Já Aí
** 1. A condição instrumental **
1. Decidir sobre dikè e aidôs na herméneia significa suportar sua questão, e não decidi-la arbitrariamente, situando-se os mortais elementarmente num problema onde ser é estar na questão do destino como não-predestinação.
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Na conferência “O Conceito de Tempo” (1924), a hermenêutica fenomenológica do Dasein (Dasein) toma como tema a articulação entre o quem e o quê na figura do relógio, articulação que a analítica existencial acabará eliminando ao ignorar o sentido epimeteico de toda hermenêutica.
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A faticidade (Faktizität) do Dasein (Dasein), tida por constitutiva, jamais recebe caráter constitutivo efetivo em sua vertente protética, manifestando-se sempre apenas como destituição da origem, o que expulsa a escrita da inauguração da história do ser.
2. Busca-se mostrar uma constituição tecno-lógica, e não ctônica, da reflexividade epocal, sendo a oposição platônica a Protágoras constitutiva da filosofia em torno de uma questão da técnica especificada na escrita.
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A escrita, máquina de linguagem produtora de síntese, abre também o espaço da publicidade política e da temporalidade histórica onde se define o logos como razão distinta do ainda não racional.
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Apesar dos deslocamentos sucessivos operados por Heidegger, sua análise da técnica permanece inscrita na oposição tradicional entre logos e tekhnè, criticando a instrumentalização da linguagem sem questionar que o instrumento como instrumento seja um meio.
3. Não se trata de isolar uma não-instrumentalidade da língua ou dos idiomas — ela não existe —, mas de interrogar os modos de ser da instrumentalidade enquanto tal, condição tanto de diferenciação idiomática quanto de indiferenciação massiva.
** 2. Epimathesis: a tradição **
4. A questão do idioma e a oposição logos/tekhnè dominam a obra heideggeriana desde “O Conceito de Tempo” até “Tempo e ser”, através dos temas recorrentes da herança da tradição e do cálculo da técnica moderna.
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A fatalidade da herança é o sentido profundo da figura de Epimeteu: como acúmulo de faltas e esquecimentos, legado e transmissão sob forma de saber ao mesmo tempo reflexivo e esquecido, a epimétheia dá também o sentido da tradição.
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O prefixo epi- porta o caráter da acidentalidade, do factício do que se passou, sendo epimétheia herança, e herança sempre epimathesis, fiel à historicidade tradicional que constitui traço existencial do Dasein (Dasein) lançado (geworfen) em seu já-aí.
5. A traditionalidade epimeteica origina-se na tecnicidade, colocando a questão de saber se a diferença étnica é co-originária da diferença técnica ou apenas modalidade de uma diferença idiomática essencialmente desterritorializável.
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A referência a Prometeu no Discurso de Reitorado e sua ausência na Introdução à Metafísica, dominada pela figura de Antígona, assinalam a continuidade desse esquecimento ao longo da meditação heideggeriana, inclusive na “aventura política”.
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Contesta-se a leitura de Jacques Rolland e de Marlène Zarader, que confundem a questão da técnica com a do cálculo e leem equivocadamente a decadência (Verfallenheit) como propriedade ôntica má e superável, quando o parágrafo 38 de Ser e Tempo explicitamente o nega.
6. Hubert Dreyfus tem razão, mais do que crê, ao ver em Ser e Tempo uma fenomenologia “tecnicista”, ainda que Heidegger permaneça ambíguo, situando-se não numa oposição entre afrontar e promover a técnica, mas na tarefa de “abrir-se a ela”.
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A questão do já-aí protético, que atravessa invenção (Gille, Leroi-Gourhan), temporalidade operante (Simondon), “alcance da mão” (Rousseau), memória e tradição (Leroi-Gourhan) e mortalidade (mito de Prometeu), domina a historicidade (Geschichtlichkeit) do Dasein (Dasein), que “é seu passado”.
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Este capítulo lerá “O Conceito de Tempo” à luz do início da segunda seção de Ser e Tempo sobre o ser-para-o-fim; o capítulo seguinte tratará da analítica da cotidianidade e do já-aí; e os últimos, da constituição da historicidade.
** 3. A unidade do saber e o peso do quê à-mão **
7. A leitura de “O Conceito de Tempo” conduz não apenas à questão do tempo fenomenológico distinto do tempo cósmico, mas à hipótese de um tempo tecnológico (tempo do quê) constitutivo da temporalidade do quem.
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A questão do saber, onipresente na obra heideggeriana como saber da diferença ontológica, é aqui posta em relação às formas propriamente tecnológicas de registro dos saberes, questão urgente na atualidade das tecnologias de conservação e transmissão.
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O texto de 1924 privilegia-se por apresentar a diferença constitutiva do saber em seu despojamento exemplar como articulação entre um quem (o Dasein, aqui “agora”) e um quê (o relógio), retomada no parágrafo 83 de Ser e Tempo quanto ao peso do quê.
** 4. Fixar duravelmente o agora **
8. O ente à mão do quem que interroga o tempo é o relógio: pensar o tempo a partir do tempo é, primeiro, pensá-lo a partir do relógio, que reconduz a compreensão vigente em física quanto à revelação do tempo.
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O relógio mede o tempo remetendo a duração de um evento a uma série idêntica de estados numericamente determinados, funcionando apenas para um Dasein (Dasein) que remarca o retorno do ciclo, inscrito no dispositivo calendárico e mnemotécnico geral.
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A determinação elementar do relógio não é a indicação da duração, mas o fixar duravelmente o agora, questão que ecoa a interrogação agostiniana e conduz Heidegger à tese de que o tempo é o Dasein (Dasein).
** 5. Programas e improvável **
9. O Dasein (Dasein) é: ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), ser-com-outro, preocupação e cuidado (Sorge), banalidade, e pré-compreensão de si a partir da tradição, que marca seu traço propriamente pro-gramático.
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A dificuldade de apreender o ser-aí reside em sua “perpetuidade” (Jeweiligkeit), sendo o ser-meu ser na mortalidade: a finitude é a infinitude do finito, que só se cumpre não se cumprindo, diferindo-se.
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Sendo diferante, o Dasein (Dasein) é improvável, isto é, improgramável, o que parece contradizer a possibilidade de uma constituição do quem (improvável) pelo quê (pro-gramático); é a partir da mortalidade como saber que se diz a mineidade, isto é, a idiomaticidade.
** 6. Saber e retraimento **
10. A finitude é uma certeza de caráter iminente e totalmente indeterminada, questão decisiva para saber o que é o tempo e o que é o ser-aí no tempo.
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Esse saber é saber de um não-saber, saber improvável do improvável, incessante como necessidade, saber como antecipação porque “o fenômeno essencial do tempo é o porvir”.
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É aqui, mais que em outro lugar, que Descartes é invertido: o fundo é o sem-fundo, e “o que sei sobre a morte se dá principalmente sob o modo do saber que se retrai” — o retraimento (Entzug) já pensado em 1924 a partir do próprio tempo pensado desde a mortalidade.
11. A improbabilidade é o destino do ser-aí, e o destino é a não-predestinação que exprime o ser-meu, o ter-de-ser, cuja marca é a solidão (Unheimlichkeit) — inquietante estranheza — de uma ipseidade que não tem rigorosamente sua origem em si mesma.
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É a partir da antecipação que se pensa a Eigentlichkeit, a idiotia idiomática, o improvável, que só pode encadear-se após o fato sobre o já-aí de um passado herdado dos efeitos da falha.
** 7. Os relógios em tempo real do Blank Geschlecht **
12. A repetição em que se projeta presentemente o passado como abertura do sido originariamente possível precipita-se na gramática tecnológica dos programas efetivos, questão que comporta imediatamente a da tekhnè.
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Pré-ocupado desde que Zeus ocultou o bios, o homem inventa expedientes que suprem seu defeito de qualidade — a prótese —, e Prometeu, redobrando o esquecimento de Epimeteu, faz ao mortal o presente da tecnicidade constitutiva da mortalidade.
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Essa precipitação da antecipação como epimétheia é um tempo essencialmente diferido; resta saber quais seriam os efeitos de uma dinâmica do quê que curto-circuitasse esse trabalho da différance.
13. O ser-aí, que se dá na antecipação — na différance —, não é dado pelo relógio, mas nele se perde; sua temporalidade é seu porvir, ao passo que o “no future” da geração atual parece negar que possa haver diferença no “tempo real”.
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Tal hipótese não significaria simplesmente que a tekhnè carrega toda a potência de atração do quem em sua decadência, pois é justamente a tekhnè que dá a différance, que dá o tempo — ponto de partida da crítica ao esquecimento heideggeriano da epimétheia.
** 8. Fixação e determinação **
14. Fixar não significa determinar, mas estabelecer; Heidegger identifica simplesmente fixação e determinação ao pejorar o quê do relógio na compreensão preparatória do tempo.
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Querer medir o tempo é querer determinar o indeterminado, fugir diante do fim na preocupação (Besorgen) que empresta determinidade ao ser-para-a-morte cotidiano por meio da medida.
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Questiona-se se a medida não seria antes possibilidade de apagamento de um tempo originado no gramma como tal e em geral — da gramática ao fotograma, ao programa —, condição inicial de toda temporalização, como sugere o relato de Sólon no Timeu sobre a escrita egípcia.
** 9. On s'individue **
15. O Génitron erguido em 1987 no Centro Pompidou, contando regressivamente os segundos até o ano 2000, ilustra o cálculo da morte improvável apresentando o tempo ao fugir dele.
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Explicitando essa perda essencial do tempo, Heidegger descreve a fuga diante do sido sob o título de Gegenwart (atualidade presente), ao que corresponderiam hoje o “tempo real”, o “ao vivo” e a democracia por sondagem instantânea.
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É o cálculo, implicado em todo relógio e toda escrita, que dá a possibilidade de fixar duravelmente, abrindo ao “como tal”, à diferença, ao tempo diferido, ao passo que a tradição do “on” (impessoal) dirige o ser-aí cotidiano pela moda e pela corrente.
16. A historicidade (Geschichtlichkeit) está aqui em questão, contendo a individuação, ela mesma constituída na repetição: o passado só se abre a um presente que é ele mesmo historicamente esse presente, sendo o modo desse retorno a consciência (Gewissen).
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Quatro teses articulam-se: o ser da temporalidade é realidade não idêntica; o tempo, como ser-aí que é seu já-aí, é o verdadeiro princípio de individuação; ele o é como ser-para-o-porvir da antecipação; e essa individuação é, ao mesmo tempo, pertença a uma comunidade — a dos mortais.
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Afirma-se que é uma forma de escrita, linear e fonológica, a síntese literal, que dá abertura à história do ser, distinta da mera historicidade que sempre pertence ao Dasein (Dasein).
** 10. O tempo diferido da história do ser **
17. O Dasein (Dasein) é o ente que difere em duplo sentido: o que remete sempre a mais tarde, projetado no diferimento, e o que, por isso mesmo, se encontra originariamente diferente, indeterminado, improvável.
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Antecipar significa sempre diferir; o Dasein (Dasein) sabe absolutamente seu fim, mas nunca o conhecerá, sendo esse saber da finitude o que sempre se retrai ao se diferir — daí o tempo ser essencialmente um tempo diferido.
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Ter-de-ser significa também estar-na-facticidade, que preferimos chamar, segundo o mito de Prometeu, estar-na-proteticidade: o passado do Dasein (Dasein) lhe é necessariamente exterior, e ele só pode sê-lo diferindo-o nos dois sentidos do termo.
18. O Dasein (Dasein), o quem, está em falta de ser — Heidegger diz: ele está em falta, o Dasein (Dasein) é ser-em-falta —, o que conduz à questão da história do ser como história de um esquecimento, inaugurada em Ser e Tempo e retomada em “Tempo e ser”.
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A tradição, ao impor sua supremacia, recobre em vez de tornar acessível o que transmite, desenraizando o Dasein (Dasein) de sua historicidade, ao passo que a época sem historiografia é historial mas ainda não é o historial como história do ser.
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O Dasein (Dasein), ek-stático e temporal, só experimenta sua mortalidade proteticamente, e seu acesso ao passado, como a antecipação mesma, é igualmente protético — condição que a différance revela ao mesmo tempo em que a oculta como cálculo, medida ou determinação.
19. A escrita linear e fonológica é uma epoché programática: suspende as formas de uma tradição também programática, mas não aparente como tal, programando nova duração do passado, da antecipação e do presente como presença.
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Nessa duração, o leitor produz-se como différance ao identificar o texto lido à letra, exatamente porque orto-graficamente, revelando a contextualidade elementar de sua leitura — a escrita ex-põe a différance ao mesmo tempo em que a oculta.
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A pro-tese, “posta-diante”, é o ser-já-aí do mundo e do passado; prométheia e epimétheia tramam juntas o saber pro-posto e tecno-lógico que é a temporalização na antecipação do indeterminado, sendo tekhnè, logos e herméneia, juntos, o horizonte de toda antecipação.
20. Ignorando o sentido trágico da figura do esquecimento, Heidegger situa o princípio de individuação à margem da publicidade do “on”, quando na verdade o dom da différance é tecnológico porque o indivíduo se constitui a partir das possibilidades do “on”.
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“On s'individue” antes que o indivíduo decaia na publicidade e na tagarelice do “on”, e a “temporalidade autêntica” chega sempre tarde demais — sempre já “inautêntica”, factícia: tal é a epimétheia; nenhuma mortalidade é originariamente absolutamente só, senão só com os outros.
** 11. O preço do ser **
21. Toda essa questão se concentrará, no capítulo seguinte, no “sentido de ser” que Ser e Tempo concede ao chamado mundo-historial, isto é, ao rastro dos quem que foram — ferramenta, obra, monumento e instituição têm sua história.
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O mundo-historial (weltgeschichtlich) não é simples resultado deixado atrás pelo quem temporalizante sob forma de traços: ele o constitui em sua temporalidade própria, sempre epocal, isto é, imprópria ou insuficientemente própria (a-vir).
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A escrita ortográfica, gramma que torna possível o cálculo, é o registro do que se passou tal que também torna possível certo tipo de acesso do quem a si mesmo através do espelho de um quê — contextualização que, longe de univocar o sido, abre suas possibilidades de variação indefinida, preço a pagar do redobramento epocal.
