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Fígado de Prometeu

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.

** 1. O esquecimento do esquecido **

1. A mitologia grega da técnica lega à língua comum prométheia e epimétheia, articuladas como elementos de uma quase-analítica existencial situada em esfera trágica, pré-platônica e pré-metafísica, em contradição plena com a metafísica.

  • Leroi-Gourhan já experimentara essa contradição, sendo quase forçosamente reconduzido à metafísica pelo golpe da segunda origem, obrigado a separar exteriorização e sociedade para salvar o espírito da animalidade técnica, embora as ligue ao distinguir diferença específica e diferença étnica.
  • Se linguagem e técnica se ligam como dois aspectos de uma mesma propriedade humana, essa antropologia choca-se com a metafísica, que se constitui opondo logos e tekhnè, physis e nomos, inteligível e sensível.

2. A compreensão grega trágica da técnica não opõe dois mundos, mas compõe sítios constitutivos da mortalidade entre imortais e vivos sem saber da morte, entre os quais se mantém a vida técnica, isto é, o morrer, numa antropogonia que é tanatologia tramada no redobramento de Prometeu por Epimeteu.

  • Epimeteu não é apenas o esquecido, figura do esquecimento essencial da experiência, mas também o esquecido pela metafísica, pelo pensamento e pelo próprio esquecimento quando este se pensa como tal.
  • A figura solitária de Prometeu carece de sentido fora de seu redobramento por Epimeteu, o qual se redobra ainda em cometer a falta (idiotice, esquecimento) e em meditá-la sempre tarde demais (reflexividade, sabedoria).
  • A inexistência dessas figuras na analítica existencial de Heidegger surpreende e ao mesmo tempo parece necessária, pois o entrelaçamento de prométheia e epimétheia fornece os elementos maiores da estrutura da temporalidade descrita como ser-para-o-fim (Sein-zum-Ende), e seu enraizamento na tecnicidade contradiz a oposição entre tempo autêntico e tempo do cálculo.

** 2. A tanatologia: nada à mão **

3. A questão sofre deslocamento decisivo quando todo resíduo antropológico é abandonado e a tecnologia se converte propriamente em tanatologia, conforme o mito narrado por Protágoras no diálogo platônico de mesmo nome.

  • Zeus incumbe Prometeu e Epimeteu de distribuir qualidades às raças mortais, e Epimeteu, tendo esgotado o tesouro de qualidades em benefício dos animais desprovidos de razão, deixa a raça humana desprovida.
  • Prometeu, ao encontrar o homem nu e desarmado, rouba de Hefesto e Atena a arte técnica junto com o fogo, dando ao homem a inteligência aplicada às necessidades da vida, mas não a arte de administrar as cidades, reservada a Zeus.
  • Prometeu é castigado pelo furto cometido em razão da falta de Epimeteu, e o homem, tendo recebido sua parte do lote divino, torna-se o único animal a crer em deuses, articula a voz e as palavras, e inventa habitações, vestes e alimentos.

4. Os mortais chegam por um afastamento do equilíbrio animal engendrado por uma falta originária, de modo que não há nada antes desse desvio: os homens só aparecem desaparecendo, frutos de uma dupla falta — um esquecimento seguido de um roubo.

  • A leitura de Jean-Pierre Vernant sobre a Teogonia e Os Trabalhos e os Dias de Hesíodo mostra que a idade de ouro não constitui uma origem, mas um estado anterior ao próprio acontecer, sem oposição entre natureza e civilização.
  • Se há afastamento, este se dá em relação ao divino, não à natureza, de modo que a antropogonia só faz sentido na teogonia, no conflito entre Olímpicos e Titãs prolongado na luta entre Zeus e Prometeu.
  • A boa parte de que os mortais se congratulam revela-se, na verdade, má, e o fogo roubado por Prometeu constitui dádiva tão ambígua quanto a primeira criatura feminina, ambos voltando-se contra seus beneficiários.

5. A querela teogônica confere sentido à antropogonia, que nada mais é que uma tanatologia, pois a teogonia define os im-mortais e, por antítese, caracteriza a mortalidade.

  • O sacrifício, como rito alimentar, evoca a antiga comensalidade entre homens e deuses, mas essa idade de ouro constitui limite irremediavelmente perdido, condição esquecida e inesquecível, rememorada antiteticamente pela contra-imagem dos Imortais.
  • Pelo sacrifício os mortais recolocam-se em seu lugar, entre bestas e deuses, sem que se trate de recordar um estado de natureza, mas de revelar as implicações do culto quanto ao estatuto e ao lugar dos humanos.
  • A comunidade política, indissociável do sacrifício e da falta prometeica, funda-se na memória do sacrifício originário, mostrando que religião e pólis compreendem-se, na Grécia arcaica, a partir da mortalidade como afastamento originário, isto é, como tecnicidade.

6. A duplicidade da potência procede da própria esfera dos Imortais, e o fracasso de Prometeu, ao passar ao ato, significa uma decadência que o sacrifício rememora e que os mortais reconhecem em sua prática cultual.

  • Essa decadência, o morrer, origina a éris que se enraíza no mundo divino e faz pesar sobre os mortais a ameaça permanente da dispersão e da guerra (stasis), constituindo a necessidade política de uma comunidade sempre a conquistar.
  • A éris divina, unívoca em seu resultado, contrasta com a éris humana, ambígua como todos os traços da mortalidade, e é essa ambiguidade que estrutura a política como conflito e concorrência dinâmica da comunidade.
  • Vernant demonstra que a condição mortal encontra sua origem e razão de ser na éris que opôs Prometeu a Zeus, sucedendo à idade de ouro o tempo de misérias regido pelo ponos, o trabalho exigido em pagamento da falta originária.

** 3. Fora de si **

7. Retomando o primeiro momento da versão protagorasiana do mito, a primeira falta (o esquecimento de Epimeteu) e a segunda falta (o roubo de Prometeu) produzem a nudez desaparecente dos mortais, cujo avanço de prematuração constitui seu eterno atraso.

  • Religião, palavra, política e invenção decorrem todas do golpe essencial do defeito de origem, sendo o essencial o acidente, a ausência de qualidade, de modo que a questão política só faz sentido a partir do defeito iminente de comunidade.
  • O homem inventa e realiza próteses e expedientes, sendo a pró-tese o que é posto diante, fora, de modo que o ser do homem é (por) estar fora de si, dádiva de Prometeu para suprir a falta de Epimeteu.

8. A descoberta, a invenção e a imaginação constituem, no mito, o fato de um defeito, pois os animais já são marcados pela periculosidade e perecibilidade, enquanto aos homens cabe a tekhnè como pura suplência protética.

  • Prometeu rouba Hefesto e Atena, deuses de mãos instrumentadas, subtraindo-lhes o gênio criador das artes (ten enteknen sophian), inseparável do fogo.
  • O fogo, potência de origem divina que na mediação sacrificial recoloca os mortais em seu lugar, não é propriedade destes, revelando sua violência selvagem e a impotência mortal sempre que escapa ao domínio técnico.
  • A duplicidade do fogo, símbolo da duplicidade da potência mortal, é efeito de um redobramento originário: a falta de Prometeu redobra a falta de Epimeteu, engendrando necessariamente novo defeito.

9. Nessa duplicidade mediadora do sacrifício fazem-se ouvir a voz e as partes do discurso, de modo que o logos, como a religião e a política, é técnico de ponta a ponta, fruto de uma incompletude originária do ser técnico, cuja tecnicidade provém de deuses eles mesmos técnicos.

  • A mortalidade do homem distingue-se da mera perecibilidade animal por sua relação de participação (privativa) ao lote divino, marcada pelo culto aos imortais e pela conquista tardia da fala articulada.
  • Na Teogonia, a primeira falta de Prometeu (o engano do sacrifício) e a segunda (o roubo do fogo) provocam duas vinganças de Zeus, sendo a segunda o envio de Pandora, marca da diferença sexual que deixará os homens fora de si.

** 4. Nascimento e incerteza **

10. Essa duplicidade originária, redobramento de um único golpe sem duas origens, configura uma contratualidade sempre falha entre Prometeu e Zeus, da qual os homens extraem seu estatuto, resultante nem de violência bruta nem de acordo recíproco.

  • Com Pandora, o advento do nascimento como espelho da morte torna os anthropoi andres, votados à dupla fatalidade da geração e da morte, novamente pela falta de Epimeteu, unindo trabalho e geração sexuada sob o mesmo golpe da vingança de Zeus.

11. O sentido último do episódio de Pandora reside na jarra e em Elpis, a anticipação, o tempo, de modo que a temporalidade se pensa aqui tanto a partir da mortalidade quanto do nascimento como diferenciação sexual.

  • Vernant contesta a leitura de Elpis como mal ao evidenciar sua dimensão fundamental de incerteza, nem confiança nem temor assegurados, distinta tanto da prométheia (a preciência de Prometeu) quanto da epimétheia (a compreensão tardia).
  • Instalada no âmago dos mortais, Elpis não remedia a morte, mas equilibra a consciência da mortalidade pela ignorância do momento e do modo do trecho, constituindo, no nó entre prométheia e epimétheia, a temporalidade mesma dos mortais.

** 5. Epimeteu: o idiota **

12. Suportar a falta de Epimeteu redobrada pela de Prometeu implica mergulhar num saber primordial da morte distinto do dos animais desprovidos de razão, situando os mortais entre deuses e bestas como nascentes, significantes e agentes.

  • Na elpis, que é o ser-para-a-morte, pode alojar-se uma atividade técnica característica de toda mortalidade, sendo o ser ativo indissociável do ser mortal, e esse ser-para-a-morte configura um ser-junto entre mortais inexistente antes do esquecimento de Epimeteu.
  • Ao contrário dos animais, o mortal, protético desde seu próprio ser, é autodestrutivo, e por isso as próteses visíveis atemorizam ou fascinam como marcas da mortalidade, ainda que toda existência humana seja feita apenas de próteses cuja visibilidade se busca atenuar.

13. A epimétheia constitui essa insousiança, essa idiotice primordial, fonte de singularidade e liberdade finitas a partir das quais algo pode acontecer, sendo também a solicitude tardia que medita seu passivo em meio a erros acumulados.

  • A facticidade, sempre já-lá e precedendo o mortal retardatário, herda todas as faltas de sua ascendência desde o defeito originário, sendo vivida no grupo tanto como origem quanto como ameaça, anunciando a questão política.
  • Em Ser e Tempo, o Dasein (Dasein) é igualmente marcado por essa facticidade (Faktizität) em que o ser-aí tem-de-ser, no mesmo sentido em que a questão heideggeriana da técnica se encaminha, sem o saber, rumo à questão prometeica, ignorando porém o sentido primordial da figura prometeico-epimeteica evidenciado por Vernant.

** 6. “A comunidade dos que não têm comunidade” **

14. A versão protagorasiana do mito enuncia-se em horizonte novo em relação a Hesíodo, no qual a duplicidade da linguagem se revela na escrita, que constitui as próprias práticas políticas, tornando compreensível o envio de Hermes e a interpretação da cidadania.

  • Dispersos após seu equipamento por Epimeteu, os homens, destruídos pelas feras por não possuírem ainda a arte política, buscam reunir-se em cidades, mas cometem injustiças entre si por lhes faltar a arte de administrar as cidades, dispersando-se e sendo aniquilados.
  • Temendo o desaparecimento total da espécie, Zeus envia Hermes para distribuir a todos, indistintamente, o aidôs (o respeito, o sentimento de finitude) e a dikè (a justiça), sob pena de morte para quem não conseguir participar delas.

15. A má éris surge assim, e para contê-la é requerida uma tekhnè distinta das demais, partilhada por todos indistintamente, tal como a escrita quando sua prática se generaliza na Grécia antiga, tornando-se paradoxalmente assunto não mais restrito a especialistas.

  • O que liga esse corpo social noda-se no sentimento da vergonha, isto é, da finitude, o aidôs, que procede da falta de Prometeu e Epimeteu, fazendo da política essa técnica sentida em cada um como sentimento originário do golpe divino da tecnicidade.
  • Hermes, deus mensageiro, do sacrifício, da ocultação, do enigma e da interpretação, traz dikè e aidôs como sentimentos e saberes hermenêuticos cujo sentido, sempre em falta, deve ser inventado em toda situação de decisão, pois a comunidade dos mortais é “a comunidade dos que não têm comunidade”.
  • A herméneia comporta indissociavelmente prométheia, a anticipação inquieta do porvir e do perigo, e epimétheia, a prudência tardia de Epimeteu “que não era extremamente avisado”, constituindo juntas a reflexão como êxtase temporal próprio dos mortais.

16. Aidôs e dikè, sentimentos garantes da salvação do agrupamento mortal, são os sentimentos da própria mortalidade partilhada apenas pelos mortais em falta de qualidade, mortalidade que procede desse mesmo defeito, isto é, de sua tecnicidade.

  • Reunião (pólis) significa decisão, e decisão significa anticipação: a prométheia, cuja verdade é o retardo epimeteico, constitui de um só golpe (a éris) tanto a possibilidade da cidade quanto sua destruição, fundando a hermenêutica ligada à técnica da escrita como fundo da própria temporalidade.

** 7. O fígado **

17. O suplício de Prometeu acorrentado, cujo fígado a águia de Zeus devora, precede como possibilidade a comunidade hermenêutica, gerando melancolia primordial portadora de todos os fantasmas e hipocondrias.

  • Ao entregar o fogo aos homens, Prometeu determina o tipo de alimentação próprio aos mortais, cuja fome, como o fígado imortal do Titã, retorna dia após dia, exigindo renovação incessante do sustento.
  • O fígado devorado de dia e restaurado à noite constitui o relógio de Prometeu, tornado festim sacrificial, e órgão da hermenêutica divinatória onde se interpretam, no sacrifício, as mensagens divinas — espelho, também, do incessante mirage do espírito (Gemüt).
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