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| + | ====== III. A Informatização | ||
| + | //Pensando a “questão da informática” com M. Heidegger// | ||
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| + | //Murilo Cardoso de Castro. Tese de Doutorado, UFRJ 2005.// | ||
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| + | A apelidada “Era da Informação” assenta-se sobre o pressuposto de um processo aparentemente inexorável, | ||
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| + | Embora a informática tenha surgido no cenário científico-tecnológico, | ||
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| + | <WRAP center round box 70%> | ||
| + | Em nossas peregrinações de ser, não ser e vir a ser, sentimos, a cada passo, uma diferença entre realidade e realização. Não se trata de fato entre fatos, nem de coisa entre coisas, seja dada, feita ou pronta, seja deste ou de outro mundo. Trata-se da estranheza constitutiva e do desafio próprio da existência histórica dos homens. A realidade é sub-reptícia. Sua vigência nunca é direta. Seu impacto é sempre oblíquo. A realidade se dá, como realização, | ||
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| + | A tecnologia da informação “reflete e recolhe”, pelo retirar-se do ser humano enquanto seu periférico operativo, no dar-se e propor-se da informática, | ||
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| + | As três causas (// | ||
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| + | Esse processo de informatização é de tal modo abrangente e profundo que é capaz de fazer prevalecer em sua esteira, um //meio//, um mundo circundante reduzido à realidade do engenho de representação e o que ali se reflete. Na feliz expressão do geógrafo Milton Santos (1995), um // | ||
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| + | Neste meio emergem e proliferam de maneira dominante, outras dis-posições e dis-positivos correlatos que dão abrigo e fazem circular entre si fantasmas informacionais-comunicacionais. Estes são como cópias ou mímesis virtuais dos entes intramundanos, | ||
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| + | Justamente por emergir desse meio humano, a tecnologia da informação, | ||
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| + | A aplicação indiscriminada da informática, | ||
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| + | Com efeito, esses fantasmas informacionais uma vez capturados no formato digital das tecnologias da informação e da comunicação, | ||
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| + | Apreendidos assim em bases de dados, pela malha cada vez mais fina de sistemas classificatórios distintos e processos sofisticados de digitalização, | ||
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| + | > Cada vez mais circulamos em circuitos integrados de larga escala. O silício, que hoje nos ameaça, é de silício. O desafio, que hoje nos atinge, provém de uma autocracia informacional. A informática se torna um rolo compressor. Em seu tropel a sociedade rola de alto a baixo. Tudo se processa. Por toda a parte opera um micro. Nenhuma força de tradição parece poder resistir à atropelada da computação. As novas gerações de computadores prometem interface para tudo. Aumenta sem cessar o número de periféricos. Pois o grande periférico visado é o homem que espera o inesperado. Pois neste caso nada poderá fugir a informatização. (CARNEIRO LEÃO, 1992, p. 93) | ||
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| + | A atual pujança dessa informatização, | ||
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| + | Sob essa manifestação mais visível da informática, | ||
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| + | Para o Pensamento, informatizar não é o verbo que designa os fatos e feitos da informática. Não nos remete apenas para o funcionamento de ferramentas e aparelhos, não se refere a dispositivos de processamento ou a instalações de computação, | ||
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| + | A informatização é uma dessas ideias-mentoras da Modernidade que configura assim um dos principais processos que são sustentados e que, ao mesmo tempo, sustentam o //meio técnico-científico-informacional// | ||
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| + | A unidade // | ||
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| + | Com a dominação absoluta da técnica moderna cresce o poder - tanto a exigência como a eficácia - da língua técnica adaptada para cobrir a latitude de informações mais vasta possível. É porque se desenvolve em sistemas de mensagens e de sinalizações formais que a língua técnica é a agressão mais violenta e mais perigosa contra o carácter próprio da língua, o dizer como mostrar e fazer aparecer o presente e o ausente, a realidade no sentido mais lato. | ||
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| + | Mas porquanto a relação do homem, tanto quanto ao ente que o rodeia e o sustenta como ao ente que é ele próprio, repousa sobre o fazer aparecer, sobre o dizer falado e não falado, a agressão da língua técnica sobre o carácter próprio da língua é ao mesmo tempo uma ameaça contra a essência mais própria do homem. | ||
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| + | Se, avançando no sentido da dominação da técnica que determina tudo, temos a informação pela forma mais alta da língua por causa da sua univocidade, | ||
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| + | No horizonte de representação da língua, seguindo a teoria da informação, | ||
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| + | Uma máquina executa o processo técnico de retroacção, | ||
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| + | No entanto, também a teoria da informação vai, necessariamente, | ||
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| + | Pelo processo de informatização, | ||
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| + | A informatização pretende assim ser a realização do real pelo virtual. O virtual realiza o real, no sentido de “tornar real” o real. Uma incongruência que, cada vez mais, faz sentido para um contingente crescente da humanidade conectada como periférico de tecnologias da informação, | ||
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| + | Decerto, realizar e informatizar não são a mesma palavra. Mas se não são a mesma palavra, em todas as comunidades linguísticas em uso, pertencem à mesma língua de origem e dizem a mesma coisa, a saber: a transformação do real numa forma controlada de poder. Informatizar é um neologismo derivado de informática para designar toda uma ordem de real, realização e realidade, instaurada pelo processamento micro-eletrônico das informações. Com os recursos denotativos e conotativos da adjetivação, | ||
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| + | Esse discurso digital, promovido pela informatização, | ||
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| + | Contestando a visão comum de que a informática promove uma perda de materialidade das coisas, Lévy prefere reabilitar, a seu modo, o conceito aristotélico e escolástico, | ||
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| + | Lévy define o virtual, em oposição ao “atual”, | ||
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| + | Para ele, a informática permite repotencializar a realidade, elevando-a a sua virtualidade, | ||
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| + | Questão difícil e delicada, mas que parece indicar a urgência de se criticar a informatização. A Filosofia, e em especial a Filosofia da Técnica, precisam reconhecer este movimento //sui generis// da informatização, | ||
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| + | > Na operação dos chips aparece com toda a clareza desejável a oposição dos discursos técnico-científicos e dos percursos científico-técnicos a todos os demais discursos e percursos possíveis. A Essência técnica do conhecimento científico surge, então, como alavanca de Arquimedes, que desloca e empurra história abaixo a avalanche da informática. A técnica já não pode ser entendida como resultado de aplicação da ciência. Ao contrário, a ciência é que nasce estruturalmente, | ||
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| + | A informatização contemporânea orienta-se segundo três referências teóricas que chegaram à maturidade por volta das décadas de 30 e 40 deste século. A primeira foi a de linguagem ou sistema formal. Noção central da lógica matemática, | ||
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| + | Um sistema formal é uma espécie de jogo de construção compreendendo diferentes categorias de peças. Por um lado estas peças se reúnem segundo regras relativas a sua forma. Por outro, cada peça é um símbolo, isto é, guarda certo sentido. E o jogo é concebido de modo que, quando peças são reunidas em virtude de sua forma, elas constituem um símbolo composto, que guarda um sentido que justamente resulta da combinação apropriada dos sentidos de seus componentes. Assim sendo, um sistema formal funciona segundo dois níveis, o da forma (nível sintático) e o do sentido (nível semântico), | ||
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| + | Formalizar a razão e a memória humanas comprometidas com atos e fatos não é apenas “ficcionar a facticidade: | ||
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| + | > É ficcionar a transcendência, | ||
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| + | A segunda referência teórica é a teoria da informação. A teoria matemática que Claude Shannon expõe em 1948, apoiando-se sobre ideias que já circulavam há uns vinte anos, formaliza um dualismo, o significado e seu suporte material, rompendo com a estrutura clássica de forma-matéria. Seu objetivo é dar uma solução matemática e estatística à transmissão ou comunicação de mensagens por canais imperfeitos, | ||
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| + | Os modernos suportes ou mídias da informação acentuam este movimento, que da escritura ideográfica à escritura alfabética, | ||
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| + | A escolha fundamental da informatização, | ||
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| + | <WRAP center round box 70%> | ||
| + | Na [[lx> | ||
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| + | A terceira referência é a máquina universal de Turing. Trata-se de um gênero abstrato do computador digital, que em um processo de informatização se apresenta sob quatro aspectos essenciais: como máquina, isto é, objeto potencialmente material, e obedecendo enquanto tal apenas às leis da física; como autômato, pois se posto em movimento, percorre seu percurso sem intervenção exterior; como operador sobre símbolos de um cálculo. | ||
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| + | Mais adiante essas referências serão retomadas e devidamente apreciadas. | ||
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