Hume
STIEGLER, Bernard. La technique et le temps. La faute d’Épiméthée. Paris: Galilée, 1994.
Obviamente, não queremos dizer que a filosofia empirista de Hume seja, no fundo, transcendental, mas sim filosófica no sentido de que busca princípios e de que, por meio de seu conceito de experiência, visa uma constituição — razão pela qual Husserl poderá se inspirar em Hume. O sujeito humiano “que inventa e que acredita se constitui no dado de tal forma que faz do próprio dado uma síntese, um sistema. […] No problema assim colocado, encontramos a essência absoluta do empirismo. Da filosofia em geral, pode-se dizer que ela sempre buscou um plano de análise, a partir do qual se possa empreender e conduzir o exame das estruturas da consciência, ou seja, a crítica, e justificar o todo da experiência. É, portanto, uma diferença de plano que opõe, em primeiro lugar, as filosofias críticas. Fazemos uma crítica transcendental quando, situando-nos em um plano metodologicamente reduzido que nos proporciona, então, uma certeza essencial, uma certeza de essência, perguntamos: como pode haver o dado, como algo pode se dar a um sujeito, como o sujeito pode se dar algo? Aqui, a exigência crítica é a de uma lógica construtiva que encontra seu modelo na matemática. A crítica é empírica quando, colocando-se em um ponto de vista puramente imanente — do qual é possível, ao contrário, uma descrição que encontra sua regra em hipóteses determináveis e seu modelo na física —, nos perguntamos a respeito do sujeito: como ele se constitui no dado? A construção deste dá lugar à constituição daquele. O dado não é mais dado a um sujeito; o sujeito se constitui no dado. O mérito de Hume é ter isolado esse problema em seu estado puro, mantendo-o afastado do transcendental, mas também do psicológico. » (Gilles Deleuze, Empirismo e subjetividade. Ensaio sobre a natureza humana segundo Hume, PUF, coleção “Épiméthée”, 1953, p. 92.) O pensamento humiano seria, assim, a primeira antropologia não sofística.
