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Stiegler

BERNARD STIEGLER (1952-2020)

ABBINNETT, Ross. The thought of Bernard Stiegler: capitalism, technology and the politics of spirit. London: Routledge, 2018.

** Biografia **

1. A trajetória de Bernard Stiegler estende-se da formação filosófica ocorrida durante o encarceramento até a fundação do Ars Industrialis.

  • A formação filosófica dá-se durante o período de reclusão por assalto à mão armada, entre 1978 e 1983, episódio relatado no ensaio “Como me tornei filósofo”.
  • A carreira subsequente consolida-se como professor na Université de Technologie de Compiègne, professor visitante em Goldsmiths College e diretor do Departamento de Desenvolvimento Cultural do Centre Georges Pompidou, culminando na fundação do Ars Industrialis em 2006.
  • Os temas centrais da filosofia stieglerianas — tecnicidade originária, organologia geral, pharmakon — articulam-se às leituras de Derrida, Simondon, Freud, Marx, Heidegger e Leroi-Gourhan.

** Contexto **

2. A leitura humanista de Stiegler contrapõe-se às objeções da esquerda marxista e às teses aceleracionistas, que lhe atribuem uma noção hegeliana de espírito.

  • Na esquerda modernista, suspeita-se que a noção de espírito preserve resíduo hegeliano compatível com os processos de capitalização decorrentes das revoluções digital, informática e biotecnológica.
  • O aceleracionismo, em suas vertentes de esquerda e de direita, sustenta que as Humanidades retardam um futuro transumanista pela recusa de mitologias essencialistas da vida humana como sacrifício.
  • Os conceitos de organologia geral e tecnicidade originária excedem a redução da filosofia stiegleriana a um humanismo hegeliano de sacrifício.

3. A filiação à desconstrução derridiana e a leitura do mito de Prometeu configuram organologicamente a origem da relação entre humanidade e técnica.

  • A desconstrução opera como questionamento constante da lógica de presentação que distingue o essencial do contingente e do acidental.
  • No primeiro volume de Technics and Time, o roubo do fogo prometeico configura relação recíproca entre ser humano e técnica na origem da história.
  • A formação da consciência de si em relação às ferramentas revela caráter organológico, e a gramatologia derridiana articula-se ao desenvolvimento histórico dessa relação por meio das instituições sociais, culturais e econômicas.

4. A leitura de Gilbert Simondon sustenta a tese de que os programas tecnológicos tendem a apropriar-se das faculdades reflexivas (noéticas) humanas.

  • A eficiência de conexão, princípio universal dos programas tecnológicos, orienta a apropriação das faculdades reflexivas na economia informacional digital.
  • A modernidade evolui, segundo Simondon, pela apropriação progressiva, pelas máquinas, das habilidades antes exigidas dos seres humanos no processo produtivo.
  • A alienação descrita por Marx relê-se como efeito tecnológico do aperfeiçoamento das tecnologias industriais pesadas, condicionado pelo “meio associado” que integra os objetos técnicos em seu conjunto funcional.

5. A ambiguidade da relação com Simondon elabora-se no conceito de Dasein (Dasein) tecnológico, situado entre o utopismo organológico simondoniano e a autenticidade (Eigentlichkeit) heideggeriana diante da morte.

  • Simondon subestima os processos de exteriorização e reconhecimento simbólico pelos quais se exerce a liberdade humana.
  • O determinismo tecnológico benigno de Simondon transforma os seres humanos em nós cada vez mais reflexivos das redes da sociedade industrial, negligenciando a transformação midiática do desejo em resposta estereotípica.
  • O Dasein (Dasein) tecnológico, ancorado na sensibilidade heideggeriana quanto aos modos de vida pública, ou “ser-com” (Mitsein), situa o ser humano entre a utopia tecnológica e a apresentação não mediada da mortalidade como fonte da autenticidade (Eigentlichkeit).
  • O ser-lançado (Geworfenheit) no mundo constitui-se simultaneamente como experiência de ausência e de suplementação protética, fundamento da genealogia tecnológica subsequente.

6. A antropologia de Leroi-Gourhan funda a genealogia técnica que articula a evolução pré-hominídea à constituição organológica do espírito.

  • A especialização musculoesquelética e neurológica das espécies pré-hominídeas resulta de vantagem evolutiva obtida pela utilização de ferramentas.
  • A postura ereta e a constituição da “zona anterior” de comunicação e cooperação social decorrem da relação organológica entre o corpo e seus suplementos técnicos.
  • O espírito define-se como relação entre a existência tecnologicamente mutável do ser humano e as relações simbólicas que configuram a vida coletiva, distinguindo-se do apêndice reflexivo simondoniano.
  • Na capitalização de início do século XX, inaugura-se uma época de manipulação tecnopsíquica pelas tecnologias de mídia que reorientam o desejo humano.

7. A crítica de Horkheimer e Adorno ao capitalismo de consumo mostra-se insuficiente para captar a dinâmica libidinal das tecnologias analógicas, apesar de sua prescisão quanto à padronização do desejo.

  • Em Dialética do Esclarecimento, reconhece-se a prescisão no diagnóstico da padronização do desejo pela indústria de relações públicas.
  • A teoria da reificação limita-se a reduzir o indivíduo a cifra do processo de capitalização, sem registrar as dinâmicas libidinais postas em jogo pelo cinema e pelo rádio.
  • A leitura freudiana de Horkheimer e Adorno trata a materialidade do desejo humano como mera suscetibilidade dos indivíduos ao esquema da indústria cultural.

8. A constituição sensório-afetiva do ser humano centra a análise da desorientação provocada pelo canalizamento cognitivo operado pelas tecnologias de mídia.

  • A retemporalização da vida social pelas tecnologias analógicas produz desorientação não captada pela teoria da reificação.
  • A sublimação das pulsões e a constituição do desejo libidinal, na leitura freudiana, abrem um campo instável de experiência afetiva no sujeito e em seus meios sociais.
  • Essa instabilidade primordial mantém aberta a possibilidade de trocas eróticas, estéticas e intelectuais que ultrapassam o esquema repetitivo do desejo reificado.

9. O sentido específico de humanismo situa-se na contradição definidora da modernidade hiperindustrial entre a multiplicação das formas significantes e a diminuição do engajamento afetivo-intelectual.

  • A evolução humana compreende-se como interação constitutiva com suportes técnicos que moldam a existência social e individual desde a origem, mediada por formas simbólicas.
  • As redes digitais intensificam essa contradição ao integrar as pulsões ao trabalho e ao consumo proletarizados, além de possibilitarem o mapeamento e a manipulação das estruturas genéticas da vida.
  • As questões neomarxistas sobre o capitalismo tecnológico global reconduzem-se à sobredeterminação da sensibilidade, do intelecto e do desejo, mediante a análise da descrença e da desindividuação moral próprias das economias consumistas.

10. O pharmakon, motivo central, articula-se à proletarização endêmica da vida nas democracias industriais ocidentais.

  • A liquidação progressiva das formas simbólicas atinge os vínculos de classe, os laços familiares e os deveres políticos de cidadania.
  • A colonização das potências reflexivas de todas as classes pela lógica calculista do mercado processa-se por meio dos sistemas midiáticos virtuais e informáticos.
  • A proletarização consiste na degradação do potencial reflexivo e expressivo humano pela transformação tecnológica do trabalho e do desejo.
  • Em Descrença e Descrédito, a proletarização hiperindustrial resulta da interação acelerada dos programas biotecnológico, virtual-estético, digital-informático e cibernético.

11. Os programas que curto-circuitam a relação espiritual-noética entre indivíduo e herança cultural encaminham o rastreamento da economia farmacológica de veneno e cura constitutiva da sociedade hiperindustrial e de sua possível economia de contribuição.

** Estratégia **

12. O fio condutor expositivo organiza-se em torno da noção de arquiprograma, totalidade de sistemas regidos pelo princípio de transferência eficiente de conhecimento, informação e valor, remetendo à transposição marxiana das potências de trabalho em potências de capital, à crítica frankfurtiana da tecnocracia e à noção lyotardiana de “ganhar tempo”.

  • A relação organológica entre a espécie humana e seus suplementos técnicos, a partir de Technics and Time, vol. 1, articula-se ao Dasein (Dasein) tecnológico e ao mito prometeico.
  • O desenvolvimento da relação entre seres humanos e suportes técnicos, da pedra lascada aos programas tecnológicos capitalizados, e o conceito de desorientação tecnológica situam-se em Technics and Time, vol. 2.
  • As tecnologias biomédicas e genéticas transformadoras da ordem simbólica da vida articulam-se às leituras de Freud e Heidegger sobre o poder transformador da morte.
  • A disrupção da subjetividade pelos sistemas digitais, informáticos e de inteligência artificial articula-se à origem tecnológica da consciência intencional e à economia de contribuição.
  • A emergência do programa virtual-estético e a crise do engajamento afetivo com a vida comunitária culminam no manifesto do Ars Industrialis.
  • As inovações informáticas e comunicacionais relacionam-se à constituição da modernidade líquida, às crises cultural, espiritual e religiosa da globalização econômica e às estratégias de uma economia cosmopolita de contribuição.
  • A universidade, como figura exemplar de uma política cosmopolita, a partir de Taking Care of Youth and the Generations, abre a chance de transformação do ambiente tecnológico pela humanidade.

13. Uma economia do espírito subsiste como aposta que sustenta a reflexão como labor noético (otium).

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