentos ou formulações, já que o rigor de Simondon é rigor do pensamento regrado pelas coisas mesmas, nunca rigor escolástico de fórmulas canônicas.
  • Nada é mais estranho à filosofia de Simondon do que supervalorizar, segundo tendência moderna, um mundo linguístico fechado sobre si mesmo ou amplamente autônomo e capaz de produzir por si só significações, pois não é a linguagem que cria a significação, mas a existência de significações que torna possível a linguagem.
  • As significações expressas e veiculadas pela linguagem não têm origem particular na linguagem, mas em certo distanciamento de si a si e de si aos outros, quando o ser se põe em questão e se torna, para si mesmo, um problema.
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