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| + | ====== Economia budista ====== | ||
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| + | //Publicado primeiramente em Asia: A Handbook, organizado por Guy Wint e editado por Anthony Blond Ltda., Londres, 1966.// | ||
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| + | “Subsistência Correta” é uma das exigências do Nobre Caminho Óctuplo de Buda. É lógico, portanto, que deva existir uma economia budista. | ||
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| + | Países budistas têm muitas vezes declarado que desejam permanecer fiéis à sua herança. Assim, a Birmânia: “A Nova Birmânia não vê conflito entre valores religiosos e progresso econômico. Saúde espiritual e bem-estar material não são inimigos: são aliados naturais.”((The New Burma (Economic and Social Board, Government of the Union of Burma, 1954).)) Ou: “Podemos combinar com sucesso os valores religiosos e espirituais de nossa herança com os benefícios da tecnologia moderna.” (Ibid.) Ou: “Nós, birmaneses, temos um sagrado dever de harmonizar tanto os nossos sonhos quanto os nossos atos com nossa fé. Isto sempre faremos.” (Ibid.) | ||
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| + | De igual maneira, tais países invariavelmente admitem poder afeiçoar seus planos de desenvolvimento econômico de acordo com a Economia moderna, e convocam economistas modernos dos chamados países adiantados para assessorá-los, | ||
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| + | Os próprios economistas, | ||
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| + | Há universal concordância quanto ao trabalho humano ser uma fonte fundamental de riqueza. Ora, o economista moderno foi levado a reputar o trabalho ou “mão-de-obra” como pouco mais de um mal necessário. Sob o ponto de vista do empregador, é, de qualquer forma, uma parcela dos custos, a ser reduzida ao mínimo se não puder ser de todo eliminada, digamos, pela automação. Sob o ponto de vista do trabalhador, | ||
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| + | As consequências destas atitudes, quer na teoria como na prática, são, está claro, de alcance extremamente longo. Se o ideal com relação ao trabalho é livrar-se dele, todo método que “reduz a carga do trabalho” é bom. O método mais poderoso, abaixo da automação, | ||
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| + | O ponto de vista budista considera a função do trabalho como sendo no mínimo tríplice: dar a um homem a oportunidade de utilizar e desenvolver suas faculdades; possibilitá-lo a superar seu egocentrismo unindo-se a outras pessoas em uma tarefa comum; e gerar os produtos e serviços necessários a uma existência digna. Uma vez mais, são infinitas as consequências que decorrem desta concepção. Organizar o trabalho de maneira que se torne desprovido de significado, | ||
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| + | Sob o ponto de vista budista, há pois dois tipos de mecanização que devem ser claramente distinguidos: | ||
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| + | > “Se a natureza do trabalho é adequadamente apreciada e aplicada, ficará na mesma relação com as faculdades superiores que o alimento face ao corpo físico. Ele nutre e vivifica o homem superior e incita-o a produzir o melhor de que é capaz. Dirige sua vontade livre para canais progressistas. Fornece um excelente pano-de-fundo para o homem exibir sua escala de valores e aperfeiçoar sua personalidade.”((Economy of Performance, | ||
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| + | Se um homem não tem oportunidade de arranjar trabalho, fica em posição desesperada, | ||
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| + | Sob um ponto de vista budista, isto corresponde a virar a verdade de cabeça para baixo por considerar-se os bens mais importantes do que pessoas e o consumo mais importante do que a atividade criadora. Significa passar a ênfase do trabalhador para o produto do trabalho, isto é, do humano para o subumano, uma rendição ante as forças do mal. O início mesmo do planejamento econômico budista seria um planejamento para pleno emprego e a finalidade principal disto seria, de fato, emprego para todos que precisem de um emprego “fora”: não seria a maximização do emprego nem da produção. As mulheres, em geral, não precisam dum emprego “fora”, e o emprego em grande escala de mulheres em escritórios ou fábricas seria considerado sinal de grave insucesso econômico. Em particular, deixar mães de filhos pequenos trabalhar em fábricas enquanto as crianças ficam largadas seria tão antieconômico aos olhos dum economista budista quanto empregar um operário especializado como soldado aos olhos dum economista moderno. | ||
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| + | Enquanto o materialista está sobretudo interessado em bens, o budista o está em libertação. Mas o budismo é “O Caminho do Meio” e, assim, de maneira alguma antagoniza o bem-estar físico. Não é a riqueza que atrapalha a libertação, | ||
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| + | Para o economista moderno isto é bastante difícil entender. Ele está acostumado a medir o “padrão-de-vida” pela quantidade de consumo anual, supondo sempre que um homem que consome mais está “em melhor situação” do que outro que consome menos. Um economista budista consideraria este enfoque extremamente irracional: como consumo é simplesmente um meio para o bem-estar humano, a meta deveria ser obter o máximo de bem-estar com o mínimo de consumo. Assim, se a finalidade das roupas é uma certa dose de conforto térmico e uma aparência atraente, a tarefa consiste em atingir esta finalidade com o mínimo esforço possível, isto é, com a menor destruição anual de tecido e com a ajuda de desenhos que acarretem o mínimo possível de esforço. Quanto menos esforço houver, tanto mais tempo e vigor restam para a criatividade artística. Seria altamente antieconômico, | ||
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| + | A Economia moderna, pelo contrário, considera o consumo como sendo o único fim e propósito de toda atividade econômica, tomando como meios os fatores de produção: terra, trabalho e capital. Aquela, em suma, procura maximizar as satisfações humanas pelo modelo ótimo de consumo, enquanto esta tenta maximizar o consumo pelo modelo ótimo de esforço produtivo. É fácil ver que o esforço necessário para sustentar um estilo de vida que visa a atingir o modelo ótimo de consumo propende a ser bem menor do que o necessário para sustentar uma tendência para, consumo máximo. Não devemos ficar surpresos, pois, que a pressão e tensão de viver seja muito inferior, digamos, na Birmânia, do que o é nos Estados Unidos, a despeito do fato da quantidade do maquinaria destinada a poupar mão-de-obra usada naquele país ser uma fração ínfima da usada no outro. | ||
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| + | Simplicidade e não-violência estão evidentemente relacionadas muito de perto. O modelo ótimo de consumo, ocasionando acentuado grau de satisfação humana graças a um índice de consumo relativamente baixo, deixa as pessoas viverem sem grande pressão e tensão, e satisfazerem o primeiro ensinamento budista: “Pare de fazer o mal; tente fazer o bem.” Como os recursos físicos são limitados em toda parte, as pessoas que satisfazem suas necessidades por meio de um modesto uso de recursos têm evidentemente menor probabilidade de fazerem-se concorrência ruinosa do que as que dependem de um índice elevado de uso. As pessoas que vivem em comunidades altamente auto-suficientes, | ||
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| + | Sob o ponto de vista da Economia budista, por esse motivo, a produção com recursos locais para as necessidades locais é o meio mais racional de vida econômica, enquanto a dependência de importações de pontos remotos e a consequente exigência de produzir para exportar para povos desconhecidos e distantes é altamente antieconômica, | ||
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| + | Outra diferença notável entre a Economia moderna e a budista surge a propósito do uso de recursos naturais. Bertrand de Jouvenel, o eminente filósofo político francês, caracterizou o “homem ocidental” em palavras que podem ser tomadas como uma descrição justa do moderno economista: | ||
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| + | > “Ele tende a não computar coisa alguma como dispêndio, exceto o esforço humano; não lhe parece importar quanta matéria mineral desperdiça e, pior ainda, quanta matéria viva destrói. Não parece dar-se conta absolutamente de que toda vida humana depende de um eco-sistema de muitas diferentes formas de vida. | ||
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| + | Como o mundo é governado de cidades onde os homens se acham desligados de qualquer outra forma de vida que não a humana, o sentimento de pertencer a um eco-sistema não é revivido. Isto resulta em um tratamento implacável e imprevidente de coisas das quais em última análise dependemos, tais como a água e as árvores.”((A Philosophy of Indian Economic Development, | ||
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| + | O ensinamento de Buda, pelo contrário, recomenda uma atitude reverente e não-violenta não só para com todos os seres sensíveis como também, com grande destaque, para as árvores. Todo seguidor de Buda deve plantar uma árvore periodicamente e cuidar dela até estar firmemente assentada, e o economista budista pode demonstrar sem esforço que a observação universal desta regra teria como resultado alta taxa de genuíno desenvolvimento econômico independente de qualquer auxílio estrangeiro. Grande parte da decadência econômica do Sudeste da Ásia (assim como de muitas outras partes do mundo) deve-se indiscutivelmente ao insensato e vergonhoso descuido com as árvores. | ||
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| + | A Economia moderna não distingue entre materiais renováveis e não-renováveis, | ||
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| + | Tal como um moderno economista europeu não consideraria uma grande proeza econômica se todos os tesouros da arte europeia fossem vendidos aos Estados Unidos por preços atraentes, também o economista budista insistiria em que uma população cuja vida econômica se baseia em combustíveis não-renováveis estará vivendo parasitariamente do capital em vez do rendimento. Um estilo de vida assim não poderia ter permanência e só poderia ser justificado, | ||
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| + | Este fato, só por si, poderia ser motivo de reflexão até para aquelas pessoas de países budistas que não ligam para os valores religiosos e espirituais de sua herança e desejam ardentemente abraçar o materialismo da moderna Economia o mais depressa possível. Antes de afastarem a Economia budista como nada mais que um sonho nostálgico, | ||
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| + | > “Vemos, pois, que, tal como a sociedade industrial é fundamentalmente instável e sujeita à reversão à existência agrária, também em seu interior as condições que oferecem liberdade individual são instáveis em sua capacidade para evitar as condições que impõem organização rígida e controle totalitário. De fato, quando examinamos todas as dificuldades previsíveis que ameaçam a sobrevivência da civilização industrial, é difícil ver como podem ser compatibilizadas a consecução da estabilidade e a manutenção da liberdade individual.”((The Challenge of Man’s Future, Harrison Brown (The Viking Press, Nova York, 1954.)) | ||
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| + | Ainda que se rejeitasse isto como uma opinião a longo prazo, há a questão imediata de saber se a “modernização”, | ||
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| + | É à luz tanto da experiência imediata quanto das perspectivas a longo prazo que o estudo da Economia budista poderia ser recomendado ainda aos que creem ser o crescimento econômico mais importante do que quaisquer valores espirituais ou religiosos. Pois não se trata de escolher entre “crescimento moderno” e “estagnação tradicional”. É uma questão de saber qual a trilha certa para o desenvolvimento, | ||
