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| + | ====== Filosofia da Tecnologia ====== | ||
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| + | === O que é a Filosofia da Tecnologia? === | ||
| + | Conferência pronunciada para os estudantes universitários de Komaba, junho, 2003, sob o título de “What is Philosophy of Technology? | ||
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| + | 1. A filosofia da tecnologia constitui o tema central, a ser abordado primeiro numa perspectiva histórica e, em seguida, através das opções contemporâneas em disputa no campo teórico. | ||
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| + | 2. A filosofia da ciência ocupa-se de questões epistemológicas relativas à verdade e à validade das teorias, enquanto a tecnologia, partilhando do mesmo pensamento racional baseado na observação empírica, volta-se não para o saber, mas para a utilidade e o controle. | ||
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| + | 3. As sociedades tradicionais organizam-se por costumes e mitos inquestionáveis, | ||
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| + | 4. Essa cultura tecnocientífica, | ||
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| + | 5. O Japão apresenta-se como local particularmente apropriado para essa reflexão, ainda pouco desenvolvida ali, pois sua rápida modernização desde a era Meiji colocou em confronto imediato os modos tradicionais e as novas maneiras importadas do Ocidente, oferecendo talvez um ponto de vista arquimediano privilegiado para pensar a tecnologia. | ||
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| + | 6. A origem da pergunta pela tecnologia remonta à Grécia antiga, onde a filosofia se constituiu a partir do fato fundamental de que o ser humano transforma constantemente a natureza através do trabalho. | ||
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| + | 7. A primeira distinção fundamental grega opõe physis, a natureza que se cria a si mesma, a poiesis, a atividade humana de fazer artefatos, sendo techne o conhecimento associado a cada forma específica de produção, contendo objetivamente tanto o propósito quanto o significado correto do que é feito. | ||
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| + | 8. A segunda distinção fundamental separa existência, | ||
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| + | 9. A relação entre essas duas distinções revela-se enigmática, | ||
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| + | 10. Na poiesis, a distinção entre existência e essência é evidente, já que a ideia do artefato precede sua fabricação e pertence objetivamente a uma techne, sendo o propósito da coisa parte integrante dessa ideia independente do fabricante. | ||
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| + | 11. Para as coisas naturais, ao contrário, essência e existência emergem simultaneamente, | ||
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| + | 12. Platão estendeu a estrutura da techne a todos os seres através de sua teoria das ideias, aplicando aos artefatos e à própria natureza a mesma divisão entre existência e essência, o que eliminou qualquer descontinuidade radical entre fabricação técnica e autoprodução natural. | ||
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| + | 13. Essa concepção teleológica da natureza, na qual as coisas naturais possuem propósito assim como os artefatos, implica uma compreensão do ser humano não como senhor da natureza, mas como colaborador na realização de um mundo dotado de significado. | ||
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| + | 14. Pode-se afirmar provocativamente que a filosofia da tecnologia começa com os gregos e constitui o próprio fundamento de toda a filosofia ocidental, sendo irônico que a tecnologia, hoje pouco valorizada na alta cultura, tenha estado desde sempre na origem dessa cultura. | ||
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| + | 15. Descartes e Bacon inauguram a modernidade prometendo o domínio da natureza através da ciência, compartilhando com os gregos as distinções fundamentais, | ||
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| + | 16. Essa nova ontologia, evidente na visão mecanicista de Galileu e Newton, manteve a tecnologia como modelo do ser, ainda que a estrutura grega subjacente tenha sobrevivido à derrota de seus princípios originais. | ||
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| + | 17. No contexto moderno, a tecnologia deixa de realizar propósitos inscritos na natureza e torna-se puramente instrumental e isenta de valores, servindo apenas a metas subjetivas e independentes dos meios, como ilustra a fórmula segundo a qual armas não matam pessoas. | ||
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| + | 18. Nessa filosofia instrumentalista, | ||
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| + | 19. Sem uma essência que oriente os fins da sociedade, instala-se uma crise civilizacional na qual se sabe como chegar a algum lugar sem saber por quê ou para onde, alienação que se tornou inegável diante das guerras mundiais, dos campos de concentração e das catástrofes ambientais do século vinte. | ||
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| + | 20. A tecnologia pode ser situada num esquema de dois eixos que cruzam a neutralidade ou carga valorativa com o controle humano ou a autonomia, gerando quatro posições teóricas: instrumentalismo, | ||
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| + | 21. O instrumentalismo, | ||
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| + | 22. O determinismo, | ||
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| + | 23. A experiência japonesa do "wakon yosai", | ||
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| + | 24. O substantivismo atribui à tecnologia valores substantivos, | ||
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| + | 25. Mesmo o dinheiro, aparentemente neutro, revela ao exame mais atento possuir valor substantivo próprio, corrompendo aqueles que nele fundam integralmente sua existência, | ||
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| + | 26. Embora próximo do determinismo, | ||
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| + | 27. Martin Heidegger, o maior teórico substantivista, | ||
| + | * essa condição manifesta-se na disciplina crescente do corpo e da vida cotidiana através de manuais e regulações funcionais que fazem de cada indivíduo sua própria máquina | ||
| + | * Heidegger reconhecia que, embora controlemos o mundo pela tecnologia, não controlamos nossa própria obsessão pelo controle, restando apenas o mistério inacessível daquilo que está por trás dela, expresso em sua célebre afirmação de que só um Deus poderia nos salvar | ||
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| + | 28. A teoria crítica da tecnologia, posição assumida pelo próprio autor, sustenta que os seres humanos não precisam esperar um Deus salvador, pois o problema não reside na tecnologia em si, mas na ausência até agora de instituições apropriadas capazes de submetê-la a um controle democrático. | ||
| + | * o paralelo histórico com a economia, antes considerada autônoma e hoje passível de intervenção democrática, | ||
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| + | 29. A teoria crítica compartilha do instrumentalismo a crença na possibilidade de controle humano e do substantivismo o reconhecimento de que a tecnologia é carregada de valores, superando o paradoxo aparente ao afirmar que esses valores são socialmente específicos e não redutíveis a abstrações universais como eficiência ou poder. | ||
| + | * a metáfora da moldura ilustra como a eficiência delimita as possibilidades técnicas sem determinar os valores específicos realizados dentro desses limites | ||
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| + | 30. Reconhecer que a tecnologia não é neutra implica admitir diferenças ética e socialmente significativas entre usos distintos, como entre armas eficientes e remédios eficientes, negligenciadas por pensadores como Heidegger, ao mesmo tempo em que se recusa o instrumentalismo ingênuo segundo o qual armas e pessoas seriam realidades independentes. | ||
| + | * essas escolhas configuram meta-escolhas situadas num nível mais elevado que o meramente instrumental, | ||
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| + | 31. A extensão democrática ao domínio técnico não pressupõe eleições diretas sobre dispositivos específicos, | ||
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| + | 32. Diante da alternativa entre essa esperança de maior participação democrática nas decisões técnicas e a certeza de destruição das demais alternativas, | ||
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