Evolução técnica
STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.
** 1. História geral e história das técnicas **
1. O conceito geral de sistema técnico elaborado por Gille constitui-se numa perspectiva de ciência histórica, não como sistema técnico único, mas como sucessão de sistemas técnicos estabilizados em torno de aquisições anteriores e tendências estruturantes.
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Trata-se de proposta metodológica que elabora uma história ligada ao mundo material, dando conta de sua coerência cotidiana ao longo da história e dialogando com os especialistas dos demais sistemas.
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Compreender as possibilidades de passagem de um sistema técnico a outro implica descrever e explicar, a partir de um princípio sincrônico, a diacronia das rupturas, mutações e revoluções do progresso especificamente técnico, cuja lógica não é perfeitamente autônoma, dependendo da coerência com técnicas afluentes.
2. A necessidade, para a história geral, de uma verdadeira história das técnicas é enunciada por Febvre, tornando-se evidente no contexto da tese de Lefebvre des Noëttes sobre o papel determinante de uma inovação técnica no desaparecimento da escravidão.
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Existe dificuldade intrínseca ao objeto “técnica” em não recair numa história das técnicas especializada e fragmentada, pois a história só conhece técnicas, e a técnica é essencialmente especialidade, resultado e não fato.
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Existe também dificuldade em estabelecer as verdadeiras conexões com os demais aspectos históricos, cuja unidade deve ser dada por esse mesmo resultado, o que o conceito de sistema técnico visa resolver.
** 2. O sistema técnico **
3. Como na linguística, é o ponto de vista que cria o objeto, devendo os conceitos ordenar a realidade segundo os aspectos estáticos e dinâmicos do sistema geral que ela forma, sendo o sistema o conceito maior.
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Estruturas, conjuntos e filières técnicas constituem combinações estáticas onde aparecem fenômenos de retroação, impondo o conceito de sistema técnico como interdependência estática e dinâmica de diferentes níveis de combinações.
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Um sistema técnico constitui unidade temporal, estabilização da evolução técnica em torno de um ponto de equilíbrio concretizado por uma tecnologia particular, estabelecendo-se ao redor desse ponto uma espécie de média técnica.
4. A evolução dos sistemas técnicos caminha no sentido da complexidade e da solidarização dos elementos combinados, sendo a mundialização dessas dependências o que conduz ao que Heidegger nomeia Ge-stell (Gestell).
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Essa técnica industrial planetária explora sistemática e globalmente os recursos, implicando interdependência econômica, política, cultural, social e militar mundial.
** 3. O sistema técnico em sua relação com os sistemas econômico e social **
5. Existem, evidentemente, laços entre sistema técnico e sistema econômico, não havendo trabalho sem técnica nem teoria econômica que não seja teoria do trabalho, da mais-valia, dos meios de produção e do investimento.
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Dois pontos de vista se opõem quanto ao que determina as relações entre os dois sistemas: uns pensam que os sistemas técnicos foram sempre mais constrangedores que os econômicos, enquanto para outros a técnica deve inserir-se num sistema de preços sob pena de perder sua finalidade própria.
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A economia pode constituir freio à expansão do sistema técnico, como no caso da manutenção de técnicas ultrapassadas por razões econômicas, cabendo ao intervencionismo estatal regular essa relação por meio de proteções aduaneiras ou investimento público.
6. As transformações do sistema técnico acarretam regularmente convulsões do sistema social, especialmente quando um novo sistema técnico substitui uma atividade dominante por outra de natureza totalmente diferente, colocando a questão do transfer de tecnologia.
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O desenvolvimento do consumismo, acompanhando a inovação permanente, visa flexibilizar as atitudes de consumo, adaptando-as cada vez mais rapidamente, o que torna o século XX propriamente e massivamente desenraizador, tema dos grandes discursos sobre a técnica como alienação ou decadência.
** 4. Os limites do sistema técnico **
7. São os limites de um sistema que comandam seu dinamismo, podendo-se detectar limites estruturais pela dificuldade de aumentar quantidades, diminuir custos de produção ou diversificar produções, dos quais resultam crises econômicas.
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O relatório Halte à la croissance, já em 1970, caracterizava a época pela ameaça das limitações do desenvolvimento técnico em relação ao ecossistema terrestre, sendo criticado por Gille por não apreender a técnica como sistema.
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O limite, apresentando vertente negativa e positiva, é o principal fator de transformação do sistema técnico, e o progresso técnico consiste em deslocamentos sucessivos dessas limitações, como no caso da máquina a vapor, cuja rentabilidade e potência têm fronteiras intransponíveis.
8. Limites endógenos e exógenos afetam o sistema técnico, como ilustram o caso da via ferroviária de trilhos de ferro em meados do século XIX, resolvido pela invenção do alto-forno Bessemer, e o protecionismo técnico-econômico francês pela tarifa sobre o ferro inglês.
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A análise dinâmica evidencia limites estruturais que constrangem à invenção e conduzem às mutações de sistemas, distinguindo-se o progresso como desenvolvimento de consequências de uma invenção dentro de um sistema estável (“linhas tecnológicas”) do progresso como desestabilização e formação de novo sistema técnico, essencialmente descontínuo.
** 5. Racionalidade e determinismo no processo da invenção **
9. Toda a questão está em saber como se decide uma evolução do sistema, problema da lógica da invenção, sendo a efetuação da mutação a invenção técnica propriamente dita como catálise de um potencial evolutivo.
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A descoberta técnica não se resume a um simples desenvolvimento e aplicação de uma descoberta científica, havendo em cada caso dois processos distintos de invenção ou descoberta, eventualmente complementares mas irredutíveis um ao outro.
10. Há uma singularidade da lógica da invenção técnica, denominada por René Boirel “racionalidade difusa”, racional por inscrever-se nas cadeias causais do real e “difusa” por ser mais frouxa que a racionalidade científica, permanecendo empírica sem contudo ser aleatória.
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Uma parte essencial da inovação faz-se por transferência analógica de estruturas funcionantes entre domínios distintos, havendo na invenção técnica um gênio combinatório e um saber técnico cumulativo, embora em sentido diverso do saber científico.
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Gille fala, com Maunoury, de “determinismo frouxo”: a evolução técnica é imprevisível a priori embora apareça necessária a posteriori, como se a invenção técnica cumprisse aleatória mas certamente uma “intenção” técnica ou tecnológica.
11. Gille distingue invenção simples, desenvolvimento como aperfeiçoamentos sucessivos e invenção como operação de montagem envolvendo várias linhas técnicas, intervindo ainda o conhecimento científico e as solidariedades com os demais sistemas.
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A rationalidade parece dificilmente contestável na medida em que o número de combinações utilizáveis não é infinito, e o determinismo é igualmente evidente, seja técnico, científico, econômico, social ou político.
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Gille restringe sensivelmente a parte do gênio na inventividade, pois a liberdade do inventor é estreitamente circunscrita pelas exigências às quais a invenção deve responder, tratando-se antes de uma técno-lógica que anima a própria técnica, hipótese posteriormente desenvolvida por Leroi-Gourhan quanto à tendência técnica universal.
** 6. Invenção e inovação **
12. Distinguem-se duas fases no processo de invenção — a de elaboração e a de desenvolvimento — e, seguindo François Perroux, invenção e inovação, sendo esta última de ordem principalmente econômica.
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A inovação desestabiliza situações adquiridas, provocando resistências, e enfrenta, além do temor da mudança, o problema do investimento e da anticipação tecnológica frente à possibilidade de obsolescência, o que supõe modelagens do sistema técnico em relação aos modelos econômicos.
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A lógica da inovação constitui-se pelas regras de ajuste entre o sistema técnico e os demais sistemas, exemplificadas pelo caso do mestre de forjas francês Rambourg quanto à resistência ao transfer da tecnologia siderúrgica inglesa, envolvendo variáveis geográficas, técnicas, educativas e de capital.
** 7. O investimento industrial: evolução conjunta do sistema técnico, do sistema econômico e do aparelho de Estado **
13. A questão do investimento merece atenção especial, pois o sistema técnico industrial impõe, no século XIX, profunda reorganização do sistema econômico, separando-o em subsistema bancário e subsistema produtivo.
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Não pode haver inovação sem investimento, e este supõe capitais disponíveis, exigência que se afirma com a revolução termodinâmica e que impõe readaptação do subsistema financeiro, desenvolvendo-se a sociedade anônima e o sistema bursátil como “racionalização da especulação” (Max Weber).
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A autonomização financeira em relação à produção conhece hoje desenvolvimentos preocupantes, como a “bolha financeira” regida por lógica de crença largamente determinada pelas telecomunicações e sistemas informáticos, em que decisões econômicas se tornam problema de gestão informacional “à nanosegundo”.
14. Uma conjugação técnico-econômica singular tem por consequência o surgimento da tecnocracia e da tecnociência, convergindo o pendor ao trabalho dos capitais disponíveis e o pendor da atividade técnica a inovar-se, convergência que se torna verdadeira política de Estado.
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A primeira convergência que condiciona todas as demais é de ordem puramente técnica, exigindo que a inovação se insira num sistema técnico em equilíbrio, ao passo que o inovador deve também integrar em seu cálculo restrições de ordem social, política e institucional.
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A resistência à técnica tornou-se problema cotidiano e mundial inscrito na agenda de governos e instâncias internacionais, engendrando consciência nova de sua opacidade e de sua “autonomia”.
** 8. A inovação permanente: nova relação entre tekhnè e epistémè **
15. Poder-se-ia supor que a Revolução Francesa foi menos uma tomada de consciência dos direitos do homem que uma adaptação da sociedade a um novo sistema técnico, dando papel considerável ao engenheiro na gestão das transformações econômicas e sociais.
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O estreitamento dos laços entre ciência e técnica é aspecto essencial da técnica contemporânea, tendo os prazos de transferência da descoberta científica à invenção e à inovação se reduzido consideravelmente ao longo do tempo, de cento e dois anos para a fotografia a cinco anos para o transistor.
16. Gille reconhece duas combinações características da técnica moderna: progresso científico–invenção–inovação, onde a iniciativa vem da ciência valorizada pela indústria, e invenção–inovação–crescimento, onde a iniciativa torna-se sobretudo econômica e a pesquisa se integra à empresa.
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Nesse segundo caso, a pressão vem sobretudo das necessidades do crescimento, contando menos o inventor que o empresário que decide e opera a junção entre famílias de inovações, esboçando-se aí a pesquisa-desenvolvimento moderna, origem da tecnociência.
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É sobre esse novo solo, entre ciência, sistema técnico e sistema econômico, que se desenvolve o Estado como “tecnoestrutura” ou “tecnocracia”, análise correlata àquela empreendida por “A época das concepções de mundo” a partir da história do Ser.
17. Com a técnica contemporânea há inversão de sentido no esquema geral: a inovação deixa de ser resultado de uma invenção para tornar-se processo global que suscita a invenção, programando seu surgimento, como ilustra o Dr. Holst, fundador dos laboratórios Philips.
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A redução dos prazos de transferência acarreta a confusão entre invenção técnica e descoberta científica, sendo as orientações de pesquisa massivamente controladas pela finalidade industrial, e a antecipação, no nível mais global, essencialmente comandada pelo cálculo do investimento.
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Gille considera que ainda não se atentou seriamente para a questão do ajuste entre esse sistema técnico acelerado e os demais sistemas, sendo necessário organizar o porvir, isto é, o tempo, mediante programação estendida a todos os domínios de compatibilidade.
** 9. A universalidade técnica **
18. É a hipótese de Leroi-Gourhan, em L'Homme et la Matière, que tendências técnicas universais, independentes das localidades culturais onde se concretizam como fatos técnicos, atravessam os meios étnicos, diffratando-se em diversidade indefinida de fatos.
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O conjunto dessas hipóteses sobre a evolução técnica é dominado por analogia com a biologia e a zoologia, aproximando-se o tema da combinatória já presente em Gille de uma teoria da seleção das melhores formas técnicas.
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O erro comum da etnologia foi atribuir o princípio de universalidade que se destaca dos laços entre os fatos não à tendência técnica enquanto tal, mas ao gênio de uma cultura particular, ilusão etnocêntrica formalizada na teoria dos “círculos concêntricos”.
** 10. O acoplamento do homem e da matéria **
19. L'Homme et la Matière expõe os princípios de uma tecnomorfologia fundada nas matérias-primas, comparando a tarefa do antropólogo com as do botânico e do zoólogo dos séculos XVII a XIX quanto ao caráter permanente das tendências.
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A analogia entre fatos tecnológicos e fatos zoológicos, entre objeto técnico e ser vivo, é decisiva quanto às hipóteses subsequentes, comparando-se as vias limitadas da evolução do ser vivo (natação, reptação, corrida) às vias limitadas da invenção técnica.
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O determinismo técnico revela-se tão marcado quanto o zoológico, permitindo tirar da forma de uma lâmina de ferramenta previsões sobre a forma do cabo e o emprego da ferramenta completa, resultando a evolução técnica de um acoplamento entre o homem e a matéria enraizado num determinismo “zootecnológico”.
** 11. Tendência e fatos **
20. Distinguem-se as tendências gerais, que podem dar origem a técnicas idênticas sem parentesco material, e os fatos, individuais e únicos independentemente da proximidade geográfica, sendo necessário classificar os fatos e descobrir a unidade sob a diversidade aparente.
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A identidade técnica sem contato entre povos, como o costume de ornamentos labiais entre esquimós, índios e africanos, opõe-se ao caso de charruas malaia, japonesa e tibetana, historicamente relacionadas mas cada uma singularmente individualizada.
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A realidade é mescla de duas causalidades distintas — a difusão cultural por empréstimo e a tendência técnica, ligada a um determinismo quase zoológico — sendo o ponto de vista culturalista rejeitado por desconhecer a natureza do fenômeno técnico, cujo princípio permanece a tendência determinante.
21. O rapport zootecnológico do homem à matéria é caso particular do rapport do vivente ao seu meio, sendo a matéria inerte organizada, o objeto técnico, o que evolui em sua própria organização, tornando-se interface entre o homem e o meio.
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Não se trata de simples relação hilemórfica: a matéria que se organiza tecnomorfologicamente não é passiva, e a tendência não vem simplesmente de uma força organizadora que seria o homem, operando-se por seleção de formas onde nenhum dos termos da relação detém o segredo do outro.
** 12. Diferenças étnicas e diferenciação técnica **
22. A demarche paleontológica encontra rapidamente seus limites na análise das realidades técnicas humanas, dado o caráter absolutamente singular da tecnicidade do homem, que o torna um ser à parte no mundo dos seres vivos.
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As vias da paleontologia são impraticáveis à etnologia, pois é a evolução da “prótese”, ela mesma não viva, que constitui a realidade da evolução do homem, como se a história da vida devesse prosseguir por outros meios que a vida.
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Ao contrário das espécies animais, geneticamente isoladas, todas as raças humanas são mestiçáveis, todos os povos são fusíveis, todas as civilizações são instáveis, sendo essa evolução tecnológica e não submetida aos isolamentos genéticos.
23. A diferenciação técnica, impulsionada surdamente pela tendência, efetua-se no nível étnico como fato, seja por invenção seja por empréstimo, sendo a tendência inevitável, previsível e retilínea, ao passo que o fato é imprevisível, fantasioso e único.
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A dificuldade está em distinguir o lógico do cronológico quando coincidem, mas qualquer que seja a origem, ela só é possível no terreno da tendência, condição de possibilidade tecno-lógica do fato.
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O recobrimento da tendência universal pela diversidade que dela se apropria opera-se por camadas constituindo os graus do fato, do arquétipo universal do primeiro grau até os graus subsequentes de individualização progressiva, ligados às condições geo-ecológico-étnicas.
** 13. A geografia como origem e o gênio étnico como “devir unificador” **
24. As condições da diferenciação técnica, da invenção e da difusão são examinadas do ponto de vista da etnia, definida por seu porvir mais que por seu passado, opondo-se à teoria dos centros técnicos de alta civilização difundindo por círculos concêntricos.
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No domínio técnico, os únicos traços transmissíveis por empréstimo são os que marcam melhoria dos procedimentos, havendo um teleologismo da técnica ligado ao princípio da tendência, retomado depois por Simondon como processo de concretização.
25. O que comanda a unidade étnica é a relação com o tempo, mais exatamente uma relação com o porvir coletivo, sendo a etnia menos um passado que um devir, sem origem senão mítica, sem gênio étnico técnico privilegiado por natureza.
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O determinismo que torna compreensível a lógica de desenvolvimento das tendências técnicas é primeiramente geográfico, como mostra Gille sobre o Egito e a Mesopotâmia, materializando-se a civilização num eixo que atravessa contornos de clima temperado, e não a partir de um “umbigo” centro-asiático.
** 14. Meios interior e exterior tecnológicos **
26. As boas terras do eixo eurasiático originam os centros técnicos surgidos com agricultores e metalurgistas ao final do Paleolítico, condicionando radicalmente o campo da história geral pela técnica, de modo que a supremacia tecnológica constitui a realidade profunda da “superioridade” dos povos históricos.
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A “civilização” é um estado técnico, uma relação de forças técnicas, mais que cultural em sentido restrito, distinguindo-se grupos humanos estáticos, como australianos e chineses, de grupos dinâmicos.
27. Compreender as condições do estatismo ou dinamismo técnico exige analisar o comportamento do homem vivendo em grupo como animal técnico segundo a dupla condição de seu “meio interior” e “meio exterior”, conceitos importados da biologia.
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O meio exterior compreende o que materialmente circunda o homem — geografia, clima, fauna e flora, além de testemunhos e ideias provenientes de outros grupos — enquanto o meio interior constitui o capital intelectual, o banho de tradições mentais de uma massa humana circunscrita, memória social não genética.
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As contribuições de grupos estrangeiros agem como verdadeiras vitaminas provocando reação de assimilação precisa no meio interior, sendo secundário saber se uma inovação é emprestada ou propriamente inventada, importando antes o estado favorável do meio interior.
** 15. Os dois aspectos da tendência **
28. Leroi-Gourhan retoma o termo filosófico de “tendência” para designar um movimento, no meio interior, de tomada progressiva sobre o meio exterior, tendências que só se tornam explícitas em sua materialização.
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Um aspecto da tendência repousa sobre as próprias leis do universo, dando o conceito de convergência técnica, segundo o qual cada objeto responde a um plano de equilíbrio arquitetural regido pelas leis da geometria ou da mecânica racional.
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O outro aspecto, motor, provém do meio interior como intenção enigmática que se difrata em diversidade de fatos ao encontrar o meio exterior, sendo o determinismo “frouxo” e a racionalidade “difusa”.
** 16. O meio técnico como fator de diluição do meio interior **
29. No grupo étnico apreendido como meio interior isola-se o meio técnico, organizado em “corpos técnicos” combinando-se a outros subconjuntos, correspondendo à solidariedade do meio técnico com os demais o fato de a tendência só se realizar como diversidade de fatos técnicos.
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A questão é saber em que condições o meio técnico é suscetível de dinamismo, sendo sua permeabilidade variável mas em constante aumento, o que faz pensar numa diluição crescente do meio interior no meio exterior.
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Assim como o grupo étnico é expressão material do meio interior, o grupo técnico é materialização das tendências que atravessam o meio técnico, podendo-se questionar se os grupos técnicos hoje ainda pertencem ao grupo étnico ou já o transbordam, tendendo a autonomizar-se pela mundialização das unidades tecno-industriais.
** 17. A permanência da evolução **
30. Deve-se distinguir, entre grupos do mesmo meio exterior, os “empréstimos reais” da “simples convergência”, não havendo diferença fundamental entre o fato da invenção e o fato do empréstimo, mas apenas questão de plasticidade do meio técnico.
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A diferença entre um empréstimo que se incorpora discretamente ao meio técnico e um empréstimo que se traduz em mutação completa, como a agricultura, é de escala e não de essência, retomando-se aqui a tese da continuidade, aparentada ao motivo leibniziano das pequenas percepções.
31. A possibilidade do empréstimo vem sempre em primeiro lugar do próprio meio interior, devendo ser tratada como fenômeno de impacto do meio exterior em geral, e não especificamente como influência cultural.
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Questiona-se o que se torna do meio exterior com a técnica moderna, quando a comunicação permanente entre grupos sem limite de distância satura a geografia física de penetrações técnicas, tornando problemática a distinção entre meio interior e meio exterior e emancipando o grupo técnico do grupo étnico.
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Leroi-Gourhan responde negativamente em 1945, invertendo sua posição em 1965 ao falar de mega-etnia, sendo possível considerar que a hipótese da tendência conduz à ideia de caducidade da estruturação étnica dos grupos.
** 18. A evolução técnica industrial impõe o abandono da hipótese antropológica **
32. Em Simondon, o meio interior se dilui: não há mais fonte antropológica da tendência, sendo a evolução técnica plenamente do próprio objeto técnico, do qual o homem não é mais ator intencional, mas operador.
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Du mode d'existence des objets techniques visa suscitar tomada de consciência do sentido dos objetos técnicos, pois a cultura se constituiu como sistema de defesa contra as técnicas, supondo que estas não contêm realidade humana, quando a alienação decorre antes do desconhecimento da essência da máquina.
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Compreender a máquina exige destruir o ponto de vista de seus “idólatras”, que confundem perfeição técnica com automatismo, quando a verdadeira perfeição do objeto técnico industrial é a indeterminação, que o torna sensível ao funcionamento das demais máquinas nos conjuntos técnicos.
** 19. A mecanologia, ciência do processo de concretização do objeto industrial **
33. O descompasso entre a técnica contemporânea e a cultura decorre de esta não ter integrado a nova dinâmica dos objetos técnicos, gerando desarmonia entre o “sistema técnico” e os “demais sistemas”, cabendo à mecanologia estudar essa dinâmica própria da máquina.
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A inventividade própria do objeto técnico é um processo de concretização por sobredeterminação funcional, história do objeto técnico que lhe confere consistência ao termo de uma evolução, provando que não pode ser considerado mero utensílio inerte.
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A dramaturgia da técnica moderna passa de uma fase de otimismo no século XVIII a uma crise com a máquina termodinâmica, seguida de novo otimismo no século XX com a máquina cibernética produtora de neguentropia, exigindo pensar o que significa a “máquina portadora de ferramentas”.
** 20. Genética do objeto industrial como matéria que funciona **
34. A tecnologia como mecanologia estuda a dinâmica maquínica dos objetos técnicos industriais, objetos que funcionam ao sintetizar funções, sendo a concretização, ou integração das funções por sobredeterminação, absolutamente singular como a história de cada objeto.
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Não se pode definir os objetos técnicos por sua pertença a uma espécie, pois nenhuma estrutura fixa corresponde a um uso definido, sendo os procedimentos, e não os usos, que constituem as famílias de objetos técnicos industriais.
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A dinâmica simondoniana do objeto técnico industrial encontra-se em muito maior autonomia em relação à dinâmica do homem do que resultava da análise da tendência técnica no rapport do homem à matéria, tratando-se de dinâmica da matéria organizada inorgânica movida por força industrial.
35. A individualidade dos objetos técnicos só pode ser compreendida a partir de sua gênese, que faz parte de seu próprio ser, havendo historicidade do objeto técnico que se organiza e conquista quase-ipseidade da qual procede absolutamente sua dinâmica.
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O objeto técnico põe em jogo leis de evolução imanentes, análogas à filogênese e à epigênese do vivo, evoluindo por convergência e adaptação a si mesmo segundo princípio de ressonância interna, processo que é a concretização.
** 21. A predominância da tecnologia no devir das sociedades industriais **
36. A concretização dos objetos técnicos, sua unificação, limita seu número de tipos, sendo o objeto técnico concreto e convergente um objeto padronizado, tendência que torna possível a industrialização, e não o inverso.
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Ao nível industrial é o sistema das necessidades que é menos coerente que o sistema do objeto, sendo as necessidades moldadas pelo objeto técnico industrial, que adquire assim o poder de modelar uma civilização.
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A relação de sobredeterminação funcional é uma implicação objetiva por solidarização dos elementos constitutivos do objeto, sendo as exigências propriamente técnicas, e não o ambiente não técnico, o verdadeiro motor da evolução técnica.
** 22. A imprevisibilidade do devir do objeto **
37. O jogo dinâmico do limite implica que uma descontinuidade está no princípio de toda evolução no sentido da concretização, sendo essas rupturas fruto do autocondicionamento do objeto, “causa de si”, perturbando a partição aristotélica entre entes físicos e técnicos.
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A sobredeterminação funcional significa que a parte só se torna o que é por sua inclusão no todo, sendo o próprio do objeto técnico industrial uma tendência à unificação das partes sob um todo que não é fato do homem que fabrica o objeto, mas de necessidade sinergética a maior parte das vezes imprevista por ele.
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A lógica da invenção é imprevisível por essência, e o objeto técnico nunca é completamente conhecido nem completamente concreto, o que chama a técnica a transformar-se em tecnociência e a experimentação tecnocientífica a substituir a dedução científica.
** 23. Mutações, linhagens e devir-natural do objeto industrial **
38. Há dois tipos de aperfeiçoamentos, os maiores, que modificam a repartição das funções aumentando a sinergia, e os menores, que apenas diminuem os antagonismos residuais, dissimulando a descontinuidade real da evolução técnica.
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A concretização efetua-se em séries de objetos, cujo objeto técnico primitivo, “sistema não saturado”, é o ancestral de uma linhagem cuja essência técnica permanece estável através da evolução, produzindo estruturas e funções por desenvolvimento interno.
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Ao concretizar-se, o objeto técnico encaminha-se para uma naturalização que o faz escapar ao saber que lhe deu origem, tornando-se cada vez mais semelhante ao objeto natural e podendo dispensar progressivamente o meio artificial regulador que inicialmente exigia.
** 24. A antecipação, condição de aparecimento do meio associado **
39. Ao naturalizar-se, engendrando seu próprio meio, o objeto escapa ao fenômeno de hipertelia, especialização exagerada que o desadapta a mudanças nas condições de utilização ou fabricação, sendo ponto de encontro entre meio técnico e meio geográfico.
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O caso da turbina Guimbal precisa os desafios do problema ao evidenciar a plurifuncionalidade da água e do óleo na criação de um meio associado que excede a soma do meio geográfico e do meio técnico, autocondicionando o objeto seu próprio funcionamento.
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Criar seu próprio meio não é humanização da natureza, pois o objeto tende à naturalidade que talvez configure antes uma naturalização do homem, supondo o autocondicionamento de um esquema pelo resultado de seu funcionamento uma função inventiva de antecipação que não se encontra nem na natureza nem nos objetos técnicos já constituídos, capacidade de antecipação que supõe o próprio objeto técnico e não o precede, tal como a forma não precede a matéria.
