pensadores:milet:ficcoes-calculadas
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| + | ====== Ficções calculadas ====== | ||
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| + | //MILET, Jean-Philippe. L’Absolu Technique. Heidegger et la question de la technique. Paris: Editions Kimé, 2000// | ||
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| + | Há um //ethos//, um mundo da desvinculação? | ||
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| + | Rilke é o poeta, assim como o pensador, do "fazer sem imagem" | ||
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| + | Talvez essa figura emerja na Oitava Elegia, talvez possa ser reconhecida através do " | ||
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| + | > "Com o olhar pleno... vê no Aberto..." | ||
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| + | é simplesmente o animal, a besta, em quem Heidegger quer ver o puro fechamento ontológico? | ||
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| + | Nunca esse Nada sem lugar, esse lugar nenhum: \\ | ||
| + | o Puro, virgem de todo olhar, que se respira \\ | ||
| + | e que se conhece infinitamente, | ||
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| + | Da infinitude, trata-se um pouco mais adiante, ainda a propósito do animal: | ||
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| + | " | ||
| + | é infinito, não retido por nenhum estado, nenhuma circunstância, | ||
| + | puro e semelhante à visão de seu olhar." | ||
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| + | A infinitude do animal não é fechamento ontológico: | ||
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| + | O homem vê o livre, mas "de frente" | ||
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| + | > " | ||
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| + | O olhar consciente se deixa deter pelo que vê, ele se deixa deter por uma posição, mas é para melhor levá-la em seu movimento. Mas o olhar do animal livre não é retido "por nenhum estado, por nenhuma circunstância" | ||
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| + | Dir-se-á, é claro, que é porque o animal é sem mundo: mas há, no animal, um " | ||
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| + | Dir-se-á ainda que esse possível puro, que não se explicita através de nenhuma possibilidade determinada, | ||
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| + | É preciso então voltar ao finito e ao infinito. Dir-se-á que o animal, no sentido de Rilke, escapa à finitude? Mas o animal é levado pelo aberto que o precede, há uma inicialidade do nada. É preciso admitir uma finitude do animal, mas então, o que significa " | ||
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| + | É que, em sua inesgotabilidade, | ||
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| + | Talvez isso possa ser pressentido através do olhar do animal livre, que olha o vazio sem ser, no entanto, um olhar vazio. Esse olhar é infinito por não conceder nenhum poder de atribuição ao estado das circunstâncias. Em seu ímpeto que nada detém, o olhar do animal livre se volta para o divino, para além da morte que ele atravessa de um salto. Se o animal é imortal, não é por durar indefinidamente, | ||
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| + | "Pois bem perto da morte, não se vê mais a morte, mas além, \\ | ||
| + | onde se olha fixamente, com o grande olhar, talvez, do animal." | ||
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| + | Mas morrer não atribui à sua vida nenhuma direção: | ||
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| + | Deus; quando ele avança, ele avança na eternidade, como avançam as fontes." | ||
| + | Não há ser para a morte do animal livre, pois o animal não se projeta segundo uma futuridade que o atribui a um possível determinado de antemão. Mas em que sentido o animal tem seu declínio " | ||
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| + | > "E lá onde nós vemos, nós, o futuro, ele vê tudo e nesse tudo, a si mesmo, e salvo para sempre." | ||
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| + | Isso quer dizer que a oposição entre homem e animal recorta a do tempo e da eternidade? Ver tudo é ter atravessado o Aberto, em uma visão prévia do inicial. Mas essa visão se estende entre o passado de um declínio inicial e a vinda de um Deus. Essa eternidade, portanto, não tem nada de atemporal. No entanto, nela, o futuro não tem nada de uma perspectiva que se apreciaria do ponto de vista do presente. Inversamente, | ||
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| + | Rilke parece reservar a técnica à dimensão da separação — ao homem. Mas a relação da livre animalidade com a técnica, e do homem com a livre animalidade, | ||
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| + | Nós a reordenamos de novo, e caímos sobre nós mesmos e nos quebramos." | ||
| + | Ordem quebrada, dislocada, desarticulada: | ||
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| + | Mas a animalidade não está a salvo da experiência da quebra, exposta que está à vertigem de uma queda infinita. Essa queda é infinita pela ausência de chão, de fundo — essa ausência de chão foi iniciada no impulso da livre animalidade que nada detém. O animal é " | ||
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| + | e lá, tudo era sopro, respiração." | ||
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| + | Por isso o voo do pássaro é marcado apenas por uma meia-segurança: | ||
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| + | "E veja o pássaro, sua meia-segurança, | ||
| + | E qual não é o choque e a comoção naquele que deve voar, impulsionando-se do próprio seio! Diante dele, que pavor, como ele corta o ar, como uma rachadura se forma em uma xícara! Assim fendida pelo rastro do morcego, é a porcelana da noite." | ||
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| + | O voo do pássaro não tem a certeza do impulso que já tomou a medida do espaço que deve transpor para chegar. Mas essa meia-segurança tem o caráter de um saber, o das duas pátrias: é a terra e o céu? É antes o visível e o invisível. O pássaro os une, mas a possibilidade dessa junção deve ser relacionada à figura do Anjo: | ||
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