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Leroi-Gourhan

STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.

A paleontologia do homem mergulha nos estratos mais profundos de uma questão de origem que Leroi-Gourhan, longe de tentar evitar, e não hesitando em embarcar nos caminhos mais especulativos, tenta lidar fora das garras da metafísica. Será que ele consegue? Essencialmente atento à atestação dos materiais, os suportes iniciais de cada uma de suas abordagens, os catalisadores de suas hipóteses mais ousadas, ele nunca se afunda na ilusão de uma positividade pura dos fatos, o que teria sido apenas uma submissão ingênua à metafísica positivista mais plana. Portanto, podemos esperar que, para ele, as ciências das origens (pré-história e arqueologia) e as questões transcendentais não estejam apenas em conflito perpétuo, mas em contaminação perpétua: nossa abordagem ainda antropológica da questão da técnica como uma questão de tempo logo nos levará a uma abordagem propriamente filosófica.

Le Geste et la Parole ainda é o exemplo mais vívido do pensamento paleoantropológico — e esse legado certamente ainda não foi totalmente adotado, seja pela paleoantropologia ou pela filosofia. Esse tipo de negligência não se deve apenas à própria riqueza do corpus: é um pensamento que levanta imensas dificuldades, repleto de questões ainda intocadas por qualquer trabalho real.

Quando Leroi-Gourhan iniciou esse trabalho de síntese, ele atacou Rousseau — seu “cerebralismo”, ignorando o princípio zoológico sistêmico que deve ser adotado para compreender, ao longo da história da vida, o evento que constitui o surgimento do homem — ou seja, em última análise, o surgimento da tecnologia (uma crítica à antropologia de Rousseau que Nietzsche, aliás, havia formulado em outros termos, e também lançado contra Kant). No entanto, foi ao reivindicar uma abordagem transcendental que Rousseau descartou os fatos e reivindicou o direito, contra sua facticidade, de contar uma ficção sobre a origem do homem, com base na evidência original que a voz da natureza pura ainda nos permite ouvir, postulando, como veremos mais tarde, que uma apreensão da questão da origem com base em um dado empírico sempre chegaria tarde demais. O argumento de Rousseau baseava-se em uma divisão inequívoca entre o empírico e o transcendental (assumindo também a oposição entre ser e tornar-se). A abordagem exemplar de Leroi-Gourhan desafiou essa divisão. No entanto, ele próprio se deparou com uma dificuldade tão grande que foi levado a restaurá-la e a repetir o gesto de Rousseau, mas de uma maneira diferente.


** Tecnologia como fundamento da antropologia **

Leroi-Gourhan nos permitirá examinar a questão do ajuste entre a tecnologia e o social do ponto de vista da antropologia. Mais precisamente, como a unidade do social é chamada de étnica, uma relação entre etnia e tecnologia é questionada como o fundamento de toda a antropologia. A questão de Leroi-Gourhan é a de uma caracterização essencial e, portanto, original, da antropologia pela tecnologia. Em seus primeiros trabalhos, ele desenvolveu o projeto de uma tecnologia que seria o fundamento da antropologia. Ele abordou o assunto sob o ângulo da difusão de objetos técnicos. Em seguida, postulando o conceito de uma tendência técnica que atravessaria a história e a geografia, independentemente das determinações étnicas, ele se propôs a questionar o processo de invenção no nível dos grupos étnicos.


** Tecnomorfologia **

“O Homem e a Matéria” expõe os princípios de uma “tecnomorfologia fundada nas matérias-primas”, segundo uma abordagem que estuda os povos ditos primitivos, disseminados pelo globo, alguns não tendo mantido praticamente nenhuma relação com os outros, sobre os quais se dispõe apenas de uma documentação restrita, não histórica (trata-se de povos “sem escrita”), e onde a técnica é muito menos complexa que nas épocas históricas.

A etnoantropologia de Leroi-Gourhan repousa sobre uma interpretação do fenômeno técnico, que para ele é a característica primeira do fenômeno humano, e pela qual os povos se distinguem mais essencialmente que por seus caracteres raciais e culturais no sentido espiritualista desse termo. Ela visa dois objetivos: fornecer a teoria de uma antropogênese que coincide amplamente, como veremos em sua dimensão paleoantropológica que estudaremos em nossa segunda parte, com uma tecnogênese; permitir compreender a partir daí os fenômenos de diferenciação cultural entre as etnias.

Introduzindo o conceito de tendência (inspirado numa leitura de Bergson a quem ele por vezes se refere), Leroi-Gourhan interpreta esse fenômeno técnico e legitima seu projeto de tecnomorfologia comparando a tarefa do antropólogo com as do botânico e do zoólogo entre os séculos XVII e XIX: essas duas disciplinas puderam elaborar seus princípios taxonômicos — que se mostraram definitivos desde então — enquanto “a maioria das espécies permanecia por descobrir”. Do mesmo modo, a antropologia, há dois terços de século, “se deu classificações, dividiu raças, técnicas, povos, e a experiência demonstra a cada nova expedição a solidez de certas velhas concepções. Isso se deve, em zoologia como em etnologia, ao caráter permanente das tendências”. E ele acrescenta, introduzindo um conceito de linha — ou de filum — lembrando o de linhagem tecnológica, assim como a questão da escolha, ou seja, da determinação, já encontrados em Gille:

“Tudo se passa como se um protótipo ideal de peixe ou de sílex talhado se desenvolvesse segundo linhas previsíveis do peixe ao anfíbio, ao réptil, ao mamífero ou à ave, do sílex indiferenciado em sua forma ao cinzel de pedra polida, à faca de cobre, ao sabre de aço. Que não nos enganemos, essas linhas revelam apenas um aspecto da vida, o da escolha inevitável e limitada que o meio propõe à matéria viva.”

Essa aproximação entre os fatos tecnológicos e os fatos zoológicos, entre objeto técnico e ser vivo, é decisiva para as hipóteses que se seguirão. A explicação do fenômeno técnico analisará como um caso particular da zoologia as relações que se estabelecem entre a matéria viva que é o homem e a matéria inerte que é a “matéria-prima” na qual aparecem as formas técnicas. Leroi-Gourhan integra um determinismo quase biológico que não existe em Gille, mas onde, também aqui, as “vias da invenção são estreitas”: “Porque deve escolher entre a água e o ar, entre a natação, a reptação ou a corrida, o ser vivo segue um número limitado de grandes linhas de evolução.” A mesma limitação, o mesmo princípio de moldagem e inscrição do vivo nas condições estabelecidas pela matéria inerte do meio determinará a forma das ferramentas. A textura da madeira impõe as formas das lâminas e os encabamentos, e o determinismo técnico é tão marcado quanto o da zoologia: como Cuvier descobrindo uma mandíbula de gambá num bloco de gesso pôde convidar seus colegas incrédulos a prosseguir com ele o desmonte do esqueleto e lhes predizer a revelação dos ossos marsupiais, a etnologia pode, até certo ponto, deduzir da forma de uma lâmina de ferramenta previsões sobre a do cabo e sobre o uso da ferramenta completa.

A evolução técnica resulta de um acoplamento do homem e da matéria que se trata de elucidar e a sistematicidade técnica se enraíza aqui num determinismo “zootecnológico”: pelo próprio caráter zoológico de um dos termos da relação, a saber o homem, o fenômeno deve ser interpretado desde as perspectivas da história da vida, embora os resultados em que consistem os objetos técnicos sejam de matéria inorgânica, pois inerte, ainda que organizada; compreende-se desde então a necessidade de engajar uma reflexão sobre o sentido da organização da matéria em geral em sua relação com o organismo, mas também sobre o que se chama órgão, quer designe a parte do organismo ou o órganon enquanto instrumento técnico. A investigação procederá por analogia com os métodos da zoologia — permanecendo toda a questão de saber até onde vai essa analogia.


** Tendência técnica **

É para “distinguir essa propriedade toda especial da Evolução que torna de certo modo previsíveis as consequências da ação 'meio exterior-meio interior'” que Leroi-Gourhan assume “o termo filosófico de 'tendência'” onde vê “um movimento, no meio interior, de apropriação progressiva do meio exterior”. Esse movimento de apropriação, muito próximo do que condiciona a morfogênese dos organismos em seus meios, exclui qualquer possibilidade de classificação a priori das tendências: ele só aparece através dos fatos, e as tendências “só se tornam explícitas em sua materialização, deixando então de ser propriamente tendências. É por isso que confundimos a tendência particular e o primeiro grau do fato” - o que significa também que, como veremos em Simondon, a forma não precede a matéria, e que é preciso inscrever em outra categorização o processo de individuação que constitui a evolução técnica como diferenciação. Mas em Simondon, o objeto técnico industrial concretiza em si mesmo, sem intervenção de um meio interior, essa dinâmica, que tende então para uma perfeição tecnológica por integração e sobredeterminação de funções, e implica um novo conceito de meio: o meio associado. O meio interior está ausente porque, o objeto técnico tendo se tornado industrial, houve diluição do meio interior no meio exterior - o meio em geral não constituindo mais, com isso, uma exterioridade.

Em Leroi-Gourhan, a tendência procede ao contrário do encontro de duas fontes, respectivamente intencional e física, e provenientes dos meios interior e exterior (o limite do raciocínio consistindo no esquecimento aparente da especificidade da era industrial). O encontro dos dois meios é o acoplamento do homem enquanto ser social à matéria enquanto sistema geográfico, comparável com o acoplamento estrutural do vivo e de seu ecossistema. A relação do meio interior com o meio exterior, expressão do acoplamento do homem à matéria levado à escala do grupo, deve ser interpretada como seleção das melhores soluções possíveis, onde a tendência, que é seu critério tanto quanto seu motor, repousa “por um lado”, o dos critérios, sobre as próprias leis do universo. Esse aspecto da tendência fornece o conceito de convergência técnica:

“Cada ferramenta, cada arma, cada objeto em geral, da cesta à casa, responde a um plano de equilíbrio arquitetônico cujas grandes linhas oferecem suporte às leis da geometria ou da mecânica racional. Há portanto todo um lado da tendência técnica que se liga à construção do próprio universo e é tão normal que os telhados sejam de duas águas, os machados empunhados, as flechas equilibradas a um terço de seu comprimento quanto é normal para os gastrópodes de todos os tempos terem uma concha enrolada em espiral. […] Ao lado da convergência biológica, existe uma convergência técnica, que oferece desde os primórdios da Etnologia parte da refutação das teorias de contato.”

O conceito de meio associado que encontraremos em Simondon constitui uma complicação dessa hipótese: há transformação do universo pela tendência técnica. As dificuldades ecológicas que caracterizam nossa época técnica só podem fazer sentido desse ponto de vista: um novo meio emerge, tecno-físico e tecno-cultural, cujas leis de equilíbrio não são mais dadas. A convergência é criadora de realidade e de valores novos - mas pode-se também imaginar que ela engendre ao mesmo tempo formas desconhecidas de divergência.

Aqui, a tendência é um duplo movimento pelo qual meio interior e meio exterior aderem, em condições diversas, submetidas por exemplo ao que Leroi-Gourhan chama tendência restrita, ou ainda obstáculo à tendência, fenômenos locais pelos quais ela se traduz em fatos diversos, onde a singularidade dos lugares resiste à universalidade da tendência.

O outro aspecto da tendência, motor, provém do meio interior: as pedras não se erguem espontaneamente em muros, e o determinismo certo da tendência não é decididamente um mecanismo. Proveniente de uma enigmática intenção do meio interior, ela se difrata em uma diversidade de fatos como um raio luminoso passando através de um meio aquoso quando é refletido pelo meio exterior, e nesse sentido o determinismo permanece “frouxo”, e a racionalidade não menos enigmaticamente “difusa”. Há uma “intencionalidade tecnológica” que “difrata” através de uma opacidade relativa a uma localidade que não é apenas física, mas igualmente humana:

“A tendência é própria do meio interior, não pode haver tendência do meio exterior: o vento não propõe à casa um telhado determinado, é o homem que tende a dar ao seu telhado o perfil mais favorável. […] O meio exterior se comporta como um corpo absolutamente inerte contra o qual a tendência vem se quebrar: é no ponto de choque que se encontra o testemunho material. […] A tendência que, por sua natureza universal, está carregada de todas as possibilidades expressáveis em leis gerais, atravessa o meio interior, banhado pelas tradições mentais de cada grupo humano; ela aí adquire propriedades particulares, como um raio luminoso adquire ao atravessar corpos diferentes propriedades diversas, encontra o meio exterior que oferece a essas propriedades adquiridas uma penetração irregular, e no ponto de contato entre o meio interior e o meio exterior se materializa essa película de objetos que constituem o mobiliário dos homens.”

É como agente da intenção e corretor da difração que se constitui um subconjunto do meio interior: o meio técnico.

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