pensadores:leroi-gourhan:audiovisual
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| + | ====== Para além da escrita ====== | ||
| + | //A. Leroi-Gourhan, | ||
| + | ** Para além da escrita: os perigos e as promessas da linguagem audiovisual ** | ||
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| + | Curiosamente, | ||
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| + | O total enfeudamento da actividade mental ao desenvolvimento linear da escrita representa para o homo sapiens uma promessa só realizável por uma minoria de aptidões específicas; | ||
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| + | Assaz curiosamente, | ||
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| + | A escrita alfabética conserva, no pensamento, um certo nível de simbolismo pessoal. Com efeito, na escrita, a visão conduz a uma reconstrução do som que se mantém individual, e numa margem reduzida mas segura, a uma interpretação pessoal da matéria fonética. Mais ainda, as imagens desencadeadas pela leitura mantêm a imaginação do leitor, propriedade de riqueza variável. Mudando de plano, substituindo os símbolos ideográficos por letras, o alfabeto não abole todas as possibilidades de recriação. Por outras palavras, se a escrita alfabética satisfaz as necessidades da memória social, conserva no indivíduo o benefício do esforço de interpretação que a mesma exige. | ||
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| + | Podemos interrogar-nos se a escrita não está já condenada, apesar da importância crescente da matéria impressa actualmente. Em meio século, o registo sonoro, o cinema e a televisão intervieram no prolongamento da trajectória que tem a sua origem antes do Aurignacense. | ||
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| + | A situação que se tende a estabelecer representaria assim um aperfeiçoamento, | ||
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| + | A linguagem audiovisual tende a concentrar a elaboração total das imagens nos cérebros de uma minoria de especialistas que transmitem aos indivíduos matéria totalmente figurada. O criador de imagens, pintor, poeta ou narrador técnico, sempre constituiu, mesmo no paleolítico, | ||
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| + | O empobrecimento não se verifica nos temas, mas no desaparecimento das variantes de imaginação pessoais. Os temas de literatura popular (ou sabedoria) sempre foram em número muito limitado; não é, portanto, extraordinário ver o mesmo super-homem forte e belo, a mesma mulher fatal, o mesmo colosso mais ou menos estúpido, entre os Sioux e os bisontes, em plena Guerra dos Cem Anos, a bordo de um navio pirata, num ruidoso bólide na perseguição de gangsters, entre dois planetas, numa nave espacial. A repetição incansável do mesmo stock de imagens corresponde a essa fraca imaginação que deixa nos indivíduos o exercício de sentimentos que gravitam em volta da agressividade ou da sexualidade. Não é de duvidar de que as bandas desenhadas traduzem muito melhor a acção que as velhas imagens de Epinal. Nestas últimas, o soco era um símbolo inacabado, o gancho do super-homem, | ||
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